Morte e graça do cowboy

Sou uma pesquisadora de humor.

Especialmente, do humor no cinema.

Humor relegado.

Diria pisoteado…

E ontem assisti finalmente aos Cohen de “The Ballad of Buster Scruggs”, na netflix.

(o trailer aqui https://www.imdb.com/videoplayer/vi921942553)

Sim, netflix, porque ingressos de cinema têm sido caros, não é?

E desconfortáveis as salas durante a experiência, exceto por aquelas sessões em que acontecem o “Lula livre” e o “Ele não” e a gente libera a raiva, mas raiva não pode, ahn, a tristeza.

Então.

Me sinto feliz que os Cohen tenham partido pro streaming (meu teclado vermelho quis screaming, ele sempre me adivinha…)

Os Cohen, esses herdeiros a cada dia de uma comédia peculiar, à italiana!

Muito apreciados por Mario Monicelli, que via neles o esforço pelo exercício essencial do cinema mudo.

Essa comédia que estudei no doutorado lá na USP…

(Desculpem por isso, não vinha sentindo a necessidade de frisar.)

Bem, trata-se de um filme de episódios que brinca com o gênero western na sua maneira fabular.

Os episódios se abrem como um livro, com ilustrações a evocar uma época editorial.

Cada página cita uma frase-chave de um diálogo que vai correr.

E o ilustra com uma filmagem.

Eu começo pela evocação do livro porque, de tão fantástica, me transporta a uma recuperação infantil, que é um dos procedimentos do humor.

Eu era leitora de histórias ilustradas.

Exatamente como acontecia com a Alice de Lewis Carroll.

E me lembro de um livro perdido na casa de meus pais em que as ilustrações não eram as originais de John Tenniel para as histórias do Carroll, mas muito icônicas e evocativas a seu modo, apesar de subproduto da Disney…

Não li livros sobre western, mas adorava as HQs italianas do Tex.

Western sempre foi um gênero muito bem absorvido pelos italianos.

Esses míticos “nacionalistas” que se veem injustiçados…

Estão nas histórias dos Cohen uma estranha polidez e a graça do cortesão renascentista, personificadas no cavaleiro solitário sobre a poeira.

O cowboy e suas leis, diferentes da regulação social restritiva.

O cowboy e seu canto livre!

O filme é então por isso muitas vezes um musical macabro – o músico Tom Waits aparece extraordinário em um dos episódios.

E nós, como espectadores, vivenciamos cada drama interno ilustrado.

Um entrar no coração dos personagens que não é fácil.

O Fellini de La Strada, por exemplo, comparece à sombra de um contexto determinado, para facilitar esse “acesso”…

As glórias e a pequenez dos homens e mulheres, exemplificados.

E, principalmente, a morte visitadeira.

Em todos os episódios, uma morte ou mais, como a commedia all’italiana normatizou e exerceu.

A morte que realça o drama – ou simplesmente determina a qualidade do humor.

Necessária e inesquecível.

E a morte metafórica, dos sonhos, da civilização.

A carruagem de Maupassant/Ford, o sorriso de Walter Huston…

Tudo o que a cultura cinematográfica nos trouxe e é nossa por direito e transmissão imaginativa.

Isto não é crítica de um belo filme.

Corre perigosamente como uma história de amor.

zoolander 3

zoolander 2 está no netflix.

o maior e mais complexo filme dos últimos dois anos, amores.

quem dera tivéssemos um ben stiller, este novo mel brooks, para protagonizar nossos desatinos.

(e eu poria menino ney no filme 3).

Impiedosos instantâneos

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Ninetto Davoli, Silvana Mangano e Totò em La Terra Vista Dalla Luna, de Pasolini, em As Bruxas

“As Bruxas”, no ciclo Visconti do Cinesesc, em São Paulo, é a arte mais maravilhosa. Pena que a próxima e única exibição desse filme de episódios realizado em 1966 se dê no dia 13 de março, no horário ingrato e vagabundo das 14 horas.

Visconti não faz a melhor entre as cinco narrativas (os outros realizadores são Pier Paolo Pasolini, Mauro Bolognini, Franco Rossi e Vittorio de Sica), talvez porque caminhe como um estranho pelo conto, ademais humorístico, marca deste filme.

Quem admira os representantes do gênero, Tchecov em especial, sua brevidade sem necessário desfecho ao destacar as misérias sociais, os golpes de sua trágica comicidade, vai entender a pertinência do filme de episódios, este que viabilizou o cinema na Itália no início ameaçador (por fim destruidor) da tevê. Os contos compreendem a vida urbana e fixam seus impiedosos instantâneos.

Visconti, na direção contrária, precisa do tempo do romance. Ele é mais (no sentido normalmente evitado) que um diretor de cinema. Eis um encenador teatral a observar, à distância de sua audiência, o erro burguês…

Que aulas as suas sequências de batalha! “O Leopardo”, esse western, encena a guerra real, seca. “Senso” a movimenta com realismo, sem temer o grotesco. Goya entra delicadamente por seus poros! Visconti sabe o que é lutar. 

Em “As Bruxas”, roteirizado por magos  da comédia sequencial como Age e Scarpelli, por fabulistas como Cesare Zavattini e pelo próprio Pasolini, a magia do cinema mudo, das máscaras faciais, daquele Totò inspirado em Chaplin, tomam a tela como um pequeno milagre. Todos os episódios são protagonizados por uma grande Silvana Mangano, a mulher de Dino De Laurentiis, produtor que além de levar Totò e Alberto Sordi ao filme convenceu Clint Eastwood (20 mil dólares e uma Ferrari) a destruir o impotente americano médio com um sarcasmo de aplaudir.

Esses filmes de episódios que os italianos faziam para salvar o cinema dos medíocres sempre me emocionaram. Às vezes não eram muitos os diretores reunidos. Dino Risi, por exemplo, apreciava tanto o modelo que fazia longas inteiros a partir de seus próprios pequenos contos violentos. Em “Os Monstros” e “Le Donne sono Fatte Così” (com Monica Vitti à frente de múltiplas interpretações das mulheres italianas), nunca foi tão certeiro. Um ferido a nos ferir…

Escrevo quando deveria dormir. Por empolgação amorosa, sem dinheiro. Quem dera voltar a este filme. Talvez um dia volte a todos os filmes. 

Meu conselho é que aproveitem o ciclo Visconti para também estar com Fellini, Pasolini, Rossellini, Monicelli…

Não percam “Bocaccio 70” e “Nós, as mulheres”.

Por seu deus.