democracia pelos cacos paulistas

o local da votação é tão longe que vou de carro.

chego com minha bengala de quatro pés.

subo os três andares bem devagar, pois no colégio não há elevador.

voto de pé.

diante da urna, fico primeiramente atrapalhada, depois risonha.

ouço a campainha de programa de calouro ao final de cada decisão que eu tomo.

os candidatos, uns números.

desço três andares de volta com vontade de correr.

a escola pública é tão linda, anos 70, quem sabe.

quase fico por lá mesmo até o horário de votação se encerrar.

essa quadra toda enredada que existe nela, isso não faziam na minha infância.

quando a gente chutava a pobrezinha pro outro lado, tinha de ir lá buscar.

ninguém no meu bixiga conhecia condomínio e vivíamos pela rua mesmo, brincando de esconde-esconde atrás ou embaixo dos carros estacionados.

bola não era preocupação porque brotava.

fecho os olhos e estou jogando queimada contra um time que se amontoa.

sou sempre a última a restar nas quadras, muito boa em desviar dos arremessos.

hoje isto mudou.

me tornei um alvo invisível.

as bolas batem direto em mim.

vejo eleitores com camisa do pt e de movimentos sociais.

novos, velhos, humildes.

saboreio a eleição do conselho tutelar porque algo nela se liga a meu passado.

e eu ainda não sei se é náusea o que sinto de imaginar o futuro.

o presente é o melhor presente.

a democracia se parece com a gente.

florzinhas vermelhas empertigadas e solitárias nos vãos dos cacos dos quintais de paulista.

A coach coachella

Desde que soube que Biroliro se casaria com uma psicóloga, comecei a imaginar o consultório dela. A decoração mesmo. Tons pastel, paredes brancas, um quadro com foto azul do Caribe, um busto de nossa senhora tingido no artesanato, próximo do janelão que dá pro Corcovado.

Imaginei também uma sala contígua onde a profissional daria palestras, com carteiras para anotações. E uma secretária-recepcionista negra de brincos argola e cabelo curto rente, ereta e afiada no excel, a receber os candidatos com futuro (grana).

Depois imaginei o público. Pacientes, quero dizer. Arrivistas. Juventude doirada dos trigais do Rio, homens feitos com os cabelos penteados molhados pra trás, camisa social por dentro da calça jeans slim. Mulheres com estampas Animale alouradas na progressiva, brincos pequeninos de zircônia, colares fininhos de ouro com pingentinhos de lua e tao.

As consultas seriam pura praticidade. Um rosário de incentivos, melhor seria dizer comandos: você pode, você deve, você merece. Você, você. Uma citação aqui e ali de comédias românticas. Lição de casa: ver Ryan Gosling na netflix.

Há muito tempo que certa “psicologia”, chamemos assim, foi tomada pela mentalidade coach. Se bem que no caso da esposa do Biro, está mais pra coachella. Uma coachella gospel. Mas, admitam, os coaches chegaram pra amarrar os descabidos. Ou é coach ou é química, você escolhe.

Não li a matéria que o grupo Globo publicou, e agora comicamente condena, sobre a alcova de escritório. E nem sei por que não li. Talvez porque tenha pensado: “Mas já sei como essa mulher é, já sei como decorou seu consultório”. E essas matérias, por nada terem de um Joel Silveira, nenhuma elucubração imaginativa de escritor, e por serem mais como listas de inventário, falam pra leitores que não eu.

Sei, contudo, da frase genial que marcou o texto pra história. Aquela em que Coachella diz ao repórter que Biro é seu “case de sucesso”. É de dar match, como disse a jornalista tinder no roda viva. Uma das frases do ano, se ainda fazem frases do ano nas retrospectivas.

Então por que condenar o repórter? Tenho pena porque primeiro ele foi incentivado e convencido a fazer, agora se viu escorraçado, se não ameaçado de morte, justamente por ter cumprido sua tarefa. Isto não se faz, Globo. Você não anulou o perfil do Astrólogo do balacobaco, também obtido sem consentimento. Tenha a decência.

Uma vez, nos meus vinte e tantos anos, quis saber como a TFP funcionava por dentro e bati numa porta deles, simplesmente pedindo pra entrar. E o cara: você é jornalista? Fiquei brava. Como me descobriu na lata? A TFP veta mulheres, e eu não queria acreditar.

