Um neoliberal fascista

Assim o historiador italiano Enzo Traverso entende Jair Bolsonaro, um presidente contra os pobres e a favor da mentira como base da política

Traverso: “No Brasil de hoje, o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista”

POR ROSANE PAVAM

Aos 64 anos, o italiano Enzo Traverso é uma estrela em ascensão. Ele mora nos Estados Unidos, onde ensina história política e intelectual na Universidade de Cornell, e embora não se entenda midiático, é um autor cujos livros escritos de maneira direta instigam o pensamento na direção da compreensão geopolítica e da ação crítica.

Historiador, Traverso não teme tocar nas feridas do presente. Ele constata um momento “pós-fascista” internacional, que seria caracterizado não exatamente pelo nacionalismo, marca de um fascismo antigo, mas pela submissão às leis financeiras internacionais. Mais que isso, o descompromisso com os fatos seria o fundamento de ação dos pós-fascistas, quando, para o fascismo clássico, imaginar um futuro grandioso embasava a ação política. 

Suas palavras para o Brasil atual são aterradoras. Um presidente como Jair Bolsonaro, abertamente submisso ao capital financeiro e espelhado na ditadura militar, seria, segundo Traverso, mais do que um pós-fascista, antes um neofascista liberal que exerceria um populismo personalista, trabalharia para a extinção do pobre e exerceria o racismo sem pudor, enquanto a extrema direita europeia, por comparação, ainda precisaria instigar o pavor ao Islã para implantar sua xenofobia.

A seguir, os principais trechos da entrevista com o intelectual.

Em seu livro “As novas faces do fascismo – Populismo e a extrema direita”, o sr. propõe intitular o momento presente de pós-fascista, já que a extrema direita assume o poder em alguns países sob novo formato, ainda em desenvolvimento. Mas chamá-lo de pós-fascista não diminuiria sua força?

A extrema direita é uma constelação muito variada e tem características distintas em diferentes países. Na Europa, distanciou-se do fascismo e sua ascensão depende em grande parte de sua capacidade de aparecer como uma alternativa – nacionalista, conservadora e xenófoba, mas ainda uma alternativa – às políticas neoliberais da União Europeia e do banco central europeu. Quando entra no governo, ela busca a mediação, mas seu perfil não é neoliberal. No Brasil, a situação é diferente: Bolsonaro afirma sua filiação à ditadura militar e sua política é abertamente neoliberal. No Brasil estamos diante de uma forma específica de neofascismo neoliberal ou neoliberalismo fascista.

O Brasil de Jair Bolsonaro de algum modo evocaria a Itália de Benito Mussolini?

O populismo, o estilo demagógico, os comportamentos transgressivos são típicos de uma certa retórica fascista. Sob muitos pontos de vista, Bolsonaro lembra Mussolini, mas esses são aspectos formais, externos. Mussolini não era um agente do capital financeiro, ele havia integrado o capitalismo em seu projeto de expansionismo militar, colonial, e lançou uma campanha contra a Liga das Nações que impôs sanções econômicas à Itália fascista após a guerra na Etiópia. Bolsonaro defende uma política neoliberal e uma guerra contra os pobres, se considerarmos suas políticas públicas em termos de saúde, educação e serviços sociais. Seu autoritarismo não é apenas nacionalista, mas abertamente fascista.

Nesta sociedade pós-fascista, as redes sociais têm feito usuários acreditarem em “verdades” que não passam de falsidades, às vezes muito evidentes. Como um absurdo desses pôde se estabelecer? 

Em sua vigência, o fascismo fez “sonhar” e pintou um futuro mítico. Hoje, o pós-fascismo é incapaz de projetar a sociedade no futuro – seu imaginário não tem uma dimensão “prognóstica”. Mas ele inventa uma realidade paralela que espalha pela mídia, cria enredos e transfigura seus inimigos, pintando um retrato que absolutamente não corresponde à realidade. Existe uma continuidade entre Bolsonaro ou Trump e o fascismo? Sim, seu traço comum são as mentiras, eles não suportam a verdade.

