Rosa Rosah e Walmir Pavam no palco da sala Alberto Guzik, na SP Escola de Teatro
Assisti à última apresentação da peça “As Mulheres, os Hormônios e Eu” agora à noite com a expectativa de que fosse uma comédia ruidosa e liberadora. Constatei ser liberadora, embora o ruído, um pouco mais grave do que antecipei. Trata-se não propriamente de comicidade, mas de humor o que está presente no ótimo texto de Nanna de Castro, aqui dirigido por Lilian Domingos. Humor no sentido pirandelliano da reflexão. Não mulheres à beira de um ataque de nervos, mas um homem, um ginecologista em pânico diante do quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet.
Meu irmão, Walmir Pavam, é o ginecologista Sigmar em crise e a divertida e versátil Rosa Rosah, sua terapeuta à beira da menopausa. Eles se entreolham em seus problemas e complexidades. Walmir por vezes me lembrou o italiano Alberto Sordi mais enlouquecido, assumindo o grotesco da persona representada. Rosah soube ser inconformada, engraçada, triste, uma generosa atriz.
É tudo o que posso dizer para que vocês se animem a ver esta peça numa próxima temporada, quem sabe ano que vem. De modo a concretizar esta montagem, eles contaram com o espaço da SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, e com uma campanha de crowdfunding para a qual me emocionei de ter contribuído. Tudo é emoção, aliás, neste mundo em que a arte, para ser exercida, precisa de nós.
Sou ouvinte e paciente. E aceito quase o impensável das pessoas de que gosto. Até que um dia, exausta e desperançada de seu narcisismo, desisto delas. E ainda, se quiserem saber, explico-lhes por que parto, muito consciente de que não me entenderão.
Não é o melhor jeito de agir, imagino. Com os anos, vamos perdendo até mesmo quem deixar… Mas não sei. Esta sou eu. Unapologetically me. Com as dores e as delícias implícitas neste ser a quem no passado já entenderam “terrível” ou “difícil”.
Mas eu tenho uma boa qualidade, ao menos. Sei rir. Rio alto comigo e de mim mesma. Hoje é sábado, curto uma leve ressaca, o café me fez feliz e neste momento sinto um friozinho sob o ventilador do teto.
Harrison Ford e Kelly McGillis no filme de Peter Weir, 1985
Uma entre tantas coisas de que sinto falta no cinema de Hollywood é a capacidade de expressar a química intensa do amor sem diálogos, gritos ou mesmo nus.
“A Testemunha” me fazia arrepiar em 1985. Mas parecia ainda mais velho. Uma espécie de filme mudo com trilha sonora onde tudo caía bem, tiro, porrada, sangue, a estrada do tempo, os contrastes sociais e luminosos, os olhos grandes da infância, as perdas, os ganhos, os ciúmes da vida adulta, tudo com aquele ritmo notável do vagar das memórias.
Às vezes tenho vontade de escrever um livro inteiro sobre ele. Só às vezes, porque a vontade não é suficiente para superar os obstáculos à concretização. Os livros que nunca escrevi, porém, continuam a viver em mim, à espera de que alguém precise deles, quando notadamente ninguém precisa. Deixo-os aqui dentro, quentinhos, alimentados com o sol da manhã e os passeios a pé, por serem tão meus.
Os contrastes luminosos, a estrada do tempo, o amor sem palavras
Quando os Irmãos Marx estavam prestes a estrear “Uma Noite em Casablanca”, em 1946, receberam uma ameaça legal da Warner pelo uso de Casablanca no título, uma vez que o estúdio lançara quatro anos antes o famoso filme de Michael Curtiz intitulado com a palavra.
Groucho, um dos irmãos Marx, pôs-se então a preparar uma resposta ao grande estúdio. Eis aqui o teor da carta, enviada aos proprietários Jack e Henry Warner e atualmente depositada na Biblioteca do Congresso, em Washington.
(Vale esclarecer que depois desta missiva, e de outras duas de teor semelhante, a Warner Bros. não reclamou mais e o filme dos Irmãos Marx pôde ser intitulado “Uma Noite em Casablanca” sem problemas.)
