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A ferrugem das ruínas

Exposição no CCBB-SP mostra um estado crítico para a produção artística africana contemporânea

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Juiz de futebol, rei dos reis, por Omar Victor Diop

Nunca fui à África, mas sei que lá estão minhas origens, como a de todos os brasileiros. Meu avô materno falava aramaico, a dita língua de Cristo, por sua vez um histórico personagem negro. Minha pele é clara, contudo. Isto resulta em que eu não sofra a tortura cotidiana de restrições sociais e policiais vivida pelos negros em meu país. Permitam-me que mergulhe no espelho do continente e considere a exposição que descrevo a seguir um momento fundamental para nossa cultura de existência e resistência.

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O curador Alfons Hug (centro) detalha suas escolhas para Ex Africa na sessão Explosões Musicais (Foto de Rosane Pavam)

Ex Africa (Da África) é o nome que o alemão Alfons Hug, curador de duas edições da Bienal de São Paulo (2002-04), duas vezes representante do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza, antigo diretor do Instituto Goethe no Rio de Janeiro e em Lagos, na Nigéria, e há quatro décadas pesquisador na arte daquele continente, deu à exposição que organiza. A mostra, com cerca de noventa obras, fica em cartaz no CCBB-SP até 16 de julho e segue para Rio de Janeiro e Brasília.

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Brasil, 2016, por Arjan Martins: afrodescendência
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Ex Votos, do brasileiro Dalton Paula

O objetivo da exposição é promover um panorama abrangente (artes plásticas, música, performance, instalações, fotografia) da produção contemporânea africana. Dois brasileiros afrodescentes, Arjan Martins e Dalton Paula, mostram ali também suas obras dedicadas à herança africana.

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A nigeriana Ndidi Dike, única mulher presente na mostra

Apenas uma mulher tem seu trabalho integrado à mostra: a nigeriana Ndidi Dike, com Exchange for Life, uma coleta de materiais ligados ao sofrimento do escravizado. Correntes, algemas, balas e cartazes de oferta e procura por negros compõem sua breve e aterrorizante instalação sobre a crueldade europeia, erigida no continente a partir da partilha africana, no século 19. A ausência feminina é explicada por Hug como uma decorrência de sua marginalização social e comercial em dois séculos. Aos poucos, ele crê, o mercado e as feiras começam a reconhecer as obras das mulheres. Por aqui, talvez tivesse faltado evidenciar a obra de uma artista crítica como Rosana Paulino, a evocar a ancestralidade do sofrimento negro. 

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Exchange for Life, de Ndidi Dike: objetos para escravizar

Para Hug, o contemporâneo é como que o esvaziado. Ou o que cresce. O que se ergue depois de uma criminosa intervenção. Ou o que ainda se pode dizer artístico, não importa a partir de que materiais ou orientações de pensamento. Como curador, ele parece buscar as inquietações, não as respostas. As formulações para uma arte crítica.

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Geometry of the passing, de Youssef Limoud, a desintegração marrom

Parece encontrá-las em trabalhos como Geometry of the passing, de Youssef Limoud, uma investigação sobre a ruína a se abater sobre o continente. Sua obra, que ele considera a mais valiosa de Ex Africa, é como uma maquete da destruição, composta a partir do marrom da ferrugem. O mesmo marrom, ele explica, dificilmente obtido hoje, quando a produção artística é demasiada e impede a fixação do tom. Os pintores do Barroco, sim, usaram-na bem. Mas eles podiam deixar a tinta descansar por períodos de um ano até que a deitassem em suas telas.

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Fragments White Cube Bermondsey, pelo ganês Ibrahim Mahama: meus caixotes, minha vida (Foto de Rosane Pavam)

Uma imensa instalação de abertura, Fragments White Cube Bermondsey, pelo muçulmano ganês Ibrahim Mahama, dimensiona a arquitetura da pobreza com caixotes.