Seria possível propor uma regulamentação das redes sociais para o bem do regime democrático? Sob quais condições?

A regulamentação das redes sociais é um assunto delicado. Por um lado, é necessário: as redes sociais devem estar sujeitas às mesmas leis que regulam a imprensa escrita e a televisão na maioria dos países democráticos; não se pode mentir impunemente, insultar os adversários, inventar tramas. A ética da discussão exige regras em um país livre. Por outro lado, se um poder autoritário regula as redes sociais, o risco é censurá-las, amordaçá-las, como ocorre na China. Acho que existem duas soluções: por um lado, deveria haver órgãos de controle independentes do governo ou da presidência, não sujeitos ao poder político; por outro lado, deveriam existir leis contra o monopólio das redes de televisão, porque elas constituem uma alternativa às informações controladas pelo poder financeiro e político.

No Charlie Hebdo, algo que o historiador não gostaria de ver

O sr. afirma que o secularismo é o caminho percorrido pela extrema direita para exercer o racismo contra os povos islâmicos na Europa. E que, portanto, o exercício da blasfêmia deveria ser evitado em países seculares. Por que a liberdade de blasfemar não pode ser preservada? 

Nunca propus leis contra a “blasfêmia” ou contra a sátira. Sempre considerei as caricaturas do jornal francês Charlie Hebdo islamofóbicas, sexistas e racistas, mas jamais propus censurá-las. A sátira política é indispensável em um país livre. O problema é fazer bom uso dela. Defender a liberdade de expressão significa defender o direito dos inimigos de se expressarem livremente. 

Caricaturas “blasfemas” são transgressivas e têm potencial crítico nos países muçulmanos, onde muitas vezes se veem censuradas e incomodam o poder. Nos países democráticos da União Europeia, as caricaturas contra a religião islâmica estigmatizam em muitos casos uma minoria, as classes populares, os imigrantes, os “diferentes”. Gostaria de estender o exemplo: a sátira contra o obscurantismo dos rabinos é divertida na imprensa israelense; na Alemanha nazista, ele apenas fez rir os antissemitas.

O sr. vê algum problema no crescimento das políticas identitárias? 

Nada tenho contra as políticas identitárias se elas não forem concebidas como a reivindicação de identidades isoladas, separadas e incapazes de dialogar com os demais componentes da sociedade e as demais forças interessadas em uma transformação social e política. A solução não está na negação das identidades, mas na sua coexistência. O conceito de interseccionalidade permite que as identidades sejam articuladas em formas não hierárquicas, mas igualitárias, evitando que entrem em conflito. Identidades de gênero, classe e raça podem coexistir. Acredito que a noção de interseccionalidade é muito importante para um país grande como o Brasil, onde coexistem minorias e comunidades muito diferentes. Essa diversidade é sua riqueza.

O sr. se considera um intelectual midiático? Que problemas existem em trabalhar com a mídia atual?

Eu sou historiador e não estou muito na mídia de nenhum país. Certamente não sou um “intelectual midiático”. Mas acho que precisamos esclarecer o uso das palavras. O conceito de intelectual nasceu há mais de um século, na França, com o caso Dreyfus, e ao mesmo tempo em outros contextos linguísticos. Na época, os intelectuais eram uma elite, porque detinham o monopólio da expressão escrita, quando a grande maioria da população era excluída e a cultura, dominada pela imprensa. Régis Debray a define como a era da “grafosfera”, que terminou na década de 1960. Hoje, graças à universidade de massa, a cultura não é mais monopolizada por uma elite. Além disso, vivemos agora na esfera do vídeo, onde a cultura é dominada pela imagem. Posso dizer que sou um intelectual, porque meu trabalho é ler, escrever livros e artigos e ensinar, mas certamente não poderia dizer que integro uma elite. Isso seria bastante ridículo. Os “intelectuais midiáticos” geralmente não são intelectuais, não exercem nenhum espírito crítico, são agentes da indústria cultural e gerenciam a comunicação do poder.

