Retrato 17

eu sinto muita tristeza ao ver que uma médica bolsonarista, quando traída por bolsonaro, pode agora dizer as verdades antes escondidas.

(que palco!)

e por que me sinto triste?

triste porque aparentemente seu discurso é necessário para validar o nosso – pela saúde pública – neste país miserável.

triste porque sua fala sobre corrupção e polarização (como se a ciência estivesse acima da política e não pudesse ser instrumentalizada) não me engana um segundo só.

O pior lugar

Os pesadelos não param. Talvez porque os últimos dias tenham sido assim, em torno da tristeza e da morte. Mas sou infeliz, eu, durante o dia, para sonhar tão ruim? Não creio. Não normalmente.

O fato é que nos sonhos estou pela rua procurando alguma coisa, visitando alguém ou até mesmo festejando meu aniversário, quando de repente me vejo sem máscara. E me sinto nua, aterrorizada.

Ninguém protegido ao meu lado, igualmente. Todos inconscientes. Só eu me dou conta de que há uma pandemia em curso e não me protegi. Perco a voz.

Procuro algo para tapar o rosto. Um papel. A malha que estava na cintura. E subo nos ônibus apressada rumo a minha casa, aonde não sei ir. Eu perambulava por um lugar distante, perdido no mundo, e não faço a mais remota ideia de qual é o caminho de volta.

Pois então. Ontem sonhei assim e hoje vejo todas as fotos do Mussolini de subúrbio na multidão. Ele não sonha com o pior, certo? Ele já vive o pior. Tão experiente nele. Ele é o pior lugar em si. Por isso agora se sente melhor do que nunca, em êxtase contínuo, passeando sobre os cacos da nossa agonia sem furar os pneus.

E eu?

Eu só não queria acordar sempre aflita depois desses sonhos, os dentes trincando, à procura imediata das pessoas que amo. Os olhos só abrem a muito custo.

Não é possível que algo no meu dia me leve durante a noite à responsabilidade por esse caos. Repudiei esse escárnio humano com todas as minhas forças e aceitei de muito bom grado votar em Haddad, que nem era meu candidato ideal, depois de aceitar não ser mais possível recolocar a presidenta em seu lugar de direito.

Por que me culpo, então? Será que porque não sei gritar, nem mesmo conscientizar quem está perto, como o porteiro bolsonarista do meu prédio?

O que está acontecendo conosco? Quando empurraremos o espectro pelo precipício? Quando faremos alguma coisa?

sem abraçar, sem ser

tem hora que sinto falta de abraços específicos, de pessoas determinadas, estas que não estão ao meu alcance neste momento terrível.

viajo me imaginando nos braços delas.

e pensando: quando vou poder novamente encontrar alguém na rua que não vejo há muito e lhe envolver daquele meu jeito meio aloucado e constrangedor?

outro dia joguei de longe um beijo para uma sem-teto deitada na mureta do ponto de ônibus – depois, é claro, de lhe dar um dinheirinho -, e ela quase perdeu o rumo de feliz, e me jogou outro beijo à distância.

(como amo essas pessoas. fico imaginando se elas sabem que fazem muito mais por mim do que eu por elas.)

quem não quer viver de novo, ser alguém de novo, andar, cheirar, sentir, ao lado de quem desejar?

mas nem para pensar nessas singelezas a gente se sente livre.

parece coisa luxuosa demais (e indevida) desejar um abraço aleatório se nem sabemos como tirar aquela monstruosidade do poder e reiniciar o ciclo da vida…

Autoempreendedora das dores

Preciso de muitas saídas para minha agitação interna constante.

Afora ser quem sou, essa mulher de muitas especulações e triangulações pela história e pelo tempo, passo horas preocupada com problemas objetivos, cujas soluções tanto custam a mim e a minha digestão. Um deles é como resolver meus frilas, já que sou precária como trabalhadora, autoempreendedora de dores, e as frustrações se acumulam conforme os valores baixos que recebo vão chegando.

Meditação seria a primeira coisa a fazer, mas tenho lá meus problemas pra conseguir tocar isso adiante sozinha. E a pandemia meio que me paralisou. Como vetei academia, não vou malhar, razão pela qual engordei demais.

Agora tento andar um pouco, embora o sol esteja excessivo nestes dias e eu evite a noite, período em que por aqui proliferam suicidas angelicais embriagados nos bares.

Então fico assim olhando a janela.

Vou pra rede balançar.

Música toca sempre por aqui.

E faço uma bobagem surpreendente. Pego esses links de museus e vou baixando imagens e livros no meu drive.

Me dá uma alegria de viver que nem te conto.

E calma.

Muita calma.

Tão bonita manhã

Depois de meses trancada em casa, senti minhas costas travarem.