Eis a carta:
“Caros Irmãos Warner
Aparentemente existe mais de uma maneira de conquistar uma cidade e mantê-la sob seu domínio. Por exemplo, até o momento em que pensamos em fazer ‘Uma Noite em Casablanca’, eu não tinha ideia de que essa cidade pertencia exclusivamente a vocês. No entanto, poucos dias depois de anunciar o nosso filme, recebemos o seu longo e sinistro documento legal no qual nos ordenavam a não usar o nome Casablanca. Parece que, em 1471, Ferdinand Balboa Warner, seu tataravô, ao procurar um atalho até a cidade de Burbank, tropeçou pela costa da África e, erguendo a bengala, batizou o lugar de Casablanca.
Sinceramente, não compreendo essa atitude. Mesmo que estivessem pensando em um renascimento para seu filme, tenho certeza de que o fã médio de cinema acabaria aprendendo a distinguir Ingrid Bergman de Harpo Marx. Não sei se eu mesmo conseguiria, mas certamente gostaria de tentar.”
Bill Withers (1938-2020) escreveu a música “Ain’t No Sunshine” aos 31 anos, em 1969, quando trabalhava em uma empresa fabricante de assentos sanitários para aviões. Withers gravava fitas demo com o próprio dinheiro e tocava em vários clubes à noite.
Quando estreou nas rádios com “Ain’t No Sunshine”, recusou-se a largar seu emprego, certo de que a música popular era uma indústria inconstante. Mas a canção fez tanto sucesso que ele ganhou um disco de ouro. Como presente, a gravadora lhe presenteou com um vaso sanitário dourado.
Em 1985, aos 47 anos, Bill Withers decidiu abandonar a carreira. Ele sentiu que as gravadoras com as quais trabalhava tentavam exercer cada vez mais controle sobre sua sonoridade, de modo a vender mais discos. Sentiu-se rotulado e não quis mais fazer parte do mundo da música.
Withers foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame em 2015. Na ocasião, alegou não se arrepender de sua decisão e refletiu sobre sua vida posterior: “Sempre fui sério assim, tentando evoluir para um estado mais consciente. Sempre desejei menos luxúria, mais compaixão, menos ciúme. Creio que é preciso ajustar esses botões até chegar às configurações originais. Em certo sentido, as configurações originais são exatamente o que estou procurando – um retorno ao cara tranquilo. Eu era assim antes de meu mundo ficar complicado. O cara legal que aceitava as coisas como elas surgiam e ria tanto que a tristeza ia embora com o vento do verão.”
Em 1988, depois de o cineasta sueco considerar que talvez jamais voltasse a filmar, o diretor japonês lhe fez um apelo
Os cineastas Ingmar Bergman e Akira Kurosawa
Em julho de 1988, o cineasta sueco Ingmar Bergman completou 70 anos. E em um gesto que parecia conclusivo, publicou suas memórias no livro “A Lanterna Mágica”, onde afirmou: “Lamento o fato de provavelmente não fazer mais filmes”.
Em resposta a esta última afirmação, outro cineasta, o japonês Akira Kurosawa, enviou-lhe uma carta onde questionava este possível abandono e partilhava com Bergman algumas razões pelas quais acreditava ser preciso pensar duas vezes antes de deixar a sua carreira cinematográfica para trás.
A carta de Kurosawa:
“Prezado Sr. Bergman,
Por favor, deixe-me parabenizá-lo por seu septuagésimo aniversário.
Seu trabalho toca profundamente meu coração cada vez que o vejo. Aprendi muito com suas obras. Elas me incentivaram. E eu gostaria que permanecesse com boa saúde para criar mais filmes maravilhosos para nós.
No Japão, houve um grande artista chamado Tessai Tomioka, que viveu na Era Meiji (final do século XIX). Ele pintou muitos quadros excelentes ainda jovem e, aos 80 anos, de repente começou a realizar obras muito superiores às antigas, como se estivesse em magnífica floração. Cada vez que vejo suas pinturas, percebo com clareza que um ser humano não é capaz de criar obras realmente boas até chegar aos 80 anos.
Um homem nasce bebê, vira menino, passa pela juventude, o auge da vida e finalmente volta a ser bebê antes de encerrar sua existência. Este é, na minha opinião, o modo de vida ideal.
Possivelmente o senhor concordaria que um ser humano se torna capaz de produzir obras puras, sem quaisquer restrições, nos dias de sua segunda infância.
