what’s done is done…

conje ensaiou o monólogo com conja? quem escreveu?

o cara se entrega, é comovente a estupidez!

ele não só justifica a agressão à mulher de uma maneira geral.

o cara se entrega mesmo, pessoalmente, como se conja fosse sua lady macbeth, a tal intimidante, impositiva, superior…

e ele, macbeth, o próprio, em névoa, parece prestes a assassinar o rei duncan porque a mulher o convenceu assim…

essa escócia ainda acaba em facada verdadeira, céus!

captei

demorei pra entender a estratégia de expulsão incessante nas fraldas adotada por bozó nos últimos tempos.

mas agora captei, rolando!

ele acha que os seus trinta por cento de eleitores, de tão estúpidos e portanto motivados sem descanso pela estupidez do líder, tendo até mesmo mantido a aprovação a ele nas últimas pesquisas, o levarão novamente à presidência nas próximas eleições.

é só agradar às bestas e fechar o apoio irrestrito delas, sempre bem alimentadas, que tá limpo!

a aposta faz um sentido terrível.

mas ainda acho que bozó confia demais.

por exemplo, pode aparecer um motivador mais estúpido do que ele, já pensou?

(toc toc toc)

manda um abraço pro juarez!

vocês bem poderiam estar comigo da próxima vez que o suplicy aparecesse em manifestação.

e me ajudar…

não tenho coragem de pedir selfie com ele. até porque não sei fazer essas coisas. preciso de fotógrafo que além de tudo peça pra ele uma foto comigo. se bem que já é um ritual na vida do cara: posar com todos, falar ao microfone e cantar.

desta vez não cantou porque tinha “responsabilidade”, como disse, de ir ao velório do companheiro juarez soares. falou primeiro que todo mundo, pegou um papel pra não errar o nome dos presos, disse que pedia a sensibilidade de doria e bolsonaro para a injustiça das prisões (o suplicy de sempre), garantiu que todos trabalhavam pra resolver isso… e terminou com um lula livre, aplaudido com ênfase e carinho.

foi então que o organizador das falas pegou o microfone de sua mão e achou de dizer uma despedida empolgada, enquanto o suplicy deixava o recinto:

– manda um abraço pro juarez soares!

quase ninguém percebeu. nem ele, que falou, nem quem ouviu. o suplicy quis consertar lentamente, como de costume, mas só deu um riso compreensivo no fim. todo mundo muito sério na manifestação, mais homens que mulheres, polícia e remoção circundando a praça.

na real, eu não fui muito melhor que o rapaz atarantado ao microfone. mas pelo menos hoje, como todo mundo, homem e mulher na praça do patriarca (e o suplicy é um patriarca também), dei-lhe um beijo no rosto. só não sabia o que dizer depois. soltei o que me ocorreu:

– muito prazer!

e saí de perto, porque não nasci pra este mundo, entendeu?

e se mudar a rádio?

Começo o dia ainda animada pelo show de ontem. E entro no uber cheia de esperança. O jovem motorista, negro, usa boné e tem um carro bonito, não me pergunte qual, bem limpo. Sorri o tempo todo. Comenta o clima.

– Por isso a gente fica doente, né? Que sol é esse depois do frio de manhã cedo?

– Tem razão – digo. – E aconselho uma coisa: vacine-se contra a gripe. Peguei H1N1 e quase fui… Gripe e antigripal acabaram comigo! Ainda me sinto mal, sabia? Não vale a pena.

Me olha, diz baixo:

– Olha, moça, eu não acredito muito nessa indústria de vacinas…

(Rosane, por que não te maria calas?)

– Melhor você acreditar nessa indústria que naquela farmacêutica pra curar seu sarampo – brinco, na tentativa de lhe devolver toda a boa educação que teve comigo. – E vacina ainda é grátis no posto, não mata você…

– Acho que a senhora vai gostar deste programa.

Aumenta o rádio. Já o ouvia quando entrei. Eu penso: é agora, Orora. O Pânico da Jovem Pan comenta o aquecimento global.

O jovem professor de nome Ricardo Felicio, climatologista “da usp”, parece um jogador olímpico de pingue-pongue contra os radialistas do achincalhe da cognição. A cada pergunta banal, o entrevistado faz um rebate surreal, rápido, de tontear.

O Felício diz que:

1. Aquecimento global é cem por cento geopolítica. Não existe. Apenas passamos a monitorar a temperatura nos últimos anos. Nunca se viu tanto gelo como agora.

2. É só desenvolver uma bactéria que coma o plástico jogado ao oceano.

