No totem das coisas sinistras

Eu não sei de nada, que sei?

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

E serão cínicos, justamente porque o tempo passou.

Quando mataram um brasileiro em terras estrangeiras, um jovem inexistente socialmente no metrô, à toa, aquele trabalhador!, ninguém teve culpa, lembra? Mais acidentado e inoportuno, nosso Jean Charles foi, que uma vírgula entre verbo e sujeito.

Então agora, me desculpem, não vejo o mundo indignado suficientemente só porque um inglês bem visto pelo lado de sua consciência ambiental, da doçura de coração e sorriso, morreu. Está bem, concedo que ele não será a mesma vírgula brasileira indevida entre duas funções gramaticais. Será talvez as cores de um sonho triste, do excesso, do luxo impensável de amar o Brasil.

Dito, sentido tudo isso, eu penso que não, que pescadores a pegar no rio moedas de pirarucu douradas para cumprir o pedágio do tráfico, não, impossível que esquartejassem os corpos só porque fotogravavam seu crime pelo celular. Não existe, entende? Essa força tem berço, sangue frio, compensação, trabalhada e construída no totem das coisas sinistras.

E nem preciso nomear o inominável para entender por que justifica o crime, e não só faz isso, culpa as vítimas, diminui seu intelecto, troça, cospe, asseia metaforicamente o sangue estancado nas suas roupas encontradas rasgadas, fotografa com hálito essas cenas cabíveis mentalmente – mentalmente? – no interminável varal lustroso do seu museu de horrores.

Eu não sei de nada, que sei?

Nem mesmo li as notícias do dia.

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

Mandioca, doce vingança

Eu queria ser melhor do que sou. Melhor no sentido de ser pior.

Hoje fomos à feira. Eu parava nas bancas, escolhia e pagava. O que íamos comprar, eu e o Maurício havíamos discutido antes, em casa. Tudo certo. Maior alegria e harmonia acompanham nossa ida à feira dominical, muito boa, aliás, na região do centro onde moramos.

Chegamos à banca de mandioca e o olho cresceu. Não havíamos planejado comprar. O Mau me perguntou se eu achava que combinava com a tainha que ainda iríamos pegar. Pergunta desnecessária, ele sabe. Amo mandioca e pra mim ela combina com tudo.

Decidimos então pegar um saco plástico com pedaços dela já descascada, em água, quando o vendedor da banca, um gordinho de cabelo rente, se aproximou pra sugerir:

– Leva dois pacotes por 12 (!). Se vc não usar o segundo saquinho agora, é só tirar ela de lá e colocar no congelador. Vale a pena. Esta mandioca é uma manteiga.

Pensei: tá cara mas tudo tá caro. E alimenta. E vai durar. E é uma manteiga! Compro.

Ele fez menção de estender a máquina do cartão pro Maurício, o “doutor”, pagar. E eu brinquei, já que meu marido gentilmente segurava as sacolas, e eu, não ele, seria a pessoa em condições de manejar o cartão:

– Eu que vou pagar. Eu que sou a doutora aqui rs.

O vendedor fechou a cara rotunda e com seu jeitão miliciano mandou ver:

– Eu sou doutor, ele é doutor, todos somos doutores perante deus, o salvador, ele que está acima de todos nós, ele que nos guarda, o todo-poderoso, valei-me senhor, bom domingo.

Já tinha pagado a bonitinha, então levei. Não era manteiga, não. Mas serviu.

Jamais compro com ele de novo, porém queria ser má o suficiente, a pior do mundo, pra tretar com esse machista evangélico da próxima vez.

– Tem mandioca manteiga de verdade agora, meu velho? – eu diria. – Ou vai me devolver o que paguei a mais por aquela da semana passada, que levou horas pra cozinhar no fogão?

Quem dera esses inomináveis se fodessem muito em outubro. Mas não morro de esperança. São atrevidos, babacas e violentos até o fundo do seu ser, que é um não-ser, com toda a sua comunidade igrejeira de não-existências. Vou ter de ser muito pior do que sou pra lidar com eles.

Mas como?

Hei de descobrir.

