A questão que me faço
quando vem o cansaço
(e tu também choras,
como eu),
é apenas esta, pueril:
em que mares se esconde,
em que auroras,
que flores,
aquele pedaço de terra
chamado Brasil?
Para Migliaccio
Ofereço a Flavio Migliaccio, cujo bilhete de despedida, assim como sua vida, agora incluo em minha memória literária:
“I have had my invitation to this world’s festival,
and thus my life has been blessed.
My eyes have seen and my ears have heard.
It was my part at this feast to play upon my instrument, and I have done all I could.”
Tagore
Para Aldir Blanc
Ofereço a Aldir Blanc a fala do Demônio a Ivan Karamazov:
“Todo homem saberá que é totalmente mortal, sem ressurreição, e receberá a morte com orgulho e serenidade, como um deus”.
Escolhas
leio poesia todo dia.
e mal percebo.
a diferença é que sob pandemia, depois de recorrer às estantes, as palavras que assimilo desses livros transformam-se em outras, mais ou menos vistas por mim como desabafos.
e o engraçado, agora, é que por este meu blog atraio queridos, desconhecidos, grandes poetas menores.
leio-os todos.
todos eles, donos de ao menos uma palavra nova, no lugar certo de suas aflições.
estou gostando.
adentrei um mundo novo graças à peste.
um paradoxo em busca de um autor.
tropical
fecho os olhos.
sinto a areia e o sal do mar.
o sol me queima sem queimar.
E daí?

e daí?
e daí que você não pode
interromper a imensa
chegada do sol
através de minha janela
desde as primeiras horas
sonolentas da manhã.
e daí?
e daí que não conseguirá
me impedir de, mesmo
cambaleante e sorridente,
expulsá-lo de minha vida,
apenas temporariamente
usurpada e aterrorizada
por sua vil presença.
e daí?
e daí que temos olhos,
ouvidos, boca, sexo, nariz.
e daí que nossa luz,
não irá apagá-la um infeliz.
NOITE ESVAZIA
Meio sem nada.
Meio cheia.
Meio nonada.
Meio êxtase.
Meio sonada
No meio do sonho.
Meio no fim.
Meio acolá.
Meio sem mim.
Meio se vá.
Meio, começo, enfim.
Meio concedo:
Me ensine
A chegar.
Dito quarenteno
pirando de solidão?
então você não está só.
Ilusões das gentes
Tento de tudo.
Apelo a Era Uma Vez na América:
De Niro na casa de ópio.
Quem sabe não faz meu sono vir?
Nada…
Todos dormem por aqui, exceto eu.
E fico feliz por eles, meu paraíso.
A noite é quente, até abafada, avisam-me os mosquitos.
Esses seres gritantemente efeminados que não estão nem aí pras ilusões da gente, grandes ou pequenas.
Cotidiano
Ponho a roupa pra lavar,
estendo, guardo, lavo a louça,
perfumo o banheiro,
deito o lixo, faço o café.
De cozinha, sou menos,
mas ajudo geral.
Não nutro essência doméstica,
antes nebulosa.
Nem pragmática, nem produtiva,
muito menos na rica flor
de minhas forças organizativas,
fotografo a janela.
E mergulho um dia após o outro.
Ontem foi difícil,
hoje também.
Com o sol lá fora, contudo,
vivo bem.
Vivo!
Sonho.
Leio.
Escrevo uns versos
para que um dia se
transformem em poesia.
Em libertação.