Como pode um intelectual exercer livremente a crítica para sensibilizar a população sobre seus problemas? Depois de Jean-Paul Sartre, o intelectual ainda deve alertar essas consciências?

Não quero idealizar Sartre, uma figura que deve ser historicizada e cujas contradições não podem ser ignoradas. Mas acho que o intelectual ainda tem um papel a cumprir: ele deve falar a verdade, por mais incômoda que seja, criticar o poder, defender os fracos e não se preocupar com a própria popularidade. Se esse é o papel do intelectual, no Brasil de hoje o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista.

No totem das coisas sinistras

Eu não sei de nada, que sei?

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

E serão cínicos, justamente porque o tempo passou.

Quando mataram um brasileiro em terras estrangeiras, um jovem inexistente socialmente no metrô, à toa, aquele trabalhador!, ninguém teve culpa, lembra? Mais acidentado e inoportuno, nosso Jean Charles foi, que uma vírgula entre verbo e sujeito.

Então agora, me desculpem, não vejo o mundo indignado suficientemente só porque um inglês bem visto pelo lado de sua consciência ambiental, da doçura de coração e sorriso, morreu. Está bem, concedo que ele não será a mesma vírgula brasileira indevida entre duas funções gramaticais. Será talvez as cores de um sonho triste, do excesso, do luxo impensável de amar o Brasil.

Dito, sentido tudo isso, eu penso que não, que pescadores a pegar no rio moedas de pirarucu douradas para cumprir o pedágio do tráfico, não, impossível que esquartejassem os corpos só porque fotogravavam seu crime pelo celular. Não existe, entende? Essa força tem berço, sangue frio, compensação, trabalhada e construída no totem das coisas sinistras.

E nem preciso nomear o inominável para entender por que justifica o crime, e não só faz isso, culpa as vítimas, diminui seu intelecto, troça, cospe, asseia metaforicamente o sangue estancado nas suas roupas encontradas rasgadas, fotografa com hálito essas cenas cabíveis mentalmente – mentalmente? – no interminável varal lustroso do seu museu de horrores.

Eu não sei de nada, que sei?

Nem mesmo li as notícias do dia.

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

Mandioca, doce vingança

Eu queria ser melhor do que sou. Melhor no sentido de ser pior.

Hoje fomos à feira. Eu parava nas bancas, escolhia e pagava. O que íamos comprar, eu e o Maurício havíamos discutido antes, em casa. Tudo certo. Maior alegria e harmonia acompanham nossa ida à feira dominical, muito boa, aliás, na região do centro onde moramos.

Chegamos à banca de mandioca e o olho cresceu. Não havíamos planejado comprar. O Mau me perguntou se eu achava que combinava com a tainha que ainda iríamos pegar. Pergunta desnecessária, ele sabe. Amo mandioca e pra mim ela combina com tudo.

Decidimos então pegar um saco plástico com pedaços dela já descascada, em água, quando o vendedor da banca, um gordinho de cabelo rente, se aproximou pra sugerir:

– Leva dois pacotes por 12 (!). Se vc não usar o segundo saquinho agora, é só tirar ela de lá e colocar no congelador. Vale a pena. Esta mandioca é uma manteiga.

Pensei: tá cara mas tudo tá caro. E alimenta. E vai durar. E é uma manteiga! Compro.

Ele fez menção de estender a máquina do cartão pro Maurício, o “doutor”, pagar. E eu brinquei, já que meu marido gentilmente segurava as sacolas, e eu, não ele, seria a pessoa em condições de manejar o cartão:

– Eu que vou pagar. Eu que sou a doutora aqui rs.

O vendedor fechou a cara rotunda e com seu jeitão miliciano mandou ver:

– Eu sou doutor, ele é doutor, todos somos doutores perante deus, o salvador, ele que está acima de todos nós, ele que nos guarda, o todo-poderoso, valei-me senhor, bom domingo.

