Como eu vi Maureen

Minha reportagem de 2010 com a fotógrafa Maureen Bisilliat, que reproduzo a seguir

Maureen Bisilliat em foto feita
por Olga Vlahou em 2010

Em abril de 2010, Maureen Bisilliat foi tema de uma grande retrospectiva na então galeria do Sesi, em São Paulo. Na ocasião eu a entrevistei para uma reportagem de revista que reproduzo a seguir. A genial foto de Maureen na reportagem foi feita por uma das maiores retratistas brasileiras, minha amiga Olga Vlahou. Maureen faz 90 anos no dia 16 de fevereiro de 2021 e este texto é minha homenagem a ela.

A primeira foto de Maureen,
nos anos 1950

A MÃE DA INVENÇÃO

Exposição na Galeria do Sesi refaz a trajetória da artista Maureen Bisilliat, que agora usa o vídeo para captar o instante

POR ROSANE PAVAM

A primeira de suas fotos ainda é a mais importante. Com ela, Maureen Bisilliat diz ter compreendido o ato de fotografar. A imagem foi feita em preto e branco nos anos 50, entre nisseis plantadores de algodão no interior paulista. Na humilde cozinha campesina, a mãe usa a faca diante da janela aberta à luz. Um menino cujo rosto não vemos deita parcialmente o corpo sobre a bancada em direção à mulher com a faca, como se a ela se entregasse, em sacrifício. No primeiro plano da fotografia, à esquerda, uma menina à sombra olha para Maureen.

“Depois desta, fiz sempre a mesma foto, não é?”, observa rapidamente a artista de 79 anos nascida em Surrey, Inglaterra, filha da pintora Sheila Brannigan. Maureen, que me recebe na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo, onde até o dia 2 de julho de 2010 ocorre a monumental retrospectiva de seu trabalho visual, tornou-se uma das mais importantes intérpretes fotográficas do Brasil, à moda de um Pierre Verger ou de um Marcel Gautherot, não, obviamente, sem dificuldade ou dor.

Uma dessas dores talvez tenha nascido daquilo que ela intitula “inconsciência”, mas que, pelo contrário, pode indicar o ato deliberado de quem se sacrifica por seu destino artístico. Na década em que registrara a família de lavradores, Maureen deixara a filha Kyra, de dois anos, aos cuidados dos avós na Espanha. Sem a menina e na companhia da amiga Ann Bagley, fora estudar no ateliê parisiense do cubista André Lhote (1885-1962), o professor de pintura do fotógrafo Henri-Cartier Bresson.

Aquele momento de distância familiar foi crucial, no entanto, para que ela pudesse ter aprendido composição e cor. “Sendo mais consciente, talvez não tivesse me afastado tanto de minha filha. No frigir dos ovos, não sei se isto foi necessário, mas assim foi”, ela diz, com seu português de quase seis décadas, acrescido de todas as contribuições européias. Lhote gostava de Maureen e de Ann porque elas chegavam até ele sem qualquer influência. “O que a gente produzia era primário, mas não envenenado.”

Aquela primeira foto nasceu de seu talento, mas também de seu conhecimento da arte. “A falta de técnica era compensada por uma consciência da luz e da composição, o que naturalmente vinha do meu passado na pintura”, ela explica. A artista não se descobriu com Lhote, embora ele a tenha introduzido à formalidade, embutida no ato de pintar e expressa nos esboços barrocos da artista, presentes na exposição. A descoberta da liberdade artística, ela atribui a Morris Kantor (1896-1974), russo ligado ao expressionismo abstrato que lhe deu aulas nos Estados Unidos em1957.

“Foi uma invertida total”, conta Maureen sobre seu aprendizado com Kantor. “Ele era o oposto do Lhote. Dizia que os erros eram tão interessantes!” Naquela Nova York, os artistas não viviam sob o jugo de produtores e agentes. Eram sobretudo simples. Depois dessa experiência, Maureen jamais deixaria de buscar tal qualidade em todos os artistas. Ela a viu no escritor Guimarães Rosa tanto quanto no sertanista Orlando Villas-Boas. Os dois a prepararam respectivamente para Minas Gerais e para o Xingu. Guimarães Rosa, por exemplo, disse-lhe que a fotógrafa não teria dificuldade em Cordisburgo porque, descendente de irlandeses, ela também cantava ao falar.

