
You play to fight the idea of losing


Não adianta brigar com o futebol, moçada.
Ele é nossa representação de brasileiros.
A representação do abandono, de um povo que, mesmo invisível, esquecido pelas mediações institucionais, dribla o jogador corpulento e de repente marca um gol.
O futebol é mais forte do que nós.
Sugiro aprender com ele e com a copa, à moda do que vocês vivem me dizendo aprender com os santos e as religiões.
Não perdemos de 7 a 1 à toa em 2014, como sabem.
Perdemos porque tínhamos muito a perder.
Pessoalmente, não me oponho à copa porque desejo saber o que ela nos dirá agora.
E embora a considere uma espécie de oráculo, jamais usaria o amarelo neste momento para assistir a um jogo da seleção.
O amarelo, que evoca a diarreia na história brasileira, não é a cor original de nossa camisa.
É a branca mesmo.
A velha camisa branca da paz.
Jornalistas. Teria tanto a contar sobre eles. Amei de cara Balzac porque os entendeu muito especialmente. O crítico loiro de ilusões perdidas, por exemplo, encontrei em todas as redações que frequentei…
Teria tanto a contar, mas não conto. Talvez nem mesmo em romance à clef, tão praticado pelos narcisistas que, claro, acham-se mais que jornalistas.
(Você já se imaginou por aí entregando as estrelas de suas próprias profissões? Nunca, né? Além disso, no caso do jornalismo, algo que nem existe mais, que interesse poderia haver nessas histórias? Humorístico? Sou péssima pra contar piadas.)
Às vezes, contudo, dou com a língua nos dentes e me arrependo instantaneamente de ter atingido o ídolo de alguém. Fico toda “bem, mas calma, ele tem ótimas qualidades”…
Meu parceiro do coração para essas histórias era o maior gênio que conheci no jornalismo: o Renato Pompeu. Até hoje me lembro de seu sorriso de criança quando eu aparecia com uma nova. Uma honra para mim se pensarmos que ele sabia tão mais do que eu em qualquer campo.
Renatão morreu, não tenho com quem conversar sobre esses assuntos, mas me lembrei de um minidiálogo que travei com um sujeito na redação certa feita. O Renato me daria um sorrisinho pra esta. A história exemplifica quão despreparada eu sempre estive para entender o patrão.
O chefe me pergunta:
“Você conhece quem cubra bem o mercado de luxo, Rosane?”
E eu:
“Luxo? Em que sentido?”
Eu realmente não achava que luxo fosse assunto pro jornalismo, exceto como denúncia ou por gozação. Mas eis que tal “segmento de consumo”, que poderia incluir “vinhos”, havia se tornado, sem que eu percebesse, tão importante para os patrões quanto “família real” ou “turfe”. Se eu quisesse editar “cultura”, então, não poderia me negar a tratar dessa prioridade.
O que me leva, não sei bem por quê, a um episódio ocorrido quando o Renato Pompeu e eu trabalhávamos no Jornal da Tarde.
O Renato vê entrar pela redação o então célebre jornalista Miguel de Almeida ao lado de um sujeito de óculos escuros, vestido com casaco de couro. Me cutuca:
– O Miguel de Almeida anda de guarda-costas, agora?
Eu olho e solto uma gargalhada que dura até hoje.
– É o Ivald Granato, Renato! O artista plástico!
E o Renato:
– Quem?
Mesmo ao ironizar a palhaçada real damos ibope aos palhaços. Eu sei! Mas penso assim: não controlamos a psicologia de massas mesmo. Ninguém compete com a família real, célebre amiga de Goebbels, nesse campo político…
