O tempo, o vento, o Piauí

O piauiense Edvaldo Pereira da Silva:
panos célebres na praça Dom José Gaspar

No caminho para a ginástica das terças-feiras, esta que hoje nem mesmo haveria (a memória, como de uso, me traiu), deparei mais uma vez com os panos coloridos ao vento, amarrados na grade do respiradouro do metrô. Panos muito famosos. Às vezes são apenas eles, às vezes, a tenda do morador que constrói a instalação. Frequentemente ele deita por ali para se refrescar. O importante, me parece, é que tudo infle e cresça a caminho do céu.

Eis uma atração na praça Dom José Gaspar paulistana que nunca me animei a fotografar, eu que gosto de espiar, pela modesta câmera de telefone, apenas o que normalmente não se vê. Mas hoje foi diferente, porque a instalação vinha retumbante. Azul, amarelo, verde e branco, sim, como o Brasil. Normalmente nos esquecemos desse branco que quer dizer não sei o quê em nossa bandeira conspurcada, e desse azul do céu. Como eu jamais havia visto essa combinação de cores ali, parei para olhar.

O branco à frente: às vezes nos esquecemos
da cor na bandeira conspurcada

Ao lado da ventania, apareceu-me o autor. Edvaldo Pereira da Silva, um homem de olhos claros e elegância natural, tem 49 anos e está em São Paulo há trinta. É soldador, mas há três anos, sem emprego, virou um sem-teto da praça, a morar com seus panos e cão sob uma marquise do prédio na rua Bráulio Gomes. Edvaldo se aproximou e me orientou a fotografar seu trabalho, que intitula “Arte sobre o vento”, com o fundo das árvores. (Pode ser “Arte sopra o vento”, um título ainda mais bonito. Edvaldo não tem os dentes da frente e fala rápido, e eu me envergonhei de pedir que repetisse o nome da instalação.)

Ele ganha a vida como artista de rua de obra única, mas sempre variada, a depender dos panos que lhe dão. A gente admira seu trabalho e lhe dá o dinheiro que puder. Ração pra cachorro também é bem-vinda. Como se trata de um homem articulado, perguntei-lhe por que não tentava um novo emprego como soldador. Poderia conseguir um lugar pra morar. Respondeu-me que não. Era melhor trabalhar nisso que lhe dá prazer do que em certos empregos por aí.

“De Floriano??”

Disse-me ser do Piauí. Surpresa, contei-lhe que minha mãe nasceu em Teresina e que, durante a infância e a adolescência, minhas férias eram piauienses. “Em Teresina?”, perguntou. Disse-lhe que não, que ficávamos em Floriano. “Floriano? Sou de Floriano!”, respondeu, sem acreditar (o pequeno vídeo abaixo mostra sua reação). Eu ri muito, o que não chega a ser novidade. Gosto de gargalhar, e alto. Ele sorriu bastante também. 

Ao saber que eu conhecia Floriano…

A coincidência, contudo, pareceu-lhe tão extraordinária que ficou me testando. “Rio Parnaíba, certo?” E eu: sim, a gente passeava no cais e comia no restaurante Flutuante. “Do outro lado do rio, ficava Barão de Grajaú?” E eu: isso, no Maranhão. “Sabe aquela torre imensa? Eu pulava do alto, direto no rio.” E eu: nem nadava nele, de medo da correnteza, nunca subi na torre, não!

Diante da obra, a expressão do autor

Ele nasceu no bairro do Matadouro e estudou até a quarta série na Unidade Escolar Djalma Nunes. Saber como foi parar na vizinhança a céu aberto talvez seja tarefa para as próximas vezes. Quis que eu fotografasse a instalação em sua presença, mas demorou bastante tempo para acertar os panos em ascensão, sua obra como deve ser. Tudo leva tempo, tudo o tempo leva. Mostrei-lhe minha foto tirada no cais, durante a adolescência, e ele hesitou em atestar veracidade. “Mas no seu tempo devia ser mesmo assim.” 

Na adolescência, posei no cais à frente
do Restaurante Flutuante, em Floriano: o rio

Parnaíba separa a cidade piauiense de
Barão de Grajaú, no Maranhão

No dia seguinte…

O crepitante Carax, em duas lições

O filme de Leos Carax que será precedido de um curta de Alice Rohrwacher e JR, a partir de 17 de abril

“Não sou eu” talvez resuma Leos Carax. Este seu documentário de 2024, em exibição no IMS Paulista, no IMS Poços de Caldas e no Cine Arte UFF, em Niterói, a partir de 17 de abril, precedido do curta de Alice Rohrwacher e JR “Alegoria urbana” (no qual Carax também atua), apresenta-se como chave interpretativa para a obra do diretor francês de 65 anos. 

Realizado para uma exibição jamais concretizada pelo Museu Pompidou – e que perguntava “onde está você, Leos Carax?” -, o filme, exibido na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, outubro último, apresenta o cineasta à sua maneira poética. Não sendo um inventor, mas um mestre (isto se aceitarmos as categorias determinadas aos artistas por Ezra Pound), Carax espelha e arredonda o cinema de arestas de Jean-Luc Godard, este sim o criador de uma nova trajetória cinematográfica, cuja voz aparece em um trecho deste documentário solicitando-lhe um encontro.

Diretor de “Os amantes de Pont-Neuf” (1991), Carax escondeu a narrativa tumultuada da nouvelle vague em um invólucro de clareza fotográfica e argumentativa. Foi um filósofo do amor. E também, como se autodefine neste documentário, um heterossexual e judeu do século XX que buscou a liberdade e a igualdade, a seu ver escassas na Europa dos Le Pen, naquele Israel de Netanyahu, na China de Xi Jinping, nos EUA de Trump ou na Rússia de Putin. 

Carax, por isso mesmo, não esteve em nenhum lugar – ou, pelo menos, não em um novo lugar. A sua perspectiva foi a de revisitar os lugares já percorridos, acrescentando-lhes um espírito de época tantas vezes indesejado. Perseguidor que advoga o déjà-vu, Carax defende repetir planos como recurso para construir alegorias do presente. O documentário, em que ele também cita trechos de suas obras, refaz uma estética tardia de Godard: cenas de arquivo do cinema e do jornalismo colam-se a palavras e letreiros, formando um mosaico poético-reflexivo de efeitos crepitantes.