Já tinha pagado a bonitinha, então levei. Não era manteiga, não. Mas serviu.

Jamais compro com ele de novo, porém queria ser má o suficiente, a pior do mundo, pra tretar com esse machista evangélico da próxima vez.

– Tem mandioca manteiga de verdade agora, meu velho? – eu diria. – Ou vai me devolver o que paguei a mais por aquela da semana passada, que levou horas pra cozinhar no fogão?

Quem dera esses inomináveis se fodessem muito em outubro. Mas não morro de esperança. São atrevidos, babacas e violentos até o fundo do seu ser, que é um não-ser, com toda a sua comunidade igrejeira de não-existências. Vou ter de ser muito pior do que sou pra lidar com eles.

Mas como?

Hei de descobrir.

John Waters: “Fazer o outro rir é fazê-lo ouvir”

POR TYLER MALONE, do LA Times

O diretor de cinema John Waters, 76, lança nos EUA “Liarmouth – A Feel-Bad Romance”. Embora seja seu primeiro romance, Waters escreveu quase tantos livros quanto filmes – incluindo os best-sellers nos Estados Unidos “Role Models”, “Carsick” e “Mr. Know-it-All”. Ele diz que sempre se considerou um escritor em primeiro lugar – e um ávido leitor também. Colecionador de livros desde os 14 anos, tem mais de 11 mil espalhados por suas casas em Baltimore, Nova York e São Francisco.

O romance de Waters está cheio de personagens selvagens e reviravoltas chocantes – lifting facial de animais de estimação, cultos de trampolins, um falo falante – mas a primeira ideia que lhe ocorreu foi uma mulher que roubava bagagem em aeroportos. “Alto conceito”, ele diz. “Estou acostumado com a indústria cinematográfica, então sempre preciso de um título e uma descrição em uma frase.”

As façanhas de Marsha Sprinkle – ladra de malas, vigarista, mentirosa inveterada – poderia ter sido um filme. Ela e os outros dramatis personae de “Liarmouth” parecem ter acabado de sair de um roteiro de Waters; a narrativa entrelaça as perspectivas em diferentes locais de uma maneira que se assemelha a um corte transversal cinematográfico.

Em entrevista ao “LA Times”, o cineasta explica o significado da dita “moralidade perversa” presente em toda a sua obra, nesta também:

“Existem regras no meu mundo. As pessoas certas vencem: aquelas que acreditam em si mesmas, que exageram o que os outros podem pensar que é errado, que aceitam e não se importam com o que os outros dizem, mas não são críticos ou ciumentos. As outras pessoas imitam-se, são amargas, julgam outras pessoas, tentam agir como ricas – quando os ricos de verdade escondem que são ricos.”

Um dos maiores pecados no mundo de Waters é se levar muito a sério. Com os defensores do “politicamente correto”, ele expressa principalmente solidariedade, mas a “justiça própria” é a única coisa com a qual não concorda. “Usávamos humor para lutar quando eu era jovem.”

E acrescenta: “Nós nos revoltamos pela liberdade de expressão!” Ele ainda a mantém como um princípio absoluto, mesmo quando isso o coloca na mira de seus compatriotas mais à esquerda. Ele parece legitimamente preocupado com o fato de os estadunidenses ficarem cada vez mais isolados, cada vez mais falando apenas com pessoas com quem já concordam.

É por isso que ele lê jornais conservadores: recentemente foi ao programa de Greg Gutfeld na Fox News e se tornou amigo – entre todas as pessoas no mundo – de Andrew Breitbart, o falecido provocador de direita.

Breitbart, após uma gravação de “Real Time With Bill Maher”, disse a Waters: “Sou igual a você; aprendemos tudo com Abbie Hoffman. Estamos apenas em lados diferentes. É tudo showbiz.” Waters gosta de entrar no que chama de “território inimigo” porque acha importante “fazer o outro rir, que é a maneira de fazer o outro ouvir”.

