Prata da casa

Não quis entrar aqui antes pra estragar os prazeres e a boa intenção de quem também não aguenta mais o verme e achava importante ir à passeata de hoje.

Tampouco quis manchar o respeito que as pessoas instruídas têm por seus raros bons cronistas.

Mas eu sinto que precisamos falar sobre Antônio Prata agora.

Ele é um escritor que dá o melhor de si e de sua palavra coloquial para falar aos leitores de classe média paulistana. E faz um grande serviço por ela, ao manter os argumentos civilizatórios em grau comum de entendimento, incluindo às vezes alguma inteligente ironia para reforçá-los.

Só acho que ele não pode ser um orientador de nossa estratégia política.

Prata sabe o que é o MBL? Sabe. Mas, se sabe, por que sugeriu que seus iguais engolissem o sapo dessa manifestação onde pixulecos de Lula na cadeia, ao lado daqueles de Bozo, desfilaram não surpreendentemente pelas mãos de tanta gente sem máscara?

Entendo que o escritor esteja preocupado com a união da oposição contra Bozo. Perfeito. Mas desde quando o MBL se opõe a Bozo?

MBL é oposição por exclusão, e apenas nos interessa se compuser número parlamentar para votar pelo impeachment. Então deixem que ele aja no Congresso!

Não é preciso dar a magnitude das ruas a esses lavajatistas rancorosos pela saída de Moro do governo, todos eles, além do mais, montados em capital estadunidense. No governo fariam tal e qual Bozo faz, sem se apoiar, é claro (ou sim, a depender), no poder miliciano de Rio das Pedras.

Kim é parvo, fascista ignorante. O mesmo para Holiday, cujo discurso nessas ocasiões é feito com o objetivo de mobilizar mentes binárias de pouco vocabulário.

Somos mais do que isso, suspeito.

E continuaremos lutando, certo?

Sobre o Sayad que conheci

Compartilhei algum espaço na vida com o João Sayad, que morreu hoje, inesperadamente para o conhecimento da maioria de nós.

Uma vez, nos anos 1980, ele caminhava ousado, sem segurança, pelo repleto viaduto do Chá, mesmo sendo autoridade da economia do Sarney. Parecia um desenhinho andando rapidamente, encurvado, de terno escuro, com as mãos no bolso e todos os olhos a seu redor. Esperei pelo pior, mas não veio. Tinha determinação e estrela, por certo.

Depois eu o entrevistei como secretário de Cultura do Serra, nos anos 2000, e foi uma enxurrada de coisas gritantes ditas por ele naquele tom baixo, calmo e irônico, pelas quais, como repórter, agradeci bastante.

Esse que era tão grande amigo de Fernando Haddad queria acabar com o programa Manos e Minas da TV Cultura, que a seu ver era muito ruim e destoava de tudo. E desejava resultados espelhados na PBS estadunidense.

E, mais divertido, me contou que Serra ligara puto pra ele depois de um Roda Viva com Gilmar Mendes no qual a Catanhêde resolvera “desafiar” o presidente do STF. Sem noção que sou, já fui dizendo que era mesmo estranho ele mandar soltar o Dantas. E Sayad, cândido: “O Daniel?” Sem deixar de completar, no seu tom baixo: “Eu também não gostaria de ser levado preso de pijamas à noite.”

Estava quase gostando bastante dele, mas não consegui.

Que vá na luz.

Liberdade já para os detidos do Borba

Não achei indecente queimar o Borba, embora admita existir um grau de controvérsia na história, visto que o autor da obra, Julio Guerra, foi artista humilde e essas encomendas, do que quer que fossem (e Guerra é também o autor da Mãe Preta no Paissandu, bela sem controvérsia), alimentavam os escultores quando escultura era um caminho considerável para a arte popular remunerada.

Mas se julgasse indecente o ato dos meninos do grupo militante, nem me manifestaria. Quero dormir na paz. Gritar pega ladrão no Brasil não pega ladrão. A polícia só aceita intimidar e trancafiar pobre, indefeso, preto, criança. E sabe-se lá fazer o quê (sabemos o quê) com a vida dessas pessoas. O ativista Galo que foi preso já estava na mira dos escroques. E sua mulher, mãe do filho deles de 3 anos, que foi visitá-lo, o que justifica sua prisão? E o motorista de caminhão que carregou os pneus?

A estátua adocica a imagem de quem representava as bandeiras facínoras. Além do mais, Borba Gato está ali de botas, quando andava descalço…

O monumento deveria ter sido mandado há anos para um museu de imagens de atrocidades históricas, como existe em outros lugares. Mas aqui neste tucanistão não tem quem pense nisso. A classe média paulistana tão abominável cognitivamente, como ensinou a Chauí, pensa que Borba Gato foi importante pra São Paulo por se tratar de um tremendo desbravador, do tamanho da estátua.

Não espero mais nada dessa gente burra de mau juízo. Nem pra plantar batatas serve.

O que eu quero, demando ou exijo, como cidadã, é liberdade já para os detidos.

Uma eternidade sem perdão

Sim, eu sei que parte dos meus amigos a conhecer os corredores da política e a atuar na justiça considera inexequível a prisão imediata desses depoentes que mentiram na CPI da Covid. Meus amigos creem que é preciso deixar o tempo correr e com isso facilitar o acesso dessa gente à tribuna da comissão, para que ela se enrole depois, quando o Ministério Público reunir as provas colhidas.

