Casa de Francisca, ouça aqui

Adriana Moreira na Casa de Francisca em 23 de junho de 2023

Eu morro de amores, como qualquer paulistano necessitado de música, pela Casa de Francisca, lá na Quintino Bocaiúva. É um lugar com tantas histórias. Quando criança, por exemplo, eu buscava naquele endereço, entre outros locais do centro, minhas partituras para o estudo penoso do piano clássico.

E hoje fui a esse espaço, tornado localidade para shows, com toda a dificuldade que isto representa (o centro de São Paulo, especialmente à noite, sangra só). A grande sambista Adriana Moreira brilharia naquele palco com sua voz. E ela é tudo, sejamos sinceros (vida, beleza), enquanto me ponho a considerar: valorizamos Adriana como deveríamos? Ou qualquer outra intérprete brasileira recente? Por enquanto, só a Monica Salmaso, depois de 40 anos de carreira, parece desfrutar de reconhecimento desejável – e isto não apenas por suas imensas qualidades, mas por ter ganhado a chance de rodar em turnê recente com o Chico Buarque.

Adriana e seus Moreiras – os filhos Pedro, no trombone, e Rafael, na percussão – dão mais que o recado sambista na Casa de Francisca que ontem eu vi. Dão seu coração, sua ancestralidade, a nós que passamos por aquele local, tantas vezes, apenas pela quase certeza de experimentar o alívio para nossas últimas dores. O meu país é meu lugar de fala, lembra Adriana em seu show, um país que ainda soa rouco, viciado unicamente nos amores antigos da nossa grande música popular de sempre.

Então é com muito carinho que dirijo à Casa de Francisca minha preocupação como frequentadora. Tornou-se um lugar algo triste para quem o procura como público. Eu poderia dizer que a organização ruim, o serviço atrapalhado, cansaços visíveis, sugerem uma espécie inicial de abandono?

São pequenas grandes coisas somadas. As cadeiras onde nos sentamos ao fundo, por exemplo, para que nos sirvam, notadamente exigem conserto. Sim! Uma pessoa de minha idade, ou mais nova que eu, merece sentar-se com conforto, sem afundamento, para usufruir, livre da possibilidade de dores pelo corpo, o maravilhoso som que sai do palco.

Não mereceríamos um toalete de meninas diferente daquele que vi hoje, onde um entupimento gasoso passeia por nossos narizes incessantemente? O banheiro precisa apenas de manutenção, não deve ser difícil fazer.

Até parece que o olho do dono lhes falta. Ou um olho de amor. A comida ainda é boa, e os garçons se viram como podem diante da imensa demanda. Mas na noite de Adriana, por exemplo, fui informada de que não poderia ir ao banheiro sem antes pagar a conta da noite no próprio salão. Claro que havia outros antes de mim… Foi cômico, pra não dizer ruim!

Falo tudo isso como se fizesse uma caricatura, como se enviasse um sinal. E a Casa que entenda como achar preferível. A vida é curta e, como em tudo, precisamos experimentá-la com gosto para que surja o grande sabor.

Quando Ray Charles aceitou atuar para Fran

O músico está no topo das atrações especiais da série “The Nanny”, reprisada no streaming da HBO

Fran Drescher e Ray Charles
em “The Nanny”

Amo “The Nanny” e especialmente nos dias tristonhos (têm acontecido, sei lá) maratono os episódios na HBO feito boba. Rio muito sempre, mas hoje chorei.

Não me lembrava, à época em que a série passou desordenadamente (como sempre acontecia) na TV aberta, da aparição de Ray Charles como o noivo da hilária vovó judia de Fran.

Ele (que vi num show inesquecível em São Paulo, talvez um dia conte isso melhor) parecia amar atuar. Já fora aquele astro todo no filme “Blues Brothers”, mas aqui parecia solto, rindo entre as falas, além de surgir em outros episódios da série, ao contrário do que ocorrera com outros dos muitos convidados especiais, como Hugh Grant, Liz Taylor, Chevy Chase, Elton John, Dan Aykroyd, Patti LaBelle, Brian Setzer…

Alguns anacronismos aqui e ali não mancham o timing dessa comédia tão querida, escrita, atuada, caricaturizada e produzida por Fran Drescher.

