Impiedosos instantâneos

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Ninetto Davoli, Silvana Mangano e Totò em La Terra Vista Dalla Luna, de Pasolini, em As Bruxas

“As Bruxas”, no ciclo Visconti do Cinesesc, em São Paulo, é a arte mais maravilhosa. Pena que a próxima e única exibição desse filme de episódios realizado em 1966 se dê no dia 13 de março, no horário ingrato e vagabundo das 14 horas.

Visconti não faz a melhor entre as cinco narrativas (os outros realizadores são Pier Paolo Pasolini, Mauro Bolognini, Franco Rossi e Vittorio de Sica), talvez porque caminhe como um estranho pelo conto, ademais humorístico, marca deste filme.

Quem admira os representantes do gênero, Tchecov em especial, sua brevidade sem necessário desfecho ao destacar as misérias sociais, os golpes de sua trágica comicidade, vai entender a pertinência do filme de episódios, este que viabilizou o cinema na Itália no início ameaçador (por fim destruidor) da tevê. Os contos compreendem a vida urbana e fixam seus impiedosos instantâneos.

Visconti, na direção contrária, precisa do tempo do romance. Ele é mais (no sentido normalmente evitado) que um diretor de cinema. Eis um encenador teatral a observar, à distância de sua audiência, o erro burguês…

Que aulas as suas sequências de batalha! “O Leopardo”, esse western, encena a guerra real, seca. “Senso” a movimenta com realismo, sem temer o grotesco. Goya entra delicadamente por seus poros! Visconti sabe o que é lutar. 

Em “As Bruxas”, roteirizado por magos  da comédia sequencial como Age e Scarpelli, por fabulistas como Cesare Zavattini e pelo próprio Pasolini, a magia do cinema mudo, das máscaras faciais, daquele Totò inspirado em Chaplin, tomam a tela como um pequeno milagre. Todos os episódios são protagonizados por uma grande Silvana Mangano, a mulher de Dino De Laurentiis, produtor que além de levar Totò e Alberto Sordi ao filme convenceu Clint Eastwood (20 mil dólares e uma Ferrari) a destruir o impotente americano médio com um sarcasmo de aplaudir.

Esses filmes de episódios que os italianos faziam para salvar o cinema dos medíocres sempre me emocionaram. Às vezes não eram muitos os diretores reunidos. Dino Risi, por exemplo, apreciava tanto o modelo que fazia longas inteiros a partir de seus próprios pequenos contos violentos. Em “Os Monstros” e “Le Donne sono Fatte Così” (com Monica Vitti à frente de múltiplas interpretações das mulheres italianas), nunca foi tão certeiro. Um ferido a nos ferir…

Escrevo quando deveria dormir. Por empolgação amorosa, sem dinheiro. Quem dera voltar a este filme. Talvez um dia volte a todos os filmes. 

Meu conselho é que aproveitem o ciclo Visconti para também estar com Fellini, Pasolini, Rossellini, Monicelli…

Não percam “Bocaccio 70” e “Nós, as mulheres”.

Por seu deus.

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