3. As abelhas, se morrerem, serão substituídas por outras espécies. Nunca se produziu tanto mel como no ano passado.

4. A engenharia florestal brasileira é a melhor do mundo. “Madeira dá muito dinheiro.”

Olho pro motorista com pena. O programa acompanha sua tentativa de entender a confusão do mundo. Uma rádio que é uma concessão pública, meu deus. Um entrevistado que nem sei classificar, um mitômano, um canalha.

Estamos chegando e eu, aterrada daquela felicidade airosa de minutos atrás, só lhe digo:

– Me promete que não vai deixar de se vacinar?

– Sim – sorri. – Prometo.

– E dou uma dica de estação de rádio melhor que essa. Já ouviu a Brasil Atual?

É proibido proibir

Por muitos anos, já durante a República, os governos federais brasileiros quiseram extinguir o carnaval.

Uma festa obscena, certo? E crítica! E suja!

E por este tom andavam as indignações.

Foi então que o marechal-presidente Floriano Peixoto teve uma ideia brilhante para arrefecer os ânimos.

Ele mudaria a data do carnaval. Em lugar de fevereiro, decretaria junho para as comemorações de 1892.

Era pro bem da população.

Sem sol, sem problemas, sem doenças!

Compostura!

Pobre Floriano, não se dava conta do brasileiro…

O que fizeram os cariocas ao saber da mudança? Nem perderam tempo em reclamar. Em fevereiro, celebraram o carnaval extra-oficial. E, em junho, saíram pra folia outra vez, na data que o presidente quis.

Floriano pôs a mão no chapelão. Que povo era esse, meu Deus? E no ano seguinte decretou que o carnaval seria em fevereiro outra vez.

Acima, uma capa do artista J Carlos ironizando pesadamente o intento de proibir a folia em 1927. Sim… Porque a ideia de colocar um fim àquela pouca-vergonha não cessava, certo? J Carlos, contudo, sabia que não iria funcionar! Proibir a festa era chamar a revolução!

Cinco anos depois deste desenho (e de muitos outros de sua autoria, todo santo ano), o governo do Rio, impulsionado por uma ideia de Mário Filho para vender o jornal de esportes da família durante o carnaval, quando ninguém queria saber de futebol, abraçou oficialmente a competição das escolas de samba.

Sirvam-se da história, suas excelências, pastores e generais!

nem nada

nem mariana,

nem brumadinho,

nem ct do flamengo,

nem boate kiss,

nem os meninos que dentro do carro fuzilado comemoravam o primeiro dia de trabalho,

nem os treze metralhados no morro do Rio,

nem o “tiroteio” ainda utilizado nos títulos dos jornais.

nada mudará esse quadro em que seremos menos e menores que as miúdas arraias.

aparentemente

mudança é um veículo no tráfego embargado.

estamos sozinhos pra brigar uns com os outros,

isso sim.

o pão no circo.

um homem na multidão.

Na contramão

Franklin de Oliveira (1916-2000) lembrava o seguinte em seu ensaio “A Semana de Arte Moderna na Contramão da História”:

A universidade chegou ao Brasil em 1922, no Rio.

Mas quatro séculos antes, em 1538, fundava-se em São Domingos a universidade São Tomás de Aquino e, logo a seguir, a de Santiago de La Paz.

Em 1553, a do México e a de La Paz, a da Guatemala e a do Peru, a da Colômbia, duas no Chile, duas na Argentina, a de São Marcos, em Lima, a de São Jerônimo, em Havana, a de Santa Rosa, em Caracas, a De São Gregório Magno, em Quito, a de Santo Ignacio de Loyola, em Córdoba.

Todas elas dotadas de imprensa. Todas imprimiam livros e jornais.

Enquanto isso, por Carta Régia de 5 de junho de 1747, o Reino mandava sequestrar todas as letras de imprensa existentes no Brasil, por inconvenientes aos seus interesses.

“Sem a educação não se chega à consciência política”, dizia Franklin. “E era isto que Portugal queria impedir quando no Brasil, desde o final do século XVIII, já tínhamos todas as condições objetivas para sermos uma nação soberana”.

Tudo isto te faz entender umas coisas ou não?

Os goebbels imprescindíveis

Os fascistas não se lixam pra economia.

Pra governar.

Ganham a eleição apenas para motivar à destruição as multidões temporariamente iludidas por segurança e estabilidade.

Haja espetáculos, xingamentos e palavras de ordem para que o oprimido tudo aceite e impulsione.

