Outbreak

queria dar a cada um de vocês uma palavra de carinho.
mas não sei se sou boa nisso.
conhecem uma pessoa direta?
sou eu.
a que não sabe disfarçar.
aquela que diz bobagens sinceramente, porque crê nelas.
e que, se precisa dar carinho, gosta de fazê-lo pessoalmente.
fisicamente.
vocês estão longe, embora perto…
mas não é só isso o que quero dizer.
neste momento, na rua onde moro, passam pessoas gritando por turnos.
ouço da janela da sala.
gritos como se quisessem se libertar de alguém.
ou parar alguém.
não sei do que tratam essas pessoas.
não sei se são os sem-teto sem comida que querem arrancá-la de alguém.
não tenho como saber.
estou a uma altura excessiva do prédio onde moro, aqui onde vejo as nuvens, meus personagens.
prometi à família que me comportaria e que não sairia à rua à toa.
minha família é meu tudo.
eles me amam na complicação.
e não vou complicá-los me aproximando de quem não conheço no meio da pandemia.
mas queria lhes pedir.
nunca mais reclamem se um médico abraçar um prisioneiro na cadeia de novo.
não importa a escrotidão que o preso tenha aprontado.
nem o médico!
não reclamem.
temos um tempo limitado pra viver e amar.
não vamos estragar tudo espirrando no outro uma moral que não precisa ser respeitada.
é tarde.
e eles não vão parar de gritar contra nós.

manda um abraço pro juarez!

vocês bem poderiam estar comigo da próxima vez que o suplicy aparecesse em manifestação.

e me ajudar…

não tenho coragem de pedir selfie com ele. até porque não sei fazer essas coisas. preciso de fotógrafo que além de tudo peça pra ele uma foto comigo. se bem que já é um ritual na vida do cara: posar com todos, falar ao microfone e cantar.

desta vez não cantou porque tinha “responsabilidade”, como disse, de ir ao velório do companheiro juarez soares. falou primeiro que todo mundo, pegou um papel pra não errar o nome dos presos, disse que pedia a sensibilidade de doria e bolsonaro para a injustiça das prisões (o suplicy de sempre), garantiu que todos trabalhavam pra resolver isso… e terminou com um lula livre, aplaudido com ênfase e carinho.

foi então que o organizador das falas pegou o microfone de sua mão e achou de dizer uma despedida empolgada, enquanto o suplicy deixava o recinto:

– manda um abraço pro juarez soares!

quase ninguém percebeu. nem ele, que falou, nem quem ouviu. o suplicy quis consertar lentamente, como de costume, mas só deu um riso compreensivo no fim. todo mundo muito sério na manifestação, mais homens que mulheres, polícia e remoção circundando a praça.

na real, eu não fui muito melhor que o rapaz atarantado ao microfone. mas pelo menos hoje, como todo mundo, homem e mulher na praça do patriarca (e o suplicy é um patriarca também), dei-lhe um beijo no rosto. só não sabia o que dizer depois. soltei o que me ocorreu:

– muito prazer!

e saí de perto, porque não nasci pra este mundo, entendeu?

ESCRITA AUTOMÁTICA

Meu caçula me vê antes de sair de casa e se espanta.

– Você está Rihanna!

Penso: Rihanna da riqueza ou da encrenca? Da riqueza é sacanagem…

Mas ele nunca me sacaneia, oras!

E então esclarece que se refere a minha jaqueta, aquela que comprei numa liquidação por 50 reais…

Muito parecida com a da Rihanna na Fenty, ele diz.

E me mostra a foto no celular.

Caramba, é mesmo…

(Mas eu tenho a jaqueta há mais tempo. Fashion is everybody, style is only me!)

Dou-lhe um beijo.

Saio do centro, onde moro, e vou à Paulista cometer, com a amiga querida, o crime de ver um filme à tarde.

Desço toda feliz na estação Paulista, que fica na Consolação.

Rihannão!

E, muito rapidamente, um, dois, três sem-teto me abordam pra pedir o que comer…

E isto é bem mais do que vejo na República, no centro, onde ninguém hoje se aproxima enquanto eu caminho!

A Paulista e a Augusta me deixam bem mais triste nestes dias.

