De que fotografia se fala

Bolsonaro convidou Orlando Brito, fotógrafo veterano de presidentes agredido domingo por apoiadores golpistas, a almoçarem juntos hoje. E o fotógrafo foi até lá.

Brito disse pra Bolsonaro, na ocasião, que ele deveria acenar com um gesto de apoio e visitar o comitê de imprensa do planalto, o que nunca fez desde que assumiu a presidência.

Brito aceitou o convite de Bolsonaro? Pra almoçar neste momento, sem máscaras com esse verme, e ele foi?

E Bolsonaro, aceitará o convite dele?

Se depois desse almoço o miliciano realmente visitar o comitê de imprensa, vai ser interessante de ver. Um belo truque midiático. Se eu fosse ele, neste momento, iria sim. Apareceria por cima. Mas não creio que ele vá.

Nunca trabalhei com Orlando Brito. Mas o conheci durante o primeiro curso Abril de jornalismo, ao qual fui selecionada, entre tantos estudantes de jornalismo de São Paulo, em tempos muito antigos. O curso era constituído de um ciclo de palestras com os luminares locais em todas as áreas, da política à moda e à fotografia. No final, selecionavam um jornalista pra estagiar lá. Não passei na seleção, hoje posso imaginar por quê, e agradeço.

Me lembro que o Orlando Brito levou uma de suas fotos de Figueiredo, feita para uma edição de Veja, para acalorar a discussão. Achei-o corajoso. Era uma imagem sua em que Figueiredo aparecia sorridente, sendo erguido por uma multidão de fazendeiros e trabalhadores rurais. Os jovens jornalistas pareciam chocados. E ele respondeu que não via razão, já que aquele fato tinha se dado assim. Foi vaiado por grande parte da plateia, aquela que justamente buscava trabalhar na empresa. Já então, naquele tempo, sabia-se que o ângulo, o fotógrafo escolhe…

O Brito é um profissional de carreira que mostra os presidentes a uma certa distância, sempre clássicos e respeitosos. Não é um fotógrafo ruim, pelo contrário, a depender do que se espera da fotografia.

Ter ido almoçar com o presidente hoje faz parte de sua rotina profissional, e ele depende disso para continuar trabalhando naquela posição. Triste, mas é isso mesmo. Foi um trabalho que ele escolheu fazer e do qual não arredou pé em cinco décadas. E não arredaria agora.

Prefiro outros fotógrafos e outros temas. Creio que jamais seria uma fotojornalista, especialmente em torno de palácios oficiais. Sou do que ocorre à volta, além e dentro de nós.

Mas penso.

Ao Brito o que é de Brito.

Cada um no seu quadrado e no seu sonho.

Escolhas

leio poesia todo dia.
e mal percebo.
a diferença é que sob pandemia, depois de recorrer às estantes, as palavras que assimilo desses livros transformam-se em outras, mais ou menos vistas por mim como desabafos.
e o engraçado, agora, é que por este meu blog atraio queridos, desconhecidos, grandes poetas menores.
leio-os todos.
todos eles, donos de ao menos uma palavra nova, no lugar certo de suas aflições.
estou gostando.
adentrei um mundo novo graças à peste.
um paradoxo em busca de um autor.

Barreto, Bishop e o comunismo de arregalar os olhos

Não percam o perfil do Felipe Fortuna no facebook, pois ele está a nos atualizar deliciosamente sobre as porcarias ditas e escritas pela Bishop sobre o Brasil.

Até parece brincadeira. É de desmontar qualquer afeto.

Agora entendo por que, numa ocasião, o Bruno Barreto me disse que seu filme sobre Elizabeth e Lota, “Flores Raras”, era o melhor que já tinha feito.

O Barreto é tão reaça que no meio de um jantar, quando eu lhe contei que minha tese girava em torno da commedia all’italiana, arregalou os olhos. “Mas você não fala sobre o Monicelli, né? Era um comunista, o Fellini me contou!”

E eu: “E daí, velho?!”

Quem desliga a chave?

02.11.18

talvez vocês não tenham idade pra saber, mas no seriado camp do batman as paredes frequentemente ameaçavam espremer nossos gay-heróis capturados por gay-vilões.

pois me sinto batman & robin há muitos e muitos anos, tentando segurar as paredes, sem que nunca me deixem conseguir…

tendo de aguentar tropa de elite & sertanejo & big brother & outras porcarias de nossa indústria cultural apenas porque são populares e porque a esquerda, sem querer ser chamada de elitista, não as poderia refutar…

santa burrice!

era por onde a ditadura começava a entrar!

nossa esquerda, dita esquerda, não foi a heroína cultural que deveria ter sido, lamento dizer. nunca pensou em desligar essa chave. adorou a chave. e agora as paredes estão próximas.

mas ao mesmo tempo, né?

estamos só no começo.

quero mandar o cara do uber desligar o som!

aqueles cantores que parecem o porco sob a faca…

e suas letras de corno transcorridas em dubais sentimentais, onde a métrica é insolúvel, “segredos” rima com “erros” e a incapacidade de articulação transborda para nossas vidas…

batman, robin, quem vai desligar a chave?

a imobilidade construída

pergunte o que são os três poderes ao brasileiro pobre, mesmo se formado no ensino médio.

ele saberá lhe dizer?

pergunte-lhe o nome dos três últimos presidentes do brasil.

inquira a ele o que é justiça, para além do justiçamento.

o que é um prefeito, um governador, um vereador.

