O pior lugar

Os pesadelos não param. Talvez porque os últimos dias tenham sido assim, em torno da tristeza e da morte. Mas sou infeliz, eu, durante o dia, para sonhar tão ruim? Não creio. Não normalmente.

O fato é que nos sonhos estou pela rua procurando alguma coisa, visitando alguém ou até mesmo festejando meu aniversário, quando de repente me vejo sem máscara. E me sinto nua, aterrorizada.

Ninguém protegido ao meu lado, igualmente. Todos inconscientes. Só eu me dou conta de que há uma pandemia em curso e não me protegi. Perco a voz.

Procuro algo para tapar o rosto. Um papel. A malha que estava na cintura. E subo nos ônibus apressada rumo a minha casa, aonde não sei ir. Eu perambulava por um lugar distante, perdido no mundo, e não faço a mais remota ideia de qual é o caminho de volta.

Pois então. Ontem sonhei assim e hoje vejo todas as fotos do Mussolini de subúrbio na multidão. Ele não sonha com o pior, certo? Ele já vive o pior. Tão experiente nele. Ele é o pior lugar em si. Por isso agora se sente melhor do que nunca, em êxtase contínuo, passeando sobre os cacos da nossa agonia sem furar os pneus.

E eu?

Eu só não queria acordar sempre aflita depois desses sonhos, os dentes trincando, à procura imediata das pessoas que amo. Os olhos só abrem a muito custo.

Não é possível que algo no meu dia me leve durante a noite à responsabilidade por esse caos. Repudiei esse escárnio humano com todas as minhas forças e aceitei de muito bom grado votar em Haddad, que nem era meu candidato ideal, depois de aceitar não ser mais possível recolocar a presidenta em seu lugar de direito.

Por que me culpo, então? Será que porque não sei gritar, nem mesmo conscientizar quem está perto, como o porteiro bolsonarista do meu prédio?

O que está acontecendo conosco? Quando empurraremos o espectro pelo precipício? Quando faremos alguma coisa?

O céu é o processo

Não tenho religião e me impacienta o Natal, que contudo comemoro, porque é mais uma chance de estar à mesa com os bem-quereres. A Páscoa também acho difícil de suportar, visto que me traz de volta as sangrentas sessões da tarde da infância em que Victor Mature aparecia flagelado desde os olhos fundos.

Me parece muito católico celebrar esse sofrimento, sangue, expiação, até que se possa obter algo que não sabemos bem lá no céu. Prefiro tudo pelo agora, condição que conheço, tempo que mastigo. Porém gosto da metáfora de renascer das chagas, quem não? O catolicismo sempre soube calcular nossas necessidades, até segundo a época do ano.

Então, uma renascença, merecemos todos. Renascimento não é simples, é um processo. Eu tenho o meu, vocês o de vocês, e nos ajudamos nos intervalos por onde a vida corre. O céu é o processo, que saibamos processar!

no meio das lives, uma espada

se as pessoas que tomam a iniciativa de fazer lives-aula não abraçarem nossas dúvidas, nossas confusões à espera de um esclarecimento, quem vai fazer isso?

então levo até elas, sem muito pensar, as dúvidas surgidas em mim.

ou sentidas por mim (verbo polêmico, o sentir, mas tudo o que sinto é minha fortaleza).

então eu, nas lives, decidi que ficarei no modo “não vim aqui trazer a paz, mas a espada…”

ou traduzindo a provocação jesuítica:

vim trazer o que sinto, e meu sentir é o meu pensar, minha contribuição modesta para complicar seu pensamento em busca de uma síntese para nós.

(tomara que me aguentem 💜)

O dilema é coibir

O que mais me impressionou em “O Dilema das Redes” foi saber que adolescentes têm feito plástica para assemelhar seus rostos a filtros de instagram.
O filme me convenceu de que especialmente para as crianças e adolescentes as redes sociais podem ser arrasadoras, pois se trata de atingir com algoritmos maquiavélicos pessoas naturalmente indefesas, em fase de formação.
Mas fiquei com a impressão de que, de resto, eu já conhecia todo o mal que esses zuckerbergs da vida fazem a nós adultos via twitter, instagram, facebook.
(Há zucas também por trás da Netflix que exibe o filme, mas nele, claro, a plataforma de streaming não é identificada como uma rede…).
Dizer que nós (nossos dados) somos os produtos vendidos, já que não existe almoço grátis e não pagamos pelo uso dessas plataformas, é infelizmente sabido.
Dizer que querem prender nossa atenção e transformar em necessidades produtos antes nem mesmo percebidos por nós, igualmente.
(E, se pensarmos bem, essa ideia tem muitas décadas de estrada, desde a publicidade em rádio, cinema e tevê, aperfeiçoada, por exemplo, pelo nazismo…)
No campo político, o filme elabora que o erro a atingir fatalmente a nossa democracia ocidental será o da polarização incentivada pelas redes.
Mas não sei se polarização é uma boa palavra a usar nesse campo. O filme não traz estudiosos da política para aprofundar o tema.
O que vejo acontecer pelas redes sociais é uma reação (às vezes nem tão polarizada ou veemente) contra as fake news.
E qual outra reação exceto a polarizada poderia existir à livre circulação de notícias falsas?
Por que não há uma regulação para as redes sociais? Em nossos dias, elas trabalham extraterritorialmente, multiplicando-se com suas próprias leis e criando novos monstros políticos a partir da disseminação de fake news.
Se a democracia é um valor tão caro ao Ocidente, alguma regulação já deveria ter começado.
Ou a democracia não é mais um valor a preservar?

