Policiano!

Quando falo sério, não me acreditam.
Quando brinco, chamam o socorro do Instagram pra me ressuscitar.
Quem me entende?
A rua e os loucos da rua, por certo.
Amo viver no alto deste prédio, nesta avenida que provoca uma saudade imensa das minhas viagens diárias, e por onde agora todos passam, muitos sem máscara, suicidando-se.
Um deles grita aos intervalos, desde as dez da manhã:

– POLÍCIAAA!!! POLICIANOOO!!!!

E eu sorrio para a incompreensão que ele causa, ecoando a mim.

Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.

Outbreak

queria dar a cada um de vocês uma palavra de carinho.
mas não sei se sou boa nisso.
conhecem uma pessoa direta?
sou eu.
a que não sabe disfarçar.
aquela que diz bobagens sinceramente, porque crê nelas.
e que, se precisa dar carinho, gosta de fazê-lo pessoalmente.
fisicamente.
vocês estão longe, embora perto…
mas não é só isso o que quero dizer.
neste momento, na rua onde moro, passam pessoas gritando por turnos.
ouço da janela da sala.
gritos como se quisessem se libertar de alguém.
ou parar alguém.
não sei do que tratam essas pessoas.
não sei se são os sem-teto sem comida que querem arrancá-la de alguém.
não tenho como saber.
estou a uma altura excessiva do prédio onde moro, aqui onde vejo as nuvens, meus personagens.
prometi à família que me comportaria e que não sairia à rua à toa.
minha família é meu tudo.
eles me amam na complicação.
e não vou complicá-los me aproximando de quem não conheço no meio da pandemia.
mas queria lhes pedir.
nunca mais reclamem se um médico abraçar um prisioneiro na cadeia de novo.
não importa a escrotidão que o preso tenha aprontado.
nem o médico!
não reclamem.
temos um tempo limitado pra viver e amar.
não vamos estragar tudo espirrando no outro uma moral que não precisa ser respeitada.
é tarde.
e eles não vão parar de gritar contra nós.