(Uma curiosidade é que muitos figurões não dão entrevista pra mulher. Delfim Netto nunca quis me dar. Em sua biblioteca só entravam homens. Seria um texto sobre seus livros, a pedido de um dos ases da direita adocicada: Daniel Piza. Nem assim.)

Nunca fiz uma matéria nesses moldes incentivados pelo grupo Globo, mas se insistissem comigo, por meu emprego, talvez fizesse. E não fiz talvez porque tenham visto de cara que não sairia boa. Sou muito transparente, longe de uma expert em teatro ou fingimento pra improvisar um personagem e ser convincente dentro dele.

Ah, Rosane, mas como fica a moral? Não acho que questão moral impeça jornalistas. O jornalismo é moralmente injustificável. A frase é do Paulo Francis, das poucas que ele disse bem.

ESCRITA AUTOMÁTICA

Meu caçula me vê antes de sair de casa e se espanta.

– Você está Rihanna!

Penso: Rihanna da riqueza ou da encrenca? Da riqueza é sacanagem…

Mas ele nunca me sacaneia, oras!

E então esclarece que se refere a minha jaqueta, aquela que comprei numa liquidação por 50 reais…

Muito parecida com a da Rihanna na Fenty, ele diz.

E me mostra a foto no celular.

Caramba, é mesmo…

(Mas eu tenho a jaqueta há mais tempo. Fashion is everybody, style is only me!)

Dou-lhe um beijo.

Saio do centro, onde moro, e vou à Paulista cometer, com a amiga querida, o crime de ver um filme à tarde.

Desço toda feliz na estação Paulista, que fica na Consolação.

Rihannão!

E, muito rapidamente, um, dois, três sem-teto me abordam pra pedir o que comer…

E isto é bem mais do que vejo na República, no centro, onde ninguém hoje se aproxima enquanto eu caminho!

A Paulista e a Augusta me deixam bem mais triste nestes dias.

Não adianta informar que estou desempregada, que o mundo nem liga pra mim, que eu estudei, ralei, dei duro na vida ingrata, que não tenho aposentadoria e que preciso correr atrás dos trocados nascidos das ofertas de frilas feitas por amigos, das traduções, textos, palestrinhas, enquanto escrevo um livro…

Eles não acreditam em nada do que eu disser.

Isto é o que dá ser Rihanna sem poder!

“Não quero dinheiro”, repetem. “Quero comer.”

Eu sei, digo.

(Na real, o que eu posso saber?

Um dia talvez eu também saiba, embora espere que não.)

“Falta 1,50 pra esfiha!”, eles dizem, um a um.

Antes, os sem-teto noias me pediam dez reais na lata para uma “comida” (geralmente chocolate e coca-cola).

Agora eles se cotizam pela avenida, dividindo as diárias entre si.

É uma tática boa.

E basta dar com os olhos em mim para saber o que podem conseguir.

Sou do tipo que pipoca moedas, sem coragem de dizer não o tempo todo. E acabo gastando mais do que aqueles dez reais ousadamente solicitados no passado (embora hoje em dia eu não devesse gastar nem mesmo um.)

Então, bem…

Hoje esse noia grande, rosto redondo e forte, me para na altura do IMS. Elogia a elegância.

Rihanna, né? – respondo, rindo de mim.

E ele: faz um dia de Olavo Bilac, o autor do hino, a senhora não acha?

Eu:…

Ele: Um parnasiano!

Eu:…

Ele: Ou simbolista?

Eu, entregando a toalha: Um parnasiano e tanto!

Ele: Mas não era época simbolista?

E eu: Conviviam!

E ele: Acho o hino a coisa mais linda!

E eu: Eu não!

E ele: A senhora me lembra minha professora de literatura.

E eu: Você gosta de poesia?

E ele: Ninguém mais faz soneto, né? Gosto de soneto! Drummond que chama?

Eu: O Vinicius fazia soneto. O Bandeira.

Ele: Pra mim a maior obra literária do Brasil é a carta do Caminha.

Eu: Tem certeza? Não ligo pra escriba contratado.

Ele: Ninguém sabe que existiu Caminha!

Eu: Mas você sabe! E Anchieta, gosta também?

Ele: O Anchieta escrevia?

Eu: Pois é! Veja, o Drummond não era contratado pra escrever. Era funcionário público. Sempre vou preferir.

Ele, olhando pro alto: Soneto que chama!

Eu: Por que você não virou professor?

Ele: Porque estudei na Fatec. Sou tecnólogo.

Eu: Desse aula disso, então! Por que não deu?

Ele: Porque veio a droga, e quando ela vem…

Eu: Você está sempre por aqui? Te trago um livro.

Ele: Oba!

Eu: Qual o seu nome?

Ele: José!

Eu: Prazer, José.

Ele: Na verdade, sou Arlequina…

Eu: Arlequina, que lindo! Você manja Arlequim? O palhaço da commedia dell’arte?

Ele: Um bobo da corte, né?

Eu: Não da corte, da rua!

Ele (ansioso, mudando o trajeto da conversa): O maior escritor brasileiro é o Machado de Assis?

Eu: É quem a gente achar. O que você me diz de Guimarães Rosa?

Ele: Não sei quem é.

Eu: Talvez você gostasse de conhecer o amor de um jagunço…

Ele: (sorriso)

Eu: Arlequina, vou voltar.

melhor ser

às vezes é criticada por dizer a verdade.
às vezes, por não dizer.
ou por dizê-la fora dos padrões.
por ser difícil.
ou intensa.
por escrever legendas em inglês para as fotografias.
por tirar fotos tristes de sem-teto.
às vezes é criticada pelo que considera seu melhor.
e do seu pior, claro, ninguém quer saber.
ninguém, no fundo, quer saber!
ninguém está errado.
melhor desistir de causar interesse.
(e fingir ser sua própria sophia loren diante do espelho,
como ensinou uma entrevistada da oprah winfrey.)
melhor não esperar aceitação.
nem empatia ou engajamento.
e satisfazer a todo custo o que há em você.
a sua consciência.
sua alegria,
sua dor.
melhor é ser,
no fundo de si mesma.
e o restante, aprender.

Ignorância de sonhar

A indiferença sobre eles parece tanta que descem pelo corrimão da escada rolante sem esperar a segurança do metrô descer o pau. Eu não compreendo, mas os vigias da estação Trianon Masp, aparentemente sim. Nem se mexem. Estão de costas para os menores, que são, claro, negros, magros, os cabelos cortados curtos, se meninos, ou presos em um rabo de cavalo espetado, se menina. Nenhum passageiro reclama da algazarra que presencia. Mas os meninos gritam demais, gente, eles fazem essa brincadeira de bater na bunda, de puxar o braço um do outro, de socar nos cucurutos. Era para todo mundo se importar. Ou será a última refeição dos condenados e só eu não entendi?

Tomam a rua vestidos com o capuz do moletom. A Paulista não ecoa qualquer íntima ou desesperada perplexidade de alguém, que dirá a deles. Os policiais, em grupos de dois ou três, miram qualquer agitação com o soslaio da serpente, e se olham de frente, esqueça suas chances. Mas nem se importam com os meninos, ignorados mais uma vez. Reparo que as autoridades executoras engordam a cada dia, fartas, talvez, de tantos bois engolidos pelas bordas. Não sei se há algo tão indesculpável, intratável ou abjeto em São Paulo quanto ser policial, essa gente que morre cedo, por fora e por dentro. Mas pode ser que exista.

Em quase toda esquina da avenida, a cada dia transformada em beco, circo, picadeiro ou pátio prisional, algum homem ou mulher estará de cabeça baixa a considerar consigo, eu diria consigos, um erro cometido. Pode prestar atenção. A Paulista é fechada. Seus marginais falam com o ar. O jovem que fotografei de cabeça baixa, sentado no banco dos maconheiros do calçadão das Flores, por exemplo, lamentava repetidamente sua “ignorância de sonhar”. Quem sonha ignora? Sinto que tudo funciona em direção oposta a isto, mas não me arrisco a perguntar. Sofro de não entender nem mesmo a mim.

 

Logo cai o dia. Logo tudo cai.

 

O por do sol é o pertencimento dos tristes.