Aviso aos navegantes

Amores, comecei hoje a comentar em meu blog alguns filmes da mostra. Decidi escrever textos rápidos, às vezes no saguão do cinema mesmo, para dar conta mínima da sensação tida por mim ao vê-los. Nenhum veículo de imprensa quer saber das minhas impressões, e minhas impressões são livres.

Principalmente, preciso esclarecer que não dou dicas de filmes. E não dou por uma razão simples. Minhas dicas podem não servir a ninguém. Busco no cinema coisas minhas. Vocês também, aposto! E raramente encontramos quem pense como nós, não é assim? Então, jamais ousaria dar dicas generalistas e impositivas. 

Não encarno um espírito de época, nem um pensamento em comum. Na minha vida, quando analisei cinema, logo os jornalistas brasileiros da área tentaram me esconder e anular. Tinham suas razões. Escrevo compromissada com minha busca pelo cinema, não para que um grande público me aprecie. 

Gosto e desgosto de filmes de um jeito que pode incomodar. Acolho os politicamente incorretos, por exemplo, desde que sejam bons filmes, a respeitar o cinema como uma categoria do narrar/pensar com ritmo. Raramente me interessam aqueles feitos para estimular de algum modo nossas vidas (se não me encanta a auto-ajuda nos livros, não buscaria isto nos filmes). Amo ver o cinema assumir riscos, passar por pontes estreitas, dizer por meio da montagem e da imagem, não quando ele é um novo meio de fazer tevê, por exemplo. Enfim, muitas das coisas que aprecio ninguém precisa gostar.

Tudo isto dito, sinto muita alegria quando vocês acompanham minhas publicações. Uma esperança danada, uma vontade de viver.

A vida é uma cadela

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o estranho humor de ataque de Xavier Seron

Pode-se ler “bitch” em lugar de “cadela”. O significado da palavra no título deste filme é dúbio como aquele sugerido pelo vocábulo inglês. No longa belga/francês “A vida é uma cadela” (2024), cadela será “cachorro” tanto quanto “aquela que nos trai”.

O filme encadeia situações em que a mulher se revela ora indiferente ao amor que lhe tem um cara, ora desprovida de qualquer sensibilidade humana, ora temerosa da amizade canina de seu amor. Nada vai bem para os homens vitimados da trama – tampouco, contudo, para as mulheres. E o que dizer dos cachorros? São espelhos, a repetir o inconsciente de quem se aproxima deles (como costumam ser os animais dentro das ficções).

Ao fim, eis uma crítica a nossa impotência como civilização. Com seu humor de ataque, “A vida é uma cadela” paralisa o riso conforme a trama se desenvolve, à moda francesa, crua. O diretor belga Xavier Seron parece perseguir a estética de estranhamento primitivo de Yorgos Lanthimos (“O Lagosta”), mas o faz numa espécie de ensaísmo de YouTube, em preto-e-branco. É um bom filme experimental, que se percorre até o fim, sem perceber.

O diretor Xavier Seron

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessões na Cinemateca (Sala Oscarito, 15h do dia 30) e no Cine Satyros Bijou (18h do dia 28).

Quando o abuso é grande

Desde estudante sofri assédio sexual e moral. Como qualquer mulher, suponho.

Na universidade, um professor me reprovou duas vezes, e quase não me formei, porque ele me queria disponível. Dizia que eu escrevia bem, que a ideia do trabalho era boa, mas sempre me desestimulava em algum ponto, me fazendo recomeçar (um sujeito futuramente importante na hierarquia uspiana, devo dizer). 

Uma vez, no atendimento para o trabalho final, procurei-o em sala, como o exigido semanalmente a todos os alunos da graduação. Enquanto eu falava, precisei levantar, sobre a camisa, a alça do sutiã que havia descido. Ele achou nessa hora um caminho pra me desqualificar. “Não precisa disso pra passar comigo”, disse, como se levantar a alça do sutiã fosse um sinal de oferecimento sexual. 

Entendi na hora que, depois de muitos embates anteriores em torno da defesa de minha pesquisa, ele não mais dispunha de argumentos intelectuais para diminuir sua aluna e tentava a última cartada para derrubá-la. Saí da sala dele para não voltar. 