Iria tudo muito bem se sua narrativa não contradissesse um dos princípios do cineasta, exposto no documentário: o de que o belo contém a imperfeição. Por que então Carax não abraça as camadas reflexivas pontiagudas que elevam a beleza do cinema de Godard? Se um rosto é belo justamente por conter a assimetria de uma pinta, por que retirá-la?

Carax cochicha a Naïm El Kaldaoui o sentido da
revolução, no curta “Alegoria urbana”

Carax parece bem melhor – ou coerente – ao atuar como um diretor canastrão de balé no curta “Alegoria urbana”, de Alice Rohrwacher e JR, também presente na 48ª Mostra. O seu personagem ensinará ao menino interpretado por Naïm El Kaldaoui o sentido da revolução: ela deverá mostrar aos acorrentados da caverna de Platão que as sombras às quais se acostumaram não são a realidade, antes constituem sua prisão.

Como a China construiu sua hegemonia mundial: minha entrevista com Giovanni Arrighi

Em 2008, o intelectual italiano aceitou conversar comigo sobre a perda da liderança estadunidense em favor daquela do país asiático: “A China adotou mudanças graduais sem aceitar a terapia de choque neoliberal”

Funcionário do correio leva correspondência
na garupa da bicicleta em Pequim, 2007
:
“O sucesso da China se baseia em saber que aquilo que fez não poderá ser seguido por ninguém. Os chineses insistem no respeito a suas soberanias e tradições, e isto parece confortador para todos. O que os outros realizarão a partir disto é problema dos outros”

Em 2008, o pensador italiano Giovanni Arrighi, então com 71 anos, lecionava Sociologia e dirigia o Instituto para Estudos Globais em Cultura, Poder e História da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Nas últimas três décadas, havia consolidado sua relevância intelectual ao estudar a crise da hegemonia estadunidense dos anos 1970 e as transformações político-econômicas mundiais das décadas seguintes, que passaram pela expansão vertiginosa da China até a crise financeira de 2008. No ano anterior, a editora Boitempo lançava no Brasil o último livro de Arrighi, “Adam Smith em Pequim: Origens e fundamentos do século XXI”, sobre a substituição dos Estados Unidos como líderes incontestes internacionais. Um livro incrível, um assunto e tanto sobre o qual conversar.

Propus entrevistar o professor milanês naquele junho de 2008 e ele aceitou. Era um cavalheiro paciente. Respondeu com muita gentileza às perguntas que lhe fiz por telefone e não recusou continuar nossa conversa no dia seguinte, depois de eu ter verificado a qualidade pífia da gravação, feita com o aparelho de terceira linha fornecido pela redação pagadora. Eu não sabia que Arrighi tinha câncer. Não teria insistido na entrevista se tivesse sido informada sobre a doença que o mataria no ano seguinte, vinte dias antes de completar 72 anos. 

Naquele momento, o mundo sofria outras convulsões. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos por dois mandatos seguidos, entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017, nem havia sido eleito ainda (Arrighi não dava sua vitória como certa). Lula, contudo, já exercera sua primeira presidência do Brasil (2003-2006) e cumpria um segundo período como presidente (entre 2007 e 2010). Eu entendia muito bem o privilégio da situação brasileira. Mas não teria sido possível, para mim, prever a virada fascista de que seríamos vítimas dez anos depois desta conversa, muito menos a necessidade de Lula voltar ao poder para garantir nossa existência democrática, 15 anos depois.

No livro “O longo século XX”, publicado em 1994, Arrighi desenvolvera o tema da progressiva recuperação do Leste asiático como centro econômico mundial, posição que havia perdido para o Ocidente pan-europeu (Estados Unidos incluídos) desde o século XIX. No alvorecer dos anos 2000, contudo, a China, já considerada líder regional por sua população, extensão territorial e relativa posição de força no Extremo Oriente, exibia um desenvolvimento econômico espantoso, atraindo a atenção mundial para sua caminhada rumo a uma posição hegemônica.

Àquela época, a trajetória estadunidense era inversa. Enfraquecidos pelo atoleiro iraquiano, à beira da depressão e com um fantástico déficit em transações correntes financiado pelo Japão e cada vez mais pela China, os Estados Unidos se viam vitimados por essa virada histórica. Ela acentuava a possibilidade de equalização do poder mundial entre o Ocidente conquistador e o não Ocidente conquistado, como previra o filósofo escocês Adam Smith no longínquo século XVIII.

A proposta investigativa de Arrighi em “Adam Smith em Pequim” era ambiciosa. Ele desejava identificar as conexões entre o que fazia da China a grande economia mundial até meados do século XIX e o que tornava possível sua transformação, em dias correntes, na protagonista de um fantástico ressurgimento econômico. 

A seguir, a entrevista.

Giovanni Arrighi durante palestra em Grahamstown, África do Sul, para a divulgação de seu livro
“Adam Smith em Pequim (Origens e Fundamentos
do Século XXI)”, em 2007:

“Os Estados Unidos não são mais hegemônicos. Por enquanto, são aqueles com o maior aparato militar, capaz de destruir qualquer país. E é precisamente por isso que podem dominar: porque têm um impacto sobre o mundo muito maior do que qualquer outra nação. Este domínio, contudo, não significa que os outros países necessariamente seguirão sua
liderança. Na verdade, eles
não a seguem mais”

Em seu livro “Adam Smith em Pequim (Origens e Fundamentos do Século XXI)”, o sr. desenha a perspectiva da decadência econômica estadunidense e a confronta com a ascensão chinesa. Contudo, diz que essa decadência estadunidense se anuncia sem a imediata perda de domínio político no cenário mundial. Como se processaria o domínio sem a hegemonia?