Peço sua opinião sobre o julgamento de difamação envolvendo Johnny Depp e Amber Heard. Ele o compara a um filme de Douglas Sirk. Tudo o que ele dirá diretamente é: “Só conheço Johnny de quando ele estava com Winona Ryder, Kate Moss e Vanessa Paradis. Todos esses casamentos terminaram, e as três ex-mulheres dizem coisas boas sobre ele agora. Eu nunca vi ele ser horrível com uma mulher.”

Que tal trabalhar com Woody Allen? “Foi ótimo. E não devolvi o dinheiro. Eu gastei.” Ele trabalharia com o cineasta novamente? “Não sei, mas paguei para ver os dois últimos filmes dele.” Waters não acredita em “cancelar” pessoas porque “a maioria dos artistas seria cancelada”. Ele acrescenta: “Eu perdoei gente que cometeu assassinato, então não estou julgando ninguém”. Waters fala sério: ele é amigo da ex-integrante da “família” de Manson Leslie Van Houten e lamenta aquela que considera a prisão “ilegal” da protagonista de “Cry-Baby” Amy Locane por dirigir embriagada e causar uma morte.

Waters sente-se bem até o momento com o governo Biden, embora Obama seja seu favorito. “Mesmo que Michelle Obama tenha me vencido no Grammy de melhor álbum narrativo. Todo aquele lobby que ela fez!” Ele se sente um “patriótico low profile”. E confessa: “Acho que os Estados Unidos são os melhores do mundo. Só não fico dizendo isso por aí. Em que outros lugares eu poderia ter tido essa carreira? Em muitos, certamente não.”

Resistir, eis o que Lygia nos pediu

Ela morreu. Uma mulher mais jovem do que eu. Bailarina que dançava na sala do seu apartamento em prédio dos Jardins, ladeado por palmeiras, toda vez que lançava um livro. Em duas ocasiões abriu um vinho do porto pra mim. Sabia de tudo, dos escondidos da vida, da simplicidade da morte, esta que talvez tenha visitado de passagem e onde desaparecemos um pouco todos os dias. Dessas viagens voltava com um riso, não gargalhada, os olhos sapecas, franzidos.

Lygia Fagundes Telles, afastada agora definitivamente de nós, aos 98 anos, morava em um lugar próximo, ainda que distante. Foi a paraninfa da minha turma de Escola de Comunicações e Artes, lá nos anos 1980, e deu seu banho sem abrir mão da atitude protocolar. Bonita, gozadora, presente. Alguém para quem os ouvidos abertos na direção de Olavo Bilac não impedia sua entrega a Roberto Piva. Olhos, mãos, cabelos, tudo como a razão de uma expressão. Lembro-me sempre dela até porque moro no mesmo prédio onde residiu seu filho.

Ela fumava razoavelmente durante as conversas jornalísticas e eu, que não suporto bem o cheiro de cigarro, nem sentia nada, submetida a uma espécie de básica hipnose. Nem sei, juro, como isso podia ser.

Com ela era só sedução. Sabia ser distante, apresentando-se, contudo, cordial. Chegava na gente com sua impessoalidade sorridente, às vezes irritada, também. Fazia da ocasião conosco uma espécie de palco… e recitava. 

Se me telefonasse para agradecer pelo texto “inteligente” que eu fizera sobre ela, cessavam as borboletas no meu estômago. Porque antes disso era viver sem dormir: e se ela não gostasse, gente? E se não gostar? 

Eu a entrevistei muitas vezes. Feliz ou infelizmente mal guardei todos os textos que escrevi. Não presta muito reler o que a gente faz, sob pressão, na imprensa. Mas com Lygia estava tudo certo. Jamais estaríamos nem mesmo próximas a sua altura, e a questão era quase só copiar o anotado, servindo ao leitor.

