Ubertales – Invocando Charlton Heston contra Fiúza

A cena. Eu na porta do consultório, de pé, com bota e uma bengala, à espera do uber que me trará de volta pra casa. O uber chega pela outra mão da rua, eu grito pra ele retornar até o endereço pedido, onde me encontro. Não só não retorna como estaciona do lado de lá, na esquina da rua, e me espera. Tenho de atravessar e andar de bengala até a esquina (ou vou chamar outro carro e me cobrarão taxa de cancelamento). Entro no automóvel do senhor idoso, que diz: “Desculpe, não vi a senhora lá.” Ah tá. No carro, rola rádio Jovem Pan. Seis horas, momento de “debate”, e alguém grita que Lula Comunista quer a Ditadura do Proletariado. Qual a opinião do candidato sobre o “absurdo” Moraes no TSE? Fala, Fiúza! E Fiúza, em resposta, começa por adular, rolando lero, um jornalista da bancada que acaba de perder o filho. Depois, o de sempre. A caterva dos petistas! Meu celular velho fica sem serviço o tempo inteiro, quarenta minutos. Nada que eu possa ouvir pelo spotify como alternativa caridosa. E a loção do motorista vai me impregnando. Abro a janela inutilmente, em busca de respiro. Fantasio descer ali mesmo, na avenida 23 de Maio do rush, e com minha bengala abrir caminho, feito o Charlton Heston nos Dez Mandamentos. Por que os bolsonaristas não limpam os focinhos?

no uber, o intransponível

Às vezes você se ilude achando que não vai precisar discutir mais certas coisas, de tão ultrapassadas.

Mas é claro que certas coisas continuam intransponíveis.

Pego o uber e o motorista de uns 35 anos, já com um início de calvície, usa um boné maneiro. Somado a seu estado corporal, ele é uma espécie de Chorão do Charlie Brown sem a consciência crítica. Todo ele, pelo contrário, é mais a fúria inconsciente.

Vamos para a Barra Funda, que em certos trechos, mais funda não poderia ser.

– Esses caras espalhados pelo chão me dão uma raiva – o motorista vai dizendo.

– Raiva por quê? – vou perguntando, em lugar de sabiamente interromper a possibilidade de discussão.

– O problema, eu acho, é esse tal de direitos humanos – ele responde.

– Por que direitos humanos seriam um problema?

– Porque essas pessoas que ficam na rua matam inocentes.

– E você acha que sem direitos humanos se faz justiça?

– Não sei. Elas não folgam, ao menos. Eu sei que tem miséria no meio, mas tem também malandragem.

– Malandragem é morar ao relento?

– Malandragem assim, como vi outro dia. O amigo disse pro outro: “Trabalhar pra quê se a gente recebe o dinheiro do Bolsonaro?”

– Quanta ignorância, né amigo?

– Muita!

– Você sabe que o dinheiro não é do Bolsonaro, né? É nosso!

– É nosso, claro!

– E ele nem queria distribuir pros pobres, né? Foi o Congresso que obrigou.

– Isso!

– Então. Que sentido faz pedir o fim dos direitos humanos? Isso é pedir o fim dos nossos direitos. Dos nossos, que não somos ricos. O direito a um julgamento justo. Porque os ricos não vão presos, certo?

– Não vão, é revoltante, o povo não aguenta mais!

– Então. Sem direitos humanos, quem vai decidir sobre nossa vida? Quem vai nos defender? O Bolsonaro?

– Ele é que não!

– Então não vamos pedir o fim dos direitos humanos, tá? É nossa garantia de sobrevivência.

– Mas que me dá uma raiva a senhora não imagina.

– Raiva do povo ou raiva do Bolsonaro? Você precisa escolher.

– Tenho mais raiva do povo. Mas vou pensar, prometo.

e se mudar a rádio?

Começo o dia ainda animada pelo show de ontem. E entro no uber cheia de esperança. O jovem motorista, negro, usa boné e tem um carro bonito, não me pergunte qual, bem limpo. Sorri o tempo todo. Comenta o clima.

– Por isso a gente fica doente, né? Que sol é esse depois do frio de manhã cedo?

– Tem razão – digo. – E aconselho uma coisa: vacine-se contra a gripe. Peguei H1N1 e quase fui… Gripe e antigripal acabaram comigo! Ainda me sinto mal, sabia? Não vale a pena.

Me olha, diz baixo:

– Olha, moça, eu não acredito muito nessa indústria de vacinas…

(Rosane, por que não te maria calas?)

– Melhor você acreditar nessa indústria que naquela farmacêutica pra curar seu sarampo – brinco, na tentativa de lhe devolver toda a boa educação que teve comigo. – E vacina ainda é grátis no posto, não mata você…

– Acho que a senhora vai gostar deste programa.

Aumenta o rádio. Já o ouvia quando entrei. Eu penso: é agora, Orora. O Pânico da Jovem Pan comenta o aquecimento global.

O jovem professor de nome Ricardo Felicio, climatologista “da usp”, parece um jogador olímpico de pingue-pongue contra os radialistas do achincalhe da cognição. A cada pergunta banal, o entrevistado faz um rebate surreal, rápido, de tontear.

O Felício diz que:

1. Aquecimento global é cem por cento geopolítica. Não existe. Apenas passamos a monitorar a temperatura nos últimos anos. Nunca se viu tanto gelo como agora.

2. É só desenvolver uma bactéria que coma o plástico jogado ao oceano.

3. As abelhas, se morrerem, serão substituídas por outras espécies. Nunca se produziu tanto mel como no ano passado.

4. A engenharia florestal brasileira é a melhor do mundo. “Madeira dá muito dinheiro.”

Olho pro motorista com pena. O programa acompanha sua tentativa de entender a confusão do mundo. Uma rádio que é uma concessão pública, meu deus. Um entrevistado que nem sei classificar, um mitômano, um canalha.

Estamos chegando e eu, aterrada daquela felicidade airosa de minutos atrás, só lhe digo:

– Me promete que não vai deixar de se vacinar?

– Sim – sorri. – Prometo.

– E dou uma dica de estação de rádio melhor que essa. Já ouviu a Brasil Atual?