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Meu artigo sobre como a comédia italiana encarou o fascismo

Ugo Tognazzi e Georges Wilson
em “Il Federale”,
de Luciano Salce, 1961
Alberto Sordi e Serge Reggiani
em “Tutti a Casa”, de Luigi Comencini, 1960
Nino Manfredi em “Gli Anni Ruggenti”,
de Luigi Zampa, 1962

A revista “Aurora”, da PUC de São Paulo, acaba de publicar um artigo que escrevi sobre como a comédia italiana encarou o fascismo. Está linda a edição, cujo tema é Humor e Política. O link para o meu artigo segue aqui (abaixo da capa vocês podem acessar o PDF). 🌹

https://revistas.pucsp.br/index.php/aurora/article/view/66365

Invólucro, sempre ele

Descobri que tanto minha cabeleireira católica, eleitora do Lula, quanto sua auxiliar evangélica, pró-Bolsonaro, ouvem os sermões de fervor religioso de Pablo Marçal e o consideram “gato”.

(Onde, gente?)

Mostrei-lhes um link que informava a dívida de 16 mil de Marçal com a Receita, algo inconcebível, convenhamos, para quem se apresenta também como coach financeiro. A evangélica primeiro perguntou se era possível confiar no link, depois arrematou que, de todo modo, os políticos são mesmo assim. A católica riu e aproveitou para informar que ela se declara isenta de imposto de renda quando não deveria ser.

O invólucro é o que conta para quem tem pouca informação. Nunca imaginei que achassem Marçal bonito, nem entendia, à época, o charme que as mulheres viam em Collor, no qual votaram para presidente.

Querem saber?

Estamos f.

Mulheres até o fim

Imensamente feliz por nossas mulheres olímpicas. Quem não estaria? São pessoas que vestem a luta, habituadas a presenciar a lida de mães e avós. Seus olhares parecem voltar-se a tudo em torno, sem se esquecer do que é próximo. Difícil ser mais bonito como povo do que agora, com essas pessoas diante de nós.

Segunda-feira cedo, contudo, eu pensava diferente. Atrasada, a caminho do metrô para a fisioterapia semanal, me perguntava o que São Paulo fez das mulheres, insistentemente abandonadas no centro da cidade. Nossos governos, municipal e estadual, habituaram-se a exercer a crueldade com elas, como quem não larga um vício. Mas e nossas mulheres, desistiram de lutar?

Bem, ainda não. Lutam de um outro jeito, talvez.

Três delas me pediram ajuda no trajeto para a estação próxima de casa. Um número incomum até para mim, que transito por essas ruas todos os dias. Não usavam os filhos. O pedido, como de uso, era por dinheiro-não, mas uma coca-cola, por favor. Eu me recuso a distribuir coca-cola e meu estoque de barrinhas de cereais para doação acabou. Passei pelas mulheres a abanar meu sinal de não. Às vezes saio para distribuir roupa e comida a quem aceite, mas não naquele dia. Não.

Grande padre Júlio que circula por lugares muito difíceis, munido da concha de sopa que é a espada dos justos. Mas eu não sei fazer um grão do que ele faz em regiões como a estação da Luz à noite, por exemplo. Estou na praça da República, mas já aqui, onde as coisas nem são tão ruins, vejo que, para essas mulheres, não se trata apenas da dificuldade em sobreviver. Elas vêm aqui para morrer. E isto é ainda mais difícil conseguir. Um processo custoso, lento. 

As três que me procuraram em um intervalo de menos de dez minutos tinham idades variadas. Uma trans de vestido vermelho longo, grandes brincos de argolas, sorridente, não chegava aos 20 anos. Uma religiosa sem dentes, talvez aos 50, clamava “pelo amor de Jesus” dentro da estação do metrô. Uma noia desbocada e impaciente, quem sabe aos sofridos 30, agitava as mãos e abria os olhos em minha direção, na avenida Ipiranga, sem que eu pudesse entender o que dizia. 

Muitas mulheres, cis ou trans, religiosas ou noias, já me imploraram ajuda antes, mas não tão cedo, ou não fora da hora de almoçar, como nessa segunda-feira. Sofriam demais. Achei que me procuravam com intensidade (a religiosa quase segurou meu braço) porque sou mais velha do que elas. Buscavam solidariedade na senhora de alpargatas, óculos escuros pretos e redondos, bolsa de mesmo formato e tecido africano, camiseta branca e calça pantacourt preta, gentil com os pobres, difícil para o mundo. Mas por que só mulheres atrás de mim?

