Longe de vocês

Não posso dizer que estranhe a quarentena. Nos últimos três anos, venho de repousos forçados por ligamentos rompidos nas calçadas paulistanas. Mais grave ainda, no ano passado quebrei o pé no largo da Batata, a caminho de um show. Se contar minhas desabilidades nesse tempo, sobre cadeira de rodas ou bengalas, que me fizeram desenvolver tendinite, dá quase um ano longe da cidade e perto das sombras.

Tenho amigos incríveis, que felizmente levam vidas distantes enquanto envelheço. Estão sempre em mim, como sonhos. Às vezes, nas redes sociais, encontro quem me ouça mais que eles, na nossa troca de nudes existenciais sob a pandemia. Viva vocês!

Espero que desses companheiros de hoje surjam alguns amigos olhos nos olhos nos próximos anos. Não é fácil, sendo frila e recolhida como me sinto, perder o abraço quem já gosto pelas palavras, concordâncias e emoticons.

Nenhum retrato melhor

Se eu sobreviver, uma coisa da quarentena restará em minha memória: a faxina virou lembrança.

Uma tia-avó dedurava minha mãe dizendo que ela havia me achado muito feia ao nascer, ao contrário do que aconteceria depois com meus irmãos. Mamãe nunca negou o que disse. E nela eu acreditei.

Me achei desengonçada a vida inteira. Às vezes, feia de doer. Especialmente quando me sentia de mal comigo, algo tão frequente na adolescência, quando era muito alta pros meninos e por isso (ou por qualquer outra razão) não me tiravam pra dançar. E eram eles quem mandavam no baile, sabem, meninas?

Com o tempo entendi que eu não era mesmo essa coisa extraordinária e que precisaria me virar com o que tinha. Uma força lá dentro, um prazer em observar o mundo – isso me bastaria. Haveria vida, sim, fora da sala dos apartamentos onde uns sortudos dançavam colados.

Até hoje procuro me divertir com a vida. Que uso melhor fazer dela? Me acho muito engraçada nesta montagem que era serviço fotográfico consagrado durante minha infância.

Na maioria das vezes, felizmente, ainda sou a Rosane do meio. Mas as Rosanes pensativas, desconfiadas e/ou irônicas acima dela tomam bastante meus dias. Essa desconfiança e esse pensamento me deram as rugas de agora. Eis por que jamais vou me esforçar em tirar qualquer sulco nascido em torno destes olhinhos. Não existe melhor retrato de mim que eu possa inventar, exceto esse que eu mesma, por décadas partícipe da vida, construí.

Não me iludo e contudo

Todos esses raciocínios que vislumbram uma era mais humana pós-corona me levam a ter carinho por quem os faz, embora, na real, me pareçam iludidos, infundados.

Basta observar que no meio da pandemia, por exemplo, o que se vê é guerra internacional por máscaras e sequestro universal de respiradores por parte de quem detém o poder.

Por que tudo será tão melhor depois que a pandemia for embora, então?

Enfim, não custa crer que em nível global o sonolento desperte após um longo sofrimento.

O que eu sei é que nós, eu digo nós, os fudidos, sempre nos lembraremos das lições que tivemos. E, se sobrevivermos, vamos mandar batatas pra eles quando parecerem vencer.

Operacionalizar meu ovo

Não sei por que de repente a minha irritação.

Melhor dizendo, não sei por que ela está maior do que a branda, cotidiana e costumeira irritação destes dias.

Me sentia tão bem hoje, até dancei meu Prince na sala…

Penso, penso e acho que o que me tirou do sério foi tanto ler sobre essa história de “presidente operacional”. Me perdoem o Kotscho e o Nassif, mas isto me cheira a ideia plantada, a fake. Não há previsão para “estado operacional” dentro da constituição, não existe nada disso a ser conjecturado ou realizado. Estão nos enrolando de novo.

Desde quando, a partir do início do mandato de Bozó, ele mandou em alguma coisa, coordenou algum projeto, tranquilizou a nação? Desde quando administrou o Brasil?

Até parece que querem nos fazer crer em uma “operacionalidade” recente, com o general, o posto ypiranga, o conje e o Mandetta anti-SUS à frente, a nos conduzir por um caminho sensato em meio à tempestade.

São só golpistas dentro do golpe que eles mesmos deram. Neste ponto, nem mesmo Bozó está tão errado assim.

Quem governa são os governadores. E não acho a ideia má. Andávamos necessitados de ser uma federação, não uma centralização de poder em um Planalto ensandecido.

F-se os operacionais.

Precisamos da reforma política.