arde o coração ir até a rua.
máscaras abaixo do queixo.
crianças no chão com suas mães.
velhos na agência bancária procurando um dinheiro que não há mais.
pedintes na padaria cheios de argumentos.
na frente do supermercado, três amigos entorpecidos brigam pela bolacha recém-doada.
a jovem, muito puta porque não tenho mais dinheiro trocado pra lhe dar, quer os 50 reais que me restaram.
não consigo aceitar essa face do brasil.
tento esbofeteá-la.
mas, em lugar disso, vou ao banheiro lavar as feridas.
Onde ficou perdida minha face?

Este rapaz se aproximou de mim na avenida São João e pediu:
– Tira uma foto minha? Faz tempo que não me olho no espelho.
Fiz a foto, mostrei a ele, ficou feliz (e eu também, por proporcionar que se visse) e partiu antes que eu perguntasse seu nome.
Não deu três segundos, levei um baita susto com duas mulheres sem máscaras, gritando rente ao meu rosto:
– Esconde esse celular, vão roubar de você!
Agradeci (“Sim, senhora!”) e pensei. Não me assustei com o menino me pedindo para ser fotografado, fiquei, pelo contrário, lisonjeada. Sou muito mais incapaz de entender as mulheres sem máscaras. Deveria ter gritado pra elas: “Usem máscaras, negacionistas do inferno!”, mas não gritei.
Para que não se enganem sobre mim
Esclareço a vocês uma parte importante do que sou, para que não se iludam e decidam se querem ficar por aqui ou não, apesar de minhas posições.
Então:
Fui uma das pessoas em São Paulo que, para viabilizar a existência do Partido dos Trabalhadores, a ele se filiou.
Votei no PT na maioria das eleições e em Lula sempre, desde os tempos de deputado federal.
Da única vez que votei num conhecido, pai de amigo dos meus filhos, fora do espectro do PT-PSOL-PDT, me arrependi. E me arrependi votando no PT também ao escolher a Soninha.
Moro é um escroto e tem de pagar pelo que fez. Lula é inocente no processo que ele conduziu e a Lava Jato representou uma farsa desde seu inicial instante.
Sou pela ampliação do SUS e não por sua desintegração ou acomodação em parcerias com a iniciativa privada.
Quero que as fortunas sejam taxadas.
Defendo que o aborto seja uma decisão exclusiva da mulher, seu direito absoluto.
Sou santista no futebol. Fã de Marta quando vestiu a camisa do meu time, assisti-a vencer em campo maravilhosamente. E a amo ainda.
Fui fã de Robinho e Neymar. Hoje as duas pessoas se tornaram abjetas demais para que eu tome o impulso de vê-las jogar seu futebol tão bonito. Mas ainda acho seu futebol bonito.
As cotas nas universidades têm de se expandir, não se retrair.
Gosto de gente educada. Que responde aos meus posts com educação. Quando as pessoas não fazem isso, é muito fácil que eu simplesmente as retire da lista de amigos.
Gosto do facebook, apesar de saber o que representou neste processo de destruição da democracia. Entendo que ele possa ser usado como canal informativo. Aqui aprendi muito seguindo bons perfis, especialmente ligados à arte e à fotografia. Aqui tenho amigos, a maioria desconhecidos pra mim, que me apoiaram e consolaram e vibraram comigo nestes tempos difíceis. Não vejo dilema na rede neste sentido.
Não tenho preconceito contra o uso do gerúndio e dos adjetivos. Tento usá-los bem.
Não acho essencial o lide, uma invenção dos Estados Unidos na época da Guerra Civil. (Se o telex quebrasse, o essencial do texto estaria garantido logo). Não precisamos mais de telex, mas ainda precisamos de textos bons.
Não acredito na expressão “jornalismo literário”. Todo jornalismo deveria ser literatura.
Sou da poesia, da novela e do conto, mais até que do romance.
Acho a birra que fizeram entre apreciar Cortázar e Borges um mal estúpido. Os dois não foram rivais em vida e não há um melhor que o outro. O mesmo vale para Graciliano e Rosa. Competição é pra cavalos de corrida.
Gosto de selfies e autorretratos pela história, desde a pintura.
Gosto do cinema que se movimenta. Das boas escolhas de câmera. Não suporto o campo versus contracampo das novelas de tevê, que reduz a história à lida com personagens intensos e tensos, fotografados fixos da cabeça ao peito, mas falantes em demasia. Detesto como a computação gráfica vem sendo usada e abusada. O cinema também é o que não diz.
Conforme me lembre de mais divisórias, coloco aqui pra vocês, se acaso se interessarem.
Beijos meus.
Fake fashion, a onda
Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?
Para mim, o choque é quase zero.
Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.
E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?
Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.
Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.
Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.
Sete de Abril, um orgulho