Precisava ainda passar pelo inominável, contudo, se quisesse tirar o diploma. Me inscrevi de novo na disciplina, mas fiquei sem coragem de cursar. Acabei reprovada pela segunda vez. Se isto acontecesse novamente eu seria jubilada, segundo o regimento da universidade então. Fui salva, na terceira tentativa de obter aprovação, pelos próprios colegas. O professor estabelecia a média do trabalho final a partir de duas notas, a dele e a dos alunos. Cientes então de meu problema, os colegas me deram nota 10 final e ele, zero. Passei. Muitos anos depois, o professor me encontrou por e-mail e passou a me mandar suas newsletters, sem mais.

No trabalho, foram assédios morais constantes. Humilhações e tramas de bastidores nascidas do simples fato de eu ser mulher e conseguir desempenhar a contento minhas funções (“homem escreve melhor” era um pensamento verbalizado em redações da minha juventude). Muitos homens e mulheres correram atrás do meu pequeno lugar. E houve assédio sexual também. Um belo dia, na redação de um jornal diário, recebi a mensagem do editor: “Não gostei de você hoje sem batom. Pinte esse bico, por favor.” Mandei ele me procurar na esquina e continuei a fazer meu trabalho sem mais importunações.

Tudo isto para dizer que as coisas mudaram bastante. Na juventude eu não acreditava no recurso da denúncia, que hoje se encontra mais facilmente disponível. Achava que ninguém se fiaria em mim se dissesse o que se passava, logo eu que usava saias curtas. E, se dissesse, eu teria de me desgastar pessoalmente, o que me parecia inconcebível: ou dava meus pontapés ou não fazia nada. Contudo, quando não fiz nada em um caso de constante assédio moral, ocorrido quando eu era já bem madura, sofri. Eu tinha dois filhos em idade escolar, difícil a situação financeira, o equilíbrio existencial. Errei ao me calar.

Hoje penso que, em caso de humilhação no trabalho ou na escola, a denúncia é um bom caminho. Mas se o sujeito tem a mesma hierarquia que você, dê-lhe um chute imediato naquele lugar, passe a denúncia a seus colegas hierárquicos e, principalmente, a seu superior. Você sofrerá menos pesadelos depois.

Monty era meu irmão

Liz e Monty: ele ficou surpreso
de se sentir excitado por uma mulher

“O que eu tinha com Montgomery Clift era o relacionamento ideal, a amizade ideal. Eu adorava seu talento e seu humor, e imitava sua raivosa lealdade. Eu tinha medo de me esforçar demais para ser atriz, porque não sou uma artista: não nasci para ser artista e não estudei (nem sei como estudar) para me tornar uma.

Monty era um artista puro, um gigante da atuação. Ele tinha medo de sets, diretores e equipamentos — lentes, câmeras, marcas no chão que nunca conseguia ver. Eu podia guiá-lo por um set, colocá-lo onde pudesse fazer sua mágica. E ele podia falar comigo, ajudar a me tornar um personagem, a entregar o material que me foi dado.

Ele era meu irmão.

Embora pensasse nele fraternalmente, o trabalho que realizei a seu lado em ‘Um lugar ao sol’ (George Stevens, 1951) foi terrivelmente erótico. Era uma dança de sexo. Um minueto das glândulas. Havia excitação naquelas cenas íntimas, mas era atuação. Monty ficou surpreso por estar excitado naquelas cenas — excitado por uma mulher —, e eu fiquei surpresa por estar sendo bom.

Presentes que demos um ao outro.”

Elizabeth Taylor em entrevista a James Grissom no hotel Carlyle, Nova York, 1991

via http://jamesgrissom.blogspot.com

Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em
“Um lugar ao sol”, dirigido por
George Stevens em 1951

O que me salva

Às vezes, como hoje, me sinto a última criatura sobre a Terra, alguém para quem não parece haver salvação existencial ou física. Um sentimento nascido ocasionalmente não de uma ameaça particular, mas do pesar, que creio ser comum a todos, de habitar este mundo de cães famintos.

E então, porque também amo a vida, me esforço a existir.

Eis por que as roupas de alguns dias vão parar no varal e os vidros de azeitona, nos baldes com água, de onde saem nus, sem os feios rótulos de papel. Busco os filmes, qualquer chocolate, a água sobre a arruda, o secador.

Nada funciona a não ser a coisa de sempre. A coisa das coisas, da qual sempre me recordo no último momento. A coisa da fotografia em mim. Revisito os livros de imagens acumulados ferozmente nestes últimos anos (não tenho moral para condenar os consumistas, não). E quem me salva é
Eva Besnyö. Que fotógrafa! Os reflexos. Os ciganos. As crianças musicistas. A beleza que ela captava naquelas manhãs brilhantes entre as estações do ano.