é o déficit programado de conhecimento o que nos deixa imobilizados no estado atual.

e também a polícia, sim.

o estado policial.

o discurso que culpabiliza manifestações, inclusive aquelas que explodem vidraças de banco.

a imobilidade não é um acomodamento brasileiro, como nos querem fazer crer até mesmo aquelas irresponsáveis publicações tidas por esquerdistas.

a imobilidade foi cuidadosamente trabalhada, anos a fio.

sobramos alguns de nós mesmos.

e jovens valentes, buchas do canhão de sempre.

O berço da marginalidade é também o da inocência

Farley Granger e Cathy O’Donnell em “Amarga Esperança”, de 1948.

Que direção a de Nicholas Ray.

Um balé de luz.

Os gestos precisos de adeus.

Os olhares desses grandes atores que também nos veem.

O ritmo da narrativa, que aperta o coração.

O movimento incessante.

Do alto, em um helicóptero, a câmera acompanha os carros na estrada, sinalizando que os donos da história não são os que se atracam no chão…

Supomos a tragédia, mas não controlamos sua intensidade.

O berço da marginalidade é também o da inocência.

Não preciso de filmes que me encorajem.

Quero que o cinema me diga a verdade.

variações para um sonho-máscara

as amigas me diziam reservadamente muito tempo atrás que chegando aos 50 eu iria entender a necessidade de me maquiar, eu que só usei batom, e às vezes, na vida.

os 50 chegaram e passaram e eu nada de nada de mover um pincel… não que jamais tenha sentido a necessidade, claro. necessidade senti. mas tenho mais o que fazer. ou não fazer!

agora, se o desenho for assim, quem sabe?

a maquiagem é inspirada nos bordados da elsa schiaparelli, uma rival da chanel a meu ver muito mais interessante que a chanel, louca-extravagante-decadentista-romântica-art-déco que fez o casaquinho nos anos 30 com a parceria de jean cocteau, o vestido-lagosta com salvador dalì e a máscara de seda furada no olho com van cleef & arpels, que confeccionou um broche imitando sobrancelha.

já que é pra pintar, né?

que seja bordar um sonho-máscara sobre a triste realidade!

(prontofalei)

nem nada

nem mariana,

nem brumadinho,

nem ct do flamengo,

nem boate kiss,

nem os meninos que dentro do carro fuzilado comemoravam o primeiro dia de trabalho,

nem os treze metralhados no morro do Rio,

nem o “tiroteio” ainda utilizado nos títulos dos jornais.

nada mudará esse quadro em que seremos menos e menores que as miúdas arraias.

aparentemente

mudança é um veículo no tráfego embargado.

estamos sozinhos pra brigar uns com os outros,

isso sim.

o pão no circo.

um homem na multidão.

Um longo penar

Admirado por Machado de Assis e um dos mais prestigiados autores de seu tempo, José de Alencar foi um expoente do nacionalismo romântico, aquele que buscava no indígena uma “identidade brasileira” original.

Ao argumentar longamente a partir de um trecho do texto de posse do novo chanceler, a colunista Eliane Brum nos lembra hoje desse nacionalismo praticado pelo escritor, como por Gonçalves Dias, mas deixa de lado outras facetas de Alencar.

No teatro, Alencar promoveu uma comédia que intitulou “realista”, didática, de bons costumes e polida, que Machado buscou sem muito sucesso seguir.

Na política, Alencar defendeu que a escravização dos negros, então agonizante e sob descrédito generalizado, se extinguiria naturalmente, sem a necessidade de um decreto de abolição. E que nosso sistema econômico colonial, baseado no trabalho forçado, entraria em colapso se a libertação ocorresse de forma indiscriminada.

Machado não confrontou diretamente este ponto. Alencar era uma figura inalcançável, quase paterna, que muito contribuíra para o reconhecimento literário de seu discípulo.

Em seu artigo hoje para o El País, Brum não ressalta esta passagem ao evocar o Alencar citado pelo chanceler aloprado na posse. E anuncia (acho um verbo adequado) que nos explicará o porquê de Araújo ter mencionado o autor de “Iracema”. Brum tem todas as certezas e pacientemente as mostrará a seu leitor.

Ela argumenta que Araújo descontextualizou Alencar pra tentar provar a grandeza de um ensino isento de “ideologias de marxismo cultural”. Mas que passou longe de seu objetivo, já que o discurso de Alencar fez sentido naquele tempo de formação e que não faria hoje, adaptado canhestramente por Araújo para uso nostálgico e manipulador.

Tudo bem, o chanceler é um banana que talvez nunca tenha ouvido falar de contexto histórico. Contudo, se Brum tivesse notado o importante detalhe da defesa de um sistema colonial moribundo escravagista pelo Alencar, certamente teria melhorado sua argumentação.

Porque é o tolerante à escravização que Araújo defende em Alencar, não o nacionalista de puro ideal. É outro o modelo que o chanceler nos deseja impor por meio da evocação de um trabalho literário.

Me deu a impressão de que a jornalista sabe sobre Alencar tanto quanto o colegial que um dia fomos nós; que pegou uns livros dele da estante e adaptou trechos a sua convicção no momento de escrever.

Tem sido assim com a Brum de que tantos amigos parecem precisar. Desinteressada da pesquisa, ela fala o que sua formação mediana e sua intuição lhe ditam. Quando isto já bastou a um pensador, a um jornalista, por mais que ele conheça a língua portuguesa e não dê vexame ao escrever?

Intuição não resolve tudo.

Pensar é penar.