Não adianta informar que estou desempregada, que o mundo nem liga pra mim, que eu estudei, ralei, dei duro na vida ingrata, que não tenho aposentadoria e que preciso correr atrás dos trocados nascidos das ofertas de frilas feitas por amigos, das traduções, textos, palestrinhas, enquanto escrevo um livro…

Eles não acreditam em nada do que eu disser.

Isto é o que dá ser Rihanna sem poder!

“Não quero dinheiro”, repetem. “Quero comer.”

Eu sei, digo.

(Na real, o que eu posso saber?

Um dia talvez eu também saiba, embora espere que não.)

“Falta 1,50 pra esfiha!”, eles dizem, um a um.

Antes, os sem-teto noias me pediam dez reais na lata para uma “comida” (geralmente chocolate e coca-cola).

Agora eles se cotizam pela avenida, dividindo as diárias entre si.

É uma tática boa.

E basta dar com os olhos em mim para saber o que podem conseguir.

Sou do tipo que pipoca moedas, sem coragem de dizer não o tempo todo. E acabo gastando mais do que aqueles dez reais ousadamente solicitados no passado (embora hoje em dia eu não devesse gastar nem mesmo um.)

Então, bem…

Hoje esse noia grande, rosto redondo e forte, me para na altura do IMS. Elogia a elegância.

Rihanna, né? – respondo, rindo de mim.

E ele: faz um dia de Olavo Bilac, o autor do hino, a senhora não acha?

Eu:…

Ele: Um parnasiano!

Eu:…

Ele: Ou simbolista?

Eu, entregando a toalha: Um parnasiano e tanto!

Ele: Mas não era época simbolista?

E eu: Conviviam!

E ele: Acho o hino a coisa mais linda!

E eu: Eu não!

E ele: A senhora me lembra minha professora de literatura.

E eu: Você gosta de poesia?

E ele: Ninguém mais faz soneto, né? Gosto de soneto! Drummond que chama?

Eu: O Vinicius fazia soneto. O Bandeira.

Ele: Pra mim a maior obra literária do Brasil é a carta do Caminha.

Eu: Tem certeza? Não ligo pra escriba contratado.

Ele: Ninguém sabe que existiu Caminha!

Eu: Mas você sabe! E Anchieta, gosta também?

Ele: O Anchieta escrevia?

Eu: Pois é! Veja, o Drummond não era contratado pra escrever. Era funcionário público. Sempre vou preferir.

Ele, olhando pro alto: Soneto que chama!

Eu: Por que você não virou professor?

Ele: Porque estudei na Fatec. Sou tecnólogo.

Eu: Desse aula disso, então! Por que não deu?

Ele: Porque veio a droga, e quando ela vem…

Eu: Você está sempre por aqui? Te trago um livro.

Ele: Oba!

Eu: Qual o seu nome?

Ele: José!

Eu: Prazer, José.

Ele: Na verdade, sou Arlequina…

Eu: Arlequina, que lindo! Você manja Arlequim? O palhaço da commedia dell’arte?

Ele: Um bobo da corte, né?

Eu: Não da corte, da rua!

Ele (ansioso, mudando o trajeto da conversa): O maior escritor brasileiro é o Machado de Assis?

Eu: É quem a gente achar. O que você me diz de Guimarães Rosa?

Ele: Não sei quem é.

Eu: Talvez você gostasse de conhecer o amor de um jagunço…

Ele: (sorriso)

Eu: Arlequina, vou voltar.

i-Phones debrets

Havia miséria de arrepiar em São Paulo antes dessa tomada de poder. Os sem-teto e os viciados eram maltratados pela guarda civil. Os jovens contra a máfia do transporte, ridicularizados e bombardeados.

Mas agora, com Doria e Alckmin juntos, tornou-se outra paisagem. É um novo contingente. Mulheres e homens nas estações de metrô, viadutos, becos e escadas envolvem-se em panos leves, à espera do que beber antes da morte. Os olhos fecharam-se para as crianças. São as responsáveis pelo alimento e o futuro de seus irmãos, como no século 19 londrino ou piemontês, como no filme de Buñuel, ‘Os Esquecidos’.

São Paulo tornou-se o pitoresco acinte que ilustramos com nossos iPhones debrets.