Os trabalhos a partir das indicações literárias de Rosa e de outros escritores, como Jorge Amado, Euclides da Cunha e João Cabral de Melo Neto, estão expostos no Sesi tanto quanto no livro Fotografias, editado pelo Instituto Moreira Salles. O extenso volume representou a “argamassa”, como ela diz, para esta exposição que também traz a passagem da artista pelo mangue e por Japão, África ou China. Desde 2003, porque faria o livro, Maureen promoveu “uma volta no tempo com tempo”, selecionando duas centenas entre 16 mil de suas imagens referentes ao passado. “Eu pareço toda artista, mas tenho muito de prática”, ela diz, sempre grata à grande equipe que a auxiliou a expor. “Sou organizada desorganizadamente.” 

Esta pensadora se realiza com a escrita, para a qual se diz meticulosa, enquanto, ao falar, lamente se soltar demais. Em muitos momentos, Maureen parece ansiar o rigor pregado por Lhote. E por que, sendo tão precisa nas composições, declinou ela própria da pintura? “Pensei essa coisa engraçada agora. Eu me sinto perdida diante do branco. Eu não sei inventar.”

Maureen Bisilliat habituou-se, então, a tirar da realidade seus temas. Mas não clica seriamente há trinta anos. “Sempre achei que perdi mais do que ganhei na fotografia”, ela considera. “Estou falando de captação. O que eu via era mais do que eu captava.” Conhecida por seu trabalho no Xingu, por exemplo, ela não retratou os índios como gostaria. Maureen só viveu intensamente aquele mundo ao mostrá-los durante seu processo de trabalho em Xingu/Terra, documentário em parceria com Lúcio Kodato, de 1979. 

A artista diz trabalhar melhor com a fotografia quando o personagem posa para ela, em cumplicidade. Raros são os momentos gestuais espontâneos como aquele em que, numa foto, seu pescador baiano segura a presa em movimento. “E observe como o rabo do peixe é importante para determinar a foto. Basta cobri-lo com a mão.” Quando usa o preto e branco, Maureen é aguda e suas fotos transmitem grande emoção e sensualidade. Em cores, seus registros fotográficos expressam uma beleza fria.

Representar o gestual e a voz das pessoas, contudo, é tudo o que encanta esta artista. Por exemplo, ela esteve com as caranguejeiras na década de 60 para uma reportagem sobre o mangue destinada à revista Realidade, da editora Abril, empresa para a qual trabalhou prazerosamente por sete anos. Sua trabalhadora é alegre e orgulhosa, “como uma bailarina de Degas”. E captar isto não seria dizer ao observador uma parte importante e esquecida da verdade?

Ela considera, contudo, raros e breves os momentos fotográficos em que não só as mulheres do mangue, mas vaqueiros do sertão ou pescadores, surgiram-lhe inteiramente. Por isto, ao registrar a vida em processo, o vídeo pede sua presença mais e mais. Com ele, finalmente, esta artista se sente preparada para o instante. Agora, por exemplo, decidiu correr atrás dos habitantes da Sé paulistana. No projeto que pensa intitular Fracos, Fortes e Fodidos da Praça da Sé, ela quer descrever de onde vêm e para onde vão as pessoas que por lá circulam. A São Paulo desvalida talvez precise, mais do que imagine, deste novo instante de Maureen.

Me too

Os algoritmos leem meus pensamentos.
Mas que novidade há nisso?
Cerca de um mês atrás publiquei ligeiramente aqui a informação sobre o assédio sofrido na faculdade que quase me impediu de tirar o diploma de jornalismo.
E desde então começo a receber muitas postagens no facebook em torno do Drummond.
Meu poeta preferido da juventude!
E desde então, desde esse tempo longínquo, acresci a minha lista infinita Cecília Meireles, Conceição Evaristo, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Ribeiro Couto, Roberto Piva e sei lá quantos; deus do céu, uma galáxia inteira.
Então, voltando ao que não deveria ter regresso, esse assediador começou sua luta comigo quando mostrei meu projeto de conclusão de curso, um texto em torno de Drummond, de quem ele, o “professor”, se gabava pessoalmente pela alegada amizade (sendo que Drummond era gentil com quem o procurasse), e de quem o acadêmico ridiculamente mostrava a dedicatória num livro sobre um suporte de mesa na sala onde recebia os alunos.
Eu queria investigar um conceito presente na poesia de Drummond que José Guilherme Merquior – sim, o scholar de direita desafeto de Marilena Chauí – intitulava “humour”.
Achava tão importante a distinção entre humor e humour então!
E até outro dia não havia me dado conta de que voltaria ao tema no meu mestrado e no doutorado…
Mas o fato é que o professor achou o texto bom demais para alguém em seus 18 anos e declarou:
“Você escreve bem demais.”
Talvez tenha desconfiado de mim. Talvez simplesmente fosse um macho de seu tempo, incrédulo de que uma mulher soubesse escrever.
Talvez um louco narcisista.
Na terceira reunião que éramos obrigados a ter com ele, reclamou que eu fizesse o gesto rotineiro de levantar a alça do sutiã por cima da camisa.
“Não precisa disso pra passar comigo.”
Simplesmente saí da sala.
E foram mais três anos fugindo desse obcecado para que me liberasse.
Sabem o que é não ter direito à fala nesse mundo, meninas?
Sabem.
Tanto sabem que mudaram tudo!
Obrigadas infinitos.

