Express yourself

Sem dormir, porque o povo comemora o carnaval com banda lá fora, aparece a consciência do mundo pra me atormentar. A imundície. A canalhice desse verme que não pretende se levantar da cadeira por resultado eleitoral nenhum. Penso em quem votou nele e continuará a votar. Vejo a luta cotidiana de um padre que a PM bandida parece simplesmente querer exterminar. Esses trastes fálicos das forças brochadas a rir abertamente de nós.

Que país. Que falta de país.

Tento pensar em outras coisas. Pensar que sou mulher e que muito me alegra sê-lo, mesmo na idade em que estou. Me lembro de uma discussão no programa da Oprah (sim, eu assistia ao programa), há milhares de anos, e que não esqueci. Lá estava Cybill Shepherd, a linda atriz, a lamentar que, mal completados seus 50 anos, tenha se recusado a olhar o próprio rosto no espelho. Não se deve fazer isso, ela dizia à Oprah. A depressão vai acabar com você. Porque tudo em sua aparência não será o mesmo, mas vc ainda terá uma vida pra viver.

Claro que esse problema atinge mais essas mulheres tão belas do que nós. Me deu pena da Cybill. Do que o cinema fez com ela. Nem de longe o dude Jeff Bridges, seu parceiro em “A última sessão de cinema”, enfrentou a mesma situação.

Me divertiu mesmo, no sofá da Oprah, o conselho de uma autora motivacional convidada a se postar ao lado de Cybill: “Depois de certa idade, é preciso projetar em você mesma uma grande confiança. Você tem de se sentir uma Sofia Loren, ou não conseguirá viver.”

Eu acho que, ao projetar Sofia em mim, acabei expressando o Christophe Lambert. Será que tem problema aí? Espero que não.

Uma vez Tucanistão, sempre Tucanistão

não identifiquei ninguém da esquerda na minha seção.
eu estava de vermelho e roxo e mesmo assim, nada, nadinha.
zero olhares cúmplices!
aliás, o sujeito que deveria estar a um metro de distância atrás de mim quase me empurrou pra dentro do elevador de tão próximo…
mas no fim, né?
no fim, ri por último.
os bozós se ferraram tanto na sua pretensão de almoço executivo, hahahaha!
aqui é tucanistão brabo, gente,
tenham respeito…
não é qualquer evangélico que vai puxar nossos tapetes!

democracia pelos cacos paulistas

o local da votação é tão longe que vou de carro.

chego com minha bengala de quatro pés.

subo os três andares bem devagar, pois no colégio não há elevador.

voto de pé.

diante da urna, fico primeiramente atrapalhada, depois risonha.

ouço a campainha de programa de calouro ao final de cada decisão que eu tomo.

os candidatos, uns números.

desço três andares de volta com vontade de correr.

a escola pública é tão linda, anos 70, quem sabe.

quase fico por lá mesmo até o horário de votação se encerrar.

essa quadra toda enredada que existe nela, isso não faziam na minha infância.

quando a gente chutava a pobrezinha pro outro lado, tinha de ir lá buscar.

ninguém no meu bixiga conhecia condomínio e vivíamos pela rua mesmo, brincando de esconde-esconde atrás ou embaixo dos carros estacionados.

bola não era preocupação porque brotava.

fecho os olhos e estou jogando queimada contra um time que se amontoa.

sou sempre a última a restar nas quadras, muito boa em desviar dos arremessos.

hoje isto mudou.

me tornei um alvo invisível.

as bolas batem direto em mim.

vejo eleitores com camisa do pt e de movimentos sociais.

novos, velhos, humildes.

saboreio a eleição do conselho tutelar porque algo nela se liga a meu passado.

e eu ainda não sei se é náusea o que sinto de imaginar o futuro.

o presente é o melhor presente.

a democracia se parece com a gente.

florzinhas vermelhas empertigadas e solitárias nos vãos dos cacos dos quintais de paulista.