Animais tristes do cinema

era-uma-vez-na-amc3a9ricaEscrevi este texto em 2012, em minha página no facebook onde tudo é veloz. Eu acabara de ver o filme Era Uma Vez na América, de Sergio Leone, pela inumerável vez, agora ao lado de meus filhos, então com 15 e 14 anos.

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James Woods e Robert De Niro

Era pouco mais que uma menina quando pela primeira vez assisti a este filme de Sergio Leone. Conheci Era uma Vez na América no momento em que ele chegava aos cinemas, creio, 1983. E o vi a ponto de persegui-lo, talvez porque ele mexesse com o que minha cabeça, ou seria o coração, julgasse estar em jogo na vida à  espera. O amor, a hipocrisia, a perda, a solidão, um universo sem pais, sem o sim da família, ao menos o não, nada de escolas, a violência da existência social no confronto direto, a mulher como ocorrência colateral, à sombra. Um mundo em que não se poderia vacilar sob pena da morte,  como ocorreu ao menininho no qual atiraram por trás, um pouco à moda da Rita de meu bairro, que o PM matou por ciúme. E nos braços do amigo a criança do filme ainda se desculpou por errar. O menino seria minha amiga morta ou apenas eu?

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Oh, Tuesday Weld…

Um bairro judeu que eu parecia sentir como meu Bexiga, confuso, gritado muito alto e esquecido por deus. O filme me fez andar pela rua do tempo. Acho que fez qualquer um. Sente-se o esgoto, a molhadeira, o frio, em cada estupenda reconstituição de cena coletiva, vista à distância de uma máquina de fotografar que, para não tremer, se põe sobre o tripé no chão. Quanta beleza quando podemos viver dentro de um filme. Corri a ele, em suas quase quatro horas, duas ou três vezes naquele 1983. Não havia cinemax nem conforto nem ar refrescante para que eu pudesse mergulhar em tanta verdade, e eu tinha de pagar ingressos. Mas, sem conforto, é fácil ver.

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Elizabeth McGovern e De Niro

Melhoradas as salas de cinema para que o cinema em si declinasse, nestes quase trinta anos nunca mais voltei a esta obra de Sergio Leone, cheia de música, a lírica épica orquestrada por Morricone à revelia do filme, como se fosse a única possibilidade ficcional dentro de uma narrativa que é a verdade. Eu embaralhara o filme em minha cabeça, talvez por temer não suportá-lo outra vez. Quatro horas e lá estava a história do mundo. Era uma vez a própria América e eu também era. Sem ser a fã ardorosa de Robert de Niro, mas entendendo que fora estupendo, o truque (hoje esquecido) da maquiagem mínima para envelhecer, andando como um velho, o rosto pelas fechaduras das mentes próximas, as decisões tomadas como quem é um animal triste, um boi, às vezes um touro idiota, a cabeça rumo a pender, eu o entendia como a mim. Uma pessoa sem os princípios doutrinados. Alguém que só tem a si quando age e intui.

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Jennifer Connelly, a infância bailarina

Insisti muito que meus filhos vissem o filme comigo. Coisa de mãe inalienável de sua antiguidade. Clube da Luta é sangue conservador, eu lhes dizia, enquanto Era uma Vez na América nascia de quem sangrava antes do tiro. Um dos filhos dormiu. O outro ficou para ver. Nós nos abraçamos no fim. Nós nos abraçamos sempre. Mas é que desta vez, como quase nunca faço, chorei escondida no ombro dele que cresce. Não vou sorrir sob o ópio, como De Niro naquele belo fim. Só vou sorrir, a droga em si.

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Ópio para o sorriso

Criancinha do século

 

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Retratos do subsolo. Pega-luzes. Milésimas auroras. Intangível.

Foram tantos os títulos que imaginei para este blog. Mas descartei todos. Meu nome tão antigo seria o melhor batismo para minhas alucinações. Um nome a carregar a identidade de pobreza do meu avô. Seu Danielle virou Daniel poucos meses antes de morrer. Nascido no Vêneto, imigrado durante a infância, teimou em se tornar brasileiro, mas nunca aprendeu a ler. Eis por que seu sobrenome virou qualquer um. Pavam, Pavani, Pavão ou Pavan, que os escrivães registrassem seus oito filhos da maneira aceita. O importante era que as crianças aprendessem, como ele próprio, a resistir.

Meu avô transportava lixo em uma carroça. No início, não apenas a conduzia. Igualmente recolhia a carga nos ombros até colocá-la em sua caçamba puxada por cavalos, um cansaço dos infernos. Eis por que, muito esperto, um dia contratou um carregador que aliviasse seu maior peso.

Sempre me imaginei na pele de meu avô. Em trinta anos de jornalismo, transportei os resíduos dos outros. Contudo, ao contrário de seu Danielle, jamais consegui contratar um carregador enquanto dirigia a carroça. E um dia decidi deixar o lixo pra trás.

Não sei exatamente o que você encontrará neste blog.

Um resíduo, uma palavra.

Talvez a mim.

Bom encontro pra nós.

*(foto de Claude Lévi-Strauss em “Saudades de São Paulo”)