Máscara, o style de um povo

Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.

Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.

Mais que bala de revórver

Samba dos bons.

“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.

E ironia das melhores.

A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.

sem amor outra vez

então.

precisei comprar na padaria de novo e uma hipster adentrou a área da vitrine para olhar os produtos, desrespeitando a distância – muito próxima de mim, portanto.

reclamei de sua atitude e ela partiu pra perto de minha máscara.

lembrei-lhe que não encostasse, que não estava mais falando com ela e virei as costas.

parece que são paulo voltou a ser aquela mesma coisa sem amor de novo.

e eu… eu constatei mais uma vez que sou a rosane de sempre.

um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra infernizar o gado ruim.

Um sentir na pandemia

Ontem, daqui da janela, eu me encontrava conformada. Os passantes prosseguiam, grande parte deles (homens, em sua maioria) sem máscaras, mas não eram tantos assim.

Havia ônibus e filas de ônibus, porém os passageiros se postavam mais ou menos distantes uns dos outros. E muitas crianças, porque assim as entendo, carregavam suprimentos sobre motos e bicicletas.

Hoje, tudo está diferente.

Faz frio. No entanto, há gente considerável circulando todo o tempo, e mais: aproximam-se, conversam entre si. Os policiais, zeladores de estacionamento e vigias encaram os mendigos que chegam perto deles com idênticos braços cruzados, sem conceder ou se afastar diante de sua presença.

Carros e veículos iridescentes conduzidos por transportadores infantis revezam-se em número semelhante no calçamento.

Um ou outro personagem isolado (daqui a pouco os reconhecerei e lhe darei apelidos) grita “fora bolsonaro” das janelas longínquas, como um rápido desabafo. Mas há também pela rua os gritos alongados, parecidos com os daqueles vendedores antigos de beju na praia. E batuques.

Não sei o que as pessoas lá fora pensam.

Porque sei que pensam.

Porque pensar é um sentir.