valeu, zoca

de saco cheio desse povo desancando pelé, me dei conta do zoca, o filho dois anos mais novo de dona celeste.

que sina.

já pensou nascer irmão do cara, parecido mas feio, dentucinho e sem um milésimo do talento pra bola?

fui saber por que ninguém falou de zoca no velório do rei e o google me informou que o mano morreu há dois anos de câncer na próstata.

nem eu, que amo futebol, vila belmiro, santos, pelé, não sei em que ordem, me dei conta do fato.

pelo menos ele não foi um harry da vida, irmão daquele careca inútil, querendo aparecer pro mundo porque matou 25 afegãos na guerra.

valeu, zoquinha mon amour.

O hedonismo neolaico segundo Pasolini

“Quando Pasolini refere-se à burguesia, não se refere tanto a uma classe social, mas ao surgimento de uma ‘nova categoria do humano’. Qual categoria? A do homem outorgado como consumidor, do homem que dessacraliza o mundo. Por isso Pasolini afirma que burguesia e religião são antípodas: não existe burguês que possua um autêntico sentimento religioso. Burguesia e religião são antípodas porque a ‘mutação antropológica’, gerada pelo novo fascismo, suprime o sentido próprio do sagrado, resumindo o mundo, como diria Heidegger, a mera fonte de recursos que a razão pragmática deve explorar e dominar, sendo a burguesia portadora de um ‘hedonismo neolaico, cegamente alheio a todo valor humanista’, que reduz o sentimento religioso a um estéril código de comportamento.”

Em “Pasolini – O Fantasma da Origem”, de Massimo Recalcati, trad. de Cezar Tridapalli.

Estranho não é que Jânio de Freitas tenha sido demitido da Folha, mas lá ficado

Eu só sei que, como já contei a vocês, a Folha me perguntou se eu era filiada ao PT antes de me contratar como jornalista, décadas atrás.

Entrei para trabalhar lá e constatei que a liberdade de empresa vinha antes daquela de imprensa na redação. Por exemplo, não podíamos noticiar qualquer fato que prejudicasse a imagem de um banco – além de anunciarem no jornal, os bancos eram mentalidades irmãs, às quais se devia servir.

Então não estranho que demitam o Jânio de Freitas agora. Estranho mesmo é que tenham deixado ele ficar no jornal até hoje.

As demissões foram muito mais do que as anunciadas ontem. Elas ocorreram depois que a direção apresentou aos jornalistas um plano de demissão voluntária.

Demissões ocorrem ali todo ano, há muito tempo. Alegam prejuízos e aproveitam pra se livrar de quem não interessa. Neste ano demitiram tanto Jânio e Marilene Felinto, por exemplo, à esquerda, quanto Sylvia Colombo (muito próxima de Otávio Frias Filho, que afinal morreu), cada dia mais à direita. É jornalismo o que não parece mais ser muito bem-vindo por lá.

Isto porque a Folha não responde mais prioritariamente pela renda familiar. Luís Frias, um dos herdeiros, dono do PagSeguro, é a 12ª pessoa mais rica do Brasil, com uma fortuna estimada de 25,2 bilhões de reais, de acordo com o ranking de bilionários da revista Forbes em 2021. No PagSeguro, estima-se que sua parcela seja de 3 bilhões de dólares. Isso se deve em especial ao peso majoritário que ele tem no Universo Online S.A. (UOL), uma das frentes do Grupo Folha.

Jornalismo parece existir pra ele só pra pressionar o governo rumo à satisfação de seus interesses comerciais. Em 2019, um ano após a morte do irmão, o diretor de redação Otávio Frias Filho, ele depôs toda a diretoria e afastou a irmã Maria Cristina Frias do comando, colocando Sérgio Dávila no lugar. Deu errado com Bozó, mas ele teria preferido que se dessem bem – vocês devem se lembrar da célebre cara feliz de D’Avila num almoço com o Verme, no começo do mandato.

Tenho pra mim que vocês vão continuar lendo a Folha, até por falta de opção. Eu já desisti faz tempo, mas consigo entender que não a abandonem. Seria muito bom se houvesse um veículo de informação bastante confiável mais à esquerda no Brasil, com abrangência de apuração. Mas não há. Resta que leiamos jornais muito parecidos em sua ira santa contra o PT e o mínimo progressismo, buscando a verdade nas entrelinhas.