Fez questão de proclamar a mim o veredito de culpado a O J Simpson, quando o mundo transformara o assassínio por ele cometido em questão racial. Ela não estava nem aí. Caetano Veloso bonito? Como poderia se equiparar a Rodolfo Valentino? Eu ria muito. Até suas paredes falavam. Os quadros que guardava, fotos, desenho de Darcy Penteado, de Carlos Drummond. Um apartamento antigo, móveis de boa madeira. Somente a história interessava como elemento de decoração.

Eu queria ter-lhe dito adeus em algum momento, mas me intimidei. Sua neta me abrira as portas para entrevistas, mas faria o mesmo para minha presença tímida e pessoal? De toda forma, talvez eu não aguentasse. Da última vez que fui entrevistá-la perdi o celular no qual fizera fotos. Ela parecia deprimida, embora encorajada. Vivia pela força da paixão por seu filho, para quem construíra um altar onde estavam a imagem dele ao lado de seu urso de pelúcia de infância… E o próprio urso, velho, encardido, nos sorria de cima daquela cadeira.

Eu nem sei como agradecer a essa mulher por tanto que me deu. Uma vez eu a indiquei para um trabalho, o de falar, sob um bom pagamento, para umas funcionárias de telemarketing que gostavam de escrever. E o que ela lhes disse? Basicamente, que resistissem. “É preciso resistir!” Sem isso não haveria literatura, não haveria Lygia, não haveríamos nós. Mas resistir a quê, não fez questão de explicar. Resistir, entendeu?

Eita que as saudades serão imensas.

Vou publicar algumas coisas que tenho sobre ela pela semana. E até um texto inédito em livro, de sua autoria, que ela me mandou por ocasião da edição de Natal do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, nos anos 1990.

Viva Lygia! Viva para sempre em nós!

Triste mundo em riste

antigamente eu precisava entender, e por isso o fazia num texto, o que a cerimônia do Oscar e os filmes por ele selecionados nos traziam sobre a representação do poder.

fazia isso no lugar errado, é claro, na revista de senhor democracia, um hollywoodiano de carteirinha, e que se pretendia dono hierárquico de nosso pensar.

mas ainda faço isso cá comigo quando assisto à cerimônia. não acompanhei esta de ontem porque… porque só havia visto de verdade o belo filme do hamaguchi e não passado de meia hora no ataque dos cães.

pelo jeito, então, perdi a mais uma fiel correspondência do momento vivido. um homem preto socar outro homem preto ao vivo diante do mundo em guerra é resultado/representação deste nosso triste mundo em riste.

e eu talvez tivesse gostado, apesar de toda a dor de cabeça que isso me daria, de me aprofundar nos meandros desta tragédia, com toda a fatal incompreensão de quem me lesse.

vocês podem nem acreditar, mas por isso mesmo as redes sociais, pra mim, têm suas vantagens. às vezes, incrivelmente, elas me livram de um mal maior.

Humor com humor se paga, Will Smith

Amanhã será engraçado o que hoje foi triste.

Então riremos muito dessa atitude melancólica do Will Smith, que, no Oscar deste ano, socou o apresentador Chris Rock porque fez uma piada sobre sua mulher.

Uma piada fraca, é verdade, francamente estúpida, mas que não matou ninguém. O humor não nasceu pra matar, razão pela qual é desproporcional a agressão física para responder à piada de alguém. A única maneira justa de responder à piada ruim é com uma piada melhor.

Will Smith nasceu da comédia televisiva, onde é preciso improvisar. Mas naquele momento, tocado pelo sofrimento da mulher, esqueceu-se como faz. Ou estava bem alterado. De toda forma, é um grande ator ou não é? Parece que sim. E a cerimônia do Oscar é trabalho, exige improvisação. George Clooney, que surgiu para a fama como galã numa série de tevê sobre um pronto-socorro, é bem mais rápido neste quesito, e melhor.

A agressão do Will Smith, francamente, pareceu-me coisa que vi muito no nordeste brasileiro, onde o macho vai tomar satisfação quando um engraçadinho faz pouco de sua mulher, sua propriedade.

