Um grande coração

A aventura humana era o tema da filmografia de John Huston, morto há trinta anos

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O diretor americano John Huston, retratado por Norman Seeff em 1981

Em 28 de agosto de 1987 morreu John Huston, um dos maiores cineastas do mundo inteiro, artífice da aventura humana. Que ninguém se lembre de homenageá-lo nestes trintas anos é um sinal dos maus tempos. Quando o diretor partiu, era como se as velas da arte estivessem recolhidas. Um ano antes, com graves problemas respiratórios e ao lado de Akira Kurosawa e Billy Wilder, entregara a Sydney Pollack uma estatueta de direção, em bizarra cerimônia do Oscar (com Sonia Braga na plateia) que sinalizava para o futuro modo hollywoodiano, nem sempre tão brilhante, de contar histórias.

Quem dera ser a jornalista Lillian Ross para descrever, com a elegância de “Filme”, o embate de Huston contra a cegueira dos produtores durante a produção de “The Red Badge of Courage”, a obra mutilada sobre a Guerra Civil americana. Seu saber lidar neste mundo, a maneira de compor as obsessões, a cinematografia baseada nas grandes literaturas… Cada filme de Huston parecia destinado a desenhar uma face de nossos enganos, medos, inúteis amores. Havia decadência, delírio e laços desfeitos na obra-prima “À sombra do vulcão”. Uma desoladora vaidade em “The Misfits”. “O Tesouro de Sierra Madre” trazia a cobiça e o castigo. “Uma Aventura na África” transformava a paixão reprimida em comédia tensa. O humor negro era o prato apetitoso de Huston em “A Honra do Poderoso Prizzi”. Em “Os Vivos e os Mortos” ele compunha uma epifania. Em “Falcão Maltês”, um jogo.

 

Sua habilidade narrativa se estendia a documentários como “Let There be Light”, de 1946, atualmente disponível no Netflix, em que descrevia a batalha interior dos veteranos traumatizados pela guerra (e seus caminhos neste esforço documental são narrados por Francis Ford Coppola na série “Five Came Back”, igualmente pertencente ao catálogo do canal).

Os enquadramentos em profundidade, a direção dos atores, as palavras! Principalmente estas, bem tratadas, diretas e essenciais, extraídas das obras de Herman Melville (“Moby Dick”) ou de Sigmund Freud (“Freud Além da Alma”), e proferidas sob brilhantes cenários, tornaram-se marcas de seu estilo. Huston (autor da autobiografia “Um Livro Aberto”) reforçou um caminho clássico, alto e perene para o cinema americano, atualmente tomado pelas folhagens dos fragmentos.

Três anos após a morte do cineasta, Clint Eastwood (“White Hunter, Black Heart”) apontou-lhe uma face cruel. Ninguém duvida que seu caráter mergulhasse por vezes em águas sombrias. Contudo, amparados por seus filmes, jamais nos convenceremos de que Huston não tivesse um grande coração.

A beleza das contradições

O protagonismo jamais pesou a Robert Taylor, galã que dominou a cena dos anos 1930 com melodrama e humor

 

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Esse seu olhar, espelho do público nos anos 1930

 

Robert Taylor era um sub-Clark Gable. Sei que isto diz muito pouco hoje a alguém. Nada, talvez, para a maioria de nós. Mesmo aqueles apaixonados pelo cinema antigo resolutamente desconhecem Gable para além de …E o vento levou.

 

Contudo, ser um sub de Gable contava bastante nos anos 1930, época de ouro da comédia romântica e dramática no cinema americano. Médico que concluíra o curso para agradar ao pai, o sub seguia os passos do intérprete de refinado humor. Era capaz, enquanto fazia sorrir, de provocar paixões melodramáticas, como aquela a fulminar Sublime Obsessão, por ele protagonizado e dirigido por John M. Stahl em 1935. (Pode-se ver o filme em um DVD duplo da Versátil no qual consta, como principal, a versão de Douglas Sirk, feita 19 anos depois.)

 

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Irene Dunne e Taylor em Sublime Obsessão, 1935

 

Vindo do cinema mudo, Stahl soube explorar a inteligente gestualidade de Taylor. O ator tinha a argúcia do cômico, ritmo nos diálogos, interpretava bêbados sem afetação, sabia sorrir belamente. Era músico e atleta. Com boa formação cultural, chegado a um terno e a um anel com pedra no dedo mínimo, sofria de ser superficial intimamente, dizia-se, embora seus papeis evocassem uma personalidade irônica e inteligente. Excelente ator, portanto… Para a MGM, que o manteve sob contrato, foi também um galã barato e servil, um anticomunista em anos de delação.

 

Uma tia minha, Alzira, o adorava. Em 1936, quando ela contava 20 anos, Taylor tinha 25 e já conquistara Hollywood por completo, mal aportado na carreira. Belo, divertido, um charme de derreter, a mais linda voz de Hollywood falava diretamente ao coração das fãs como ela.

 

Tia Alzira aprendera seu nome ao frequentar seguidas sessões em pequenos cinemas e ao ler constantemente sobre ele nas revistas brasileiras vendidas no Piauí, estado em que nasceu. Sem falar uma palavra de inglês, ela o chamava de Ro-bér-ti Tai-lôr. O feioso Humphrey Bogart (Um-prei Bo-gár-ti), dizia, nem chegava a seus pés.

 

Na juventude eu ria dessa preferência de minha tia (e também, tolamente, de sua pronúncia em inglês). Julgava Taylor um canastrão. Creio, contudo, que o espírito do tempo me fez avaliar mal. Tanto amei Bogart pelo talento e também pela singularidade, o caráter, as firmes posições políticas, que não soube destacar as qualidades profissionais de seu antípoda… Não entendi como Taylor era danado de bom para caracterizar um tipo. Ele dominava a cena e o protagonismo não parecia lhe pesar.

 

Minha tia o amava na mesma medida em que olhava Bette Davis com admiração. Achava-a linda, aliás. A beleza que hoje igualmente avaliamos mal… Taylor e Davis sofreram de estar subjugados aos ritmos da indústria, fumaram a ponto de arrasar a pele e o rosto em poucos anos de estrelato, mas tiveram o que mais importou, a segura beleza das contradições, essa que se espelhou em seu público.
Hoje Taylor salvou meu dia triste. Amanhã, quem sabe, seja Bette a fazer isso mais uma vez. A gente nunca perde por revisitar com carinho uma impressão familiar.

Por Rosane Pavam