Amanhã, não sei. Espero sempre me sentir melhor. De todo modo, deixo enganchadas sobre a mesa de meu escritório as flores que Robert Frank fotografou em Paris.

Por Eva Besnyö

Meu artigo sobre como a comédia italiana encarou o fascismo

Ugo Tognazzi e Georges Wilson
em “Il Federale”,
de Luciano Salce, 1961
Alberto Sordi e Serge Reggiani
em “Tutti a Casa”, de Luigi Comencini, 1960
Nino Manfredi em “Gli Anni Ruggenti”,
de Luigi Zampa, 1962

A revista “Aurora”, da PUC de São Paulo, acaba de publicar um artigo que escrevi sobre como a comédia italiana encarou o fascismo. Está linda a edição, cujo tema é Humor e Política. O link para o meu artigo segue aqui (abaixo da capa vocês podem acessar o PDF). 🌹

https://revistas.pucsp.br/index.php/aurora/article/view/66365

Invólucro, sempre ele

Descobri que tanto minha cabeleireira católica, eleitora do Lula, quanto sua auxiliar evangélica, pró-Bolsonaro, ouvem os sermões de fervor religioso de Pablo Marçal e o consideram “gato”.

(Onde, gente?)

Mostrei-lhes um link que informava a dívida de 16 mil de Marçal com a Receita, algo inconcebível, convenhamos, para quem se apresenta também como coach financeiro. A evangélica primeiro perguntou se era possível confiar no link, depois arrematou que, de todo modo, os políticos são mesmo assim. A católica riu e aproveitou para informar que ela se declara isenta de imposto de renda quando não deveria ser.

O invólucro é o que conta para quem tem pouca informação. Nunca imaginei que achassem Marçal bonito, nem entendia, à época, o charme que as mulheres viam em Collor, no qual votaram para presidente.

Querem saber?

Estamos f.

Mulheres até o fim

Imensamente feliz por nossas mulheres olímpicas. Quem não estaria? São pessoas que vestem a luta, habituadas a presenciar a lida de mães e avós. Seus olhares parecem voltar-se a tudo em torno, sem se esquecer do que é próximo. Difícil ser mais bonito como povo do que agora, com essas pessoas diante de nós.

Segunda-feira cedo, contudo, eu pensava diferente. Atrasada, a caminho do metrô para a fisioterapia semanal, me perguntava o que São Paulo fez das mulheres, insistentemente abandonadas no centro da cidade. Nossos governos, municipal e estadual, habituaram-se a exercer a crueldade com elas, como quem não larga um vício. Mas e nossas mulheres, desistiram de lutar?

Bem, ainda não. Lutam de um outro jeito, talvez.

Três delas me pediram ajuda no trajeto para a estação próxima de casa. Um número incomum até para mim, que transito por essas ruas todos os dias. Não usavam os filhos. O pedido, como de uso, era por dinheiro-não, mas uma coca-cola, por favor. Eu me recuso a distribuir coca-cola e meu estoque de barrinhas de cereais para doação acabou. Passei pelas mulheres a abanar meu sinal de não. Às vezes saio para distribuir roupa e comida a quem aceite, mas não naquele dia. Não.

Grande padre Júlio que circula por lugares muito difíceis, munido da concha de sopa que é a espada dos justos. Mas eu não sei fazer um grão do que ele faz em regiões como a estação da Luz à noite, por exemplo. Estou na praça da República, mas já aqui, onde as coisas nem são tão ruins, vejo que, para essas mulheres, não se trata apenas da dificuldade em sobreviver. Elas vêm aqui para morrer. E isto é ainda mais difícil conseguir. Um processo custoso, lento. 

As três que me procuraram em um intervalo de menos de dez minutos tinham idades variadas. Uma trans de vestido vermelho longo, grandes brincos de argolas, sorridente, não chegava aos 20 anos. Uma religiosa sem dentes, talvez aos 50, clamava “pelo amor de Jesus” dentro da estação do metrô. Uma noia desbocada e impaciente, quem sabe aos sofridos 30, agitava as mãos e abria os olhos em minha direção, na avenida Ipiranga, sem que eu pudesse entender o que dizia. 