(E pare de me lembrar disso a cada segundo, facebook).

Meu encontro com Paz Errázuriz

Queridos, aqui vão depoimentos gravados meus sobre o encontro que tive com a grande fotógrafa chilena Paz Errázuriz, cujo trabalho permanece em exposição no IMS até 3 de janeiro.

Paz Errázuriz como eu a captei timidamente em Santos, outubro de 2016: fotógrafa doce, elegante, cúmplice

De berço

Em um congresso de farmacêuticos nos anos 1950

Esta é minha mãe num congresso de farmacêuticos nos anos 1950. Por muito tempo ela foi mulher quase solitária a praticar seu saber. Gostava muito de trabalhar dentro de seu ofício, mas a demitiram grávida de mim, sem qualquer pudor ou lei para protegê-la, logo na década seguinte. (Também quase nasci em pleno voo, mas depois conto isso melhor pra quem se interessar).

Minha mãe era do tipo que não me queria envolvida em namoro, que jamais me preparou um enxoval. “Não pense em casamento. O estudo é a única coisa que importa”, me disse, na contramão do que as outras mães faziam naquela época. E eu entendia seu porquê na prática. Sem trabalho, ela, a única entre as irmãs a se formar na faculdade, era triste – e nós, muito pobres.

Não sei se em razão do que ela sempre me aconselhava, mas jamais na infância me visualizei vestida de noiva, casada ou com filhos. Vai ver que por isso mesmo casei (me juntei) e tive filhos… Foi o natural, o não-iludido, a incrível surpresa em minha vida.

Mas eis o que considero importante em minha mãe, cuja relação comigo sempre sofreu alguma espécie de tensão, mas por outros motivos. Tenho razão para admirá-la. Ela me deu sem saber a primeira grande aula de feminismo da vida. E hoje, porque essa mulher andava a seu modo na contramão, sou feminista com um orgulho que só.

I love Lily

Não sei o que me faz amar Lily Tomlin tanto assim.
Desde Nashville, de Nine to Five a All of Me…
Que estrela!
Mal chega uma temporada de “Grace and Frankie” e eu a devoro inteira por causa dela…
Em primeiro lugar, uma comediante que sorri!
E que parece feliz.
Que sabe o seu lugar.
E que jamais desistiu de lutar com elegância por ele.
Que se recusou a sair do armário numa capa pra Time.
E que acabou capa da Time do mesmo jeito anos depois, em 1977, celebrada como “Rainha da Comédia”.
Uma comediante, mulher comediante, é sempre uma heroína.
Vocês sabem que Lily é o nome da mãe dela?
Que seu verdadeiro nome é Mary Jean, quase uma Norma Jean?
Que ela estudou medicina, como Graham Chapman, o Brian de Monty Python?
Que sua esposa se chama Jane? Que são uma dupla de trabalho também? Que ela cria e escreve papeis pra Lily?
E que sua preferência como atriz é atuar diante da plateia, improvisando e trocando energias com ela?
Pois então.
Sinto falta de chamar os amigos pra falar sobre Lily Tomlin.
Não que eu tenha muitos, mas…
Pelo menos tentaria reuni-los, não fosse a tristeza atual.
Mas Lily não é triste.
Não vou ser.
💜

Minha Marta, minha Marley

Sou santista e me lembro com alegria de ter visto a Marta jogar pelo meu time em 2009, no Pacaembu, a ingressos gratuitos. Ela trouxe a Libertadores da América pra gente na maior classe, em jogos às vezes com a diferença de nove gols. A festa final emocionou toda a minha família, meus filhos meninos, pra quem aquele futebol era magicamente natural. A gente queria vê-las carregar a taça, gritava por elas, o estádio fazia sentido como o templo que o originou.

