Minha Marta, minha Marley

Sou santista e me lembro com alegria de ter visto a Marta jogar pelo meu time em 2009, no Pacaembu, a ingressos gratuitos. Ela trouxe a Libertadores da América pra gente na maior classe, em jogos às vezes com a diferença de nove gols. A festa final emocionou toda a minha família, meus filhos meninos, pra quem aquele futebol era magicamente natural. A gente queria vê-las carregar a taça, gritava por elas, o estádio fazia sentido como o templo que o originou.

O futebol feminino vem carregado da garra impossível, da vontade das jogadoras, uma a uma, de ultrapassar uma condição ruim. É o futebol como ele deve ter sido naquele início brasileiro, quando os jogadores entravam campo antes do trabalho ou depois de comer pão na chapa com café, que constituía seu salário. A era do ouro, da graça e do suor.

Marta, minha querida, minha Marley, eu tenho sido bem triste com o futebol. Já amei todos eles e agora não posso mais.

Mal sei como anda meu Pacaembu, ou minha Vila, depois de uma década…

Mas entendo o que você disse hoje e sigo na cabeça e na emoção por onde você for. No que depender de mim, choro agora pra sorrir depois com suas meninas, essas que, bem sei, um dia você irá conduzir.

Um passado e um presente só de glórias! Você vive no meu coração.

Oh Shelley

Adoro Shelley Winters, amo Marilyn Monroe. Tão brilhantes, sábias atrizes.

Shelley conta nesta edição (https://youtu.be/cRvwjm3eq3g) que morou por um ano com Marilyn, aos 18, quando a diva ainda era Norma Jean. Uma jovem extremamente inteligente, ela conta, que não se sentia atraída por homens com menos de 50 anos, suas figuras paternas que substituíam a do pai.

Seu role model, por assim, tornou-se Shelley… E esta se culpa por não ter estado perto de Marilyn quando ela morreu (a atriz já havia tentado suicídio duas vezes; não tinha família; rompera com arthur miller; tinha 36 anos, mas os produtores queriam que ela tivesse para sempre 25.)

Shelley, que também foi bombshell, conta ter aceitado um conselho que salvou sua vida e sua carreira: aos 33, aceitou interpretar alguém 20 anos mais velha. E daí por diante teve trabalho sempre. Mas ninguém fez por Marilyn o que fizeram por ela. Sendo Marilyn uma intelectual, praticamente…

Shelley, que, ao contrário de Marilyn, adorava homens bonitos, casou-se com Vittorio Gassman. E trabalhou num filme importantíssimo de Monicelli, “Um burguês muito pequeno”, no qual interpretou a mulher de Alberto Sordi, afásica após a morte do filho e a crescente insanidade do marido… Claro, entre muitos outros personagens que interpretou.

Shelley é dez. Como não amar essa vida? E ela fala ofegante, como se tivesse muito a expor e expressar… E eu entendo esta parte…

silêncio nesse imenso salão!

já se apressam em reabilitar o strume, sim!

links e materinhas simpáticas e higiênicas, com aspas e tudo, avaliando a experiência governamental do jestor kultural do município…

e agora ele vai jogar tênis porque ninguém é de ferro, né?

pobre moço!

reabilitar é a palavra!

aquela mesma usada para fazer retornar a credibilidade (como se tivesse existido) do professor de literatura de uma universidade americana de quintal, representante da “esquerda esperta contra o pt”, que mandava o dick pras alunas…

ou para restituir o “pensamento” daquele destruidor de festivais de música que não lavava a própria louça, arrancava o pedreiro dos artistas e roubava o cartão de crédito das moças vestidas pra cooptar!

grandes pensadores!

é claro que strume vai virar gênio outra vez!

mas, rosane, como vc sabe disso?

pô, quanto azedume!

pessimismo!

torcida contra!

sim, mas olha, sem me gabar…

eu sei mesmo tudo!

eu sou mulher!

e qualquer denúncia contra homens truculentos e machistas, ou que pratiquem o silenciamento alheio, neste mundo liberalzão em que vivo, vira simplesmente um “não vi nada demais no que ele fez”…

SHHHHHH!

Silêncio nesse imenso salão!

nem preciso torcer!

(e tchau, pq tudo o que a vida me pede é a coragem marie kondo para arrumar as estantes, estas que ela nem precisa arrumar, porque tem só 30 livros e tá é bom!)

A visita da velha senhora

Nos anos 1980, apenas para visitar apartamentos em São Paulo com o objetivo de escolher qual deles alugaria, tive de mentir aos porteiros dizendo que era uma noiva prestes a casar, além de levar meu “noivo” às visitas.