A rua Sete de Abril, antiga rua da Palha, nasceu no século 18 e no seguinte abrigou célebres bordeis.
No 20, viu ser fundado o Museu de Arte de São Paulo em suas bases.
A história, pelo que sei, jamais lhe escapa.
Mas não gosto dela só por isso.
Gosto das linhas.
Da promessa de luz que ela enseja à distância, em seu início e no final, numa praça e em um antigo largo.
Um lugar aonde, criança, eu festejava ter de ir para tirar sangue, porque assim ganhava o direito de comer um pão de queijo de verdade, como não vejo mais, num bar ao lado do laboratório.
Um lugar onde hoje converso com minha costureira linda, onde compro vinho e livros novos mais baratos.
A Sete de Abril é oito, é nove, é dez, centenas de vezes eu mesma.
Me dá um orgulho demasiado ser sua vizinha.
Polícia é justiçamento na ordem pública

Esta é a calçada de um dos restaurantes que a Polícia Militar, sim, a Militar, mandou fechar em dezembro no meu bairro, diante de meu prédio.
A porta é do bar vizinho ao restaurante que nos enlouquecia com samba bom mas aglomeração todo santo dia desde o início da pandemia.
Numa noite de dezembro lucrativo os donos do restaurante musical romperam o acordo de concluir as atividades às 22h, varando pela meia-noite, e provocaram reação dos moradores.
Após a chegada da guarda metropolitana, os donos do bar insistiram em permanecer abertos. Guardas civis podem pouco e, irritados, chamaram os amigos PMs, que vieram em 20 viaturas, bateram em quem conseguiram e prenderam 12.
Esta é a justiça justiceira que nosso povo obliterado ama e para o qual se ajoelha. No caso específico, a regional da Sé poderia ter feito algo sobre esse absurdo de aglomeração há muito tempo, mas não fez. Então à truculência seguiu-se o bem-estar dos moradores.
Estamos em fevereiro e as colunas de cimento de contenção continuam aí, até que o jorro da proprina mude o quadro justiceiro. Por enquanto, as colunas têm servido para o amor furtivo, como a gente gosta de ver.
Me too
Os algoritmos leem meus pensamentos.
Mas que novidade há nisso?
Cerca de um mês atrás publiquei ligeiramente aqui a informação sobre o assédio sofrido na faculdade que quase me impediu de tirar o diploma de jornalismo.
E desde então começo a receber muitas postagens no facebook em torno do Drummond.
Meu poeta preferido da juventude!
E desde então, desde esse tempo longínquo, acresci a minha lista infinita Cecília Meireles, Conceição Evaristo, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Ribeiro Couto, Roberto Piva e sei lá quantos; deus do céu, uma galáxia inteira.
Então, voltando ao que não deveria ter regresso, esse assediador começou sua luta comigo quando mostrei meu projeto de conclusão de curso, um texto em torno de Drummond, de quem ele, o “professor”, se gabava pessoalmente pela alegada amizade (sendo que Drummond era gentil com quem o procurasse), e de quem o acadêmico ridiculamente mostrava a dedicatória num livro sobre um suporte de mesa na sala onde recebia os alunos.
Eu queria investigar um conceito presente na poesia de Drummond que José Guilherme Merquior – sim, o scholar de direita desafeto de Marilena Chauí – intitulava “humour”.
Achava tão importante a distinção entre humor e humour então!
E até outro dia não havia me dado conta de que voltaria ao tema no meu mestrado e no doutorado…
Mas o fato é que o professor achou o texto bom demais para alguém em seus 18 anos e declarou:
“Você escreve bem demais.”
Talvez tenha desconfiado de mim. Talvez simplesmente fosse um macho de seu tempo, incrédulo de que uma mulher soubesse escrever.
Talvez um louco narcisista.
Na terceira reunião que éramos obrigados a ter com ele, reclamou que eu fizesse o gesto rotineiro de levantar a alça do sutiã por cima da camisa.
“Não precisa disso pra passar comigo.”
Simplesmente saí da sala.
E foram mais três anos fugindo desse obcecado para que me liberasse.
Sabem o que é não ter direito à fala nesse mundo, meninas?
Sabem.
Tanto sabem que mudaram tudo!
Obrigadas infinitos.
(E pare de me lembrar disso a cada segundo, facebook).
Conká quer conkatená