A hegemonia, da forma como a entendo, envolve liderança, capacidade de mobilizar outros países de acordo com uma agenda particular. Em outras palavras, significa fazer com que os outros países acreditem em um consenso em torno deste líder, na sua capacidade de agir em favor do interesse dos liderados. Neste sentido, os Estados Unidos não são mais hegemônicos. Por enquanto, são a maior economia, e aquela com o maior aparato militar, capaz de destruir qualquer país. E é precisamente por isso que podem dominar: porque têm um impacto sobre o mundo muito maior do que qualquer outra nação. Este domínio, contudo, não significa que os outros países necessariamente seguirão sua liderança. Na verdade, eles não a seguem mais. Os Estados Unidos permanecerão dominantes, mas não aptos a liderar o mundo como fizeram, por exemplo, ao final da Guerra Fria. Naquele período, eles eram capazes não só de criar alianças políticas e combinações, mas também tinham o poder de induzir europeus e japoneses a superar antigas diferenças com o objetivo de reconstruir a economia mundial. Agora, os Estados Unidos não têm mais o poder para exercer a liderança rumo à reconstrução. É assim que eles têm o domínio sem a hegemonia. 

Em 2009, o presidente dos EUA conversa
com o presidente chinês Hu Jintao
durante a cúpula do G-20, em Pittsburgh:
Barack Obama viu-se em posição “delicada”
para reverter a desastrosa guerra de

George W. Bush e liderar a
reconstrução econômica mundial

E esta incapacidade pode permanecer mesmo que o candidato democrata indicado Barack Obama chegue à presidência?

Obama pode fazer uma diferença, no sentido que não deverá causar desastres políticos semelhantes aos promovidos pela administração de George W. Bush. Obama e mesmo o candidato republicano John McCain, contudo, estarão em uma posição muito delicada neste sentido, porque os desastres cometidos por Bush não serão fáceis de reverter. Se houver mesmo uma mudança profunda nas políticas estadunidenses, como Obama parece invocar, embora ainda não se saiba ainda que mudança será essa, isto claramente poderá melhorar a imagem dos Estados Unidos não só na Europa, mas também na África e em outras partes do mundo. Esta mudança daria sinais de vida à hegemonia do país.  Mas seria uma situação temporária, porque esconderia as causas reais dos problemas americanos.

E quais são esses problemas, na sua visão?

Em primeiro lugar, os Estados Unidos não são os mais competitivos economicamente, à moda do que foram naquela idade do ouro. São, em verdade, devedores mundiais, e mantêm um déficit na balança para o qual não há perspectiva clara de resolução.

A crise hegemônica estadunidense vinha sendo anunciada e deveria acontecer naturalmente, independentemente das ações do governo. Quando os Estados Unidos iniciaram esta guerra no Iraque, tinham a intenção de superar a “síndrome do Vietnã”, a derrota naquela guerra. Bush esperava que a disparidade de forças entre os EUA e o Iraque, se comparadas às dos Estados Unidos e daquele Vietnã apoiado pela força militar soviética, resolvesse a guerra rapidamente. Em outras palavras, George W. Bush esperava que a invasão do Iraque revertesse o veredito do Vietnã em favor dos Estados Unidos, o que não aconteceu. O Iraque não os ajudou neste propósito, e as coisas ficaram ainda piores para eles. Os estadunidenses não foram capazes de superar a resistência iraquiana, não criaram um Iraque segundo seus desejos; em lugar de promover a democracia na região, ali instauraram o caos. Neste sentido, a credibilidade do poder militar estadunidense como uma força construtiva caiu por terra como nunca ocorrera antes. Não é fácil imaginar como qualquer um possa reverter isto agora.

O presidente dos EUA é
recebido em banquete pelo presidente chinês
Jiang Zemin em Pequim, 1998:

Bill Clinton e as nuances de um “poder suavizado”, mais “inteligente”, que não
ousou voltar ao Iraque depois da
primeira Guerra do Golfo

Mas por que o senhor aponta este ponto de ruptura na administração Bush e não na de  Clinton, que o precedeu? 

Porque a administração Clinton revelou-se muito mais inteligente do que esta. A principal diferença entre os dois governos foi a percepção de Bill Clinton de que não deveria contrariar a Doutrina Powell. Esta doutrina estabelecia que, depois da primeira Guerra do Golfo, não se deveria voltar ao Iraque, uma vez que o país já demonstrara não saber sair dele _ o grande exército estadunidense, neste caso, não poderia, nem deveria ser usado. Havia um entendimento de que este uso não se provaria eficiente, que não se deveria promover um novo Vietnã, não só em razão desta doutrina que estabelecia a cautela na aplicação do poderio militar dos Estados Unidos, mas porque o país teria a chance de exercer a hegemonia de maneira mais suave, por meio de um acordo econômico que levaria o nome de globalização. Globalização foi a palavra-chave da administração Clinton. 

O presidente Bill Clinton, portanto, conhecia melhor esses limites impostos ao poder. Por isso era mais cauteloso na hora de fazer valer sua força militar. Enquanto a guerra travada por sua administração no Kosovo queria mostrar, entre outras coisas, que era dispensável o apoio da ONU às ações estadunidenses aprovadas pela Otan, a Guerra do Iraque iniciada por Bush dispensava até mesmo o apoio da Otan.

Contudo, depois de 1997 e 1998, quando o poder econômico “suavizado” de Clinton foi exercido em seu ponto mais elevado, houve uma mudança significativa da relação dos Estados Unidos com o mundo. Em toda a parte o déficit aumentou tremendamente. As dívidas estadunidenses cresceram. Os Estados Unidos se viram diante não mais de países do Primeiro Mundo, mas daqueles do sul global, dos países anteriormente comunistas, como a Rússia. 

A bolha estadunidense estava se desfazendo. Globalização e liberalização vinham, em realidade, minando o poder dos Estados Unidos. Foi então que o país decidiu voltar militarmente à cena, para restabelecer sua posição no cenário mundial. Em lugar de resolver o problema, os estadunidenses o tornaram maior ainda quando decidiram endurecer. Sua ação se tornou mais efetiva interna e externamente. 

Ronald Reagan, quando ascendeu ao poder nos Estados Unidos, teve problemas semelhantes. Ele introduziu políticas econômicas muito duras e restritivas, que provocaram uma imensa recessão no país. Mas não há, atualmente, a perspectiva de uma recessão como aquela. Agora, a situação exige encontrar barganhas não somente com os europeus, mas com os novos poderes asiáticos e latino-americanos.