Ninguém alugava apê decente para as solteiras.

Nas redações, por essa época, era quase certo que quem lhe desse carona de noite, após o trabalho, tivesse intenções adormecidas.

A gente não podia fazer muito a respeito então, exceto driblar os zagueiros, como uma Sofia Loren nas comédias. Ou procurar a justiça masculina, sem chance de gritar “me too”.

O mundo andou, mas o preconceito ainda constitui uma praga, amizades. Se você é jovem, como a Manuela D’Ávila, querem lhe calar, porque não deve saber mesmo o que diz… E se você não é jovem, como eu, nem conservadora politicamente, como seria de esperar, acham que você não entende do que fala, porque envelheceu.

Vocês não imaginam o machismo que sofri para editar cultura em nosso jornalismo, sempre caçada por meninos famintos, conservadores ou não. E o “ageísmo” é mesmo aquele de que falou Madonna num discurso. As mulheres frequentemente o praticam contra mulheres. Passe dos cinquenta anos pra ver.

Li que 104 países ainda proíbem por lei a mulher de realizar certas atividades (como levantar mais de 20 quilos, no Brasil) e achei bem normal, pra ser sincera.

Queria era ler uma pesquisa como essa em torno de mulheres com a coragem de envelhecer publicamente enquanto lutam no mercado de trabalho. Mas pelo jeito ninguém ainda se ligou de que esse é um assunto a considerar.

A praça dos enforcados

Vi pouco o Roda Viva com a Manuela D’Ávila. Não sei dizer se foi mal ou bem. Pelo que entendi, ela fez o que pôde. Foi irônica e sorridente contra a cavalaria.

Acho que não é possível sair bem daquele círculo, especialmente se o entrevistado for ponderado e tiver firmeza em suas boas convicções, como parece ser o caso da candidata.

Não gosto do programa, construído como armadilha: o entrevistado deve falar rápido, é constantemente interrompido e não dispõe de tempo para responder a contento as perguntas pré-formuladas de jornalistas e “filósofos” (quem é o barbudo, gente? um novo mbl?). Tudo fica dito pela metade.

Eu vejo constrangimento nos jornalistas dos veículos de direita que fazem suas perguntas não ao candidato, mas de modo a assegurar os próprios empregos, reprodutores que são do pensamento patronal. Vejo que suas perguntas, que têm a intenção de desestabilizar a solidez do entrevistado, usualmente não dispõem de armas limpas (informação) para proceder a esse desmonte. São perguntas que seu chefe, ou patrão, espera que façam. Eles precisam formulá-las, nem que seja por graça. São pagos para tal.

Vejo o Otavinho plantado na cabeça daquela jornalista da Folha. Vejo um mediador sempre sorridente, temeroso e com a corda no pescoço, a cuidar da própria retaguarda, porque responderá certamente ao tucanato depois do jogo e se sair da linha terá o cargo ameaçado.

(Uma vez o secretário de cultura João Sayad me contou que José Serra, então governador, pegara no seu pé por conta de uma pergunta feita inadvertidamente por Eliane Catanhêde ao Gilmar Mendes, a única a deixá-lo desconfortável naquele Roda Viva; podem acreditar, a Catanhêde presenteou o povo cheiroso com uma ínfima liberdade de pensar, e nunca mais, como sabemos, repetiu a ousadia).

Como a Manuela iria conseguir falar alguma coisa que prestasse numa situação assim? Ela sabe debater, mas ninguém ali espera por um debate. É um jogo de aparências. No Roda Viva, só funciona quem quebra as paredes, não faz o prometido, desrespeita o tempo de resposta, dá trabalho ao mediador. Manuela me parece cheia de vivacidade, mas muito educada para o rito.

E falo do que sei: já estive entrevistando no Roda Viva de 25 anos atrás. Escrevi as perguntas em um pedaço de papel e os dois entrevistadores ao meu lado, à esquerda e à direita, ROUBARAM minhas questões, precipitando-se diante da câmera antes que eu educadamente tivesse permissão de falar, dada pelo mediador Jorge Escosteguy. E no final os graúdos embusteiros ainda se explicaram a mim, na saída do estúdio: “Acontece assim mesmo, não tivemos tempo pra preparar perguntas e isto aqui é tevê.”

Não vou dizer quem são os tipos, mas provavelmente alguns de vocês os considerem críticos de valor, jornalistas sérios ou até pensadores. O que penso de jornalistas que roubam minhas ideias é… deixa pra lá.

Sugiro que mudem o nome do programa para pelourinho, corda no pescoço, praça dos enforcados. Tais expressões fazem mais jus simbólico ao que o Roda Viva realmente é.