Digo Love

Quando penso em Pelé, vejo o futebol imenso, um artista preto no cume sagrado de sua potência, contra o racismo e a pobreza que o Brasil lhe destinou ao nascer. Mas se você, ao vê-lo, apenas comemora a doença e a morte do Edson Arantes bolsonarista que renegou uma filha, sinto muito e aproveito pra dizer Love.

Quero o que você come

Vou à padaria hipster, que afinal tem a melhor baguete, e a atendente me oferece o pão de queijo que acaba de sair. Pego um, claro, tão quentinho, e já meto o bocão pra comer ali mesmo, no banquinho da rua, quando ele se aproxima.

Não tem 30 anos, não é preto, está enrolado no cobertor e me fala com calma: “Me dá pra comer?” Sempre esqueço das moedas, caramba. “Desculpe, querido, não trouxe dinheiro.” Ele me olha do mesmo jeito imóvel: “Um pedaço do que a senhora está comendo mesmo.” Eu ensaio protestar, porque saí da hidro faminta. Mas corto o pãozinho ao meio com os dentes e lhe dou. Poderia ter lhe dado inteiro? A culpa atravessa o dia.

As tristezas brasileiras acontecem juntas e misturadas. Não somos astutos o suficiente para num instante apreendê-las, driblá-las e correr pro gol.

Uma foto é uma foto

Uma foto é o retrato de um momento, isto parece certo.
Mas um momento de quem?
Da realidade ou de quem fotografa?
Fotografia, escrita da luz em grego.
Isto quer dizer que existe um “escritor” por trás.
E a imagem não é, nem precisa ser, o retrato da realidade como ela foi.
Trata-se de um instante para o qual o fotógrafo determina tudo.
Ângulo, desenho, movimento, expressão, intenção.
Simples e pura capacidade de ver.
A imagem é fruto de sua decisão momentânea, de sua cultura, de seu modo rápido de perceber as coisas.
Sim, o fotógrafo é um autor.
Quando vcs analisam a foto de Richarlison abraçando calorosamente um Neymar imóvel, sabem mesmo o que está acontecendo enquanto a imagem se dá?
Se se trata do momento da comemoração do gol, significa necessariamente que Richarlison foi caloroso e Neymar, não?
Me lembro de prestar atenção quando Richarlison faz o voleio para a bola entrar no gol, a partir da imagem do drone. Vi o menino Sonega se mexer, dando um primeiro passo para a corrida até o gol, uma vez que contribuiu para que ele acontecesse. Mas não sei se correu de fato, porque o filme não continua a partir desse ponto.
Então, a foto, que aliás Richarlison postou no seu Instagram, sob a legenda “Ídolo”, com o comentário de emoticons e corações de Neymar, pode querer dizer apenas que Sonega estivesse já dolorido e Richie tenha ido até ele, para acolhê-lo. Pode querer dizer que Richie, como a gente espera, foi um ser humano incrível, abraçando seu ídolo num ato de compaixão, surpreendendo-o na sua dor, razão pela qual Sonega se mantém imóvel.
Sim, porque moeram o tornozelo de Sonega realmente, certo? E eu nem sei como, depois disso, ele ainda permaneceu de pé.
Interpretações são ótimas, principalmente quando acompanhadas de contexto. Porque, sim, uma foto não substitui mil palavras. Porque, como dizia Millôr, tente substituir essa frase por uma foto.
Foto é foto, palavra é palavra.
Vamos usá-las sabiamente.
Aguardo informações.

Futebol, guerra declarada, coração metafórico reunido

Pelé em campo, por
Luiz Paulo Machado

Me ligo neste assunto pela vivência afetiva, mas também histórica. Sei que o futebol acompanha o carrossel dos acontecimentos sócio-políticos. Que sua estrutura, nascida da diversão pré-colombiana de rolar a cabeça do inimigo e chutá-la, foi sendo estabelecida pelos milênios ao passo que mudavam as táticas de batalha. Laterais, defesa, ataque, marcação homem a homem ou por zona? Posicionamentos de guerra. As invenções de Napoleão, incorporadas. 

Futebol é combate e o campo, um templo para os fans, os torcedores, os fanáticos. Um homem guarda sua virgem pátria no gol, sob pena de ela ser arrebentada pelo opositor. 