sei lá quem é karol conká.
sei lá o que é o bbb.
só sei que o brasil se resume a essa bundagem.
tanto à direita, por motivos óbvios, quanto principalmente à esquerda, o povo rebola a bola torta faz 20 anos só pra bater boca no twitter.
pois bem.
não entendo nada.
mas daí karol conká aparece nos meus stories
para conkatená assim:
“não vou mais brincá
com quem não tem maturidade.
com você não brinco mais
porque tem oscilação de sanidade”.
é rap?!?
a mulher tem a kara do país e o povo reclama disso?
oscilação de sanidade é brasil!
que momento medusa, hahaha.
Autoempreendedora das dores
Preciso de muitas saídas para minha agitação interna constante.
Afora ser quem sou, essa mulher de muitas especulações e triangulações pela história e pelo tempo, passo horas preocupada com problemas objetivos, cujas soluções tanto custam a mim e a minha digestão. Um deles é como resolver meus frilas, já que sou precária como trabalhadora, autoempreendedora de dores, e as frustrações se acumulam conforme os valores baixos que recebo vão chegando.
Meditação seria a primeira coisa a fazer, mas tenho lá meus problemas pra conseguir tocar isso adiante sozinha. E a pandemia meio que me paralisou. Como vetei academia, não vou malhar, razão pela qual engordei demais.
Agora tento andar um pouco, embora o sol esteja excessivo nestes dias e eu evite a noite, período em que por aqui proliferam suicidas angelicais embriagados nos bares.
Então fico assim olhando a janela.
Vou pra rede balançar.
Música toca sempre por aqui.
E faço uma bobagem surpreendente. Pego esses links de museus e vou baixando imagens e livros no meu drive.
Me dá uma alegria de viver que nem te conto.
E calma.
Muita calma.
A mente brilhante e o sonho desfeito

Todas as manhãs, ao acordar, nos primeiros segundos em que os olhos ainda fecham a tela para o espetáculo do mundo, mas a mente cintila e comove, é extraordinário que eu saiba o que desejo e, entre tantas as coisas insinuadas, quem sou e a que vim.
Imersa na neblina do sonho recente que aos poucos se desfaz, como o corpo tragado na areia movediça dos filmes B, procuro sua mão ao meu lado. Ela está lá e eu a aperto com força. Ele também. Ele é a única realidade.
E então tudo o que raciocinei naquela nebulosa sucessão de imagens do passado vai ficando pra trás, com a lembrança apenas de alguns trechos, um tobogã, um amante de juventude, como ele emagreceu, como permanece insensível a mim!