Odisseia paulistana

O imenso escultor grego Nicolas Vlavianos, radicado em São Paulo há seis décadas, morreu hoje nesta cidade que considerava sua, aos 93 anos, de insuficiência respiratória. Quando chegou aos 80, ele me concedeu esta entrevista, em maio de 2009, na qual descreveu sua revolução pelo aço, mas não só. Conversar com este artista foi um grande privilégio meu. Aprendi como poucas vezes no jornalismo, antes ou depois, o sentido da arte em um tempo que inviabiliza o esforço físico e no qual a escultura não cabe mais.

Em foto de Patrícia Stavis, o escultor Vlavianos segura uma miniatura, ele que foi o artista da grande escala

POR ROSANE PAVAM

Sob seus olhos há pequenas bolsas e os cabelos brancos estão gentilmente rebeldes, mas o escultor grego Nicolas Vlavianos ainda pensa como sorri, de um jeito jovial, aberto às utopias. Ele habita São Paulo há quase cinco décadas, os pais e a esposa morreram aqui e os filhos Myrine e Gabriel prosseguem o caminho que ele abriu na arte. A cidade é seu lugar e sua revolução.

Homenageado pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte em abril, Vlavianos tem 80 anos, 40 deles como professor e coordenador cultural da Faculdade Armando Álvares Penteado, a Faap. Mas nada disso talvez conte tanto para ele quanto esta metrópole, toda por sua desde que o artista foi selecionado à VI Bienal Internacional de Arte. “São Paulo me deu a oportunidade de não sentir falta de alguma coisa”, raciocina Vlavianos, inclinado a terminar sua narrativa com frases excelentes, um homem educado que se senta em seu escritório na Faap em meio a pequenas esculturas nas prateleiras, uma mesa com papéis, folhetos e livros de arte e um computador.

Menino em Atenas

Vlavianos contava 32 anos naquele 1961, não era casado, não tinha filhos, não terminara o curso de Direito e seus pais, Charilaos e Evangelia, continuavam tabeliães em Atenas, de onde ele saíra cinco anos antes para habitar Paris. Por sua natureza de escultor, jamais pulou de lugar em lugar, sempre fixado à forja dos ateliês. Não era surpreendente, portanto, que de toda a Grécia só conhecesse a capital, até deixá-la, em 1956, aos 28 anos. Na cidade francesa, suas exposições adquiriram fama para além do estúdio que alugara em Montparnasse. Ele era uma nova realidade nas mostras do Museu Rodin, um artista finalmente moderno, contra tudo o que seu país lhe proporcionara.

É preciso não exercer a tentação de associar a imagem de Vlavianos à de todos os grandes escultores gregos dos quais aprendemos histórias. Vlavianos não é Fídias, não constrói imagens de adoração que parecem uma coisa quando vistas de perto e outras diferentes se observadas do sopé da montanha. Vlavianos não é um clássico, assim entendido o artista como um homem da Antiguidade. Ele nunca persegue a velha escola. Ontem como hoje, olha para o depois.

Paris aconteceu em sua vida porque os gregos deixaram de ser como seu conterrâneo Fídias, do qual não restaram obras, apenas relatos. Desde meados do século XIX, os gregos eram alemães da Bavária no campo da arte, e Atenas não pertencia politicamente a si mesma. A escultura neo-helênica, surgida nos últimos dois séculos, fora influenciada pelo neoclassicismo alemão. Os gregos, então, obedeciam curiosamente a quem reinterpretava sua luz antiga. “Não existia arte moderna em meu país”, diz.

O artista e sua lida, na cidade que lhe possibilitou a revolução pelo aço inoxidável e lhe deu um ambiente artístico atento, ameno, solícito

O Brasil do artista grego não tinha passado e seu futuro parecia certo aos estrangeiros. Como todos os que correram para cá naqueles anos, Vlavianos não enxergava limites nas terras brasileiras. A língua portuguesa não lhe parecia difícil, ele que falava francês, e além disso o jovem a sofisticava de tempos em tempos com a leitura da coluna do Vão Gogo, na verdade Millôr Fernandes, na revista O Cruzeiro. O clima era quente e os homens e mulheres, amenos. Todos, neste particular, eram um pouco gregos também.

Bastava conversar com uma profissional especializada como Felícia Leirner, a ele apresentada por um amigo grego comum, para que todo o mundo da arte se abrisse a Vlavianos. Havia críticos na São Paulo de então para notar sua existência e convocá-lo à contribuição no panorama das artes. Walter Zanini o percebera como escultor e se tornara seu amigo pessoal. Mário Pedrosa e Geraldo Ferraz acompanhavam entusiasmados a solidez do artista. A partir de pessoas como essas, a amizade com Cacilda Becker lhe surgiria como um novo degrau. A atriz de Pirassununga aproximara-se do escultor com uma proposta teatral.

Em 1963, Vlavianos já alugara um ateliê, em razão da encomenda feita por um funcionário da Bolsa, Fernando Leite de Barros, que desejava ter um cavalo de bronze em tamanho natural, parecido com aquele fincado no Edifício Itália. Para fazer a escultura por boa quantia, Vlavianos não viu outra opção a não ser alugar um estúdio, encontrado à rua Espártaco, para diversão do escultor. O gladiador de origem trácia liderara a maior revolta de escravos da Roma Antiga e entrara no imaginário popular alguns anos antes por meio da interpretação de Kirk Douglas no filme Spartacus, de Stanley Kubrick. Enquanto Vlavianos fazia o cavalo no estúdio da Lapa, Cacilda lhe pedia armas para a montagem de César e Cleópatra, uma peça de Bernard Shaw que se revelaria um fracasso de público em 1964. Vlavianos compôs escudos, capacetes e espadas para os personagens ensurdecerem em cena os poucos espectadores.

