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Não tem mais bobo no futebol

Na sala de espera do consultório do oftalmo, o senhor vestido de terno diz à senhora elegante, na mesma faixa etária dos 70, sentada a seu lado:

– Já que seus olhos estão ruins mesmo, eu te levo pra casa e vc não vai saber se está na sua casa ou na minha.

Ela se vira.

– Mas que cantada mais antiga! Isto nem pode ser chamado de paquera! E vamos logo ao jogo, porque esta pode ser a última copa do Iniesta.

Um defeito de cor

Sei lá, gente.

Os penteados dos brasileiros de origem negra sempre foram importantes para o futebol.

Não só penteados, maquiagem também.

Pó de arroz vem disso: alguns jogadores brasileiros maquiavam a cor da pele pra ser aceitos pela sociedade racista e violenta que prestigiava os jogos.

Ou seja, faziam-no para simplesmente sobreviver.

Porque, pasmem, nem sempre os brasileiros negros foram autorizados a jogar nos campos profissionais.

O Vasco furou o bloqueio nos anos 1920 e se deu bem.

Era preciso então exercer um certo disfarce se você fosse negro e se sentisse apto ao futebol no Brasil.

Quando o faziam, no início, os jogadores também batalhavam pelo direito a comer o café da manhã (pão com manteiga e café com leite) todo dia no clube.

Ainda assim, a torcida jamais perdoaria seus mínimos erros.

Barbosa, o goleiro negro de 1950, pagou em vida pela derrota contra o Uruguai, embora não tivesse sido o responsável por ela.

Pelé se irritava quando o chamavam de chiclete de onça. Mas eis como ele era: um insulto desses o fazia pensar ainda mais rápido que os outros.

Quando ostenta seu yakisoba na cabeça, então, o Neymar não esconde de onde veio.

Ele age como seus predecessores, que botavam banha pra alisar os cabelos e se ver livres desta, digamos, marcação social.

Com os cabelos assentados, sentiam-se dignos de pisar em campo, quase brancos a pairar sobre as diferenças…

Um deles até destacou que fora negro “antes”.

Hoje, nossa calopsita de frente leva dois cabeleireiros pro mundial.

É uma afirmação de poder, talvez inconsciente, contra as marcas de uma escravidão prolongada. Mas Neymar e Ronaldo Fenômeno agem como se não se dessem conta do sofrimento de seus pais. Nem devem achar que “foram negros antes”.

Isto talvez porque o futebol seja aquela escada rápida, praticamente um elevador, contra a invisibilidade. E o talento tenha colocado esses dois num atalho rápido para as adulações.

Problema deles, infelizmente.

Tudo isto pra dizer que, segundo entendo, o jogador tem direito de fazer o que quiser com sua cabeleira.

Não censuro penteados nem me emociono com as charges sobre o mesmo tema.

Alguns cabelos do futebol são mais que lindos!

Os do Maldini, os do Afonsinho…

Em campo, todos sabemos que não necessariamente a adoção de um luminoso capacete prussiano fará qualquer jogador ganhar a guerra contra os franceses.

Quem dera pudéssemos entender uma coisa de uma vez por todas.

Futebol é menos gel que batalha, menos lágrimas que sangue.

A velha camisa branca da paz

Não adianta brigar com o futebol, moçada.

Ele é nossa representação de brasileiros.

A representação do abandono, de um povo que, mesmo invisível, esquecido pelas mediações institucionais, dribla o jogador corpulento e de repente marca um gol.

O futebol é mais forte do que nós.

Sugiro aprender com ele e com a copa, à moda do que vocês vivem me dizendo aprender com os santos e as religiões.

Não perdemos de 7 a 1 à toa em 2014, como sabem.

Perdemos porque tínhamos muito a perder.

Pessoalmente, não me oponho à copa porque desejo saber o que ela nos dirá agora.

E embora a considere uma espécie de oráculo, jamais usaria o amarelo neste momento para assistir a um jogo da seleção.

O amarelo, que evoca a diarreia na história brasileira, não é a cor original de nossa camisa.

É a branca mesmo.

A velha camisa branca da paz.

Na praia dos abutres

Jornalistas. Teria tanto a contar sobre eles. Amei de cara Balzac porque os entendeu muito especialmente. O crítico loiro de ilusões perdidas, por exemplo, encontrei em todas as redações que frequentei…

Teria tanto a contar, mas não conto. Talvez nem mesmo em romance à clef, tão praticado pelos narcisistas que, claro, acham-se mais que jornalistas.

(Você já se imaginou por aí entregando as estrelas de suas próprias profissões? Nunca, né? Além disso, no caso do jornalismo, algo que nem existe mais, que interesse poderia haver nessas histórias? Humorístico? Sou péssima pra contar piadas.)