Tenho agora 77 anos e estou convencido de que meu verdadeiro trabalho está apenas começando.
Vamos resistir juntos pelo bem do cinema.
Com os mais calorosos cumprimentos,
AKIRA KUROSAWA”
(Kurosawa lançou seu último longa, “Madadayo”, em 1993, aos 83 anos. Bergman lançou seu último longa, “Sarabanda”, em 2003, aos 85 anos.)
O pintor Tessai Tomioka (1837-1924)
“Duas divindades” e “Montanhas dos imortais”, obras que Tomioka realizou em 1924, ano de sua morte, aos 87 anos
nada mudou para mim. todos os dias, tenho um sonho ou um desapontamento, expresso um viva ou um desejo de não haver me colocado onde estou. todo dia, um arrependimento se cola ao meu ardor. não há peste que altere o lento, por vezes radiante, mastigar das coisas.
As bolas que constituem a marca da artista japonesa, resultado da elaboração de alucinações pessoais, estenderam-se pela segunda vez aos produtos da Louis Vuitton
Representada por um imenso robô, a artista Yayoi Kusama “pinta” a fachada da Louis Vuitton parisiense @DanielaPDD
Este foi um ano especial para Yayoi Kusama e sua parceira na moda, a Louis Vuitton. A mais célebre artista plástica japonesa contemporânea, que onze anos atrás havia estreado na maison após convite do estilista Marc Jacobs, retornou no início de 2023 para a colaboração, desta vez com o diretor criativo Nicolas Ghesquiere, na feitura de produtos da grife. Kusama envolve com bolas de variadas cores e tamanhos – sua marca artística – roupas, óculos de sol, fragrâncias, bolsas e sapatos. “A Louis Vuitton entende e aprecia a natureza da minha arte”, havia dito ela à revista “New York”, em 2012. “Portanto, não há muita diferença entre meus processos artísticos e aqueles que aplico à moda.”
A artista de 94 anos, cujo trabalho ganhou intensidade na Nova York da pop art, durante os anos 1960, recebeu ainda uma homenagem à sua altura. Um robô monumental a representa na parisiense Rue du Pont Neuf, diante da sede da Louis Vuitton, a pintar a fachada do prédio, enquanto outros robôs em escala menor, em Tóquio ou Nova York, a mostram atrás das vitrines, também com o pincel na mão.
Nascida na rural Matsumoto, a 200 km de Tóquio, Kusama trabalhou não apenas com pintura, mas escultura, instalações e ousadas performances. Nelas, por meio da abstração e da sensualidade, criticou o sistema de arte que insistia em ignorá-la. Aconselhada pela pintora Georgia O’Keefe, foi a Nova York e de lá à Itália, onde, na Bienal de Veneza de 1966, compôs seu “Jardim de Narciso”. Rodeada por 1.500 globos espelhados, ela não só distribuiu cópias de uma declaração atestando seu talento, escrita pelo crítico britânico Herbert Read, como ofereceu bolas em uma faixa onde se lia “Seu narcisismo à venda”, ação que ocasionou sua expulsão da bienal. Era seu protesto contra a crescente dominação de artistas bem-sucedidos no âmbito da mostra, tradicionalmente não comercial.
Yayoi Kusama nos anos 1960, quando se mudou para a Nova York da pop art e passou a elaborar sua obsessão pelo ponto
Ainda nos anos 1960, depois de ter sofrido alucinações com pontos e bolas na infância, procurou a psicanálise, por meio da qual descobriu sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo. Nova York havia acentuado suas crises depressivas, razão pela qual ela voltou em 1977 a Tóquio, onde passou a morar em um hospital psiquiátrico. As bolas vermelhas, aplicadas por vezes a suas vestimentas, parecem até mesmo evocar o sol da bandeira de seu país. Em 2014, os brasileiros fizeram fila para absorver esse universo em “Obsessão Infinita”, retrospectiva do trabalho da artista no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
“Minhas performances são um tipo de filosofia simbólica com bolinhas”, explicou certa vez. “A bolinha tem a forma do sol, que é um símbolo da energia do mundo inteiro e de nossa vida, e também a forma da lua, que é calma, redonda, suave, colorida, ignara e sem sentido. As bolinhas não podem ficar sós. Como a vida comunicativa das pessoas, duas, três ou mais bolinhas entram em movimento. Nosso planeta é apenas uma bolinha entre milhões de estrelas no cosmos. As bolinhas são um caminho para o infinito.”