Muitas mulheres, cis ou trans, religiosas ou noias, já me imploraram ajuda antes, mas não tão cedo, ou não fora da hora de almoçar, como nessa segunda-feira. Sofriam demais. Achei que me procuravam com intensidade (a religiosa quase segurou meu braço) porque sou mais velha do que elas. Buscavam solidariedade na senhora de alpargatas, óculos escuros pretos e redondos, bolsa de mesmo formato e tecido africano, camiseta branca e calça pantacourt preta, gentil com os pobres, difícil para o mundo. Mas por que só mulheres atrás de mim?

O que sei: me viram desde longe, caminhando, e me surpreenderam com sua aproximação. E isto me lembrou eu mesma quando detecto um personagem à distância e chego arriscadamente mais perto dele para fotografá-lo e ao seu entorno. De certo modo, me escolheram por meu jeito de me movimentar e vestir. Fui um palpite.

Não quero comparar meu modo de tirar fotografias ao delas quando esmolam. O que quero dizer é que compartilhamos a atmosfera da cidade, razão pela qual usamos estratégias algo parecidas de aproximação.

Hoje sou uma pessoa um tanto isolada, por entender que não triunfei na maioria das relações humanas, e não desejo, a partir de agora, me estender nelas mais do que o necessário. Prefiro a família próxima, os amigos antigos, meus livros, meus filmes, minha música, minha cozinha. Posso preferir. Tenho o que essas mulheres nem sonharam ter.

Contudo, nossa atitude em comum é não temer tanto assim o estranho, aquele desconhecido que será, para nós, o meio de alcançar um objetivo. Não sofro por morar no centro, não ainda. Gosto dessas pessoas. Unimo-nos por instantes tão breves. Somos um fluxo de intuições, incertezas e tentativas, o sol às nossas costas, até a hora do fim.

Estas mulheres em mim

Com qual delas me pareço mais, não sei. Mas estou certa de que ainda crescem em mim.

Vó Guilhermina, neste desenho de meu pai, eu não conheci. Morreu aos 50 anos, diabética, na passagem do ano, depois de uma “melhora da morte” de que meu pai recordaria por toda a vida, sempre em lágrimas. Ele que era então menino pequeno nunca se recuperou da perda dessa mulher nascida nos Açores, sua mãe demais, enquanto não se conectava com o pai, veneziano e grave. Guilhermina dizia ter-se apaixonado pela beleza de meu avô, uma história bonita: Daniel deixou a família e a possível pequena herança em terras para se casar com ela, revoltado com os parentes que não queriam a união (e por que não, meu deus?). De olhos tristes e puxados, as roupas sem qualidade ou adorno, minha avó era a submissão à família, à lida camponesa de início e à carga proletária suburbana que viria depois.

Vó Wadiha parecia ser quase o oposto. Nascida no Líbano, despertara o amor de meu avô sírio Dib ao passear com seus olhos violeta, adolescente, pelas ruas de São Luís. Sempre me pareceu altiva e doce a um só tempo. Devota de se ajoelhar na rua diante das imagens dos santos católicos que apareciam pelo passeio, era muito vaidosa também, pronta a encarar uma foto sem medo. Convivi com ela nas férias em Fortaleza até os meus 10 anos. Wadiha bem que tentou me ensinar crochê. À mamãe, disse várias vezes que minha pele era especialmente macia, o que bastou para me tornar orgulhosa, sei lá, imodesta, sobre esta parte de meu corpo, a maior e mais escondida.

Sinto sua ausência e presença a um só tempo. Uma transcendência feminina, enganadoramente leve como as nuvens num dia de sol.

No íntimo mundo do sonho e do rock, o filme “Assa”, de Sergei Soloviev

Em 1988, viver significava insistir. Pela enseada, na cabana transformada em habitação, o jovem Bananan construía pequenos objetos de arte e ousava interpretar um gênero degenerado de música popular, o rock. A reconstrução, que os russos intitularam perestroika, chegava com a promessa de melhorar a vida de todos. “Mas eu não vivo a vida”, argumentava o protagonista da trama ficcional “Assa”, de Sergei Soloviev, à mulher amada, amante de um gângster. “Viver a vida é triste. Do trabalho para casa, do trabalho para o túmulo. Eu moro no íntimo mundo dos meus sonhos. E a vida, o que é a vida? Uma janela pela qual de vez em quando enxergo as coisas embaçadas.”

Aqui, este lindo filme, com legendas em inglês: