ESCRITA AUTOMÁTICA

Meu caçula me vê antes de sair de casa e se espanta.

– Você está Rihanna!

Penso: Rihanna da riqueza ou da encrenca? Da riqueza é sacanagem…

Mas ele nunca me sacaneia, oras!

E então esclarece que se refere a minha jaqueta, aquela que comprei numa liquidação por 50 reais…

Muito parecida com a da Rihanna na Fenty, ele diz.

E me mostra a foto no celular.

Caramba, é mesmo…

(Mas eu tenho a jaqueta há mais tempo. Fashion is everybody, style is only me!)

Dou-lhe um beijo.

Saio do centro, onde moro, e vou à Paulista cometer, com a amiga querida, o crime de ver um filme à tarde.

Desço toda feliz na estação Paulista, que fica na Consolação.

Rihannão!

E, muito rapidamente, um, dois, três sem-teto me abordam pra pedir o que comer…

E isto é bem mais do que vejo na República, no centro, onde ninguém hoje se aproxima enquanto eu caminho!

A Paulista e a Augusta me deixam bem mais triste nestes dias.

Não adianta informar que estou desempregada, que o mundo nem liga pra mim, que eu estudei, ralei, dei duro na vida ingrata, que não tenho aposentadoria e que preciso correr atrás dos trocados nascidos das ofertas de frilas feitas por amigos, das traduções, textos, palestrinhas, enquanto escrevo um livro…

Eles não acreditam em nada do que eu disser.

Isto é o que dá ser Rihanna sem poder!

“Não quero dinheiro”, repetem. “Quero comer.”

Eu sei, digo.

(Na real, o que eu posso saber?

Um dia talvez eu também saiba, embora espere que não.)

“Falta 1,50 pra esfiha!”, eles dizem, um a um.

Antes, os sem-teto noias me pediam dez reais na lata para uma “comida” (geralmente chocolate e coca-cola).

Agora eles se cotizam pela avenida, dividindo as diárias entre si.

É uma tática boa.

E basta dar com os olhos em mim para saber o que podem conseguir.

Sou do tipo que pipoca moedas, sem coragem de dizer não o tempo todo. E acabo gastando mais do que aqueles dez reais ousadamente solicitados no passado (embora hoje em dia eu não devesse gastar nem mesmo um.)

Então, bem…

Hoje esse noia grande, rosto redondo e forte, me para na altura do IMS. Elogia a elegância.

Rihanna, né? – respondo, rindo de mim.

E ele: faz um dia de Olavo Bilac, o autor do hino, a senhora não acha?

Eu:…

Ele: Um parnasiano!

Eu:…

Ele: Ou simbolista?

Eu, entregando a toalha: Um parnasiano e tanto!

Ele: Mas não era época simbolista?

E eu: Conviviam!

E ele: Acho o hino a coisa mais linda!

E eu: Eu não!

E ele: A senhora me lembra minha professora de literatura.

E eu: Você gosta de poesia?

E ele: Ninguém mais faz soneto, né? Gosto de soneto! Drummond que chama?

Eu: O Vinicius fazia soneto. O Bandeira.

Ele: Pra mim a maior obra literária do Brasil é a carta do Caminha.

Eu: Tem certeza? Não ligo pra escriba contratado.

Ele: Ninguém sabe que existiu Caminha!

Eu: Mas você sabe! E Anchieta, gosta também?

Ele: O Anchieta escrevia?

Eu: Pois é! Veja, o Drummond não era contratado pra escrever. Era funcionário público. Sempre vou preferir.

Ele, olhando pro alto: Soneto que chama!

Eu: Por que você não virou professor?

Ele: Porque estudei na Fatec. Sou tecnólogo.

Eu: Desse aula disso, então! Por que não deu?

Ele: Porque veio a droga, e quando ela vem…

Eu: Você está sempre por aqui? Te trago um livro.

Ele: Oba!

Eu: Qual o seu nome?

Ele: José!

Eu: Prazer, José.

Ele: Na verdade, sou Arlequina…

Eu: Arlequina, que lindo! Você manja Arlequim? O palhaço da commedia dell’arte?

Ele: Um bobo da corte, né?

Eu: Não da corte, da rua!

Ele (ansioso, mudando o trajeto da conversa): O maior escritor brasileiro é o Machado de Assis?

Eu: É quem a gente achar. O que você me diz de Guimarães Rosa?

Ele: Não sei quem é.

Eu: Talvez você gostasse de conhecer o amor de um jagunço…

Ele: (sorriso)

Eu: Arlequina, vou voltar.

melhor ser

às vezes é criticada por dizer a verdade.
às vezes, por não dizer.
ou por dizê-la fora dos padrões.
por ser difícil.
ou intensa.
por escrever legendas em inglês para as fotografias.
por tirar fotos tristes de sem-teto.
às vezes é criticada pelo que considera seu melhor.
e do seu pior, claro, ninguém quer saber.
ninguém, no fundo, quer saber!
ninguém está errado.
melhor desistir de causar interesse.
(e fingir ser sua própria sophia loren diante do espelho,
como ensinou uma entrevistada da oprah winfrey.)
melhor não esperar aceitação.
nem empatia ou engajamento.
e satisfazer a todo custo o que há em você.
a sua consciência.
sua alegria,
sua dor.
melhor é ser,
no fundo de si mesma.
e o restante, aprender.

Ignorância de sonhar

A indiferença sobre eles parece tanta que descem pelo corrimão da escada rolante sem esperar a segurança do metrô descer o pau. Eu não compreendo, mas os vigias da estação Trianon Masp, aparentemente sim. Nem se mexem. Estão de costas para os menores, que são, claro, negros, magros, os cabelos cortados curtos, se meninos, ou presos em um rabo de cavalo espetado, se menina. Nenhum passageiro reclama da algazarra que presencia. Mas os meninos gritam demais, gente, eles fazem essa brincadeira de bater na bunda, de puxar o braço um do outro, de socar nos cucurutos. Era para todo mundo se importar. Ou será a última refeição dos condenados e só eu não entendi?

Tomam a rua vestidos com o capuz do moletom. A Paulista não ecoa qualquer íntima ou desesperada perplexidade de alguém, que dirá a deles. Os policiais, em grupos de dois ou três, miram qualquer agitação com o soslaio da serpente, e se olham de frente, esqueça suas chances. Mas nem se importam com os meninos, ignorados mais uma vez. Reparo que as autoridades executoras engordam a cada dia, fartas, talvez, de tantos bois engolidos pelas bordas. Não sei se há algo tão indesculpável, intratável ou abjeto em São Paulo quanto ser policial, essa gente que morre cedo, por fora e por dentro. Mas pode ser que exista.

Em quase toda esquina da avenida, a cada dia transformada em beco, circo, picadeiro ou pátio prisional, algum homem ou mulher estará de cabeça baixa a considerar consigo, eu diria consigos, um erro cometido. Pode prestar atenção. A Paulista é fechada. Seus marginais falam com o ar. O jovem que fotografei de cabeça baixa, sentado no banco dos maconheiros do calçadão das Flores, por exemplo, lamentava repetidamente sua “ignorância de sonhar”. Quem sonha ignora? Sinto que tudo funciona em direção oposta a isto, mas não me arrisco a perguntar. Sofro de não entender nem mesmo a mim.

 

Logo cai o dia. Logo tudo cai.

 

O por do sol é o pertencimento dos tristes.