Lula e a pátria-mãe

Lula e Dilma no lançamento da campanha à presidência, Anhangabaú, 20 de agosto de 2022.
Foto de Ricardo Stuckert

Discursos de Lula. Eis os triplos carpados que as escolas deveriam de vez em quando mostrar aos alunos, se um dia já não o fizeram, de modo a contribuir para a evolução de seu pensamento. Falo de escolas hipotéticas, claro. Escolas de raciocínio, escrita, improviso. Lugares que talvez ainda não existam no Brasil, porque nem o Brasil existe hoje, vamos dizer assim.

E por que as escolas terão Lula no futuro? Bem. Todo mundo já ouviu falar do discurso de Lincoln em Gettysbourg, aquele que selou a vitória sobre os confederados na Guerra de Secessão. Todos sabem que Luther King teve um sonho, e que disse isso a quem, no seu tempo, lutava pelos direitos civis. Todos conhecem a carta que Getúlio Vargas deixou para que a história o lesse com seus olhos. Até Jânio fez das suas, naquela sua típica escuridão. Hoje temos nosso jeito de avaliar o que essa gente aprontou para o mundo, dar o peso das suas atitudes, lendo sobre suas ações. E fazemos isso também por meio de seus discursos, esses que permanecem por si, como poemas da política.

As escolas brasileiras não informam sobre os discursos de Lula hoje. Ou ao menos supomos que não. Mas as do futuro não terão saída. E, independentemente dos erros que ele tenha cometido na política, as do futuro vão ouvi-lo. O futuro é onde permanecem as coisas duradouras, mas combatidas no presente, plenas de faíscas nem tão visíveis hoje.

Não sei se ouviram o discurso de ontem no Anhangabaú, abertura oficial da campanha política de Lula à presidência. Aqui de casa, porque moro no centro, a gente sentia os ecos das falas e dos apupos. Quando Dilma Rousseff apareceu, o chão tremeu. Lula deve ter sentido esse tremor por lá, naturalmente. E aposto que na onda daquele carinho que as pessoas manifestaram por sua querida, Lula pegou o barco para outras coisas que pretendia dizer sobre a condição feminina no Brasil de hoje. Nossa condição de mulheres é aquela que confronta diretamente a miséria brasileira, e Lula sabe bem a quem falar, a quem pedir.

Eu acompanhei seu discurso pela live no Facebook de Gleisi Hoffman. E juro que ele comparou Dilma Rousseff a Tiradentes. Tenho certeza de que já havia pensado nisto antes, nessa particularidade simbólica do destroçamento de Dilma à exposição pública, na sua carne salgada para intimidação histórica. Mas depois de sentir a acolhida a Dilma no palco da manifestação, aquela que a fez chorar, Lula a incorporou no que já iria dizer.

Dilma seria Tiradentes porque, antes tão difamada publicamente, hoje já pode ser  acolhida à maneira simbólica. Lula leu: Tiradentes, o maltratado pela elite portuguesa, foi absorvido como símbolo brasileiro somente pelos golpistas da República. Já temos público para entender isso, ele decidiu. E passou à lição histórica.

Um símbolo do passado é arrancado sempre que falta outro, de mais potência, no presente. Foi o que aconteceu com os golpistas militares republicanos. A quem poderiam recorrer? Tiradentes estava no ar, um homem contra os abusos da Coroa portuguesa, esta que eles, tão sem modos, acabavam de despachar. Tiradentes! Dilma! E Lula não se intimidou em comparar os contextos. Ele faz história, mas é também um historiador. Um historiador não somente porque conhece os fatos e os memorializa. Historiador porque reinterpreta esses fatos, porque o passado merece uma nova leitura que o resgate das mãos sujas do tempo. Lula leu Walter Benjamin? Não sei.

Acho que ele já pretendia dizer isso, mas ontem foi o dia. Seu pai, um pária. Um verme, quase. E não é que hoje conhecemos pelo menos um? Lula desancou a figura paterna que batia na mãe. Vi o Haddad, lá no fundo, abrir a boca. A metáfora da pátria como mãe é terrivelmente oportuna, e sempre podemos recorrer a ela. Perder um país é perder a própria mãe. Mas nossa mãe, como a mãe do Lula, como a Dilma, não se intimida. Tira os oito filhos de lá, como fez a mãe do Lula, e refaz o lar em outro lugar. 