E se não sabemos competir, então vamos tirar, porque a zoação talvez empoe esses diamantes de zircônia que tantas vezes atiram em nossa cara.
Particularmente, adorei que uma brasileira tenha reproduzido em poucas horas o vestido de 500 mil dólares da noiva e ainda postado no face o modelo chinfrim! Só se não for brasileira nessa hora.
(Quando lembro que a Oprah Winfrey obrigou as costureiras da Stella McCartney a passar a noite anterior ao casamento fazendo um vestido novo, já que a cor anterior do seu não ficaria bem na tevê, entendi melhor minha aversão ao espetáculo de mídia-me-too).
O único reality show a que assisto, porque há décadas gosto do acting do Rupaul (não dele, necessariamente), é o Drag Race. Então pesquei na página do programa dois sensacionais conselhos ao casal feitos por queens desta última temporada.
Miss Vanjie: “Eu diria à noiva para cancelar o Grindr do telefone dele. Não tem bobo no reino.”
Yuhua Hamasaki: “Do anal.”
Entendo a Dilma vezes tantas.
Ter feito seu trabalho sob péssimas condições financeiras mundiais e haver sofrido uma discriminação tremenda por ser mulher, enquanto conduzia o país abatido pela tempestade.
Em meu universo mais que paralelo não tive qualquer Katia Abreu por escolha, mas precisei suportar muitas katias obscuras que me foram impostas em empresa particular na base da humilhação.
Dilma foi derrubada por um conluio de golpistas de direita. E eu também, no meu quintal, por homens ditos de esquerda.
No entanto, não odeio a esquerda por isso. Sou ainda mais à esquerda do que quem me golpeou.
Não roubei, não traí. Vivo pela igualdade.
Fico pensando neste assunto em horas insones apenas para me livrar dele. Me sinto tão melhor sem esse círculo danoso (grotesco ou caricatural) por perto. Não é felicidade ser chicoteada todos os dias por mentirosos a exercer seu pequeníssimo poder.
Olhos que desejariam estar mortos de sono agora. Mas que terão calma.
meu professor, minha última razão pra escrever, me disse isto há uns meses, partido do nada:
– você é queer, rosane. doida. alicerçada em mistério. você não é deste mundo. ninguém sabe disso porque, pra esse mundo, você não é útil.
fiquei confusa. era uma sentença. talvez um elogio. ou uma constatação. ou nada.
e os olhos cheios d’água.
ter me chamado de queer foi um grande amor demais.
ódio à marielle assassinada
ódio aos ocupantes do prédio feridos ou mortos
aos acampados por lula
aos drogados
sem-teto
índios
ateus
ódio aos pobres
às mulheres
aos nordestinos
ao haiti e a cuba
ódio aos negros
aos chacinados nas ruas
aos gays
sapatas
travas
trans
artistas
ódio aos estudantes de escolas públicas
aos camponeses que plantam sem veneno
aos intelectuais
às putas…
ódio, tens espelho?
Mal sei o que seria de pessoas como eu se não pudessem sair de casa nos momentos difíceis e fotografar a rua.
Não tem importância nem utilidade o que fotografamos. Apenas significa que nos esquecemos de nós mesmos e nos revelamos.
(Meu teclado vermelho quis “rebelamos”. Eu diria que também.)
Exposição no CCBB-SP mostra um estado crítico para a produção artística africana contemporânea

