Um pensamento amoroso

Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês.
Ele não falava mal de livro ruim.
Isto porque sentia o peso da responsabilidade.
E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente?
A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim.
O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros.
Bonito, não?
Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom.
E o pensamento do meu amigo retornou.
Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido?
Então minha responsabilidade cresceria.
Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim.
Mas tinha um problema (a meu ver).
Embora ainda evocasse lindamente o cinema!
Este que no presente dá a impressão de se perder…
Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura.
Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura.
Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir.
A se refazer.
Espero que minha crítica tenha dito isto.
Hoje e no futuro, se algum futuro houver…
Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão!
Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.

Meu problema central com as redações brasileiras desde os longínquos anos 1980 foi sempre ter de me ver com a estupidez geral e fingir que nada acontecia, imaginando que um leitor lá longe iria pagar por tudo isso, por minha tristeza inclusive.

A mediocridade alegre dos confinados não impedia, era claro, que houvesse gente maravilhosa e genial a sobreviver nesses locais insalubres. Invariavelmente, embora nem sempre, os bons eram os párias. Cito o Renato Pompeu porque ele se foi e muito sinto sua ausência deste mundo.

Renato me dava uns sorrisos de canto quando ouvia coisas como estas, que me faziam enrubescer e, como sempre, sem sucesso, contra-argumentar entre as máquinas de escrever:

– O melhor jornalista brasileiro é William Waack.

– O Augusto Nunes tem um texto maravilhoso.

– O Bial é um poeta.

Para Renato, tudo era uma contrapartida à célebre frase que um dia ele ouviu no boteco (boteco como a instituição onde se anunciava o fim do mundo):

– Pelé, cego de bola!

O Bial é um ignorante machista, nunca deixou de ser. Só se espanta quem quer. (Meu teclado vermelho escreveu: “quem queer”).

Mas, como eu disse antes, não é o único jornalista a criticar a diretora antes de criticar o filme.

Aparentemente os mesmos que viram na trash & comic Bacurau uma leitura revolucionária do Brasil e nas novelas de Muylaert, tratados de sociologia sobre a senzala, acham o Democracia um lixo. Mas por que um lixo?

Ah, a voz da Petra.

Menininha rica.

O filme não tem outro lado.

É a história dela, não a do Brasil.

Tudo bem você, como espectador, detestar a voz dela e sua fala em primeira pessoa. Tudo bem você pedir mais ação quando se põe diante da Netflix depois de um dia cheio. Mas não o crítico. Crítico não deveria ser rasteiro, machista, estúpido, violento.

Nem sei se ainda existem redações. Mas que lixo, gente. Que lixo de pensamento. Depois não adianta reclamar do Weintraub.