Obama pode tentar acomodar as coisas. Mesmo entre os conservadores, há diferentes posições diante desta situação e não está claro qual delas emergirá. De toda forma, não acredito, como nunca acreditei, que os Estados Unidos venham a passar por uma catástrofe como a recessão dos anos 1930. Isto não quer dizer que a crise atual inexista. É uma crise acompanhada de transferência de poder. Mas os Estados Unidos resistem à transferência. Resistir a ela foi o que Bush fez, o que tornou, como sabemos, as coisas piores. É preciso, do ponto de vista do poder estadunidense, que ele encontre formas de tomar pulso novamente da situação.

O presidente dos EUA George W. Bush
entre o embaixador dos EUA no Iraque, Zalmay Khalilzad, e o comandante das forças multinacionais em Bagdá, George Casey, em 2006:

“A credibilidade do poder militar estadunidense
como uma força construtiva caiu
por terra como nunca antes, incapaz
de superar a síndrome do Vietnã”

O sr. diz que a China é a grande vencedora da luta contra o terror patrocinada pelos Estados Unidos após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001.

A China se revelou mais competitiva economicamente, exercendo o poder nesta base não militar. Nos anos 1980 e 1990, ela venceu uma batalha gradual na qual demonstrou mais eficiência econômica do que a Rússia no cenário mundial. A Rússia destruiu seu sistema de planejamento, sem a capacidade que teve a China de se voltar ao mercado. Sem adotar a receita neoliberal do Consenso de Washington, a China foi mais aberta que o Japão, por exemplo, aos investimentos estrangeiros, desde que servissem a seus interesses nacionais. Soube fazer sua industrialização voltar-se à exportação. Mais do que no resto do mundo, na China o governo investe diretamente para promover a colaboração entre universidades, empresas e bancos estatais no desenvolvimento da informática. A China não aceitou a terapia de choque neoliberal. Fez as mudanças gradualmente, o que provou ser acertado.

Neste momento, os chineses estão mudando, em seu entorno, a situação de muitos outros países, como os da África, como a própria Rússia, o Brasil, a América Latina. Eles criam uma nova conjuntura, por serem mais competitivos que os Estados Unidos. Estatisticamente, há uma situação de maior igualdade entre as nações depois da ascensão chinesa. A igualdade é crescente também dentro do próprio país. O problema é como manter esta situação em progressão. Há uma nova consciência para os problemas ecológicos e sociais que cresce rapidamente. A dificuldade é que, em se tratando de um país de tão grandes dimensões, a China não pode controlar tudo o que acontece em todas as províncias.  É minha posição moderadamente otimista, mas não cega, ao que acontece por lá. 

Integrantes da comunidade Uighur realizam
danças tradicionais em Pequim, 2017:
“Os chineses sabem muito bem que não estão oferecendo um modelo para as outras pessoas.
Eles acreditam, em outras palavras, que seu sucesso é baseado em uma espécie de característica histórico-geográfica que não

pode ser reproduzida além
dos limites do país”

Supondo que a China vença a batalha econômica, e faça mesmo este tipo de ascensão pacífica, como o senhor anota em um dos capítulos de seu livro, de que forma conseguirá vencer igualmente a batalha pelas mentes e corações mundiais? Como seria possível aceitar globalmente o estilo chinês de viver, que comporta alguns elementos  de repressão e pobreza?

A China, apesar de todos os avanços, é, de fato, um país pobre. Mais pobre, proporcionalmente, que o Brasil e a América Latina (seus índices per capita são mais altos do que os da África). Entendo o que está em questão. Como pode ser hegemônico um país que, no fundo, é pobre? Um país pobre que está ausente da tradição ocidental? E está emergindo como um país poderoso, apesar de, em certa medida, ser o mais pobre do mundo. 

Mas a questão é que os chineses sabem muito bem que não estão oferecendo um modelo para as outras pessoas. Eles acreditam, em outras palavras, que seu sucesso é baseado em uma espécie de característica histórico-geográfica que não pode ser reproduzida além dos limites do país. O consenso de Pequim parece mais aceitável ao sul global do que aquele de Washington, nos anos 1990, já que não oferece uma solução global para os problemas de todos os países. Parece haver o reconhecimento de que a China encontrou um modelo, mas que o modelo dos outros será encontrado por eles próprios.

Seu sucesso se baseia no fato de que o que a China fez não poderá ser seguido por ninguém. Os chineses insistem no respeito a suas soberanias e tradições, e isto parece confortador para todos. O que os outros realizarão a partir disto é problema dos outros. O medo de que o Brasil, os Estados Unidos ou a Europa adotem um modelo político-social parecido com o chinês é baseado em nada, realmente. Além do mais, não há um histórico chinês de tentativa de colonização mundial, antes de autodefesa. Eles sabem que vêm de uma tradição diferente e que não há nada a ganhar impondo-a fora de seus limites. Têm noção de que um consenso em torno do poder econômico é mais produtivo do que aquele militar, do que uma guerra patética contra um país como o Iraque. É uma simples questão de cálculo.

Exército chinês atravessa Drongpa,
no Tibete, em 2007:
“A China se baseia nos limites territoriais desenhados no século XVIII. Isto pertence a sua doutrina moral. O próprio Dalai-Lama sabe disso melhor do que ninguém, que não pode conseguir a independência tibetana diante da China da
maneira como o Ocidente a desejaria”

Ou de pragmatismo.

Sim, eles são muito pragmáticos e sabem que não adianta imitar o Ocidente em certas particularidades. Aprenderam uma lição no Vietnã. Voltaram ao exercício tradicional do poder econômico, não do militar. O poder militar chinês é essencialmente, como eu disse antes, o de autodefesa. O que os chineses não farão é qualquer tipo de concessão em relação a Taiwan ou ao Tibete, porque se baseiam nos limites territoriais desenhados durante o século XVIII. Isto pertence a sua própria doutrina moral, de certa forma. O próprio Dalai-Lama, do Tibete, sabe disso melhor do que ninguém, que não pode conseguir a independência de seu país diante da China da maneira como o Ocidente a desejaria. 

