na vida me acusam de difícil
(palavra campeã)
terrível
arrogante
radical
exaltada
dura
ingênua
cega
emotiva
militante
intelectual
sensível
intelectual sensível
embora eu desconfie que estas, em lugar de acusações, sejam as minhas poucas qualidades
na vida me acusam de difícil
(palavra campeã)
terrível
arrogante
radical
exaltada
dura
ingênua
cega
emotiva
militante
intelectual
sensível
intelectual sensível
embora eu desconfie que estas, em lugar de acusações, sejam as minhas poucas qualidades
Conheci o Reinaldo. Convivi com ele no final dos anos 1980, um sujeito muito culto e inteligente. E é verdade que admirava desde então a sagacidade de Lula, talvez por reconhecer de onde ela vinha, da ausência de visibilidade social. Reinaldo nasceu sabendo que era maior que este mundo, como Lula, claro, também.
Principalmente, Reinaldo foi sempre submisso ao poder, a tudo o que emanasse dele. Apaixonado pelo patrão do Diário do Grande ABC, que o descobriu, entregou-se ao Frias posteriormente. E viveu essa pataquada de ser de direita esses anos todos porque era moda, desde o Paulo Francis, apresentar-se conservador. Isto agradava aos patrões. Reinaldo sempre foi chaveiro de quem tem o poder.
Qualquer um admiraria a qualidade direitista num jornalista disposto a fazer carreira. Seja conservador, seja herói. Daniel Piza, Mario Sabino, trabalhei pra todos e segurei a onda de
todos. Piza sempre foi acochambrado, um menino do deslumbre, que comprava roupa na Daslu. Mas Mário era do PT e escrevia pra sua revista. Todos, exceto o Mário, me viraram a cara ou traíram, razão pela qual me inquieto com sua porção vendida atual.
Mas voltando a ele, o Reinaldo. O Reinaldo que conheci não permitiria uma crítica sequer a Marilena Chauí. Naquele tempo, a complexidade da filósofa tinha algo de mitológica, emanava um poder ao qual quem é invisível se entrega facilmente. Mas isto, como tudo, passou.
Pois bem, Lula.
Reinaldo está enamorado de Lula, por que não? Até hoje fez tudo para chamar sua atenção. Quer amalgamar-se a ele, como fez com o Frias e talvez agora, sei lá, faça com o Johnny Saad. Ele interrompe Lula o tempo todo na tentativa de equivaler suas experiências de vida. Eu fiz isso, você aquilo. Eu, eu. Você me ouvia na prisão, Lula?
Não, Reinaldo, você não governou o Brasil. Não, ele não poderia prestar tanta atenção assim em você, tenho vontade de dizer. Não, Reinaldo, filé mignon não quer dizer macio, mas pequeno – porque se eu não lhe explicasse isso lá em 1990, ele iria querer entrar na porrada verbal com o dono do restaurante, por considerar seu medalhão insignificante no prato.
É muito inteligente, repito. É engraçado. Mas uma inteligência perdida. Eu não saberia explicar direito como acontece uma coisa dessas.
tem horas, como agora, que é duro pensar no que somos, todos nós, um a um, neste momento que gira nossas cabeças.
tristes, cansados, brasileiros, bêbados.
(e minhas costas doem.)
em que dimensão nos jogaram, Doug? onde o túnel foi parar?
hora de dormir, e não consigo desaparecer.
essa tragédia que não ensina nada a ninguém não sai diante dos olhos, entra pelos sete buracos da minha cabeça, essa presença, essa ausência.
estava assistindo a “La ronde”, do Max Ophüls, 1950, e de repente a bicicleta no carrossel (sim, havia uma bicicleta no carrossel) girava e girava e me ligava diretamente aos ciclistas da rapi andando sem máscara.
“La ronde” é uma ciranda de amor, uns contos de amor entrelaçados em que um cavalheiro se segue a outro em sua perdição amorosa cotidiana, e as mulheres são irônicas, e os ridicularizam, pois nada mais podem fazer, e todos voltam ao mesmo lugar…
Estruturas de sonho de Arthur Schnitzler, o autor da peça de origem.
(Prazeres tolos: é a tolice, não o prazer, o pecado.)
Há um momento em que um desses homens se torna risível ao lado de uma mulher casada na cama – e sabemos disso porque lá fora um fusível do carrossel pifou.
me senti aquele fusível!
e ele também, o personagem, é claro. ele cita stendhal pra dizer que amor demais pode derrotar… mas ela só levanta os grandes olhos, pobrezinho, não foi desta vez.
divertida essa peça de Arthur Schnitzler, a gente supõe, tanta coisa inventiva que o Ophüls faz a partir dela. O muito com tão pouco, os reflexos pela janela num cenário repleto dos badulaques burgueses, mimos e cristais! Vejo hoje que as comédias italianas citaram tão bem esse estado de coisas, que Buñuel, que não é bobo bem nada, foi atrás disso no anjo exterminador.
Essas iluminações rosíneas me alegram, às vezes é tudo o que eu tenho de meu, mas não, agora não, nada me traz paz.
depois do filme, é preciso mais uma percorrida no celular (quem mais nos engana, quem agora nos quer mal?), mais um texto, mais um poema, ou nada vai acontecer.
ciranda, carrossel, cavalo, bicicleta…
estamos sós!