John Waters: “Fazer o outro rir é fazê-lo ouvir”

POR TYLER MALONE, do LA Times

O diretor de cinema John Waters, 76, lança nos EUA “Liarmouth – A Feel-Bad Romance”. Embora seja seu primeiro romance, Waters escreveu quase tantos livros quanto filmes – incluindo os best-sellers nos Estados Unidos “Role Models”, “Carsick” e “Mr. Know-it-All”. Ele diz que sempre se considerou um escritor em primeiro lugar – e um ávido leitor também. Colecionador de livros desde os 14 anos, tem mais de 11 mil espalhados por suas casas em Baltimore, Nova York e São Francisco.

O romance de Waters está cheio de personagens selvagens e reviravoltas chocantes – lifting facial de animais de estimação, cultos de trampolins, um falo falante – mas a primeira ideia que lhe ocorreu foi uma mulher que roubava bagagem em aeroportos. “Alto conceito”, ele diz. “Estou acostumado com a indústria cinematográfica, então sempre preciso de um título e uma descrição em uma frase.”

As façanhas de Marsha Sprinkle – ladra de malas, vigarista, mentirosa inveterada – poderia ter sido um filme. Ela e os outros dramatis personae de “Liarmouth” parecem ter acabado de sair de um roteiro de Waters; a narrativa entrelaça as perspectivas em diferentes locais de uma maneira que se assemelha a um corte transversal cinematográfico.

Em entrevista ao “LA Times”, o cineasta explica o significado da dita “moralidade perversa” presente em toda a sua obra, nesta também:

“Existem regras no meu mundo. As pessoas certas vencem: aquelas que acreditam em si mesmas, que exageram o que os outros podem pensar que é errado, que aceitam e não se importam com o que os outros dizem, mas não são críticos ou ciumentos. As outras pessoas imitam-se, são amargas, julgam outras pessoas, tentam agir como ricas – quando os ricos de verdade escondem que são ricos.”

Um dos maiores pecados no mundo de Waters é se levar muito a sério. Com os defensores do “politicamente correto”, ele expressa principalmente solidariedade, mas a “justiça própria” é a única coisa com a qual não concorda. “Usávamos humor para lutar quando eu era jovem.”

E acrescenta: “Nós nos revoltamos pela liberdade de expressão!” Ele ainda a mantém como um princípio absoluto, mesmo quando isso o coloca na mira de seus compatriotas mais à esquerda. Ele parece legitimamente preocupado com o fato de os estadunidenses ficarem cada vez mais isolados, cada vez mais falando apenas com pessoas com quem já concordam.

É por isso que ele lê jornais conservadores: recentemente foi ao programa de Greg Gutfeld na Fox News e se tornou amigo – entre todas as pessoas no mundo – de Andrew Breitbart, o falecido provocador de direita.

Breitbart, após uma gravação de “Real Time With Bill Maher”, disse a Waters: “Sou igual a você; aprendemos tudo com Abbie Hoffman. Estamos apenas em lados diferentes. É tudo showbiz.” Waters gosta de entrar no que chama de “território inimigo” porque acha importante “fazer o outro rir, que é a maneira de fazer o outro ouvir”.

Peço sua opinião sobre o julgamento de difamação envolvendo Johnny Depp e Amber Heard. Ele o compara a um filme de Douglas Sirk. Tudo o que ele dirá diretamente é: “Só conheço Johnny de quando ele estava com Winona Ryder, Kate Moss e Vanessa Paradis. Todos esses casamentos terminaram, e as três ex-mulheres dizem coisas boas sobre ele agora. Eu nunca vi ele ser horrível com uma mulher.”

Que tal trabalhar com Woody Allen? “Foi ótimo. E não devolvi o dinheiro. Eu gastei.” Ele trabalharia com o cineasta novamente? “Não sei, mas paguei para ver os dois últimos filmes dele.” Waters não acredita em “cancelar” pessoas porque “a maioria dos artistas seria cancelada”. Ele acrescenta: “Eu perdoei gente que cometeu assassinato, então não estou julgando ninguém”. Waters fala sério: ele é amigo da ex-integrante da “família” de Manson Leslie Van Houten e lamenta aquela que considera a prisão “ilegal” da protagonista de “Cry-Baby” Amy Locane por dirigir embriagada e causar uma morte.

