A fenomenal e os dez mangos

Que pena.

Morreu a Mariza, que era mesmo fenomenal. Artista de primeira. Seu físico me lembrava o do Miles Davis nos anos finais, um “tô passando por aqui, nem aí pra vocês”.

Resolvia qualquer pepino que fosse preciso ilustrar no Caderno de Sábado, por exemplo, o suplemento semanal cultural que o JT extinguiu bem antes de dar um fim a si mesmo (tenho a impressão de que se foi tb por desprezar a cultura…). Ela sabia interpretar o fato e levá-lo além.

De vez em quando, vamos lá, quase sempre, pedia dez mangos pra quem estivesse perto e sumia com eles. Se eu tinha, dava, fazer o quê? Uma vez, o ilustrador principal do JT, me fugiu o nome, perguntou a ela antes de lhe emprestar, sorrindo: “Mas você devolve, né?”

contra a grosseria, o abandono e o incêndio entre nós, só tenho tido uma receita particular, que é buscar a beleza onde de início não consigo vê-la.

às vezes (a maioria delas) encontro o que é belo no homem da rua, na criança cujos olhos sempre me localizam, no anúncio luminoso do ponto de ônibus refletido na placa espelhada. e fico achando que passarei por cima de tudo o mais que é ruim, justamente porque esta tarefa de sísifo me distrairá pra sempre.

mas às vezes também só espero a hora de dormir.

da cor dos teus cabelos

sapeio as conversas, leio as redes sociais.

e todos os dias observo isto em alguém muito jovem:

em lugar de enxergar naquele que envelhece o ardor por compreender as coisas, aponta-se nele a inadequação.

a lentidão.

o ridículo.

“seu vovô!”

e seu espaço de ação, quando existe, pouco a pouco se abre ao abismo…

não posso deixar de supor que atingimos o buraco fundo também por conta deste pensamento.

tudo bem que a juventude exija o espaço dos ventos!

tudo muito bem que os cabelos sejam fortes, leves, soltos e livres!

mas se um dia nem cabelos iremos ter, o que faremos com a cabeça que sobrou?

É proibido proibir

Por muitos anos, já durante a República, os governos federais brasileiros quiseram extinguir o carnaval.

Uma festa obscena, certo? E crítica! E suja!

E por este tom andavam as indignações.

Foi então que o marechal-presidente Floriano Peixoto teve uma ideia brilhante para arrefecer os ânimos.

Ele mudaria a data do carnaval. Em lugar de fevereiro, decretaria junho para as comemorações de 1892.

Era pro bem da população.

Sem sol, sem problemas, sem doenças!

Compostura!

Pobre Floriano, não se dava conta do brasileiro…

O que fizeram os cariocas ao saber da mudança? Nem perderam tempo em reclamar. Em fevereiro, celebraram o carnaval extra-oficial. E, em junho, saíram pra folia outra vez, na data que o presidente quis.

Floriano pôs a mão no chapelão. Que povo era esse, meu Deus? E no ano seguinte decretou que o carnaval seria em fevereiro outra vez.

Acima, uma capa do artista J Carlos ironizando pesadamente o intento de proibir a folia em 1927. Sim… Porque a ideia de colocar um fim àquela pouca-vergonha não cessava, certo? J Carlos, contudo, sabia que não iria funcionar! Proibir a festa era chamar a revolução!

Cinco anos depois deste desenho (e de muitos outros de sua autoria, todo santo ano), o governo do Rio, impulsionado por uma ideia de Mário Filho para vender o jornal de esportes da família durante o carnaval, quando ninguém queria saber de futebol, abraçou oficialmente a competição das escolas de samba.

Sirvam-se da história, suas excelências, pastores e generais!