E decidi recomeçar a andar pela vizinhança, com máscara reforçada e sufocante, para impedir essa dor de crescer.

Igualmente precisei de algo para que o dia não morresse com tanta tristeza em mim.

O pôr do sol me conflitua. 

Insisto em vê-lo como um adeus.

Mas paradoxalmente amo a noite na minha janela, aos poucos tornada galáctica e profunda.

Hoje, ao andar sob o sol forte, redescobri muitas ruas do meu entorno histórico.

Amei tudo. 

Estive perto de tudo.

Do mercado, do povo de máscara no queixo, da ruína.

Sou consciente da miséria que só cresce e das ruas não varridas pelo ladrão de merendas.

Mas não fico triste.

Alguma beleza, apesar disso tudo, ainda acende em mim a cada passo dado no chão.

Eu sinto que sou capaz de distribuí-la por essa cidade cujo pulso é também o meu e cuja história me pertence.

Manhã, tão bonita manhã, chegue de repente.

Máscara, o style de um povo

Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.

Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.

Jogo minhas tranças

estou abrigada, como e durmo bem, o quanto precisar.
sou uma privilegiada até mesmo entre as centenas de habitantes da minha rua, onde justamente agora, no meio da noite, alguns seres humanos caçam os outros, sempre aos gritos, pela calçada.
ouço tudo o que se passa, aqui do alto da torre.
e tenho bons ouvidos.
mas suspeito que não será só esse o barulho a chegar até mim.
depois de setembro tudo isto ficará muito pior.
sem auxílio emergencial, o resto de civilidade que as pessoas ainda exercem será difícil de manter.
hoje passei um dia improdutivo porque descobri ser privilegiada demais por ter um cartão de crédito, esse que uso para fazer as compras durante a pandemia.
e ninguém nunca mais vai deixar isso barato pra mim nem pra ninguém.
os cartões continuarão sendo clonados agressivamente para que os bandidos roubem… carros alugados na localiza, roupas e bonés no mercado da street wear.
estamos perdidos.
é por isso que me afundo nos livros e nos filmes.
suspeito que seria menos devoradora da arte se este país fosse mais feliz.

Amores de outras nuvens

Noto que todo o mundo pandêmico voltou a uma espécie de condução rotineira, e que os viventes lá fora aprofundam-se em dois comportamentos. Ou se adaptam bem aos cuidados higiênicos contra o vírus ou infelizmente suicidam-se, daquele jeito rápido-lento, ao ignorá-los. Mas todos produzem. Até os que no início achavam importante parar, nem cobrar-se durante este período, produzem incessantemente agora.

Eu também produzo. Mas não incessantemente. Não concretizo de modo tão fácil o que ando pensando. Porque sou lenta. Naturalmente. Me traduzo num reflexo. Sou de gastar tempo com a risada, de modo a que ela me cure da vontade de parar tudo, de desistir.

Hoje pude testemunhar o sorriso de Hannah Arendt na entrevista que o perfil do Instagram @hannaharendtbr legendou em português (https://m.youtube.com/watch?v=PG8BYwv9IBQ&feature=youtu.be). Tão linda! Senti uma paz imensa ao saber que ela o advogava. E que foi até mesmo perseguida por sorrir. Aquela certeza de que três minutos antes da morte ainda daria sua risada…

Então, no meu caso, antes de recomeçar de algum ponto perdido, sempre preciso ouvir o que diz meu oráculo da alegria. Meu coração intuitivo. Ou qualquer produção se fará errada, corrigível. E precisarei voltar ao início.

Tudo em minha vida precisei fazer minimamente alegre. O jornalismo, por exemplo. Me lembro que era redatora da Folha quando um repórter que se considerava importante veio até minha mesa perguntar, inconformado: “Do que você tanto ri? E pra quê?” Minha alegria o impedia que advogasse sua sisudez, sinônimo aquiescido de seriedade profissional. Continuei rindo depois disso. Até por pena.

Pedalo por pedalar, vivo pelo gosto de viver, estudo porque preciso… Imagine rir escrevendo o doutorado, se é possível! Imagine, além disso, estudar humor!

Não sei o que esta quarentena terá feito de mim ao final, além de mais gorda uns cinco ou seis quilos, com a liberdade grisalha testada e adquirida em minha cabeça. Mas suspeito que não sairei tão triste desta experiência, se tiver a sorte imensa de sair.

Meu filho tem me achado bonita. Diz que não se lembrava dos meus cabelos compridos. Tenho vontade de presenteá-los a ele, aos meus, à família e aos amigos da arte (vocês sabem quem são). Sem essa gente de outras nuvens, o meu mundo, sempre tão voltado para dentro, antes mesmo de o isolamento forçado acontecer, jamais seria feliz como tem sido.

Obrigada sempre.

Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.