Waters sente-se bem até o momento com o governo Biden, embora Obama seja seu favorito. “Mesmo que Michelle Obama tenha me vencido no Grammy de melhor álbum narrativo. Todo aquele lobby que ela fez!” Ele se sente um “patriótico low profile”. E confessa: “Acho que os Estados Unidos são os melhores do mundo. Só não fico dizendo isso por aí. Em que outros lugares eu poderia ter tido essa carreira? Em muitos, certamente não.”

Resistir, eis o que Lygia nos pediu

Ela morreu. Uma mulher mais jovem do que eu. Bailarina que dançava na sala do seu apartamento em prédio dos Jardins, ladeado por palmeiras, toda vez que lançava um livro. Em duas ocasiões abriu um vinho do porto pra mim. Sabia de tudo, dos escondidos da vida, da simplicidade da morte, esta que talvez tenha visitado de passagem e onde desaparecemos um pouco todos os dias. Dessas viagens voltava com um riso, não gargalhada, os olhos sapecas, franzidos.

Lygia Fagundes Telles, afastada agora definitivamente de nós, aos 98 anos, morava em um lugar próximo, ainda que distante. Foi a paraninfa da minha turma de Escola de Comunicações e Artes, lá nos anos 1980, e deu seu banho sem abrir mão da atitude protocolar. Bonita, gozadora, presente. Alguém para quem os ouvidos abertos na direção de Olavo Bilac não impedia sua entrega a Roberto Piva. Olhos, mãos, cabelos, tudo como a razão de uma expressão. Lembro-me sempre dela até porque moro no mesmo prédio onde residiu seu filho.

Ela fumava razoavelmente durante as conversas jornalísticas e eu, que não suporto bem o cheiro de cigarro, nem sentia nada, submetida a uma espécie de básica hipnose. Nem sei, juro, como isso podia ser.

Com ela era só sedução. Sabia ser distante, apresentando-se, contudo, cordial. Chegava na gente com sua impessoalidade sorridente, às vezes irritada, também. Fazia da ocasião conosco uma espécie de palco… e recitava. 

Se me telefonasse para agradecer pelo texto “inteligente” que eu fizera sobre ela, cessavam as borboletas no meu estômago. Porque antes disso era viver sem dormir: e se ela não gostasse, gente? E se não gostar? 

Eu a entrevistei muitas vezes. Feliz ou infelizmente mal guardei todos os textos que escrevi. Não presta muito reler o que a gente faz, sob pressão, na imprensa. Mas com Lygia estava tudo certo. Jamais estaríamos nem mesmo próximas a sua altura, e a questão era quase só copiar o anotado, servindo ao leitor.

Fez questão de proclamar a mim o veredito de culpado a O J Simpson, quando o mundo transformara o assassínio por ele cometido em questão racial. Ela não estava nem aí. Caetano Veloso bonito? Como poderia se equiparar a Rodolfo Valentino? Eu ria muito. Até suas paredes falavam. Os quadros que guardava, fotos, desenho de Darcy Penteado, de Carlos Drummond. Um apartamento antigo, móveis de boa madeira. Somente a história interessava como elemento de decoração.

Eu queria ter-lhe dito adeus em algum momento, mas me intimidei. Sua neta me abrira as portas para entrevistas, mas faria o mesmo para minha presença tímida e pessoal? De toda forma, talvez eu não aguentasse. Da última vez que fui entrevistá-la perdi o celular no qual fizera fotos. Ela parecia deprimida, embora encorajada. Vivia pela força da paixão por seu filho, para quem construíra um altar onde estavam a imagem dele ao lado de seu urso de pelúcia de infância… E o próprio urso, velho, encardido, nos sorria de cima daquela cadeira.