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Desenhos de Lagos, do nigeriano Karo Akpokiere

As telas ainda são a principal orientação clássica entre as obras brasileiras e africanas. Contudo, como de uso, estão na fotografia e no desenho (como o do nigeriano Karo Akpokiere) os experimentos mais críticos e realistas deste período. O fotógrafo senegalês Omar Victor Diop faz o retrato dos futebolistas como novos imperadores. Reveste de nobreza seu perfil ao parafrasear as séries de Jean Michel Basquiat sobre os heróicos esportistas negros.

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Nairóbi, 2014, pelo sul-africano Guy Tillim

Escolhidas por Hug, as fotografias de Guy Tillim, que descortina as ruas, do retratista nigeriano J. D. ‘Okhai Ojekere (um antecessor de Diop) ou do fotógrafo sul-africano de ambientação interna Andrew Tshabangu, a evocar o americano Walker Evans, nos fazem caminhar por dentro de cada país segundo um entendimento ocidental anterior. Sob a mesma abordagem, mas rica em transparências, a instalação Ponte City, de Mikhael Subotzky e Patrick Waterhouse, sobrepõe a exibição contínua, por meio de um projetor, da ocupação de um edifício outrora de alto padrão em Joanesburgo.

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Beri Beri, do nigeriano J. D. ‘Okhai Ojeikere 
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Interior de um quarto, pelo sul-africano Andrew Tshabangu
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A instalação Ponte City, em Joanesburgo, por Mikhael Subotzky e Patrick Waterhouse 

A exposição se divide entre os eixos Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais. Nesta última sessão exibe-se o convencionalismo do funk ostentação em línguas diferentes. E lá estará a enorme qualidade do angolano Nástio Mosquito, a ecoar David Bowie em Hilário.

A sessão musical, que insere a produção da indústria cultural africana como provocativa oposição à musicalidade de raiz, ainda presente no continente, talvez deixe o visitante com um sabor amargo, de ferrugem das ruínas.

Jornalismo quando sonho

era um sonho quase realista.

eu tinha de trabalhar na tevê, quando, na vida, nunca trabalhei em tevê.

mas não podia escolher.

chegava simpática e sorridente.

na redação, em lugar de mesas de trabalho, havia atrações.

algumas mulheres faziam brotar flores desde a semente em poucos minutos.

os homens atiravam espadas.

assim que cheguei lavaram meu cabelo e fizeram escova.

me dei conta de que se tratava, em verdade, de uma peruca loira.

eu tinha de usar salto, quando raramente uso salto.

e ficava sentada pra não doer o pé.

no decorrer das atrações, eu me entediava e as costas começavam a doer.

me levantava, um pouco insegura sobre os saltos, e me via muito maior em altura que os outros.

eu tinha virado uma das atrações.

perguntei o que queriam que eu fizesse então.

“leia as notícias”, disseram.

o vídeo começava a rodar, os fatos aconteciam e não havia teleprompter onde eu pudesse ler a reportagem.

diante de mim, contudo, o câmera mandava seguir.

eu argumentava: “não recebi o texto. não sei como, por que, onde ou quando se deram estes fatos.”

e o câmera se aborrecia.

“este é seu trabalho, improvisar as notícias!”

Minha Geraldine

Rafaela travesti

Linda e fashion, a Rafa me contou que não trabalha há dois anos por ser portadora do HIV. Não perguntei o que fazia antes para que o vírus a impedisse agora. Acreditei nela quando disse que não morava sob o Minhocão, conforme sugere a foto, mas em um albergue próximo. Rafaela saltou sobre mim enquanto eu percorria o caminho até o metrô. Nunca achei que fosse me roubar. Me pediu a grana pra marmita, e ao meio-dia cheirava a álcool. Rapidamente despejei em suas mãos as moedas que eu tinha, talvez cinco reais. Ela fez uma festa, me abraçou e eu a beijei. “Você quer me fotografar?” Posou pra mim com a segurança que um dia vi em Geraldine Chaplin.

Mil e uma noites

Não gosto de caridade. Não tenho esperança ou fé. Sou um espírito disperso, sem o alento das crenças. Em São Paulo, contudo, respondo ao que a miséria me pergunta.