A foto que sempre retorna pra gente sorrir, pra matar a inveja que temos dos grandiosos, pra liberar a eterna opressão de sermos sempre esmagados, os últimos mesmo nesta vida…
Não adianta você ser esse Mick Jagger tão especial, o mais cool deste mundo, com suas meias de cores diferentes e sua linda calça cor de rosa: você em algum momento vai ter, sim, a atenção roubada pelo careta mais lindo vestindo um brilhoso terno modelo antigo.
Ao ouvir os urros de “fora, uhu!” na minha janela, cheguei a achar que Bolsonaro tivesse sido deposto ou morto.
Mas não.
Era uma comemoração como nunca vi pela saída de Karol Conká do BBB.
Quem manda a gente perceber a realidade enquanto imersa na escritura de um artigo sobre Totò?
O pior de tudo, no caso da negativa de gratuidade da passagem àqueles entre 60 e 65 anos, é que prejudicar o pobre nesse quesito sempre se faz assim, no fim do ano e entre as festas, quando todos têm os olhos voltados para outra coisa. Nem originais são, porque assim agiram os prefeitos/governadores em conluios anteriores.
E não se vai reclamar por isso agora, nem pelo aumento de 46 por cento nos salários dos executivos, com a covid à porta.
Eu tinha aqui guardada uma foto em que um sem-teto está diante de uma parede próxima da prefeitura com a inscrição “morra Bruno Covas”.
E não usei.

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.
A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.
E nem os sapatos me servem mais.
Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.
Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.
É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.
Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.
Um deserto para os sonhos que tive, e não procuro o futuro.
Jamais soube obedecer.
A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.

sonhei que me mandaram fazer uma matéria no shopping onde uns artistas se apresentavam.
queriam seus perfis.
contudo, eu não identificava artistas entre as figuras com quem cruzava. muitas mulheres falavam alto, para um grande público, mas eu não entendia o que diziam, se eram artistas ou não, e passava adiante.
então comecei a conversar com a moça que engraxava sapatos sorrindo.
tirei fotos dela, acompanhei-a até encontrar seu filho e saí do shopping em dúvida.
“fiz a matéria ou não fiz?”

A gente luta pra dormir sem livro e não consegue. Então a gente pega um livro de histórias curtas pra ver se o sono embala rápido essa nossa cabeça culpada e doída, na velocidade da historieta.
Toda noite isso.
E nada acontece.
O tempo não existe na literatura. E as imagens são poderosas mesmo se longas ou pequenas. Não adianta usar a literatura pra nada, porque, usada, ela nos rejeita.
Mas isto de ler novelas de Proust na cama na hora de dormir funciona às vezes pra mim, sim. Assim como as novelas e os cachorrinhos nos contos de Tchecov. Bulgakov, que ousei comprar na feira do livro, vai ser interessante absorver no que tem de riso, tristeza e potencial sonífero.
Hoje foi a vez de Conceição Evaristo e seus Olhos d’Água. A passagem do tempo, a profundidade do rio, a cor dos olhos de minha mãe, o espelho que vem a ser nosso inconsciente, a fome, a mulher, quem é a mulher, quem são suas filhas.
Não me ajudou a dormir.
Acho até que não dormirei nunca mais.
trabalhei na folha com thais oyama quando ela começava como repórter e eu, como redatora.
escrevia bem e rápido e os homens a amavam. o glauco cartunista, por exemplo.
não era minha amiga. mal nos cumprimentávamos. mas estava na cara que se destacaria na carreira.
acho que a veja fez a cabeça dessa mulher. e dela extraiu para sempre um lado obscuro, como acontece a muitos jornalistas de passagem por lá.
isto nada tem a ver com o debate no uol no qual ela fez papelão. no fundo, era o papel exigido dela como jornalista de linha golpista burguesa brasileira.
acho que foi o uol quem pisou na bola. não tem de correr segundos como fez. nenhum anunciante está na grade exigindo a hora de aparecer. deixa o povo falar, gente. é importante para o eleitor. e com bom senso tudo se consegue.