Enquanto isto é feito eles concentram dinheiro e poder para a burguesia, os donos de terra, os bancos, a indústria de armas.

Num modelo fascista de origem, uma elite nacional era a receptora dos recursos.

Agora não somente.

No Brasil, caso inexista resistência, praticaremos a conhecida expansão territorial. E, detalhe, não para nosso usufruto, mas principalmente para que EUA e seu estado-terrorista satélite, Israel, possam acumular e controlar nossas riquezas naturais.

É preciso incutir na multidão ignorante a extrema necessidade de combate.

O fascista transforma a guerra, o litígio, em coisas imprescindíveis.

Por isso a publicidade constante não é uma opção, mas uma necessidade.

Antes, Hitler e Mussolini precisavam de grandes eventos militarizados ao ar livre pra exercer esse fascínio. E fortaleciam o rádio, seus jornais e o cinema pra transmitir tais ideias.

Durante o fascismo italiano, funcionava até mesmo uma revista de crítica de cinema pelo bem da indústria.

A revista, dirigida pelo filho do Duce, acolhia entre seus escritores um jovem Antonioni, por exemplo.

Só pra vocês terem uma ideia da importância do cinema então…

Mas no Brasil de hoje nada disso parece ser tão necessário.

Basta a tevê do bispo.

O Carlos Bolsonaro.

E os propagandistas-pastores-postosipiranga para as ideias do desmonte, ministros e primeira-dama eficazes na comunicação com velhos e potenciais fiéis.

A bobajada que sai de suas bocas sujas, sempre prontas ao ataque, existirá portanto cotidianamente e em grande quantidade.

Aposto que danares e bozóica ganham um dinheirinho específico pra aparições cor-de-rosa…

“Toma aí um trocado pra comprar na Animale do shopping” é a frase que me vem.

Algo como a morte

Certa vez um editor me pediu para fazer matéria sobre determinado volume de ensaios do Otto Maria Carpeaux.

Fiquei muito feliz com a incumbência.

Até demais.

Pensei: como um assunto bom desses caiu comigo e não com os lobos de sempre?

Não demorei a perceber que se tratava de uma armadilha.

Ao abrir o livro, vi que fora organizado por Olavo de Carvalho.

Isto faz tempo, vinte anos, mas Olavo já era então uma porcaria. Astrólogo que maltratava mulheres e se dizia filósofo. Uma porcaria não por ser reaça, mas por ser Olavo mesmo.

Meu editor havia batido boca com ele pelo jornal em torno de uma pseudoquestão erudita. Meu editor também era reaça, jovem discípulo do Francis, condição que os jornalistas “de cultura” da época almejavam.

(Uma professora da ECA deu de comparar meu estilo ao do Francis, sei lá por quê, e eu, mesmo aluna dela, rejeitei ofendida a comparação. Queria pra mim um vigésimo da iluminação de Lúcia Miguel Pereira! Deixa o Francis pros meninos!)

O editor havia então me dado o livro como tarefa porque não queria se ver com o astrólogo novamente.

O discípulo do Francis, que se achava melhor que o Francis, me disse o seguinte: que eu poderia fazer a matéria sobre o Carpeaux desde que não entrevistasse o organizador do livro.

Estranho, né?

Mas, do meu ponto de vista pessoal, magnífico.

Meu editor quis me colocar no fogo e eu fingi que não percebi. Na época tinha dois bebês em casa, trabalhava e saía correndo pra amamentar e medicar. Escrevia nos intervalos da vida. Não ia perder tempo com essa preocupação.

O que eu não sabia era que observar qualquer coisa sobre Olavo vinha já acompanhado de muitas ofensas virtuais.

Desconhecia sinceramente o eco de suas aberrações pronunciadas e fiz a reportagem.

Escolhi um sobrevivente da época do Carpeaux para que descrevesse o crítico pra mim. Era o poeta Sebastião Uchoa Leite, o melhor tradutor da Alice do Lewis Carroll. Ele havia trabalhado como estagiário numa enciclopédia dirigida pelo crítico, e crescido a seu lado a partir de então. (Não me recordo bem que caminhos me levaram a esta informação que funcionou como descoberta na época.)

Um gênio poético, um ensaísta, um homem das palavras, gente muito boa. Uchoa Leite tornou-se minha fonte amiga.