Recomendo, viu, crianças?

Ann Morgan Guilbert, a vovó Yetta, com Ray Charles, seu noivo Sammy…

Textos “jurídicos” contra Gauguin

Era só o que faltava. Em lugar de relevar os processos materiais envolvidos na complexa pintura do artista, o Masp, de modo a proteger a instituição de seus acusadores, opta por cancelar os comportamentos de um pintor que viveu profundamente as contradições de seu tempo

“Ela pensa na assombração”
ou “O espírito dos mortos vigia”, litografia a bico de pena, lápis e aguada, 1894

O Masp organiza uma exposição como essa da obra de Gauguin, trazendo até mesmo gravuras que mostram a diversidade desse talento, entre a escuridão e a complexidade cromática, sua excelência em compor as cenas de modo a encaixar muitos quadros em um só, a capacidade de fazer o fundo emergir, as ondas no horizonte visíveis e brilhantes… E ao fim esse mesmo museu mancha tudo ao explanar a carreira do artista com textos acusatórios. Textos jurídicos, à beira do cancelamento. Palavras que jogam o artista pra baixo, sua masculinidade dita tóxica ao retratar mulheres não-europeias no século XIX… Sinceramente, falta do que fazer.

Por que, em lugar disso, não se ocuparam em discutir o que falta, a descrição dos processos materiais do artista, a forma com que mistura e cria novas cores, as tintas que usou e como usou? É tudo tão irritante nesses textos que a certa altura simplesmente desistimos da leitura. E podemos fazer isso tranquilamente, porque Gauguin dispensa as escusas de seus curadores brasileiros. Não perca esta exposição. A beleza é inacreditável e supera medíocres princípios advocatícios.

PAUL GAUGUIN: O OUTRO E EU. Até 6 de agosto de 2023. Curada por Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP; Fernando Oliva, curador, MASP; Laura Cosendey, curadora assistente, MASP.

Rita em tudo

eu nem mais próxima da Rita Lee era, cansada de vê-la mimetizar as reacinhas do saia justa e no twitter, embora tenha me sentido sua fã absoluta desde a infância, e tivesse visto um show seu em 1979, por aí, naquele ginásio da improvável Fortaleza onde eu passava as férias escolares com a família, e houvesse amado tudo, apesar da acústica ruim, mas principalmente vê-la conversar com a gente, linda, elegante até o impossível, toda de branco, com a franja no cabelo vermelho comprido e liso, parodiando as próprias canções, surpresa pq não conhecíamos ‘meu bem você me dá água na boca, no chão, no mar, na lua, em cima da pia’, e a menina triste aqui dentro não podia parar de pensar como seria bom se soubesse rir de mim mesma como ela, tão genial, fazia consigo própria, enquanto eu tentava explicar confusamente aos meus primos nordestinos o que queria dizer ‘orra meu’, minha rita linda e louca, o choro não tem fim nesta solidão do momento sob o sol, não tem!

Imagine all the people

Amo São Paulo. Mas a amo vazia.

Não sei negar conversa e me arrepio. Ainda não digeri o que me disseram hoje de manhã na hidro do Sesc. Do Sesc, bem entendido, não do Clube Pinheiros. Mais ou menos isto:

“Estamos num mato sem cachorro. Fodidos. Deveríamos tirar Lula já, mas não fazemos isso porque somos acomodados. Os noias não devem ser alimentados por nós, porque se acostumam mal. Eles agem em quadrilha. Eles estão chegando em Santa Cecília. As tendas! Precisava pegar esse povo da Cracolândia e colocar numa casa. E quem quisesse se matasse lá. Lula só viaja. Foi vaiado em Portugal. E levou sindicalista e sem-terra na comitiva. Agora vai cobrar imposto sindical na aposentadoria. Se ainda tivermos aposentadoria! Essa história de o Brasil se meter na guerra da Ucrânia não dá pra acreditar. Bolsonaro deu azar porque teve a pandemia no meio.”