O futebol feminino vem carregado da garra impossível, da vontade das jogadoras, uma a uma, de ultrapassar uma condição ruim. É o futebol como ele deve ter sido naquele início brasileiro, quando os jogadores entravam campo antes do trabalho ou depois de comer pão na chapa com café, que constituía seu salário. A era do ouro, da graça e do suor.

Marta, minha querida, minha Marley, eu tenho sido bem triste com o futebol. Já amei todos eles e agora não posso mais.

Mal sei como anda meu Pacaembu, ou minha Vila, depois de uma década…

Mas entendo o que você disse hoje e sigo na cabeça e na emoção por onde você for. No que depender de mim, choro agora pra sorrir depois com suas meninas, essas que, bem sei, um dia você irá conduzir.

Um passado e um presente só de glórias! Você vive no meu coração.

Oh Shelley

Adoro Shelley Winters, amo Marilyn Monroe. Tão brilhantes, sábias atrizes.

Shelley conta nesta edição (https://youtu.be/cRvwjm3eq3g) que morou por um ano com Marilyn, aos 18, quando a diva ainda era Norma Jean. Uma jovem extremamente inteligente, ela conta, que não se sentia atraída por homens com menos de 50 anos, suas figuras paternas que substituíam a do pai.

Seu role model, por assim, tornou-se Shelley… E esta se culpa por não ter estado perto de Marilyn quando ela morreu (a atriz já havia tentado suicídio duas vezes; não tinha família; rompera com arthur miller; tinha 36 anos, mas os produtores queriam que ela tivesse para sempre 25.)

Shelley, que também foi bombshell, conta ter aceitado um conselho que salvou sua vida e sua carreira: aos 33, aceitou interpretar alguém 20 anos mais velha. E daí por diante teve trabalho sempre. Mas ninguém fez por Marilyn o que fizeram por ela. Sendo Marilyn uma intelectual, praticamente…

Shelley, que, ao contrário de Marilyn, adorava homens bonitos, casou-se com Vittorio Gassman. E trabalhou num filme importantíssimo de Monicelli, “Um burguês muito pequeno”, no qual interpretou a mulher de Alberto Sordi, afásica após a morte do filho e a crescente insanidade do marido… Claro, entre muitos outros personagens que interpretou.

Shelley é dez. Como não amar essa vida? E ela fala ofegante, como se tivesse muito a expor e expressar… E eu entendo esta parte…

silêncio nesse imenso salão!

já se apressam em reabilitar o strume, sim!

links e materinhas simpáticas e higiênicas, com aspas e tudo, avaliando a experiência governamental do jestor kultural do município…

e agora ele vai jogar tênis porque ninguém é de ferro, né?

pobre moço!

reabilitar é a palavra!

aquela mesma usada para fazer retornar a credibilidade (como se tivesse existido) do professor de literatura de uma universidade americana de quintal, representante da “esquerda esperta contra o pt”, que mandava o dick pras alunas…

ou para restituir o “pensamento” daquele destruidor de festivais de música que não lavava a própria louça, arrancava o pedreiro dos artistas e roubava o cartão de crédito das moças vestidas pra cooptar!

grandes pensadores!

é claro que strume vai virar gênio outra vez!

mas, rosane, como vc sabe disso?

pô, quanto azedume!

pessimismo!

torcida contra!

sim, mas olha, sem me gabar…

eu sei mesmo tudo!

eu sou mulher!

e qualquer denúncia contra homens truculentos e machistas, ou que pratiquem o silenciamento alheio, neste mundo liberalzão em que vivo, vira simplesmente um “não vi nada demais no que ele fez”…

SHHHHHH!

Silêncio nesse imenso salão!

nem preciso torcer!

(e tchau, pq tudo o que a vida me pede é a coragem marie kondo para arrumar as estantes, estas que ela nem precisa arrumar, porque tem só 30 livros e tá é bom!)

A visita da velha senhora

Nos anos 1980, apenas para visitar apartamentos em São Paulo com o objetivo de escolher qual deles alugaria, tive de mentir aos porteiros dizendo que era uma noiva prestes a casar, além de levar meu “noivo” às visitas.

Ninguém alugava apê decente para as solteiras.

Nas redações, por essa época, era quase certo que quem lhe desse carona de noite, após o trabalho, tivesse intenções adormecidas.