Diante do pequeno Pão de Açúcar da rua Pamplona, são dezenas de mães, pais e filhos a despertar cotidianamente dos passantes a compaixão, diria mesmo a pena que, jovem e altiva, um dia eu rejeitei exercer diante de um outro ser humano como eu.

Ontem, uma mulher de 40 anos, os dentes escangalhados, sentada sem reação no meio-fio da calçada do supermercado, deu um giro sobre o corpo quando me viu entrar. “Preciso de arroz ou feijão, é sério, pra comer.”

Não sei se se tratava de uma profissional de quem pede. Há tantas pessoas assim pela cidade. Sempre penso que são miseráveis de qualquer forma. O ofício de implorar, eu não queria ter.

Aparentemente sou o rosto a quem recorrem quando ninguém mais responde. Disse-lhe que me esperasse e ela ficou exultante. Fui fazer minhas compras e quase me esqueci do que lhe prometera. “Arroz e feijão, Rosane, arroz e feijão”, e dei meia volta. Comprei das marcas mais baratas. Me sinto dura, sem vaidade. Mas ainda tenho o que possa dar.

Ela me esperava na saída, diante do caixa. Olhei-a mais de perto. Luminosa. Negra. Os dentes já não me pareciam tão ruins. “Hoje vai ter janta?”, perguntei-lhe sorrindo. Ela sorriu de volta. “Sabe, ninguém acredita em mim. O que eu mais queria nessa vida era trabalhar. Mas não sei ler nem escrever, o que posso fazer?”

Como sempre acontece nesses momentos, quem pede algo urgentemente não me dá muito tempo pra conversa. Ela pegou seus pacotes e saiu pela rua acima, rumo a algo ou alguém.

Teria se tornado não uma Beyoncé da vida, talvez uma Cardi B, pensei sem raciocínio, se o ambiente lhe fosse favorável, como parecia começar a ser no Brasil. Mas essa Bey não sabe ler nem escrever. Ou talvez diga não saber, pela sobrevivência.

Pequena estrela da empatia, eu lhe desejo uma ceia de mil e uma noites.

calafrios e castigos

é difícil ganhar a vida, eu sei.

ninguém quer nos pagar por nada.

já fiz tanto trabalho meia-boca, ou não correspondente a meus sonhos, pra sobreviver.

mas algumas coisas você pode escolher não praticar e a alguns empregadores, não se submeter.

ademais, se seu rosto é identificável dentro do trabalho, ou sua assinatura, nos textos, convém pensar duas vezes antes de aceitar o trampo.

por exemplo, não fui trabalhar na veja quando convidada.

não tive estômago, embora houvesse sido funcionária da terrível folha antes.

mas na folha eu praticamente não assinava nada, era uma reles redatora no primeiro emprego em grande imprensa.

enquanto a veja me tornaria visível e representaria um passo pessoal em direção ao extremo ridículo dentro do jornalismo brasileiro, já àquela altura.

eu teria de ser reescrita mil vezes pela gryzinski, por exemplo, que achava meu texto “barroco”.

por que faria isso comigo?

sofria calafrios só de pensar.

(até hoje, nos meus pesadelos, o mario sabino me aguarda calvo e de sobrancelha arqueada em volta de uma mesa na editoria de cultura; eu me atraso muito para a reunião de pauta; sou submetida à inquisição no cadafalso entre as baias de fórmica).

não me venham dizer, então, que o ator contratado como protagonista pelo padilha é um desavisado.

ou que desconhece por inteiro o que o padilha vai aprontar com o material filmado a partir de sua atuação.

sabe sim, ou tem uma ideia robusta do que vai acontecer no fim, e precisa aguentar.

porque o dinheiro pode não ser compensação à altura para o crime que vai cometer…

A farra do Padilha

Tanta gente desiludida com Padilha e eu só penso: como se iludiram? Gostaram de Tropa de Elite? Sim, gostaram. Percebi naquela redação erroneamente classificada como de esquerda que gostaram. Uma tristeza ter de aceitar essa preferência, então, como “progressista”. (Vivi o trauma de driblar o gosto alheio pra ser jornalista. Assim são as revistas, a informação que veiculam e até mesmo a língua portuguesa que proclamam: hierárquicas. E enquanto isso, comicamente, torcemos para saber furar o bloqueio.)