De noite, no ônibus, não tenho coragem de expulsar do meu lado no banco o homem preto bonito, todo vestido e totalmente bêbado, com aquela bebedeira sem fim nem começo, que insiste em me apertar pelos olhos, mesmo estando eu a escutar música pelo enorme fone de ouvido vermelho, com o rosto voltado pra janela. Acha que sou alguém muito conhecida dele e não se conforma. Deixo ele falar o quanto quer. É uma fala adoecida pelo mundo, não aquela da manhã na hidro, pra adoecer.

Amo São Paulo vazia. Que a imaginação nos crie.

O plausível impossível

Respostas cretinas para perguntas imbecis. Este era o nome de uma das seções da revista Mad que ninguém seria louco de perder. Al Jaffee, morto hoje aos 102 anos – e ele deveria ter vivido bem mais -, era seu autor.

O artista fez do humor, sobrevivência. E de forma literal. Atropelou a fome, a miséria e os maus-tratos familiares como se estivesse ele próprio num cartum, forte e invencível.

A seguir, no calor da emoção, mostro a vocês a tradução que fiz do prefácio de Mary Lou Weisman ao livro que Al Jaffee aceitou ilustrar à véspera de completar 89 anos. O livro sobre sua vida. Sobre a dor de viver, transformada em beleza, um dos apelidos do humor.

Prólogo a “Vida Louca (Mad Life) – Uma biografia”, de Mary Lou Weisman.

O “plausível impossível” é uma expressão que se aplica exclusivamente à arte dos desenhos animados. É o “plausível impossível” que faz Pernalonga cair de pé depois de desabar de um penhasco, atravessar um abismo e sair correndo do outro lado, completamente inconsciente do terrível destino que, exceto por uma suspensão mágica e momentânea das leis da gravidade, deveria ter-lhe ocorrido.

É o princípio cômico orientador – ao mesmo tempo emocionante e ridículo – que habita o cerne dessa arte. A suspensão voluntária da descrença tem uma lógica própria. O que mantém Pernalonga no ar, o que torna o impossível, plausível, é ele não olhar para baixo. Al Jaffee demonstrou em sua longa vida, tanto quanto em sua arte, dominar com imenso talento esse princípio.

O artista desfruta de uma relação especial com o plausível impossível. Para ele, é mais do que um termo artístico. É a história de sua vida. Um resumo dos anos de formação de Al parece uma história em quadrinhos de ganchos traumáticos, com desenhos de Jaffee e legendas de Freud.

Al foi separado de seu pai, abandonado e abusado por sua mãe, desenraizado de sua casa em Savannah, Geórgia, criado por quase seis anos em um shtetl lituano e retornado para os Estados Unidos – isto quando tinha 12 anos. Até hoje, ele tem um problema com a ideia de confiança. Al Jaffee acredita que nem tudo vai ficar bem. “Eu experimentei tanta humilhação que me mantive na defensiva. Eu não sou lixo. Eu não sou lixo. Mesmo os sem-teto, os mais humildes, têm um forte senso de dignidade.”

Al usa sua dignidade como uma carapaça, uma cobertura surpreendente, talvez, para um homem que vê o ridículo da vida. “Ele é sempre um cavalheiro, muito bem-educado sem ser rígido”, diz o ilustrador e escritor Arnold Roth, que trabalhou com Al e é seu amigo há décadas. Ainda assim, Roth observa: “Sempre existiu uma tristeza em Al. Havia acordes menores tocando ao fundo. E eu não entendia por quê.”

Nick Meglin, que foi editor de Al e amigo na revista MAD por décadas, ficou surpreso quando soube que um homem engraçado desses emergiu de uma infância tão triste e sem humor. “Como fã, estou tão agradecido quanto perplexo por ele ter feito tudo o que fez.”

A menos que alguém pergunte, Al não falará sobre sua infância – nem sobre os anos de fome no shtetl na Lituânia, nem sobre as indignidades de viver como um cidadão de segunda classe na casa de outras pessoas. “Eu não ofereço a informação. Se alguém a quiser, terá de arrancá-la de mim.”