Eu nem sei como agradecer a essa mulher por tanto que me deu. Uma vez eu a indiquei para um trabalho, o de falar, sob um bom pagamento, para umas funcionárias de telemarketing que gostavam de escrever. E o que ela lhes disse? Basicamente, que resistissem. “É preciso resistir!” Sem isso não haveria literatura, não haveria Lygia, não haveríamos nós. Mas resistir a quê, não fez questão de explicar. Resistir, entendeu?

Eita que as saudades serão imensas.

Vou publicar algumas coisas que tenho sobre ela pela semana. E até um texto inédito em livro, de sua autoria, que ela me mandou por ocasião da edição de Natal do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, nos anos 1990.

Viva Lygia! Viva para sempre em nós!

Triste mundo em riste

antigamente eu precisava entender, e por isso o fazia num texto, o que a cerimônia do Oscar e os filmes por ele selecionados nos traziam sobre a representação do poder.

fazia isso no lugar errado, é claro, na revista de senhor democracia, um hollywoodiano de carteirinha, e que se pretendia dono hierárquico de nosso pensar.

mas ainda faço isso cá comigo quando assisto à cerimônia. não acompanhei esta de ontem porque… porque só havia visto de verdade o belo filme do hamaguchi e não passado de meia hora no ataque dos cães.

pelo jeito, então, perdi a mais uma fiel correspondência do momento vivido. um homem preto socar outro homem preto ao vivo diante do mundo em guerra é resultado/representação deste nosso triste mundo em riste.

e eu talvez tivesse gostado, apesar de toda a dor de cabeça que isso me daria, de me aprofundar nos meandros desta tragédia, com toda a fatal incompreensão de quem me lesse.

vocês podem nem acreditar, mas por isso mesmo as redes sociais, pra mim, têm suas vantagens. às vezes, incrivelmente, elas me livram de um mal maior.

Humor com humor se paga, Will Smith

Amanhã será engraçado o que hoje foi triste.

Então riremos muito dessa atitude melancólica do Will Smith, que, no Oscar deste ano, socou o apresentador Chris Rock porque fez uma piada sobre sua mulher.

Uma piada fraca, é verdade, francamente estúpida, mas que não matou ninguém. O humor não nasceu pra matar, razão pela qual é desproporcional a agressão física para responder à piada de alguém. A única maneira justa de responder à piada ruim é com uma piada melhor.

Will Smith nasceu da comédia televisiva, onde é preciso improvisar. Mas naquele momento, tocado pelo sofrimento da mulher, esqueceu-se como faz. Ou estava bem alterado. De toda forma, é um grande ator ou não é? Parece que sim. E a cerimônia do Oscar é trabalho, exige improvisação. George Clooney, que surgiu para a fama como galã numa série de tevê sobre um pronto-socorro, é bem mais rápido neste quesito, e melhor.

A agressão do Will Smith, francamente, pareceu-me coisa que vi muito no nordeste brasileiro, onde o macho vai tomar satisfação quando um engraçadinho faz pouco de sua mulher, sua propriedade.

Deixasse Jada, ela própria, responder à piada ruim, certo?

Ou respondesse ele depois, com o Oscar na mão.

Cena roubada

Achei triste quando no passado não só o Ivo Pitanguy como o Zé Sarney entraram na ABL. E quando chegou a vez do Paulo Coelho, pra mim tudo aquilo virou grêmio escolar, onde personalidades do espectro político, ora reaças de verdade, ora neoliberais da arte, revezam-se para ocupar o lugar dos grandes escritores, estes que já vinham fora do clube e fora permanecerão.

Não vi o discurso da Fernanda nem vou ver. Bastou que eu soubesse que usou seu poder para declarar seu não-voto à presidência, o que não fez sentido pra mim. Declara-se o voto quando se tem um ou não se declara nada, certo? Como personalidade, você tem um peso, exerce influência. Sem contar que estamos afundados neste Brasil. Entrar para a eternidade das artes assim talvez não tenha sido o melhor pra ela, mas que sei eu?

Eis uma atriz de respeito, uma dama de excelências, claro, soberba em “A Falecida”, embora capturada em algumas situações, por um Othon Bastos, por exemplo, que, sem dizer palavra, roubou a cena ao contracenar com ela em “Central do Brasil”. Fernanda deve sempre levar outros atores a querer superá-la, e isto deve ser uma coisa maravilhosa, tenho certeza.