Não consegui ver nem dez minutos dessa porcaria de desce-pro-play. E Narcos não se vê, consome-se.

O sujeito tem suas ideias, especialmente ideologias, e as produz, mas não é um diretor. Tropa de Elite só funcionou porque foi remontado pelo Daniel Rezende, que percebeu ser o personagem de Wagner Moura o principal. E o Moura adorou o sucesso que teve porque almeja o sistema hollywoodiano. É um ator talentoso, mas não me interessa, não me diz.

Ele já se pronunciou sobre O Manifesto? Desculpe, Mecanismo? Vai ser interessante.

Me divirto em pensar que Selton Mello imaginou uma carreira no exterior semelhante à dele a partir da parceria com o Padilha. Pra ser colombiano bandido em Hollywood, o cabra tem de ser bom.

Juro que fecho meus olhos quando penso que Wagner Moura vai dirigir uma cinebiografia de Marighella com Seu Jorge como protagonista. De todo modo, algum técnico bom deve trabalhar por ele, como aconteceu na estreia de Murilo Benício. Uma suposição, me entendam… Começo a admirar Benício, uma vez que, durante a mostra internacional em São Paulo, assumiu não ter feito realmente o primeiro filme que lançou como seu.

Padilha é um profissional do sistema: remunera o pessoal com o dinheiro alheio de seu marketing-embromation e põe o nome no fim. Chefinho desde Carvoeiros, sua obra número um, que ele conduziu com um americano, o autor… Digo isso há quase vinte anos, mas não sou lida. E nem de longe estou sozinha nisso. Basta não proferir o que o sistema pensa pra sua carreira beirar o precipício. O fracasso ético é o sal envenenado de nossa imprensa.

Desejo boa sorte a todos. Os que ficam no Netflix, os que saem. Não vai adiantar sair ou ficar. O economista Padilha é que não vai sofrer, dinheiro não lhe faltará. E ele sempre dependerá da propaganda que gentilmente lhe faremos quando protestarmos.

Adeus

Às vezes, em noites caseiras e insones como esta, eu sabia que ele, entre outros amigos queridos igualmente idos, estaria por aqui, quase ao lado, observando com sentimento (com seu jeito bonito ou mesmo contrariado de olhar as coisas) uma foto que eu tivesse colocado, uns versos que houvesse exposto, uma alegria ou talvez uma angústia que me apertasse e que desapareceria pela manhã. (E ele nunca brigou com minha tristeza, nem me julgou esquisita ou estranha por isso, como seria de esperar, e talvez experimentasse, como escreveu, uma admiração de igual.)

Fazia sentido postar nessa abscência se eu intuísse que ele se situava perto para me ouvir. Às vezes estava acordado como eu naquela madrugada de morcegos e me dava sugestões, como a última, para que eu expusesse minhas fotos, especialmente as dos reflexos, e que meu marido desse um jeito com os vinhos para quem aceitasse vê-las numa noite de museu na minha casa.

Ele vivia acordado com seus sonhos, eu fugia dos meus.

Não tenho muitos amigos presentes, eles são circunstâncias, vivem em mim, eu converso com eles em imaginação todo o tempo, talvez a experimentar tardiamente as amizades invisíveis que nunca tive na infância.

Enquanto leio a insolência de Gógol e choro com as tragédias de sentimento sem final de Tchecov, enquanto converso em ondas com esses mares de Bergman, Buñuel e Murnau e busco meu retrato em Walker Evans ou Saul Leiter, prescindo de tudo e todos, de quem tenha sangue pra me ouvir.

Meu amigo à distância que não existe mais viverá.

Naquele dia de sua morte uma mariposa negra me atormentou no quarto, avantajada, inquilina, e eu me assustei a ponto de andar pelo cômodo de guarda-chuva aberto. Quando meu marido chegou em casa e abriu a persiana, ela saiu, mas o coração saltava.

Soube depois.

No momento em que a mariposa deixou nosso quarto, ele partiu também.