Por essa época, as esculturas do artista começaram a mudar. Em sua sólida base terrena, sem jamais aspirar à leveza de quem voa pelo céu ou o procura, as obras ganharam flexibilidade, pregos, furos, humor. E aço. São Paulo deu-lhe o que, para Carlos Drummond de Andrade, havia de sobra nas calçadas da mineira Itabira, e também nas almas. “Em Paris, eu usava bronze e alumínio”, conta. “Mas São Paulo me deu o aço inoxidável.” E não somente ele. “Aqui achei eletrodos para soldar, lixas para lixar, todo o maquinário destinado a esculpir.”

Esta foi uma revolução para Vlavianos e para a arte do Ocidente, embora poucos se dessem conta do enorme fato. Até os anos 1960, não havia quem se atrevesse a esculpir integralmente em aço em todo o mundo. O material e o equipamento para manejá-lo, fartos na capital paulista, impulsionaram essa revolução.

“Sempre falamos mal de São Paulo, e eu também. Mas considere isso. A cidade tem de tudo.”

Aqui também houve centros para estudar a arte. O grego foi convidado a dar aulas na Faap em 1969, depois de recusar o convite do amigo Zanini para ensinar na Escola de Comunicações e Artes da USP, pobre em ateliês e recursos. Na Faap também dava aulas sua mulher, a artista Teresa Nazar. Ele via com bons olhos o trabalho estável, que ainda lhe rendia mais espaço para planejar as esculturas. Contudo, não tinha qualquer didática a oferecer à garotada. “Ainda não tenho. O que eu sei fazer, até hoje, é trazer os alunos para produzir as coisas. Nunca falo ‘o seu projeto é uma merda’. Eu digo: ‘Dá para melhorar’.” Ele não se recorda de um nome extraordinário saído de suas aulas de escultura, mas reconhece ter tido bons alunos pintores.

Isso porque a pintura, no seu particular modo de ver, é um estágio para um crescimento tridimensional. A arte começaria pela poesia. Dela seria possível chegar ao desenho e, posteriormente, à tela com cores. E, desse estágio, existiria a chance de alcançar a escultura, primeiramente feita com materiais maleáveis, como a madeira e a pedra-sabão de Minas Gerais, depois com os blocos rígidos.

A questão importante, para ele, é que hoje em dia não há nem mesmo uma possibilidade real para quem deseja alcançar o estágio de um escultor. “A escultura não é para nossa época”, sentencia. “Ela requer um grande esforço físico, mas nós perdemos essa capacidade de nos esforçar fisicamente.” O computador daria soluções mais rápidas e desacostumaria o artista com a lida. “É um instrumento que estreita o pensamento. Não é o computador que entra na sua maneira de pensar, é você que entra na maneira de pensar do computador.”

Para Vlavianos, que experimenta, contudo, parcerias para esboçar projetos nesse formato, tal meio técnico inibe até mesmo a avaliação de um problema, quando ele surge. E é só compreendendo o problema corretamente que se pode solucioná-lo. A solução, na escultura, acontece quando usamos a cabeça e as mãos, não quando clicamos o mouse, defende.

O computador também responderia a uma necessidade que a época tem por reagir de forma menos agressiva às coi- sas. “Quando o sapo é jogado na água quente, pula de imediato. Mas não percebe a ameaça se é cozido em fogo brando. Quem percebe o aquecimento global, a menos que tudo aqueça demais?”

Vlavianos compara esse estado de coisas na arte ao jornalismo, que incluiu gastronomia no cardápio, quando antes só admitia, e em casos específicos, a publicação de receitas de pratos. “O que vou fazer? Brigar por isso? Para brigar, seria necessário uma razão que o tempo não me dá.”

O espírito do tempo pede a acomodação, não a polêmica, o debate de ideias, afirma Vlavianos, como quem se resigna. Uma vez que a crítica acabou, o que é artístico se torna também negociável. A arte encarece com a necessidade atual de patrocínios, transporte, seguro, fotografia. Há a figura especialmente intrigante do curador. Ele é o homem do conceito, mas e se o conceito estiver errado? “Um conceito errado, por exemplo, é o de arte brasileira. Se colocamos estrangeiros para fazer arte brasileira, o que isso significa? Não existe arte brasileira. Existem os artistas do Brasil. Existem o carnaval e as mulatas.”

Vlavianos não tem conselhos a dar ao artista novo. Exceto, talvez, aquele de trabalhar de forma incessante, sem esperar enriquecer. “Se você quer dinheiro, abra um bar. Os bancos são os caminhos mais fáceis para isso. Para fazer arte, ou seja, expressar uma pequena parte do que pensa, você não pode exigir descanso. Se eu fico parado, tenho ideias muito boas de vez em quando. E daí? Daí, nada.”

O artista nunca soube o exato significado de seu nome de família. Talvez, em grego, algo “vlaviano” equivalha a algo “fiel”. O qualificativo faria sentido para ele, já que, neste mundo, a coisa que suporte mais dificilmente seja a perda de “quase todos os amigos”. Restaram-lhe as utopias. Ele ainda espera, como um sonho, correr um rio e conhecer a França inteira.

Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.