Sua juventude extravagantemente perversa fez dele o homem que é hoje – um satírico, um artista e escritor, um contador de histórias, um adolescente e um alienígena -, uma pessoa qualificada de maneira única para apresentar aos jovens o mundo da hipocrisia adulta nas páginas de uma revista chamada MAD.

O que eu sei é que só se fala do arrastão na farmácia aqui no centro.

Fui olhar o filme feito a partir de uma janela no alto. E fiquei impressionada com a imagem de dezenas de sem-teto/noias do sexo masculino a sair pela porta levando qualquer coisa nas mãos (como fraldas), tiradas das estantes deixadas vazias, sob o olhar impotente de cinco seguranças vestidos de preto que não sabiam o que fazer com seus… bastões.

Algo muito particular aconteceu ali, que talvez se relacionasse com indignação. Vc não se arriscaria a entrar numa farmácia em mutirão para roubar apenas um pacote de fraldas, certo? Só se tivesse muita raiva, ódio daquele lugar e do que os seguranças aprontaram para defender o estabelecimento ou se favorecer diante de alguma situação de fragilidade.

Malditos prefeito, governador, GCM e PM que tratam essas pessoas no centro como lixo o ano inteiro, desfazendo suas tendas e cobertores.

Quando vcs aceitam humilhar moradores de rua, atacam todos os outros habitantes da cidade de uma vez. Que esses sem-teto se rebelem é questão de tempo.

Não sei, por exemplo, por que não tiramos esse prefeito imediatamente de onde está.

Não sei por que a revolta sempre se deu tão mal no livro de história chamado brasil.

VALEI-ME, HOMEM-PÉTALA

Vinha com uma saudade imensa de Djavan, que afastei da minha vida após a treta de ele apoiar o verme.

Mas hoje eu o ouvi pela manhã e pensei: caramba, esse sujeito ama demais…

E então passei a fabular que um homem-pétala como ele não apoiou verme coisa nenhuma, apenas se expressou mal.

Porque, no sentido estrito, quando foi mesmo que Djavan se expressou bem, racionalmente, escorreitamente bem?

Valei-me!

Pode ser que ele não tenha entendido a própria opinião, já que em tudo o que faz fica faltando um pedaço toda vez.

E é justamente isso que eu amo e de que preciso na canção. Preciso de canção! Preciso que ele, que Luiz Melodia corra em círculos e me deixe completar os espaços, elaborar uma ordem nas suas imagens, essas que ainda se materializam em todos os momentos cor de sangue da minha vida.

Caçadores do ambíguo, do contraditório, do imperfeito, fotógrafos de rua, como entendo! Fotografar os sentidos, esse é o segredo que não pode morrer com eles…

O cio vence o cansaço, sim.

Mas hoje as letras de sucesso da indústria cultural, da música agrobrasileira, são mesmo as trevas, um vazio, um estupro, e eu sempre me pergunto: o Brasil quer mesmo ser arrebentado?

“Me dá logo aí, ô dona, enquanto eu bebo minha Stella, tô atrasado pra Dubai”?

Até parece que há um Brasil sem tempo pra poesia, um Brasil precocemente ejaculatório dos infernos, que até o momento impõe seu ritmo breve…

Tô fora desse Brasil!

Tô em Resende macaleando & djavaneando meu mundo-melodia, o que há de bom.

Estou no hoje-djavan como no hoje-Saulo Duarte, no hoje-Negro Leo, no hoje-Kaboom 23, hoje-MAô, hoje-Kafé, no hoje-Zeferina, no hoje-Lia de Itamaracá!

Arrebentar, só o mar!

erramos uma ova

não me venha a folha falar em erro ao mandar publicar uma versão não aprovada do editorial.

essas coisas não são assim.

editorial é sempre uma bomba atômica checada e rechecada mil vezes por funcionários antigos e bem pagos.

não raro os editorialistas almoçam e jantam com seus patrões, para então assimilar seu mundo, sua cabeça oca. e se os patrões pediram assim, alguém teve de escrever assim – razão pela qual houve um texto finalizado com esse teor.

aconteceu, isso sim, de o mundo ter caído por lá no dia seguinte, o mundo jurídico, imagino.

bando.