Escultura em cera que representou a artista na Louis Vuitton, durante seu trabalho para a grife em 2012 @Garry Knight
Página 191 do livro “Rita Lee, uma Autobiografia”:
“Mesa redonda
Midani não desistiria tão cedo do meu “talento musical”, acredito que muito por conta do nosso casinho. A fim de domar minhas futuras rebeldices, convocou uma mesa redonda junto a “peritos” de várias áreas do entretenimento para delinearem a futura imagem e semelhança da próxima sensação da gravadora: eu. Dos presentes, só conhecia Paulo Coelho e Nelson Motta, os demais (Artur da Távola, Armando Pittigliani, Miele e outros menos importantes), nunca vi mais gordos.
Escutei opiniões de como me vestir, o que falar, o que cantar, como me comportar, quais compositores escolher, enfim, antes que sugerissem pra quem eu deveria dar o rabo, me levantei, antipática: “Enquanto vocês se masturbam com a minha vida, eu vou ao banheiro queimar um baseado. Alguém tá a fim?” Só quem me acompanhou foram Paulo Coelho e Nelson Motta. Depois de tamanha demonstração de carinho, tudo terminado entre nós, Philips, Midani e eu.”
O documentário “Elis e Tom” tem muitas versões a proferir, entre elas a dos homens de poder sobre a morte da cantora
“Águas de março” a unir, ora separar, os artistas a quem nos devotamos
Que idade engraçada a minha. Virei inclusiva, quando antes prezava a seleção. Não é porque meu tempo pra viver diminui que vou afunilar as preferências, certo?
Aceito finalmente não ser mais capaz de ler tudo. E vou tirando aprendizado do que é surpreendente, abrindo a margem de apreciação, como uma historiadora do presente. Respiro entre resignada e curiosa o filme bom, o filme ruim, o show fiasco, o show incrível, livro raro, livro capenga, série coreana, drag race, série japonesa.
Hoje, enquanto o Rio pegava fogo e o infanticídio prosseguia em Gaza, fui ver “Elis e Tom”. Vivo meus tempos de assistir com prazer (sossegue, jovem Rosane) aos cada vez menos raros documentários sobre música brasileira – assunto, aliás, que se respira 24 horas na casa em que vivo e sobre o qual guardo histórias sensacionais.
Achei “Elis e Tom” um filme bom ou ruim? Não esperava que fosse bom. Mas amei desde o início a ideia de um filme sobre a feitura de um disco, sobre um trabalho musical em tudo improvável, dada a diferença de compreensão musical entre os titulares, ao qual o tempo atestou imensa importância. Se eu mesma escrevi um livro inteiro sobre um filme! Então adorei essa característica, ao menos. Muitas imagens de época, sorrisos, xingamentos nervosamente risonhos de Tom Jobim contra César Camargo Mariano (dois meninos mijando no cercadinho, aos quais Elis Regina não conseguia impor limites), unhas roídas de nossa cantora maior, ela interpretando playbacks compungida diante das câmeras, muito atriz, quem diria… Festa!
Sem falar do Tom Jobim encrenqueiro, anárquico, inconformado que um arranjador de 26 anos (o Mariano então marido de Elis) se metesse no disco cujas composições eram suas, francamente!
Eis um filme desajeitado, ruim do início ao fim, incapaz de explanar o conteúdo do disco ou tecer-lhe uma crítica musical, exceto pelas palavras de um estadunidense bajulador como Jon Parels, mas com tantas informações para fornecer. A principal, para mim: como sofreram as mulheres de talento nas mãos dos homens de poder daquele tempo!
André Midani, o produtor-mago a quem o filme é dedicado, decreta e estabelece que Elis Regina se suicidou aos 36 anos porque não queria envelhecer diante dos fãs, e o diretor Roberto Oliveira engole a tese na maior…
Sinceramente!
Mas, se puder, encare este filme. A gente não conhece tudo. E este pedaço da história, você certamente saberá encaixar no lugar certo.