Garoto, Gaza, Arendt

Ontem vi o documentário sobre Garoto no in-Edit. Não é perfeito, nada é, mas, ainda assim, imprescindível. Tendo Garoto, somos grandes, somos Brasil. Você pode assistir até o dia 20.

Ontem também vi a live sobre Hannah Arendt dentro de um ciclo de palestras do grupo Arendt Brasil. Todo fim de semana há uma abordagem nova pra sua história. Semana que vem, sua amizade com Walter Benjamin.

Gostaria que o documentário “Gaza”, exibido na mostra árabe encerrada ontem, pudesse chegar a nosso circuito comercial. Ele dá a medida do pavor e da esperança profundos de 2 milhões de pessoas espremidas em uma faixa palestina de 40 km de extensão e 11km de largura, impossibilitadas de alcançar qualquer fronteira, com Egito e Israel, e então sair dali para uma vida melhor. Nem pescar podem numa faixa além de 4,8 km da praia ao oceano… Não têm luz frequente, nem água, comida… “Uma prisão a céu aberto”, diz um salva-vidas. Mas eles ainda pescam, dormem na areia e sonham além-mar. Chorei como poucas vezes.

tempos hodiernos

Saí para a rua hoje, depois de seis meses, e mal diferenciei as calçadas das pistas de automóveis.
As fotos não saíam.
Eu mesma mal andei.
É vertiginoso voltar à divisão do tempo.
Agora que vem a noite, vivo a amargura dos fins de domingo.
Só porque saí pra rua?
Só por isso.
Nas últimas várias semanas, não tenho emprego, só problemas.
E os resolvo trancada em casa, conforme aparecem, num compasso lento que é só meu.
Mas hoje rompi o fio.
Me meti no fluxo de todos, que continua intenso.
Gentes pobres, gentes ricas, todas sob o sol de quase setembro.
O que senti foi o tempo dividido segundo a produção maquinária.
Mal acreditei desenrolar-se lá longe, no Bacio di Latte, a festa do sorvete que só o fim de semana propicia…
Mas eu vinha livre disso!
Que se dane o lazer regrado!
Constato na pele o que incomoda os genocidas do poder, até mais do que nossa morte, que eles aliás anseiam.
Deve irritá-los nossa autonomia diante da corda onde nos enforcam e que denominam eixo.

Febeapá com Bey

Não sei se vocês leram o artigo de retratação de Lilia Schwarcz. Não o reproduzo aqui, mas, segundo ela diz ali, escreveu de maneira errônea e irrefletida sobre o pretensamente inadequado luxo hollywoodiano em Beyoncé, razão pela qual se desculpa.

Acontece que li e reli as linhas de Schwarcz e mal pude constatar a ausência de admissão real de um erro. Quem errou, ela diz, e isto parece explícito no artigo, foi o redator que aplicou título e linha fina ao que ela escreveu. Quem errou, ela diz, foi a Folha ao exigir de uma pesquisadora de seu porte um texto tão rápido sobre questão primária. E o erro dela foi sua submissão.

Porque Lilia não é de errar. Porque errando, isto é, achando que saberia escrever sobre um assunto aparentemente banal como este sozinha, sem ouvir seus pares e o movimento negro, estrepou-se. E precisou se desculpar de algum modo com as comunidades que dão sustentação a seu trabalho de historiadora.

Sei bem como são intrínsecas e entrelaçadas as relações dos Schwarcz com a Folha. Interdependência, interligação, nem sei que nome dar aos telefonemas da editora de seu marido para garantir aos jornalistas da casa exclusividade em entrevistas e leituras antecipadas de cópias de livros.

Toda a vida da Cia das Letras está tão estritamente ligada à da Folha que é difícil que eu imagine, apontada sobre a cabeça acadêmica de Lilia, uma arma qualquer empunhada pela ralé jornalística.

Até fantasio que uma bela noite num desses jantares com a direção do jornal ela tenha se animado a lamentar o luxo consumista de Beyoncé e algum presente, no momento de montar a pauta, apenas pediu que a historiadora transcrevesse seu pensamento tão informalmente bem expresso antes.

Alegar irreflexão é um pouco melancólico da parte de Lilia, que vive de refletir, e nos últimos tempos o tem feito de peito aberto, de modo a nos alertar sobre a perda gradual de nossas liberdades sob este regime de milícias. Mas – fico com isto – pelo menos ela provou uma retratação. Ninguém suporta tanto febeapá cotidiano, ademais partido de uma de nossas mais festejadas intelectuais.