Melhor que choro e fúria, então, a tática. Porque antes era um amontoado em campo, como no calcio storico fiorentino, onde todo mundo junto (ainda) persegue a bola. Como naquele atraso do rúgbi, sangue e lama lambuzam o corpo de quem luta. Futebol tem muito disso também, como uma recordação de origem, constituindo, ao mesmo tempo, uma sensação evolutiva.

Por isso há um compasso mágico do futebol com a realidade política – ela está implícita nele. Talvez grandemente em razão disso tenhamos perdido para a Alemanha por sete a um em 2014, porque naquele instante mesmo começava o desmoronamento de um país. E quem sabe a juventude volte neste momento, concentrada, mágica e inventiva, para desfazer o golpe dos bárbaros, que só agora parece ser entendido quase universalmente como um barbarismo.

Futebol, guerra declarada, coração metafórico reunido.

Não brinque com futebol!

Rafael Leão, o gato

Quando um filme é ruim demais, minha cabeça viaja pelos penteados dos atores, geralmente piores ainda. E dou um jeito de me divertir pelo menos com eles.

Uma vez, num filme ruim com o Richard Gere, ri tanto dessa situação peculiar que transpareci meu humor na crítica para a IstoÉ, onde eu trabalhava. E comecei a usar isso como mensagem subliminar, quem sabe um leitor a captasse (nenhum captou): “Quando ela critica penteado, é porque nada no filme prestou.”

Bem, agora estou aqui a ver Portugal e Gana, e é assim: não é que Portugal jogue mal, mas também não é que jogue bem. Marcou um gol de pênalti, mas sei lá se foi pênalti de fato. E virou o jogo porque joga mais, em duas saídas de bola, oportunistas, etc. Gana, que empatou depois do erro do zagueiro português e seguiu com outro gol bonito, não fez quase nada no jogo exceto se defender. Que mania a desses técnicos de recuar a vida, deus meu!

Não é um jogo que me obrigue, portanto, a chegar à raiz dos cabelos, visto que coisas ali trazem a marca do futebol, como a emoção, e me divirto no fim.

Mas eu olho. Não só cabelos. Coxas. Gente alta! Me irrita o Salonpas do João Félix que fica caindo do pescoço. Quem é o mais bonito em campo? Eu fico com o Rafael Leão, o autor do terceiro gol português. Na torcida de Gana as mulheres são maravilhosas e pulam o tempo inteiro, que animação, pena que seja gente rica humilhando os pobres na terra natal!

Mas pensam que é fácil ficar comentando assim na minha casa? Não. Futebol é religião. Não se aconselha ninguém aqui a rir do cabelo de José durante o parto de Jesus.

Pena, me restou amolar vocês!

No palco napolitano, a revolução dos irmãos De Filippo

“Os irmãos De Filippo” permanece em cartaz até dia 4, grátis e on-line, no streaming do Festival de Cinema Italiano.

O filme de Sergio Rubini reconstitui época para que conheçamos a família responsável por encenar uma nova comicidade no teatro napolitano. Seu humorismo à moda de Pirandello antecipou ideias neorrealistas, incorporando o sentimento das ruas.

No filme, a participação, para variar brilhante, do bom e velho Giancarlo Giannini, no papel do cômico Edoardo Scarpetta.

http://festivalcinemaitaliano.com/title-item/i-fratelli-de-filippo-os-irmaos-de-filippo/

a música brasileira não morreu

Rodrigo Campos e Maurício Tagliari interpretam “Silêncio em Prata”, coa-autoria deles e minha, em maio de 2019

sim, eu sinto muito falta dos músicos que perdemos.
choro e me angustio por isso.
mas a música brasileira não morreu com eles.
eu aliás raras vezes a vi tão bonita como vejo agora.
as cenas são as do samba, da canção, da improvisação do jazz, até do free jazz, do erudito, do romântico, do funk, do brega, do brega às vezes tecno do Pará, da música para o carnaval, das bandas instrumentais, dos compositores incríveis nos becos (e há tantos onde moro, em São Paulo).
vamos com carinho por eles, lutadores, e com calma e agradecimento para os que perdemos.
sertanojo e música que toca na globo geralmente não são nada, são só dinheiro, a deformação que o dinheiro traz.
ouvidos atentos, isso é tão importante…
não temos tempo de temer a morte, nem vamos fabricá-la!

Kaboom 23 interpreta “Beira-mar” com Danilo Penteado e Guilherme Kafé em dezembro de 2021