O risco

Me retratei nesta imagem há dois anos e poucos meses, antes de uma conversa que fiz a pedido do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, sobre a obra da fotógrafa estadunidense Susan Meiselas.

Eu estava mais do que feliz naquele dia com o convite para falar ao público ao vivo, ademais no solo do museu que pra mim é um fundamento. Mas me sentia apreensiva também.

As conversas na biblioteca do IMS, eu percebia, não situavam muito o assunto fotografia como eu o via, antes se centravam nos temas desenvolvidos por seus realizadores – e quando o assunto é fotojornalismo, como no caso desta grande profissional, talvez não se pudesse nem devesse fugir deste enfoque, pois o assunto e seu viés dizem tudo sobre a grandeza política, a ética de um autor.

Ainda assim, me pus a falar sobre o que fazia sentido pra mim, não somente sobre a atividade de strippers nas caravanas daqueles anos 1970 que Meiselas acompanhou, mas também sobre a luz, as escolhas de um fotógrafo, o que o ampara, linhas, prontidão, sua formação visual, a construção de seu olhar.

Eu talvez não erre ao dizer que a conversa foi um sucesso, já que o público maravilhoso (muitos homens e mulheres da vida comum, velhos, jovens, alguns lindos amigos e a turma do educativo do museu, tão nova) estava aberto a ela, até ansioso por ouvir meus pensamentos, entender minha leitura da fotografia, influenciada que é, entre outras, pela obra e pela genialidade do fotógrafo-pensador paulistano Carlos Moreira.

E então, logo em seguida a este evento, veio a pandemia e anulou minha sensação de que eu poderia levar adiante meu intento, o de promover a modesta organização de um curso sobre a ação das mulheres artistas na fotografia, bem antes e bem depois de Meiselas. O IMS não me chamou para refletir sobre isto, até porque passou a haver uma onda de estudos acadêmicos sobre o assunto, e meu “orientador” (mais que isso, pai, irmão, amigo), apesar de ter sido um professor exímio na Escola de Comunicações e Artes da USP, não escreveu livros, não provou sua tese aos pares acadêmicos e muitos fotógrafos brasileiros ignoram o grande artista que ele foi.

É claro que, diante da derrocada de tudo, pensei em fazer algo por mim mesma, ainda mais em meio a esses tempos que provaram a serventia disciplinar do zoom, mas ainda não consegui. Não apenas porque me alimenta o calor das presenças físicas, mas porque não sei empreender negócios em meu nome como deveria saber. Ainda espero levar isso pra frente, contudo, assim como espero organizar um minicurso para os amigos interessados na comédia italiana, esta que foi tema do meu doutorado na História da USP.

Eu sou um pouco distante dos modos presentes de fazer as coisas, talvez não tenha a proatividade exigida, como eles dizem, mas sei que isto, mais que um problema, é uma circunstância que um dia chegarei a remover como quem estende as roupas no varal ou prepara a mesa pra comer.

Além do mais, a vida é esse risco todo mesmo, esse perigo que a gente sabe quem detectou, e não há como viver sem resistir.

Quatro diretoras e seus caminhos abertos


Presentes na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, as cineastas de ficção e documentários exploram mundos encobertos

Em sentido horário, Charlotte Gainsbourg (Jane por Charlotte), Marí Alessandrini (Zahori), Marie Amiguet (O Leopardo das Neves) e Maria Speth (Sr. Bachmann e seus alunos)

Vi quase três dezenas de filmes da Mostra, todos virtualmente. Alguém disse que por este meio eu não assistiria, então, aos melhores filmes disponíveis. Possível, mas o que fazer? Não correria às salas fechadas neste momento em que pandemia ainda há, sim. E, de fato, poucos títulos vistos virtualmente me pareceram grandiosos ou mesmo tocantes. Coisas boas houve, contudo. E as canhestras também. Alguns filmes serviram como informações sobre dramas localizados em determinadas paragens. Outros me divertiram por seu estrito senso intelectual. Mas me chamou a atenção que alguns deles, dirigidos por mulheres, tenham feito vibrar o mundo das sensações. Foram filmes a manter os caminhos abertos. A seguir, comento quatro deles.