Às vezes, contudo, dou com a língua nos dentes e me arrependo instantaneamente de ter atingido o ídolo de alguém. Fico toda “bem, mas calma, ele tem ótimas qualidades”…

Meu parceiro do coração para essas histórias era o maior gênio que conheci no jornalismo: o Renato Pompeu. Até hoje me lembro de seu sorriso de criança quando eu aparecia com uma nova. Uma honra para mim se pensarmos que ele sabia tão mais do que eu em qualquer campo.

Renatão morreu, não tenho com quem conversar sobre esses assuntos, mas me lembrei de um minidiálogo que travei com um sujeito na redação certa feita. O Renato me daria um sorrisinho pra esta. A história exemplifica quão despreparada eu sempre estive para entender o patrão.

O chefe me pergunta:

“Você conhece quem cubra bem o mercado de luxo, Rosane?”

E eu:

“Luxo? Em que sentido?”

Eu realmente não achava que luxo fosse assunto pro jornalismo, exceto como denúncia ou por gozação. Mas eis que tal “segmento de consumo”, que poderia incluir “vinhos”, havia se tornado, sem que eu percebesse, tão importante para os patrões quanto “família real” ou “turfe”. Se eu quisesse editar “cultura”, então, não poderia me negar a tratar dessa prioridade.

O que me leva, não sei bem por quê, a um episódio ocorrido quando o Renato Pompeu e eu trabalhávamos no Jornal da Tarde.

O Renato vê entrar pela redação o então célebre jornalista Miguel de Almeida ao lado de um sujeito de óculos escuros, vestido com casaco de couro. Me cutuca:

– O Miguel de Almeida anda de guarda-costas, agora?

Eu olho e solto uma gargalhada que dura até hoje.

– É o Ivald Granato, Renato! O artista plástico!

E o Renato:

– Quem?

Das drags aos noivos reais

Mesmo ao ironizar a palhaçada real damos ibope aos palhaços. Eu sei! Mas penso assim: não controlamos a psicologia de massas mesmo. Ninguém compete com a família real, célebre amiga de Goebbels, nesse campo político…

E se não sabemos competir, então vamos tirar, porque a zoação talvez empoe esses diamantes de zircônia que tantas vezes atiram em nossa cara.

Particularmente, adorei que uma brasileira tenha reproduzido em poucas horas o vestido de 500 mil dólares da noiva e ainda postado no face o modelo chinfrim! Só se não for brasileira nessa hora.

(Quando lembro que a Oprah Winfrey obrigou as costureiras da Stella McCartney a passar a noite anterior ao casamento fazendo um vestido novo, já que a cor anterior do seu não ficaria bem na tevê, entendi melhor minha aversão ao espetáculo de mídia-me-too).

O único reality show a que assisto, porque há décadas gosto do acting do Rupaul (não dele, necessariamente), é o Drag Race. Então pesquei na página do programa dois sensacionais conselhos ao casal feitos por queens desta última temporada.

Miss Vanjie: “Eu diria à noiva para cancelar o Grindr do telefone dele. Não tem bobo no reino.”

Yuhua Hamasaki: “Do anal.”

Olhos mortos de sono

Entendo a Dilma vezes tantas.

Ter feito seu trabalho sob péssimas condições financeiras mundiais e haver sofrido uma discriminação tremenda por ser mulher, enquanto conduzia o país abatido pela tempestade.

Em meu universo mais que paralelo não tive qualquer Katia Abreu por escolha, mas precisei suportar muitas katias obscuras que me foram impostas em empresa particular na base da humilhação.

Dilma foi derrubada por um conluio de golpistas de direita. E eu também, no meu quintal, por homens ditos de esquerda.

No entanto, não odeio a esquerda por isso. Sou ainda mais à esquerda do que quem me golpeou.

Não roubei, não traí. Vivo pela igualdade.

Fico pensando neste assunto em horas insones apenas para me livrar dele. Me sinto tão melhor sem esse círculo danoso (grotesco ou caricatural) por perto. Não é felicidade ser chicoteada todos os dias por mentirosos a exercer seu pequeníssimo poder.

Olhos que desejariam estar mortos de sono agora. Mas que terão calma.

queer querer bem

meu professor, minha última razão pra escrever, me disse isto há uns meses, partido do nada:

– você é queer, rosane. doida. alicerçada em mistério. você não é deste mundo. ninguém sabe disso porque, pra esse mundo, você não é útil.

fiquei confusa. era uma sentença. talvez um elogio. ou uma constatação. ou nada.

e os olhos cheios d’água.

ter me chamado de queer foi um grande amor demais.

sem fim

ódio à marielle assassinada

ódio aos ocupantes do prédio feridos ou mortos

aos acampados por lula

aos drogados

sem-teto

índios

ateus

ódio aos pobres

às mulheres

aos nordestinos

ao haiti e a cuba

ódio aos negros

aos chacinados nas ruas

aos gays

sapatas

travas

trans

artistas

ódio aos estudantes de escolas públicas

aos camponeses que plantam sem veneno

aos intelectuais

às putas…

ódio, tens espelho?