Nunca fui à África, mas sei que lá estão minhas origens, como a de todos os brasileiros. Meu avô materno falava aramaico, a dita língua de Cristo, por sua vez um histórico personagem negro. Minha pele é clara, contudo. Isto resulta em que eu não sofra a tortura cotidiana de restrições sociais e policiais vivida pelos negros em meu país. Permitam-me que mergulhe no espelho do continente e considere a exposição que descrevo a seguir um momento fundamental para nossa cultura de existência e resistência.

Ex Africa (Da África) é o nome que o alemão Alfons Hug, curador de duas edições da Bienal de São Paulo (2002-04), duas vezes representante do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza, antigo diretor do Instituto Goethe no Rio de Janeiro e em Lagos, na Nigéria, e há quatro décadas pesquisador na arte daquele continente, deu à exposição que organiza. A mostra, com cerca de noventa obras, fica em cartaz no CCBB-SP até 16 de julho e segue para Rio de Janeiro e Brasília.


O objetivo da exposição é promover um panorama abrangente (artes plásticas, música, performance, instalações, fotografia) da produção contemporânea africana. Dois brasileiros afrodescentes, Arjan Martins e Dalton Paula, mostram ali também suas obras dedicadas à herança africana.

Apenas uma mulher tem seu trabalho integrado à mostra: a nigeriana Ndidi Dike, com Exchange for Life, uma coleta de materiais ligados ao sofrimento do escravizado. Correntes, algemas, balas e cartazes de oferta e procura por negros compõem sua breve e aterrorizante instalação sobre a crueldade europeia, erigida no continente a partir da partilha africana, no século 19. A ausência feminina é explicada por Hug como uma decorrência de sua marginalização social e comercial em dois séculos. Aos poucos, ele crê, o mercado e as feiras começam a reconhecer as obras das mulheres. Por aqui, talvez tivesse faltado evidenciar a obra de uma artista crítica como Rosana Paulino, a evocar a ancestralidade do sofrimento negro.

Para Hug, o contemporâneo é como que o esvaziado. Ou o que cresce. O que se ergue depois de uma criminosa intervenção. Ou o que ainda se pode dizer artístico, não importa a partir de que materiais ou orientações de pensamento. Como curador, ele parece buscar as inquietações, não as respostas. As formulações para uma arte crítica.

Parece encontrá-las em trabalhos como Geometry of the passing, de Youssef Limoud, uma investigação sobre a ruína a se abater sobre o continente. Sua obra, que ele considera a mais valiosa de Ex Africa, é como uma maquete da destruição, composta a partir do marrom da ferrugem. O mesmo marrom, ele explica, dificilmente obtido hoje, quando a produção artística é demasiada e impede a fixação do tom. Os pintores do Barroco, sim, usaram-na bem. Mas eles podiam deixar a tinta descansar por períodos de um ano até que a deitassem em suas telas.

Uma imensa instalação de abertura, Fragments White Cube Bermondsey, pelo muçulmano ganês Ibrahim Mahama, dimensiona a arquitetura da pobreza com caixotes.

As telas ainda são a principal orientação clássica entre as obras brasileiras e africanas. Contudo, como de uso, estão na fotografia e no desenho (como o do nigeriano Karo Akpokiere) os experimentos mais críticos e realistas deste período. O fotógrafo senegalês Omar Victor Diop faz o retrato dos futebolistas como novos imperadores. Reveste de nobreza seu perfil ao parafrasear as séries de Jean Michel Basquiat sobre os heróicos esportistas negros.

Escolhidas por Hug, as fotografias de Guy Tillim, que descortina as ruas, do retratista nigeriano J. D. ‘Okhai Ojekere (um antecessor de Diop) ou do fotógrafo sul-africano de ambientação interna Andrew Tshabangu, a evocar o americano Walker Evans, nos fazem caminhar por dentro de cada país segundo um entendimento ocidental anterior. Sob a mesma abordagem, mas rica em transparências, a instalação Ponte City, de Mikhael Subotzky e Patrick Waterhouse, sobrepõe a exibição contínua, por meio de um projetor, da ocupação de um edifício outrora de alto padrão em Joanesburgo.



A exposição se divide entre os eixos Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais. Nesta última sessão exibe-se o convencionalismo do funk ostentação em línguas diferentes. E lá estará a enorme qualidade do angolano Nástio Mosquito, a ecoar David Bowie em Hilário.
A sessão musical, que insere a produção da indústria cultural africana como provocativa oposição à musicalidade de raiz, ainda presente no continente, talvez deixe o visitante com um sabor amargo, de ferrugem das ruínas.
era um sonho quase realista.
eu tinha de trabalhar na tevê, quando, na vida, nunca trabalhei em tevê.
mas não podia escolher.
chegava simpática e sorridente.
na redação, em lugar de mesas de trabalho, havia atrações.
algumas mulheres faziam brotar flores desde a semente em poucos minutos.
os homens atiravam espadas.
assim que cheguei lavaram meu cabelo e fizeram escova.
me dei conta de que se tratava, em verdade, de uma peruca loira.
eu tinha de usar salto, quando raramente uso salto.
e ficava sentada pra não doer o pé.
no decorrer das atrações, eu me entediava e as costas começavam a doer.
me levantava, um pouco insegura sobre os saltos, e me via muito maior em altura que os outros.
eu tinha virado uma das atrações.
perguntei o que queriam que eu fizesse então.
“leia as notícias”, disseram.
o vídeo começava a rodar, os fatos aconteciam e não havia teleprompter onde eu pudesse ler a reportagem.
diante de mim, contudo, o câmera mandava seguir.
eu argumentava: “não recebi o texto. não sei como, por que, onde ou quando se deram estes fatos.”
e o câmera se aborrecia.
“este é seu trabalho, improvisar as notícias!”