A gente não podia fazer muito a respeito então, exceto driblar os zagueiros, como uma Sofia Loren nas comédias. Ou procurar a justiça masculina, sem chance de gritar “me too”.

O mundo andou, mas o preconceito ainda constitui uma praga, amizades. Se você é jovem, como a Manuela D’Ávila, querem lhe calar, porque não deve saber mesmo o que diz… E se você não é jovem, como eu, nem conservadora politicamente, como seria de esperar, acham que você não entende do que fala, porque envelheceu.

Vocês não imaginam o machismo que sofri para editar cultura em nosso jornalismo, sempre caçada por meninos famintos, conservadores ou não. E o “ageísmo” é mesmo aquele de que falou Madonna num discurso. As mulheres frequentemente o praticam contra mulheres. Passe dos cinquenta anos pra ver.

Li que 104 países ainda proíbem por lei a mulher de realizar certas atividades (como levantar mais de 20 quilos, no Brasil) e achei bem normal, pra ser sincera.

Queria era ler uma pesquisa como essa em torno de mulheres com a coragem de envelhecer publicamente enquanto lutam no mercado de trabalho. Mas pelo jeito ninguém ainda se ligou de que esse é um assunto a considerar.

A praça dos enforcados

Vi pouco o Roda Viva com a Manuela D’Ávila. Não sei dizer se foi mal ou bem. Pelo que entendi, ela fez o que pôde. Foi irônica e sorridente contra a cavalaria.

Acho que não é possível sair bem daquele círculo, especialmente se o entrevistado for ponderado e tiver firmeza em suas boas convicções, como parece ser o caso da candidata.

Não gosto do programa, construído como armadilha: o entrevistado deve falar rápido, é constantemente interrompido e não dispõe de tempo para responder a contento as perguntas pré-formuladas de jornalistas e “filósofos” (quem é o barbudo, gente? um novo mbl?). Tudo fica dito pela metade.

Eu vejo constrangimento nos jornalistas dos veículos de direita que fazem suas perguntas não ao candidato, mas de modo a assegurar os próprios empregos, reprodutores que são do pensamento patronal. Vejo que suas perguntas, que têm a intenção de desestabilizar a solidez do entrevistado, usualmente não dispõem de armas limpas (informação) para proceder a esse desmonte. São perguntas que seu chefe, ou patrão, espera que façam. Eles precisam formulá-las, nem que seja por graça. São pagos para tal.

Vejo o Otavinho plantado na cabeça daquela jornalista da Folha. Vejo um mediador sempre sorridente, temeroso e com a corda no pescoço, a cuidar da própria retaguarda, porque responderá certamente ao tucanato depois do jogo e se sair da linha terá o cargo ameaçado.

(Uma vez o secretário de cultura João Sayad me contou que José Serra, então governador, pegara no seu pé por conta de uma pergunta feita inadvertidamente por Eliane Catanhêde ao Gilmar Mendes, a única a deixá-lo desconfortável naquele Roda Viva; podem acreditar, a Catanhêde presenteou o povo cheiroso com uma ínfima liberdade de pensar, e nunca mais, como sabemos, repetiu a ousadia).

Como a Manuela iria conseguir falar alguma coisa que prestasse numa situação assim? Ela sabe debater, mas ninguém ali espera por um debate. É um jogo de aparências. No Roda Viva, só funciona quem quebra as paredes, não faz o prometido, desrespeita o tempo de resposta, dá trabalho ao mediador. Manuela me parece cheia de vivacidade, mas muito educada para o rito.

E falo do que sei: já estive entrevistando no Roda Viva de 25 anos atrás. Escrevi as perguntas em um pedaço de papel e os dois entrevistadores ao meu lado, à esquerda e à direita, ROUBARAM minhas questões, precipitando-se diante da câmera antes que eu educadamente tivesse permissão de falar, dada pelo mediador Jorge Escosteguy. E no final os graúdos embusteiros ainda se explicaram a mim, na saída do estúdio: “Acontece assim mesmo, não tivemos tempo pra preparar perguntas e isto aqui é tevê.”

Não vou dizer quem são os tipos, mas provavelmente alguns de vocês os considerem críticos de valor, jornalistas sérios ou até pensadores. O que penso de jornalistas que roubam minhas ideias é… deixa pra lá.

Sugiro que mudem o nome do programa para pelourinho, corda no pescoço, praça dos enforcados. Tais expressões fazem mais jus simbólico ao que o Roda Viva realmente é.