Seremos os filhos desta pátria novamente? Eu creio que seremos. Uma pedra fedorenta não consegue interromper o correr de um rio, um rio e seu fluxo. Ouvir Lula equivale a um aprendizado, não apenas de retórica. Livre pensar, mais do que só pensar. Esta pátria manchada é a liberdade em movimento, é nossa mãe.

Express yourself

Sem dormir, porque o povo comemora o carnaval com banda lá fora, aparece a consciência do mundo pra me atormentar. A imundície. A canalhice desse verme que não pretende se levantar da cadeira por resultado eleitoral nenhum. Penso em quem votou nele e continuará a votar. Vejo a luta cotidiana de um padre que a PM bandida parece simplesmente querer exterminar. Esses trastes fálicos das forças brochadas a rir abertamente de nós.

Que país. Que falta de país.

Tento pensar em outras coisas. Pensar que sou mulher e que muito me alegra sê-lo, mesmo na idade em que estou. Me lembro de uma discussão no programa da Oprah (sim, eu assistia ao programa), há milhares de anos, e que não esqueci. Lá estava Cybill Shepherd, a linda atriz, a lamentar que, mal completados seus 50 anos, tenha se recusado a olhar o próprio rosto no espelho. Não se deve fazer isso, ela dizia à Oprah. A depressão vai acabar com você. Porque tudo em sua aparência não será o mesmo, mas vc ainda terá uma vida pra viver.

Claro que esse problema atinge mais essas mulheres tão belas do que nós. Me deu pena da Cybill. Do que o cinema fez com ela. Nem de longe o dude Jeff Bridges, seu parceiro em “A última sessão de cinema”, enfrentou a mesma situação.

Me divertiu mesmo, no sofá da Oprah, o conselho de uma autora motivacional convidada a se postar ao lado de Cybill: “Depois de certa idade, é preciso projetar em você mesma uma grande confiança. Você tem de se sentir uma Sofia Loren, ou não conseguirá viver.”

Eu acho que, ao projetar Sofia em mim, acabei expressando o Christophe Lambert. Será que tem problema aí? Espero que não.

Uma vez Tucanistão, sempre Tucanistão

não identifiquei ninguém da esquerda na minha seção.
eu estava de vermelho e roxo e mesmo assim, nada, nadinha.
zero olhares cúmplices!
aliás, o sujeito que deveria estar a um metro de distância atrás de mim quase me empurrou pra dentro do elevador de tão próximo…
mas no fim, né?
no fim, ri por último.
os bozós se ferraram tanto na sua pretensão de almoço executivo, hahahaha!
aqui é tucanistão brabo, gente,
tenham respeito…
não é qualquer evangélico que vai puxar nossos tapetes!

democracia pelos cacos paulistas

o local da votação é tão longe que vou de carro.

chego com minha bengala de quatro pés.

subo os três andares bem devagar, pois no colégio não há elevador.

voto de pé.

diante da urna, fico primeiramente atrapalhada, depois risonha.

ouço a campainha de programa de calouro ao final de cada decisão que eu tomo.

os candidatos, uns números.

desço três andares de volta com vontade de correr.

a escola pública é tão linda, anos 70, quem sabe.

quase fico por lá mesmo até o horário de votação se encerrar.

essa quadra toda enredada que existe nela, isso não faziam na minha infância.

quando a gente chutava a pobrezinha pro outro lado, tinha de ir lá buscar.

ninguém no meu bixiga conhecia condomínio e vivíamos pela rua mesmo, brincando de esconde-esconde atrás ou embaixo dos carros estacionados.

bola não era preocupação porque brotava.

fecho os olhos e estou jogando queimada contra um time que se amontoa.

sou sempre a última a restar nas quadras, muito boa em desviar dos arremessos.

hoje isto mudou.

me tornei um alvo invisível.

as bolas batem direto em mim.

vejo eleitores com camisa do pt e de movimentos sociais.

novos, velhos, humildes.

saboreio a eleição do conselho tutelar porque algo nela se liga a meu passado.

e eu ainda não sei se é náusea o que sinto de imaginar o futuro.

o presente é o melhor presente.

a democracia se parece com a gente.

florzinhas vermelhas empertigadas e solitárias nos vãos dos cacos dos quintais de paulista.