Um robô confidente no filme
“Levados pelas marés”, de Jia Zhang-ke, 2024:

“Nos próximos vinte ou trinta anos haverá muitas surpresas em relação ao que pensamos agora. A grande utopia liberal do consenso de Washington entrou em colapso, e agora vivemos a grande utopia da emergência asiática,
uma diversificação entre os modelos
comunistas e capitalistas”

Nos próximos vinte ou trinta anos haverá muitas surpresas em relação ao que pensamos agora. A grande utopia liberal do consenso de Washington entrou em colapso, e agora vivemos a grande utopia da emergência asiática, uma diversificação entre os modelos comunistas e capitalistas. O modelo não é preciso, e ainda bem que não o é. Veja que a Europa caminha para uma guinada ao fascismo, como na Itália de Silvio Berlusconi, e há Ângela Merkel na Alemanha, além de outras figuras do passado. Seria interessante ver Barack Obama neste cenário _ não acho que ele tenha grandes chances de ganhar a presidência, mas as chances existem. 

Depois de tudo isso, é possível que tenha lugar uma utopia latino-americana.

O sr. realmente acredita nesta possibilidade?

A América Latina tem promovido sua guinada à esquerda. Se considerarmos o que houve politicamente na região nos anos 1970, a emergência de ditaduras militares, este momento traduz uma mudança considerável. Houve períodos de um revival democrático, depois uma tentativa de liberalismo, e agora a América Latina entrou nesse período de crítica do regime liberal. É uma nova cultura, talvez. Em termos de relações econômicas internacionais, a América Latina tem as melhores chances em muitos anos, em razão também dessa ascensão chinesa. Está-se criando uma grande unidade continental. Claro que esta evolução também precisa ser traduzida em termos de reformas sociais. 

O chanceler da República Popular da China, ministro Yang Jiechi, com o presidente Lula e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, conversam em Brasília sobre relações
multilaterais nas áreas de tecnologia,
agricultura e energia, em 2009:
“Internacionalmente, Lula tenta preservar esta porção do continente diante de uma investida dos Estados Unidos. Economicamente, suas decisões
têm dado ao Brasil uma condição de maior independência em relação às outras nações”

O sr. tem uma avaliação sobre a posição do presidente do Brasil neste cenário?

Lula é uma imagem mista, como você sabe. Internacionalmente, creio eu, ele está indo muito bem, tentando preservar esta porção do continente diante de uma investida dos Estados Unidos. Economicamente, não sou tão crítico quanto à disciplina adotada por seu governo, porque suas decisões têm dado ao Brasil uma condição de maior independência em relação às outras nações. Socialmente, não sou familiarizado com a situação brasileira para emitir opiniões.  

Os jorros de Wesley, um homem-cinema

Wesley Pereira de Castro,
co-diretor de “Um minuto é uma eternidade
para quem está sofrendo”

Sinto-me amiga de Wesley Pereira de Castro desde que há mundo, embora o tenha conhecido apenas no desabrochar da pandemia. Um conhecimento parcial, é claro, entranhado no jogo de palavras à distância e pelos áudios do WhatsApp, que Wesley entende um tanto metálicos.

Ontem pude finalmente abraçar este sergipano em sua fortaleza frágil – e ágil. Um homem que sorri. Um homem bonito, os lábios que são um desenho, as unhas tão bem cuidadas e pintadas que me envergonhei um pouco das minhas. Me lembrei de passagem daquele José Mojica Marins que, adolescente, eu avistei num ponto de ônibus da mesma rua Augusta ontem percorrida por nós. Sem cartola ou capa, vestido com uma camisa branca, o Mojica à paisana não tinha nada de seu personagem Zé do Caixão, exceto as unhas longas e firmes. 

Tampouco eu sabia que Wesley era esse homem-cinema total. Enquanto andávamos pela avenida Paulista, conversando, a câmera despertava de seu celular. Sabedor do que queria registrar (a primeira foto já valia), dirigia a si próprio e a mim. “Olhe para lá”, me dizia, ele que pisava naquele território pela primeira vez. Ação, corte, edição: Wesley faz tudo isso como extensão do que é. Move-se e pensa dramaticamente. No olho, o frame.

Wesley olhou tanto! A vida, claro. Mas também as palavras e os filmes. E talvez por este motivo tenha sido tão natural, para ele, que se tornasse um diretor de cinema com um sem-número de referências, além de crítico inegável, apaixonado, amantíssimo, o único aliás que consigo acompanhar sem nunca esmorecer, um pouco pelo brilho da reflexão original que espalha em tudo, outro tanto por sua generosidade, pelo privilégio de que desfruta em ser tão honesto e centrípeto (desta maneira vê a si) nas suas atribuições de avaliador.

“Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo”, seu primeiro longa-metragem, já vencedor do prêmio Aurora na 28ª Mostra Tiradentes, foi co-dirigido pelo amigo sergipano de duas décadas Fábio Rogério. Dele, de sua experiência como editor excelente e ritmado, veio a ideia de realizar uma obra cinematográfica a partir do que Wesley é, de seus registros no celular sobre o cotidiano na casa da família em Aracaju. (Uma curiosidade é que Rogério chegou a duvidar de ter mesmo composto um filme ao final do processo de edição…)

Os pequenos vídeos dentro do longa mostram o quintal de Wesley, seus jabutis, galinhas, patos e cachorros no cio, a casa, a tela de tevê, o banho de chuveiro como que nascido de um filme de Totò (o primeiro no qual atuou, “Fermo con le mani”, de 1937, no qual se desenrola a gag em que o ator se banha de cartola). Neles estão também a pia cheia ou vazia, a faca, a mãe Rosane – filósofa de mando e origem, a ironizar sobre o filho querer tudo, menos o que tem -, muita água de chuva inundando o quintal enquanto escasseia a água de uso (haja inconsciente para rolar), as doações que alimentaram a família durante a pandemia, a vivacidade do diretor combinada a uma melancolia agitada, seus momentos de pânico, alguns filmes que ele viu, os parágrafos de uns livros lidos, os seus pensamentos que são um sentir e um sempre inesperado humor, capaz de ora esfriar, ora animar os sentidos do espectador lanceado.