ZAHORÍ

Direção: Marí Alessandrini

Suíça, Argentina, Chile, França

2021   cor   105 min.   

Ficção  

TRAILER: https://vimeo.com/567531628 

Mora (por Lara Tortosa) e Zahorí no filme de Marí Alessandrini

Zahorí, da estreante Marí Alessandrini, me pareceu particularmente belo, cheio de sentido. O título refere-se ao cavalo do gaúcho Nazareno, que, enquanto se perde numa noite de tempestade de cinzas na Patagônia, olha para os dois lados da estrada. A ficção, apresentada no Festival de Toronto e vencedora do prêmio Os Filmes Depois de Amanhã no Festival de Locarno de 2020, mesmo evento em que foi exibido na seção Cineastas do Presente deste ano, existe para nos fazer percorrer esta imensa região no que ela tem de mais profundo. Há ali imigrantes italianos enraizados, mas não realizados, em luta contra a terra e seus frutos, além dos religiosos europeus de sempre. 

A jovem protagonista Mora (interpretada com beleza por Lara Tortosa), de 13 anos, vive por lá com os pais e o irmão menor. Os pais, italianos, não falam com ela a língua local, mas Mora só tem um castelhano para lhes devolver. Quer jogar futebol, e porque menina, não pode. Quer ser gaúcho, mas, por idêntica razão, querem interromper seu sonho. A escola de nada lhe serve, porque olha para fora do seu mundo, justamente a vasta, árida terra onde habita. E então ela deseja seguir o seu caminho. Ela quer Zahorí. 

A diretora Marí Alessandrini tem talento de sobra. Nasceu na Argentina em 1979 e cresceu na Patagônia, onde gira seu filme. Formada em direção de cinema e artes visuais pela Universidade de Genebra, realizou, entre curtas ficcionais e documentais, filmes como Dragona y Sus Cachorros (2010) e Buscando Patriotas (2015). Foi escolhida pela Cinéfondation do Festival de Cannes para desenvolver seu primeiro longa-metragem, este “Zahorí“, que vale cada momento sob o sol.

SR. BACHMANN E SEUS ALUNOS

Direção Maria Speth

Alemanha

2021   cor  217 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=6eMaaDGxIPc 

Sr. Bachmann, o professor, e suas alunas de uma outra Europa

São quase quatro horas de filme, mas você, como espectador, não as perceberá. Os documentários destes tempos quase não esclarecem que o sejam. Tudo é vida e encenação dos personagens, que caminham enquanto o filme corre. Este documentário, que substancia a vida, discorre sobre a empatia e as dores do aprendizado. A diretora Maria Speth desceu até a escadaria de uma escola e, com a fulgurante distância de quem não se pode fazer demasiadamente notar, acompanhou os alunos de uma classe determinada nas suas mínimas alegrias e dores. Aos 54 anos, nascida na Baviera, a diretora vive em Berlim desde 1987. Trabalhou como assistente de edição e direção até 1995 e no ano seguinte formou-se em direção pela Universidade de Cinema Babelsberg Konrad Wolf. Dirigiu os longas-metragens Levando a Vida (2001, 26a Mostra), vencedor do Tigre de melhor filme no Festival de Roterdã, Madonas (2017), premiado no Festival de Mar del Plata, e As Filhas (2014). Também realizou o documentário 9 Lives (2011).

Obras sobre escolas e professores inspirados projetam nossa infância e às vezes nossos desejos de acolhimento que não se realizaram. O senhor Bachmann é mesmo um senhor, tem mais de 60 anos, mas também, e principalmente, um menino. Ele dá aula de música e outras disciplinas a alunos que estão por findar o ensino fundamental, prestes a enfrentar uma nova etapa de vida que determinará seu caminho profissional. A escola se localiza em ​​Stadtallendorf, uma cidade que durante o nazismo recebeu trabalhadores forçados da Europa Oriental para suas fábricas de explosivos. Os descendentes e novos migrantes são seus alunos. As crianças turcas e búlgaras às vezes não têm a menor noção do que fazer com a língua alemã. Mas Bachmann crê que mereçam futuro. O que fazer, senão integrá-los em suas diferenças, soltar seus medos, ouvi-los? Ele é bom nisso. Tem história. Seu nome de família não é seu nome de origem. A avó teve de aceitar o que lhe coube como cristã nova. Uma empatia é também uma coincidência de identidades.