Mal saiu a matéria, o Olavo começou uma campanha contra mim nos seus espaços e naqueles de seus discípulos. Não reconhecia Uchoa Leite como discípulo. Disse que eu tinha inventado a história! Por ter deixado de ouvi-lo, gracejou, eu deveria ingressar na dupla sertaneja pavam-pavamzinho. Por meu lado, eu certamente esperava um insulto melhor…

(Não foi o único a correr atrás de mim na vida jornalística, claro. Me vi perseguida por umas figuras a quem, como a ele, inicialmente não dava a menor importância, e pensando bem, ainda não dou. Entre outros, por Paulo Coelho, que jurou lançar seus poderes de guerreiro para obstruir minha “luz”; por Pablo Capilé, que não se dirigiu a mim pessoalmente, preferindo em lugar disso ordenar o ataque de suas galés.)

Ser achincalhada por Olavo, aprendi, equivalia a um certo elogio. Não que tivesse me achincalhado, na verdade. Não falei nenhuma bobagem no texto, por sorte, e ele não tinha por onde andar. Mas como ousei não entrevistá-lo para realizar a matéria?

Na redação, todos comentavam os ataques de Olavo a minha pessoa com inveja clara.

E eu tinha de contornar os lobos jornalistas feridos por minha fama!

Muito divertido e tal.

Mas ninguém consegue imaginar isto hoje, estou certa.

Olavo, ele próprio, interessado em organizar os ensaios de um Carpeaux!

A vertigem da queda transformou-o em algo diferente, não?

Algo como a morte.

Dark post

Aprendi coisa nova ao ver o documentário de Thomas Hunchon “Driblando a Democracia”. https://vimeo.com/295576715

A novidade para mim é a expressão “Dark post”.

Trata-se uma mensagem fake subliminar, em forma de meme, enviada a tipos cujo perfil se apreende pela análise de dados do face.

Empresas como a inglesa Cambridge Analytica rastreava uns cinco tipos psicológicos de usuário/eleitor. E neles disparava esses posts, que eram breves (subliminares), tempo suficiente na rede para não permitir a identificação de sua origem.

Um exemplo no documentário é o fake em que Hillary “advoga” o fim do porte de armas nos Estados Unidos. O meme tinha basicamente duas fotos, uma de uma bela arma e outra da Hillary bem feia.

Os disparos fake aconteciam (no caso do Brexit e da campanha de Trump) se houvesse uma condição básica no usuário: uma inclinação ao voto conservador, mesmo que não declarada (porque os likes do face e os “joguinhos de personalidade” podem indicar até isso).

A Cambridge tinha predileção em disparar fakes ao tipo “neurótico”, enraivecido, vocativo, por se tratar de um difusor. A partir dele, o meme fake atingia toda a rede de inclinação conservadora.

As mensagens da Cambridge eram sempre reaças. A empresa tinha como testa de ferro o Steve Banon. Mas ele não era o criador da ideia de disparo (ilegal) pelo face. O gênio do mal, fundador da empresa, era Robert Mercer, um direitista que saiu da IBM para criar algoritmos a empresas que atuavam na bolsa.

Mercer lutou para desarticular o financiamento legal de campanhas nos EUA. E conseguiu em 2010, por meio de uma determinação do Supremo, que um conselho pudesse fazer doações.

Mudou a eleição americana ao comandar a campanha de Trump e disparou a ameaça à democracia. Ou o drible.

Não se trata, então, de um espertalhão a oferecer serviços de manipulação tecnológica aos políticos. Trata-se de um articulador político que vende seus serviços pelo bem de uma ideologia que deseja fazer vingar.

O triste é pensar que ele tenha estudado a eleição presidencial indireta americana e decidido que três Estados com maior proporção de indecisos (Michigan, Wisconsin e Pensilvânia) tivessem potencial de virada. Trump fez toda a campanha neles e ganhou por meio deles.

Posteriormente, o face teve de explicar sua associação com a empresa. Zuckerberg classificou a participação nesse massivo fake trumpiano como um erro de segurança. Mas funcionário da Analytica ao depor diz que teria sido impossível a associação sem o conhecimento do face.

A Analytica só cometeu um erro, o de não declarar que pagara a Steve Banon pela campanha de Trump. Isto a inviabilizou nos Estados Unidos.

E no Brasil?

E o WhatsApp?

Pessoalmente nunca recebi um dark post. Mas conheci muitos deles por meio dos parentes/“amigos” reaças do tipo “neurótico”. Nunca achei que aquelas grosserias pudessem convencer alguém além deles. E muito menos ganhar uma eleição.

Espero que Hunchon se interesse por nós. E por estender seu entendimento a outras redes. “Driblando a democracia” é muito bom, mas atualmente despencamos em poço ainda mais fundo.