O que sei: me viram desde longe, caminhando, e me surpreenderam com sua aproximação. E isto me lembrou eu mesma quando detecto um personagem à distância e chego arriscadamente mais perto dele para fotografá-lo e ao seu entorno. De certo modo, me escolheram por meu jeito de me movimentar e vestir. Fui um palpite.

Não quero comparar meu modo de tirar fotografias ao delas quando esmolam. O que quero dizer é que compartilhamos a atmosfera da cidade, razão pela qual usamos estratégias algo parecidas de aproximação.

Hoje sou uma pessoa um tanto isolada, por entender que não triunfei na maioria das relações humanas, e não desejo, a partir de agora, me estender nelas mais do que o necessário. Prefiro a família próxima, os amigos antigos, meus livros, meus filmes, minha música, minha cozinha. Posso preferir. Tenho o que essas mulheres nem sonharam ter.

Contudo, nossa atitude em comum é não temer tanto assim o estranho, aquele desconhecido que será, para nós, o meio de alcançar um objetivo. Não sofro por morar no centro, não ainda. Gosto dessas pessoas. Unimo-nos por instantes tão breves. Somos um fluxo de intuições, incertezas e tentativas, o sol às nossas costas, até a hora do fim.

Estas mulheres em mim

Com qual delas me pareço mais, não sei. Mas estou certa de que ainda crescem em mim.

Vó Guilhermina, neste desenho de meu pai, eu não conheci. Morreu aos 50 anos, diabética, na passagem do ano, depois de uma “melhora da morte” de que meu pai recordaria por toda a vida, sempre em lágrimas. Ele que era então menino pequeno nunca se recuperou da perda dessa mulher nascida nos Açores, sua mãe demais, enquanto não se conectava com o pai, veneziano e grave. Guilhermina dizia ter-se apaixonado pela beleza de meu avô, uma história bonita: Daniel deixou a família e a possível pequena herança em terras para se casar com ela, revoltado com os parentes que não queriam a união (e por que não, meu deus?). De olhos tristes e puxados, as roupas sem qualidade ou adorno, minha avó era a submissão à família, à lida camponesa de início e à carga proletária suburbana que viria depois.

Vó Wadiha parecia ser quase o oposto. Nascida no Líbano, despertara o amor de meu avô sírio Dib ao passear com seus olhos violeta, adolescente, pelas ruas de São Luís. Sempre me pareceu altiva e doce a um só tempo. Devota de se ajoelhar na rua diante das imagens dos santos católicos que apareciam pelo passeio, era muito vaidosa também, pronta a encarar uma foto sem medo. Convivi com ela nas férias em Fortaleza até os meus 10 anos. Wadiha bem que tentou me ensinar crochê. À mamãe, disse várias vezes que minha pele era especialmente macia, o que bastou para me tornar orgulhosa, sei lá, imodesta, sobre esta parte de meu corpo, a maior e mais escondida.

Sinto sua ausência e presença a um só tempo. Uma transcendência feminina, enganadoramente leve como as nuvens num dia de sol.

No íntimo mundo do sonho e do rock, o filme “Assa”, de Sergei Soloviev

Em 1988, viver significava insistir. Pela enseada, na cabana transformada em habitação, o jovem Bananan construía pequenos objetos de arte e ousava interpretar um gênero degenerado de música popular, o rock. A reconstrução, que os russos intitularam perestroika, chegava com a promessa de melhorar a vida de todos. “Mas eu não vivo a vida”, argumentava o protagonista da trama ficcional “Assa”, de Sergei Soloviev, à mulher amada, amante de um gângster. “Viver a vida é triste. Do trabalho para casa, do trabalho para o túmulo. Eu moro no íntimo mundo dos meus sonhos. E a vida, o que é a vida? Uma janela pela qual de vez em quando enxergo as coisas embaçadas.”

Aqui, este lindo filme, com legendas em inglês:

Herança maior que meu pai me deixou

O que hoje lhe impulsionaria a pintar, meu pai? A buscar? Como entenderia as facetas da falsidade obrigatória deste mundo? Se esconderia, como eu, nos livros, nos filmes, no apartamento? Brilharia, como a arte lhe ensinou? Acreditar na arte, meu pai, em sua capacidade de transformar tudo, foi a herança, aliás, que me deixou. Que o céu brilhe mais só porque seus olhos o veem da grande altura onde está. Parabéns.