Foi só quando vi o filme ontem, numa sessão do Cinesesc dentro da 13ª Mostra Tiradentes São Paulo, que entendi melhor o Wesley com quem passeei feliz horas antes. Ele está preso ao cinema. Isto é bom, ocasionalmente ruim? No filme, a certa altura, o diretor indica a exaustão de abrigar na mente uma câmera que tudo enquadra, junto a uma moviola imaginária constante, a determinar o ritmo e o movimento desses enquadramentos. A sua parece ser aquela prisão que implica prazer e que ocasionalmente pede liberação, assim como um rio contido, de repente, vaza pela cidade. Eis talvez por que seu pênis apareça tanto no filme. Este seu amigo no mais da vida “desereto” (mas não deserto) pode desprender em jorro diante de uma atemorizante faca polanskiana colocada na pia. E isso pode ser tanto o começo quanto o fim do eterno ciclo que, um dia, ele espera encerrar por deliberação pessoal.

É um filme feito de dor, mas também de amor e humor. Por me sentir amiga de Wesley, tantas vezes temi por ele, chorei por dentro, enquanto, na mesma fileira em que eu me sentava na sessão, ele ria alto de si próprio em tantas situações nem tão divertidas assim dentro do filme. A naturalidade com que uma sequência de seu inconsciente se segue a outra, com tantos bichos na casa a revelar essa imanência-transcendência, me lembrou aquela do diretor Luis Buñuel, suas aranhas, escorpiões e insetos colocados nos filmes sem razão aparente, mas a espetar os sentidos dentro de uma narrativa que se liga à vida. Wesley me pareceu buñueliano também por não saber o que fazer sem o cinema, e por atuar junto a um condutor consciente, capaz de expressar todo o peso de sua arte. Seu Fábio Rogério é como o roteirista Jean-Claude Carrière para o diretor espanhol, um artista a organizar o fluxo.

O filme que custou apenas 2 mil reais (gastos, em verdade, para a confecção do cartaz e das legendas em inglês exigidas pela Mostra Tiradentes) tem tanto mais, até um divertido cu piscante! E os efeitos visuais nascidos da precariedade da câmera surgem sublimes, como aqueles que Wesley produz ao agitar o celular, indicando “loucura”. Só posso esperar que seu filme jorre em novas exibições pelo Brasil e pelo mundo e que o Carrière deste Buñuel o acompanhe, empurre e console, salvando-o para viver e acontecer.

Lutar queima, lutar dói

Sofro com a virose que me toma há alguns dias, mas, sinceramente, sofro mais (a mente, os nervos) diante do assassinato cotidiano.

Mulheres degoladas, apedrejadas e concretadas por quem há muito dispensou o respeito por seus corpos.

A polícia que é a mesma, indigna em qualquer lugar do mundo, massacrando os velhos argentinos sem dinheiro para comer e medicar-se.

As árvores garroteadas e tombadas em decorrência da inação do podre poder público municipal, como se fossem tão-somente empecilhos à urbanidade.

Os sem-teto estendidos na calçada, tratados sem qualquer cerimônia pelas peruas de remoção e pelo vice-prefeito (vice? prefeito?), que resolveu mirar em Padre Júlio nas redes sociais.

Estudantes vistos como cachorros pelo Grande Laranja porque ousam protestar contra o genocídio palestino.

O genocídio palestino.

Há dias nos quais não damos conta de nada, de nadinha que parta da humanidade. E mesmo assim, se não combatermos por ela, quem seremos? Como viver? Lutar é meter a cara nas chamas para apagar um incêndio que não cessa. Lutar queima, lutar dói. Ah, se houvesse trégua para lutar.

Sua Walteza, um caubói solitário na América anti-woke

Estava sem internet suficiente para acompanhar a cerimônia de entrega do Oscar 2025. No mato, assistindo a tudo por meu celularzinho de tela instável, com a incrível companhia de Iaiá, de 14 anos, mais linda que todas as Anoras, tentei compreender a premiação.

Dar um Oscar de roteiro original, montagem, direção e filme a um só homem me prova que Hollywood vai mal, mas vai mal demais… industrialmente falando. 

Eis um longa batalhado e quase caseiro. Gostei de “Anora” ao entendê-lo um filme de humor, um sub Irmãos Coen com ótimos atores, ademais irônico em relação aos russos, neste momento em que Trump os acolhe. Um filme gostoso de ver, conduzido por um homem-orquestra, mas um filme pra Oscar? Sim, neste momento estadunidense em que as séries de tevê podem ousar mais, ele representa tudo com que Hollywood poderia sonhar. Ironia, tenacidade, os subjugados vencerão!

Teria preferido, como Sua Walteza Salles sugeriu, que Nanda tivesse levado o prêmio de atriz. Catalisaria nosso empenho artístico, nossa artesania ancestral. Porém, reconheço que Mikey Madison é uma bela intérprete, e me alegra saber que ganhou tão cedo uma premiação industrial dessa magnitude, embora isso possa não significar exatamente uma vantagem em sua carreira, conforme o longo, longuíssimo e algo antipático discurso de Adrien Brody sugeriu. 

Adiantou o ator estadunidense ter levado a primeira vez a estatueta superjovem e sido ignorado por décadas? Pior. Ele vai precisar de novas décadas para se recompor desta vitória.

Para sempre o injustiçado do cinema! No seu agradecimento, Brody não se esqueceu de condenar o “anti-semitismo” atual. Como assim, bebê? 

No mínimo posso dizer que “Brutalista” não apresentou sua ideia com isenção, antes encenou o mais extenso, escancarado, caricatural desejo de um artista de sobrepor sua visão, história e passado ao país que lhe deu de ombros.

Nem me lembro das piadas proferidas no decorrer da cerimônia, que foi relativamente curta para o cerimonial de um Conan O’brien engraçadinho em relação ao “marido ausente” de “Ainda estou aqui”. Mick Jagger, que apresentou a melhor canção, tendo de premiar “Emília Pérez” quando na plateia dos indicados havia Elton John e Bernie Taupin, foi bem mais divertido que o bárbaro Conan. “Queriam alguém mais jovem que Dylan para apresentar o prêmio, e eu sou mais novo que ele”, disse Mick, que, octagenário, move-se com a agilidade de um “Flow”.

Foi tudo razoavelmente rápido desta vez, ganhamos o prêmio que nos coube naquelas quatro linhas, o de melhor filme internacional, para que Walter, simpaticamente desajeitado no seu paletó e gravata (Oprah Winfrey apareceu bem mais esticada no seu figurino semelhante), seguisse um discurso humilde, em tom baixo, de dedicação a suas duas Nandas do cinema brasileiro.