Ok, mas que “depois” será esse? Um desses depois vi hoje. Pesadelo, que há muito deveria se arrastar nas correntes, acaba de cair para o alto. O Exército o condena à reserva, esta a que teve direito após participar hoje do comício do Mussolini de subúrbio com mil motoqueiros da PM miliciana do Rio. Pesadelo foi, em suma, promovido.

Quanto mais tempo criminosos como ele ficarem soltos, mais a imagem da impunidade vai se cristalizar nesse nosso povo ignorante, desvalido de saberes, que habita tanto a camada dos acumuladores quanto a dos pobres.

Como se tivéssemos tempo de sobra pra perder nessa eternidade…

Borgen, a deliciosa utopia

Amigas queridas e poderosas me indicaram Borgen, uma série dinamarquesa na Netflix que foi ao ar no país entre 2010 e 2013, anterior portanto a House of Cards.

A protagonista é uma política de partido moderado que ambiciona a premiê. É casada com um descolado professor que cuida dos dois filhos pequenos do casal enquanto ela corre na política. Ele é inteligente, bem-humorado e lindo: ela tem atração por ele e ele, por ela. Ela é bonita, charmosa e engordou um pouco.

Borgen é o palácio que concentra o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal. Ali acontecem as tramas da sordidez do poder, impulsionadas pela apuração do jornalismo político. A outra protagonista, âncora de telejornal, é jovem e tem envolvimento amoroso com fontes.

Enfim, o que me encanta, para além do modo ágil e gostosamente caricatural pelo qual se desenvolvem essas séries padrão Netflix, é mesmo uma dupla questão.

A primeira. Me sinto representada pelo fato de as protagonistas serem mulheres num mundo de homens, tendo de dar atenção a aspectos triviais de sua vida familiar e amorosa enquanto pensam em como avançar a carreira diante dos degenerados. Também me encanta o fato de a candidata a premiê pretender ser moderada sem abrir mão de respeito a minorias, gêneros e meio ambiente.

A segunda. A Dinamarca não é aqui. As mulheres são respeitadas. A imprensa é cobrada pelo público e pelos próprios jornalistas a agir independentemente. São todos frios e diretos, mas bem-humorados nas suas relações e observações. E o tecido social surge reluzente.

É necessário seguir os protocolos de boa educação e civilidade em todos os momentos. Em uma sequência, dois policiais batem à porta da jornalista. Ela atende sem perguntar quem bate. Eles querem pressioná-la a entregar a fonte de sua apuração. Ela pede os distintivos, eles não querem dar. A jornalista então pega o celular, começa a filmá-los e eles correm do apartamento com medo das consequências.

É quase como assistir a Ursinhos Carinhosos com política no meio. Me diverte, me faz bem, pela delícia contida naquela utopia político-social.

QI de abelha

Não me emociono se penso que Toller votou no Tolo. Ou deixou o Tolo ganhar. Ou se nada fez para que o Tolo perdesse, até ganhando causa de 200 mil contra Haddad e o PT pelo uso (que ideia mais boba do partido, gente) da canção do QI de Abelha na campanha.

Nana também votou em Bolsonaro. Toquinho também. Djavan também, talvez. Desejo a Nana e a Toquinho toda a felicidade. Djavan está em mim. Vou ouvi-lo sempre, forever and ever.

E Toller, meus amigos, bonita ou não, conservada ou não (todas nós cinquentonas podemos nos orgulhar de nós mesmas neste aspecto, certo?), nunca habitou meu panteão.

Mas se habitou o seu, não ligue pra nada disso. Essas pessoas escrevem e interpretam canções, não necessariamente veem a vida como nós.

O que vai ser?

Não importa qual a notícia apurada pelos grandes jornais, seja sobre o novo corpo celeste, sobre a privatização da água no Brasil ou sobre o covid no mercado central do México.

Se a notícia aparentar ser contrária ao que o gabinete do ódio terraplanista determine, estará inflada por comentários de descrédito à apuração da imprensa brasileira e em torno da necessidade de negar os fatos.

Com perdão a minha ignorância jurídica, onde está o Moraes que não determina a culpa dessa gente de uma vez?

Ela quer destruir tudo o que existe para nos humanizar. E, depois, como sabemos, destruir a todos nós.

Destruir. Matar.

Race is for horses

Li algo interessante proferido por Daniel Filho. Mas, como se trata desse infame, não repercuti.

Preciso citá-lo agora, contudo. Porque ele disse acreditar que Regina Duarte, sua ex-mulher, está cega de paixão por Bolsonaro. E que faz qualquer coisa pra manter o fogo aceso.

Infelizmente, creio que ele está certo.

Assim foi Leni Riefenstahl, caída por Hitler, enquanto Goebbels, o rejeitado, esperou por uma lasca da cineasta até o fim da vida, sem conseguir.

Regina Duarte é a dama da arte pra quem Bolsonaro faz tudo. Até de Brasília ele a dispensou.

Daquela reunião ministerial, sinistral, ela nem precisou participar!

Porque aquilo…

Aquilo foi um duelo.

Ou um rodeio.

Corrida de cavalos.

Homens e uma mulher medindo membros diante de seu Führer.

Weintraub logo dizendo que tem o maior.

Guedes, exibicionista experimentado nas surubas das SSA de Chicago, espirrando terror.

Salles, um sedutor sem sorte, apelando pra tudo, pro infralegal, pro imoral debaixo da mesa…

E o desespero de Danares, sem porra nenhuma a declarar?

Salò Republic dos Puxa-Sacos, amici miei!

Só queria ter conhecido o texto convocatório para a “reunião”.

Ou para a disputa.

Pra suruba.

Ou pra quê, não sei.