JANE POR CHARLOTTE

Direção Charlotte Gainsbourg

França

2021   cor   90 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=492IFWJxYBk 

Charlotte, assessorada pelas câmeras incríveis, e Jane, com a doce doença de tudo reter

Mãe e filha têm a voz delicada. Falam baixo e quase pedem autorização para entrar uma no mundo da outra. Jane Birkin, a mãe, é cantora e atriz. Charlotte Gainsbourg, atriz, é a filha de quem este filme descobre um dom para dirigir. Charlotte tem muitas câmeras vintage. Gosta de efeitos, de sobreposições, não quer que nada se fixe demais. Porém, como atriz, está ali para encenar junto à mãe. Por ser a filha única e altiva de seu casamento com Serge Gainsbourg, Jane sempre foi mais reservada com ela do que com as outras duas filhas, de outros dois casamentos. Jane teria gostado de tocar os seios de Charlotte enquanto crescia, uma vez tão bonitos… Mas não ousaria lhe pedir.

Se Jane quiser pegar a câmera para filmar a filha, Charlotte será a orgulhosa e dura rebenta de Serge, e não a deixará tocar no que não é seu. De resto, ela parecerá entender que a mãe se distancia do mundo, e esta finitude a perturbará.

Jane vive só numa casa de praia e gostaria de dormir com alguém. Porém, desde que sua primeira filha, com o cantor John Barry, morreu, em 2013, ela se demora a levantar. Horas na cama a olhar o teto e a fazer suas muitas considerações. Ela sabe que envelheceu demais desde a tragédia. Até determinada etapa de seus 71 anos, ainda tinha uma face que o espelho poderia reconhecer. Agora prefere vê-la desfocada ou mudar de espelho – e ela já tem os seus preferidos, os generosos, pela casa. Como Jane diz, sofre a doce doença da acumulação. Nada que é seu desaparece.

Charlotte terá conseguido enfim tocá-la? Pergunta complicada. Jane, tão simpática, é uma  pérola rugosa e brilhante, que não parece se deixar domesticar. 

O LEOPARDO DAS NEVES

Direção Marie Amiguet

França

2021 cor 92 min

Documentário  

O Leopardo das Neves, um filme para valorizar o que existe mas é raro

Graduada em biologia, a diretora Marie Amiguet, que investiu em uma vida de viagens nas Antilhas, na África e na América do Sul, apresenta seu primeiro documentário, O Leopardo das Neves, antes apenas exibido no Festival de Cannes. Seu intento como cineasta é se concentrar a partir de agora em registros da vida selvagem. Por isso ela retornou à França para cursar, em Ménigoute, um mestrado técnico em documentários sobre a natureza. Deve seguir a trilha na qual começou bem.

Seu objetivo em O Leopardo das Neves é alcançar o alto do planalto tibetano para, entre vales às vezes pouco percorridos, descobrir uma fauna desconhecida. Para isso, ela acompanha Vincent Munier, renomado fotógrafo da vida selvagem, cujo objetivo, antes mesmo de fotografar, é encontrar um dos felinos mais raros. O aventureiro e romancista Sylvain Tesson, também como a diretora, um viajante, acompanhará o fotógrafo e com ele aprenderá a se deter com a atenção exigida. 

Não será um filme em que a superespecialização, como aquela da equipe de David Attenborough, registrará os animais na nitidez noturna ou os mínimos movimentos dos pássaros em lentidão. Aqui, o quebra-cabeça da diretora estará em localizar o drama e a obsessão de quem assiste à natureza como a um espetáculo de captura e ensinamentos.