Achei interessante que a apresentação do filme tivesse usado a voz em off do diretor para sublinhar sua proximidade com a família retratada. Fica explicado melhor, assim, o intento autobiográfico do diretor, sua existência adolescente em meio a outras sacrificadas naquele momento histórico, mesmo se consideramos que sua classe social tenha vivido desde sempre sob eterno sol. 

Halle Berry e Daryl Hannah, tão bonitas, o vestido de Halle a seguir a tendência do bordado de pedraria à frente, como um relevo de silhueta… No mais, poucos vestidos buscaram a assimetria, porque talvez isso não fizesse sentido em ambiente cultural de visão tão estreita.

“Sem chão” (No other land), vencedor por longa documentário, recuperou o ideal paz&amor necessário, visto não ser um filme “apenas” palestino, mas israelense-palestino. Um filme jovem, nem tão bom quanto o concorrente “Trilha sonora para um golpe de estado”, mas suficientemente esclarecedor de como funciona o terrorismo estatal israelense no cotidiano de seus oprimidos.

Curiosa cerimônia, tão pouco imaginativa! E relativamente curta, empenhada em escrever palavras críticas para que vencedores do ano passado apresentassem os indicados de agora. Mas, bem, a cerimônia abdicou disso na hora de apresentar as atrizes principais, já que entre as concorrentes estava Karla Gascon: embora presente, ela nem foi citada no agradecimento choroso de Zoe Saldaña, sua companheira de cena agraciada como coadjuvante.

Incrível que Dira Paes e Maria Beltrão, comentadoras da Globo, desconhecessem a natureza deste prêmio, estritamente ligado ao desenvolvimento do mercado e da indústria locais. Que foi isso de reclamar da não-inclusão do cineasta brasileiro Cacá Diegues na homenagem aos falecidos do ano? Que carreira ele fez nos EUA? A trajetória de Salles ali é até maior…

Deveria servir de lição para os deslumbrados por Hollywood, mas suspeito que não será assim. A tal academia cortou desde sempre a possibilidade de expansão de uma cinematografia (latino-americana) naquele terreno. Candidato a melhor filme, mas não a melhor diretor? Walter Salles, o único brasileiro autorizado, por sua classe social, a ganhar um prêmio naquelas paragens, não estaria no nível de um Jacques Audiard? É até divertido imaginar o cochicho dos bastidores políticos: fora, América Latina woke, do sonho que é grande, nosso e de mais ninguém…

“Sem chão”, a luta palestina pelo pertencer

“Sem chão” (No other land) é um filme-diário sobre a luta pela terra palestina. Um filme jovem, urgente, feito de esperança sem razão, boicotado pelos distribuidores nos Estados Unidos e vítima de apagamento. Um candidato ao Oscar de documentário em 2025 como se isto constituísse uma ousadia impensável…

Neste documentário, Basel Adra, jovem de origem camponesa formado em Direito, desacredita dos tribunais e vive para informar ao mundo que os israelenses roubam a terra dos seus ancestrais sem cerimônia ou dignidade. O jornalista israelense Yuval Abraham, que aprendeu árabe com um colega e a partir dele compreendeu a causa palestina, segue os passos de Basel munido de comprometimento, a ponto de juntos, na companhia de Hamdan Ballal e Rachel Szor, editarem “Sem chão” sob a perspectiva do palestino, ou seja, do perdedor.

A família Adra pertence a Masafer Yatta, um povoado fundado pelos palestinos em 1830 no sul da Cisjordânia, mas reivindicado em 2019 pelos israelenses por meio de uma determinação de sua Suprema Corte. Os sionistas decretam que a região montanhosa deve servir para o treinamento de tanques do exército de seu país – e não, nunca, para abrigar um bando de despossuídos árabes que, a partir daquele ponto, poderia sonhar com mais.

Assim é que escavadeiras, tanques e soldados israelenses destroem tudo o que Yatta constrói: suas humildes habitações, escolas, até um curral de ovelhas e um playground. Eles não podem esperar. Precisam desfazer tubulações, fiações, cozinhas, brinquedos, o que vier, diante dos olhos revoltados dos reais proprietários, para que o teatro de destruição cotidiana se efetive. Contudo, as pequenas câmeras e os celulares da família Adra, assim como o equipamento do jornalista israelense, jamais param de funcionar, registrando com agilidade, sob pena de agressão, morte ou invalidez, todos os movimentos do Estado de terror. 

O plano sionista não declarado, mas já em parte realizado, é encher a região de ocupantes israelenses cujas casas são eficientes e cheias de luz. Enquanto isso, os resistentes fogem para as cavernas sujas da região à espera de reconstruir suas casas, todas as manhãs, naquele exato local onde foram derrotados no dia anterior.

Quem ganha a luta, podemos adivinhar. Quem fará os camponeses se mudarem para as cidades entulhadas, onde míseros apartamentos abrigarão famílias inteiras, serão os israelenses. 

Aquilo que não sabemos, contudo, constitui o cerne deste belo filme. Ele está localizado na luta que se faz todos os dias, não importa quantos palestinos resultem feridos ou inutilizados pelos explosivos do exército ou pelos tiros dos colonos armados. O cerne é o senso de pertencimento. O calor familiar. O amor às crianças. O humor de quem nunca desiste de estar ali.

Os Nickel Boys e o império subjetivo da humilhação

O império da subjetividade reconta a grande humilhação sofrida pelos negros estadunidenses durante a segregação. “Nickel Boys”, candidato ao Oscar 2025 a melhor filme e melhor roteiro adaptado, nasceu da obra homônima do escritor Colson Whitehead, de 55 anos. Vencedor do Pulitzer em 2020, o romance se apropria de elementos de um massacre real de jovens negros na Flórida, durante a vigência das leis Jim Crow, entre 1877 e 1964, para ilustrar a segregação assassina no Sul do país.