Desconfio contudo que ainda permaneça aqui em algum canto, desejando ficar e me ouvir seriamente, expondo um triste e familiar enredo de filme japonês, talvez inventado, no qual os filhos morrem por seus pais, numa transformação poética do esperado e conquistado.

Abro a janela.

Parta com paz, meu querido, para a terra das nuvens e do riso, mas ainda me traga desde o infinito seus brinquedos e perfumes.

Impiedosos instantâneos

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Ninetto Davoli, Silvana Mangano e Totò em La Terra Vista Dalla Luna, de Pasolini, em As Bruxas

“As Bruxas”, no ciclo Visconti do Cinesesc, em São Paulo, é a arte mais maravilhosa. Pena que a próxima e única exibição desse filme de episódios realizado em 1966 se dê no dia 13 de março, no horário ingrato e vagabundo das 14 horas.

Visconti não faz a melhor entre as cinco narrativas (os outros realizadores são Pier Paolo Pasolini, Mauro Bolognini, Franco Rossi e Vittorio de Sica), talvez porque caminhe como um estranho pelo conto, ademais humorístico, marca deste filme.

Quem admira os representantes do gênero, Tchecov em especial, sua brevidade sem necessário desfecho ao destacar as misérias sociais, os golpes de sua trágica comicidade, vai entender a pertinência do filme de episódios, este que viabilizou o cinema na Itália no início ameaçador (por fim destruidor) da tevê. Os contos compreendem a vida urbana e fixam seus impiedosos instantâneos.

Visconti, na direção contrária, precisa do tempo do romance. Ele é mais (no sentido normalmente evitado) que um diretor de cinema. Eis um encenador teatral a observar, à distância de sua audiência, o erro burguês…

Que aulas as suas sequências de batalha! “O Leopardo”, esse western, encena a guerra real, seca. “Senso” a movimenta com realismo, sem temer o grotesco. Goya entra delicadamente por seus poros! Visconti sabe o que é lutar. 

Em “As Bruxas”, roteirizado por magos  da comédia sequencial como Age e Scarpelli, por fabulistas como Cesare Zavattini e pelo próprio Pasolini, a magia do cinema mudo, das máscaras faciais, daquele Totò inspirado em Chaplin, tomam a tela como um pequeno milagre. Todos os episódios são protagonizados por uma grande Silvana Mangano, a mulher de Dino De Laurentiis, produtor que além de levar Totò e Alberto Sordi ao filme convenceu Clint Eastwood (20 mil dólares e uma Ferrari) a destruir o impotente americano médio com um sarcasmo de aplaudir.

Esses filmes de episódios que os italianos faziam para salvar o cinema dos medíocres sempre me emocionaram. Às vezes não eram muitos os diretores reunidos. Dino Risi, por exemplo, apreciava tanto o modelo que fazia longas inteiros a partir de seus próprios pequenos contos violentos. Em “Os Monstros” e “Le Donne sono Fatte Così” (com Monica Vitti à frente de múltiplas interpretações das mulheres italianas), nunca foi tão certeiro. Um ferido a nos ferir…

Escrevo quando deveria dormir. Por empolgação amorosa, sem dinheiro. Quem dera voltar a este filme. Talvez um dia volte a todos os filmes. 

Meu conselho é que aproveitem o ciclo Visconti para também estar com Fellini, Pasolini, Rossellini, Monicelli…

Não percam “Bocaccio 70” e “Nós, as mulheres”.

Por seu deus.

primeiro a gente tira a dilma

creio que alguns paulistanos tiraram a dilma por razões bem específicas.

número 1: passear no shopping de paredes brancas cujos faxineiros são pretos.

número 2: entrar na doceria tradicional e sob ar condicionado conversar com a mulata atendente que lhe sorri. em plena quinta-feira ensolarada, o paulistano vem dizer:

– voltei da praia hoje, não aguentei o calor.

– verdade? – ela reage. – que pena.

– e também preciso ficar de olho no investimento. se não fico, perco.

enquanto tiver seis contos pra tomar expresso com biscoitinho e água gasosa, vou ocupar a mesa mais legal da doceria e não deixar você sentar, seu escroto.