para ser livre

liberdade para todas as religiões.

mas igualmente liberdade para quem não acredite em religião nenhuma.

é o mais difícil de pedir a qualquer um, eu sei.

mas imagine, como imaginou John Lennon, um mundo sem religião.

ou pelo menos liberte quem imagina um mundo assim.

liberdade para quem veja no papa, nos padres, nas freiras e nos freis, em todos os líderes de todas as igrejas, apenas homens e mulheres, figuras políticas boas ou más, mal intencionadas ou do bem, comprometidas ou não com a vida na terra, que é a única até agora vivenciada por todos nós.

entendo que precisamos começar a nos acostumar com a liberdade, e a discuti-la, para o dia em que ela chegar.

ou pelo menos temos de nos acostumar à ideia de não desmerecer ninguém que possa lutar ao nosso lado por uma vida nova, ainda que utópica, vida esta que todos, até os sem religião, saberão pregar.

Race is for horses

Li algo interessante proferido por Daniel Filho. Mas, como se trata desse infame, não repercuti.

Preciso citá-lo agora, contudo. Porque ele disse acreditar que Regina Duarte, sua ex-mulher, está cega de paixão por Bolsonaro. E que faz qualquer coisa pra manter o fogo aceso.

Infelizmente, creio que ele está certo.

Assim foi Leni Riefenstahl, caída por Hitler, enquanto Goebbels, o rejeitado, esperou por uma lasca da cineasta até o fim da vida, sem conseguir.

Regina Duarte é a dama da arte pra quem Bolsonaro faz tudo. Até de Brasília ele a dispensou.

Daquela reunião ministerial, sinistral, ela nem precisou participar!

Porque aquilo…

Aquilo foi um duelo.

Ou um rodeio.

Corrida de cavalos.

Homens e uma mulher medindo membros diante de seu Führer.

Weintraub logo dizendo que tem o maior.

Guedes, exibicionista experimentado nas surubas das SSA de Chicago, espirrando terror.

Salles, um sedutor sem sorte, apelando pra tudo, pro infralegal, pro imoral debaixo da mesa…

E o desespero de Danares, sem porra nenhuma a declarar?

Salò Republic dos Puxa-Sacos, amici miei!

Só queria ter conhecido o texto convocatório para a “reunião”.

Ou para a disputa.

Pra suruba.

Ou pra quê, não sei.

Perto de mim

por mais que eu me esforce em afastá-los, ainda tenho muitos bolsominions entre os amigos das redes sociais.

não que eles se atrevam ao 17 com bandeira.

pegaria mal…

pelo contrário, são gente da paz, esperta, “neutra”.

mas depois de um tempo você começa a ver umas postagens estranhas.

“os brasileiros são tão fortes pra cocaína, pra sacarina, pra todas as ‘inas’, todos os vícios, mas tão medrosos para os efeitos colaterais da cloroquina, hahaha!”

me dá tristeza, mais do que raiva, ler coisas como essas.

raiva eu sinto ao ver, daqui do alto, o centro da cidade cheio de gente, sem máscara e sem noção do que já perdeu.

Vaso quebrado

O músico Guilherme Kafé aplicou sobre uma de minhas fotografias sua grande arte e com ela elaborou a capa de um novo single, “Vaso Quebrado”, gravado em parceria com Mauricio Tagliari, e que sai nas plataformas digitais dia 22.

Sinto-me honrada, feliz além da conta. Como se não estivesse só neste mundo, capaz de me comunicar com ele por meio de uma expressão fotográfica.

Obrigada, queridos. 💜

são faróis

deixe em paz meus olhos,
traga-os de volta a mim.
devolva-os agora que incendeiam
sob o amanhecer de maio,
longo mês das noites claras e dos sonhos frios.

traga-os calmos, pacientes, fundos, ainda que soçobrados em dor,
fera cotidiana.

eu estarei à espera do que eles dirão
à inocência deste coração
em brasas que é o meu,
e que palpita triste,
por nele caberem todos a quem os déspotas apontam, em riste,
negros fuzis de balas reluzentes.

estou só, sem os olhos que
arrancou de mim,
ocultos em nuvens vermelhas, despedaçados na bandeira
roubada de seus primeiros horizontes.
encontro-me sem sentido,
brasileira, longe de vislumbrar o caminho de retorno.

deixe em paz meus olhos roubados,
traga de volta a mim aqueles
cujo brilho o mês de maio verterá
em inverno, em ausência.

À sombra

fico cansada de me decepcionar com as pessoas.
mas não tenho este direito.
tudo isto é nada diante de viver na rua sozinha, em meio à pandemia, com o filho no colo entre os prédios de passado glorioso das grandes avenidas do centro.
e ter de gritar por ajuda pra alguém indefinido lá em cima, na madrugada, sem poder contar com quem desça pra enxugar o suor do seu rosto, a fuligem da pele.
eu tenho uma rede.
ouso me alimentar de sonho e poesia na manhã ensolarada.
esta é minha verdade.
ou minha solidão.

A secretária do Gado e a lição que eu tive

Vocês talvez não tenham idade pra saber que a secretária do Gado, outrora atriz, rejeitou no passado o título de Namoradinha do Brasil.

Rejeitou-o violentamente por uma única razão. Porque não pegava bem. Ela havia sido formada por Antunes Filho no teatro. E, nos anos 1970, o prestígio de todo ator era o palco.

Depois de namorada, embora bem-sucedida na doçura televisiva, ela foi encenar O Santo Inquérito e outras barras pesadas, com grande carga de sexualidade, em plena ditadura. Queria que a vissem como Mulher mesmo antes da Malu.

Eu achava muito bonito esse seu percurso. E me lembro do ato generoso dela ao oferecer seu Troféu Imprensa de melhor atriz a Eva Wilma, que naquela época, em Mulheres de Areia, havia atuado bem melhor.

Uma vez, quando eu já estava na universidade, andávamos à noite pelas imediações do TBC quando ela apareceu. Tínhamos um amigo maluco que trazia consigo uma câmera de tevê de papelão para entrevistar os passantes. Ele não teve dúvida: partiu pra cima da Regina.

– Pô, você deve ganhar um dinheirão na Globo, né?

E ela sorrindo, sempre sorrindo, despida de maquiagem, mal vestida e de óculos, respondeu com calma:

– Pior que não, pior que não.

Uma única vez nessa época me veio uma ponta de dúvida sobre essa sua personalidade, partida de Betty Faria. Acho que ela era a antiga mulher de Daniel Filho, que agora esposara Regina, então creditei sua fala a uma rivalidade específica.

Perguntaram a Betty como via a nova opção artística da colega e ela não teve dúvida:

– A Regina é a única atriz que eu conheço que lutou pra se tornar objeto sexual.

A gente deve aprender a ouvir direito as pessoas.

É a lição que eu tiro.