De profundis

Paulo Netto no show “Coração Selvagem”, Centro Cultural São Paulo, em 29 de junho de 2024

Sempre achei difícil definir meu encanto pelo @paulonettocantor. Mas hoje, depois de assistir a seu show “Coração Selvagem”, entendi melhor minha afeição pelo artista. Ele, pernambucano, interpreta no show o repertório musical saído da rádio da vizinha em Condado, onde nasceu. A vizinha o intrigava: como poderia cantar feliz aquelas histórias tão tristes? Mas eu, nascida aqui em São Paulo muitos anos antes, ouvia a mesma ladainha nas férias nordestinas, e minha vontade era, pelo contrário, sorrir diante de letras tão originais que pareciam derramar-se! Desde o sol, naquela região do Brasil, tudo se espalha, comove, brilha, engrandece.

Como explicar? É prazeroso o desmanchar-se. E talvez você só consiga entender isso direito quando o próximo show “Coragem” aparecer, ou o novo álbum de Paulo Netto sair. Será possível perceber então como ele interpreta com amor sentido os muitos momentos da canção profunda brasileira, seja de Márcio Greyk (“Impossível acreditar que perdi você”), Fernando Mendes (“A desconhecida”), Tierry (“Gerusa”) ou dele próprio com Martins (“Nossa dança”), legando-nos sempre um sorriso na intensidade, como a provar a distância mínima que existe entre uma lágrima, uma gargalhada e o dia quente sobre as calçadas de pedra onde se dão as serestas.

“Impossível acreditar que perdi você”
“A desconhecida”
“Gerusa”
“Nossa dança”

Dona Cadu, que era a própria alegria

Pensei nela algumas vezes nesta semana, ontem mesmo. E morreu na madrugada de hoje, dia 21 de maio de 2024, aos 104 anos. Encantou-se dona Cadu.

Louceira e principalmente sambadeira do Recôncavo Baiano, tornou-se a guia poderosa para tantos, certamente para meu pobre espírito. Não tenho religião, mas conto com dois guias dessa imensidão em minha vida: Chagdud Rimpoche, que acalmou minhas preocupações de grávida e abençoou meu filho, e dona Cadu, que me sorriu e sorriu (e vocês podem notar isso nestes vídeos que fiz dela em 2017, em Coqueiros, e no ano passado, durante evento sobre as louceiras/sambadeiras do Recôncavo, durante o qual dançou com o filho Balbino).

Estou muito triste, mas sei que a sua será uma subida gloriosa, e que ela já habita, aquece e preenche nossos corações. Obrigada por tanto, dona Caduzinha, que era a própria alegria da vida.💜

Diante de sua oficina de cerâmica
em Coqueiros, 2017
Sambando em Saubara, no
Recôncavo Baiano, em 2027
No palco do Sesc 24 de Maio,
São Paulo, em abril de 2023, feliz
por ser sambista…
Dançando com o filho Balbino
no palco do Sesc 24 de Maio,
em São Paulo, abril de 2023

Uma tela de De Kooning inspirada em um filme de De Santis

“Escavação”, óleo sobre tela de
De Kooning, 1950

A pintura “Escavação” foi realizada por Willem de Kooning em 1950, inspirada no filme “Arroz amargo”, dirigido no ano anterior pelo italiano Giuseppe de Santis com as interpretações centrais de Silvana Mangano, Doris Dowling, Vittorio Gassman e Raf Vallone. Segundo o pintor estadunidense nascido na Holanda (1904-1997), o ponto de partida da pintura foi uma cena do longa-metragem neorrealista em que mulheres trabalham em um campo de arroz.

No óleo sobre tela estão sua pincelada expressiva e a organização distinta do espaço em planos soltos, com contornos abertos. Apropriadamente intitulada, a composição do artista expressionista abstrato reflete o processo de elaboração da pintura. Trata-se de uma construção intensiva. As camadas de tinta da superfície foram raspadas durante meses até que o efeito desejado surgisse.

A estrutura dinâmica de linhas caligráficas em forma de gancho define partes anatômicas – formas de pássaros e peixes, narizes, olhos, dentes, pescoços e mandíbulas humanos – e revela a tensão particular entre representação realista e abstração, inerente ao trabalho de De Kooning.

(Com informações do The Art Institute of Chicago, onde a tela está exposta)

Doris Dowling (segunda a partir da esq.) e Silvana Mangano (quarta a partir da esq.) em cena de “Arroz Amargo”, de De Santis, 1949