Ponha de lado o afrofuturismo. Esqueça por enquanto a beleza negra que empossou reis e rainhas ancestrais. Há menos da brilhante África aqui e mais da realidade ocidental nos Estados Unidos, onde historicamente a vida negra careceu de importância. Ao inverter o caminho interpretativo escolhido em anos recentes, o diretor RaMell Ross (um estadunidense de 42 anos nascido na Alemanha) promove menos agência ou resistência por parte dos pretos e mais descrição da brutalidade sofrida por eles. 

Os jovens negros do reformatório Nickel só têm quatro possibilidades de escapar do inferno, diz o personagem Turner (Brandon Wilson): a improvável saída pelos tribunais, o cumprimento integral da pena injusta, a fuga e a morte. Turner conclama o colega interno Elwood (Ethan Herisse) a fugir. Um filme dentro do filme, do qual vemos sequências durante esta narrativa, é aquele protagonizado por Sidney Poitier e Tony Curtis em 1958, “Acorrentados” (The Defiant Ones), a contar a fuga de dois presos inicialmente rivais.

Elwood resiste à fuga porque acredita no estado de direito, na possibilidade de defesa, especialmente na intensificação da luta, conforme ela vinha sendo travada pelo líder Martin Luther King, cujos trechos de discursos também vemos no decorrer do filme. Elwood leu Jane Austen. Aluno exemplar em Tallahassee, ele partia para uma bolsa universitária quando se viu injustamente preso no Nickel, onde nada de bom esperava pelos menores segregados. 

Para narrar tudo isto, a câmera é subjetiva sempre, com muitas sequências feitas na mão. Mas o subjetivo varia conforme a história anda. Quando a narrativa é em tempo real, quem vê o que se passa é Elwood. Quando a narrativa se passa no futuro, a coletar memórias, a câmera subjetiva é de Turner, que, na sua representação adulta, curiosamente cita a aparência atual do escritor Whitehead.

A escolha por menos ação e mais poesia, em muitas sequências belamente fotografadas, é ousada para encenar o livro. Às vezes a câmera subjetiva funciona bem, como na sequência inicial, onde Elwood está desaparecido da visão familiar. Dentro do reformatório, contudo, quando se alterna entre Elwood e Turner, dois meninos imersos na atmosfera do movimento pelos direitos civis e da conquista da Lua, ela não parece contar a história muito bem. 

Ouvimos ecos, experimentamos distâncias e sentimos cada vez menos envolvimento durante as duas horas e vinte minutos do filme. Há, contudo, boas reconstituições dos anos 1960 na direção de arte e na fotografia, que às vezes cita Gordon Parks. A trilha sonora, o jazz, sublinha a imersão subjetiva pretendida pelo diretor. Os dois protagonistas são bons intérpretes, assim como Aunjanue Ellis-Taylor, no papel da avó Hattie, e Hamish Linklater, como o cruel diretor Spencer. Talvez o que falte ao filme seja justamente uma intenção realista, menos palavras e mais timing ao suceder fatos tão cruéis.

“O brutalista” é “emocionalista”, e o sonho acabou

A parte de que mais gosto em “O Brutalista” é aquela na qual o filme candidato ao Oscar 2025 não hesita em sua conclusão moralista sobre o sonho americano. Para este longa-metragem (de quase quatro horas) dirigido pelo estadunidense Brady Corbet, de 36 anos, o sonho nem mesmo existiu. Foi um anti-sonho e acabou.

O caminho encontrado por Corbet (ator em “Violência Gratuita”, que o alemão Michael Haneke realizou em 2007) para dizer sua crença é tortuoso. Ele vai até a Hungria do pós-guerra, acuada pela União Soviética, em 1947, para decretar não haver chance de os judeus fugidos daquele inferno conseguirem uma vida plena nos Estados Unidos. Mais bem-vindos seriam no recém-criado estado de Israel, talvez…

Tudo se complica durante a narrativa longuíssima. Depois da Segunda Guerra, a Hungria, ocupada pelos soviéticos, é forçada a limitar-se a suas fronteiras de 1919. E, sob a liderança stalinista de Mátyás Rákosi, o país europeu impede a liberdade de atuação a qualquer artista inovador. Enquanto isso, os Estados Unidos, que haviam vencido os nazistas sob o comando aliado, parecem oferecer, a um perseguido desse universo, um destino promissor.

O arquiteto Laszlo Toth em fuga, interpretado pelo ator estadunidense Adrien Brody, vai então experimentar a liberdade possível no país, depois de vencer uma difícil travessia marítima. Contudo, os Estados Unidos não parecem compreender este judeu húngaro que tanto sofreu nos campos de concentração – e, além disso, sob o stalinismo. Sem que ele espere por isso, os EUA segregam suas aspirações. 

Advindo brilhantemente da Bauhaus, a escola alemã modernista de arquitetura e design fechada pelos nazistas em 1933, Laszlo Toth se conforma a uma subexistência no país livre, até deparar com um surpreendente caminho de prosperidade. O milionário Van Buren, interpretado pelo inglês Guy Pearce, quer que ele construa um centro cultural cristão em homenagem à mãe. 

Toth, como sabemos, é judeu (surge até mesmo em oração durante algumas sequências do filme), mas tentará dar o máximo de si no trabalho religioso alheio. E isto porque precisa, a todo custo, trazer a mulher Erszebet (interpretada por Felicity Jones) e a sobrinha, ilhadas na Europa, para junto de si. Van Buren, contudo, o decepciona seguidamente. O profissional se vê extirpado de seu desenho arquitetônico fundado no concretismo. Ele queria evocar, no projeto, as grandes paredes de seu enjaulamento em um campo de concentração.

Vilipendiado, o arquiteto se torna violentamente emocional. Seria melhor chamá-lo de “O emocionalista”, então? As discussões que trava com o mestre de obras, de tão incongruentes, parecem verossímeis…

Difícil mesmo é ver Brody como o arquiteto neste filme. Ele mais se parece com o empreiteiro, quiçá com o sindicalista dentro do canteiro de obras. Seu coração vive de se rasgar, assim como o próprio corpo, diante da indiferença do mentor milionário de seu projeto.

Neste filme protagonizado por um ator que representa a vívida imagem da desesperança, mais é mais e deus não está nos detalhes. O final à moda de “O Grande Ditador” faz de Brody um Charles Chaplin na versão mais simples, inconformado com a perda de seu amado Rosebud.