Deixasse Jada, ela própria, responder à piada ruim, certo?

Ou respondesse ele depois, com o Oscar na mão.

Cena roubada

Achei triste quando no passado não só o Ivo Pitanguy como o Zé Sarney entraram na ABL. E quando chegou a vez do Paulo Coelho, pra mim tudo aquilo virou grêmio escolar, onde personalidades do espectro político, ora reaças de verdade, ora neoliberais da arte, revezam-se para ocupar o lugar dos grandes escritores, estes que já vinham fora do clube e fora permanecerão.

Não vi o discurso da Fernanda nem vou ver. Bastou que eu soubesse que usou seu poder para declarar seu não-voto à presidência, o que não fez sentido pra mim. Declara-se o voto quando se tem um ou não se declara nada, certo? Como personalidade, você tem um peso, exerce influência. Sem contar que estamos afundados neste Brasil. Entrar para a eternidade das artes assim talvez não tenha sido o melhor pra ela, mas que sei eu?

Eis uma atriz de respeito, uma dama de excelências, claro, soberba em “A Falecida”, embora capturada em algumas situações, por um Othon Bastos, por exemplo, que, sem dizer palavra, roubou a cena ao contracenar com ela em “Central do Brasil”. Fernanda deve sempre levar outros atores a querer superá-la, e isto deve ser uma coisa maravilhosa, tenho certeza.

O risco

Me retratei nesta imagem há dois anos e poucos meses, antes de uma conversa que fiz a pedido do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, sobre a obra da fotógrafa estadunidense Susan Meiselas.

Eu estava mais do que feliz naquele dia com o convite para falar ao público ao vivo, ademais no solo do museu que pra mim é um fundamento. Mas me sentia apreensiva também.

As conversas na biblioteca do IMS, eu percebia, não situavam muito o assunto fotografia como eu o via, antes se centravam nos temas desenvolvidos por seus realizadores – e quando o assunto é fotojornalismo, como no caso desta grande profissional, talvez não se pudesse nem devesse fugir deste enfoque, pois o assunto e seu viés dizem tudo sobre a grandeza política, a ética de um autor.

Ainda assim, me pus a falar sobre o que fazia sentido pra mim, não somente sobre a atividade de strippers nas caravanas daqueles anos 1970 que Meiselas acompanhou, mas também sobre a luz, as escolhas de um fotógrafo, o que o ampara, linhas, prontidão, sua formação visual, a construção de seu olhar.

Eu talvez não erre ao dizer que a conversa foi um sucesso, já que o público maravilhoso (muitos homens e mulheres da vida comum, velhos, jovens, alguns lindos amigos e a turma do educativo do museu, tão nova) estava aberto a ela, até ansioso por ouvir meus pensamentos, entender minha leitura da fotografia, influenciada que é, entre outras, pela obra e pela genialidade do fotógrafo-pensador paulistano Carlos Moreira.

E então, logo em seguida a este evento, veio a pandemia e anulou minha sensação de que eu poderia levar adiante meu intento, o de promover a modesta organização de um curso sobre a ação das mulheres artistas na fotografia, bem antes e bem depois de Meiselas. O IMS não me chamou para refletir sobre isto, até porque passou a haver uma onda de estudos acadêmicos sobre o assunto, e meu “orientador” (mais que isso, pai, irmão, amigo), apesar de ter sido um professor exímio na Escola de Comunicações e Artes da USP, não escreveu livros, não provou sua tese aos pares acadêmicos e muitos fotógrafos brasileiros ignoram o grande artista que ele foi.

É claro que, diante da derrocada de tudo, pensei em fazer algo por mim mesma, ainda mais em meio a esses tempos que provaram a serventia disciplinar do zoom, mas ainda não consegui. Não apenas porque me alimenta o calor das presenças físicas, mas porque não sei empreender negócios em meu nome como deveria saber. Ainda espero levar isso pra frente, contudo, assim como espero organizar um minicurso para os amigos interessados na comédia italiana, esta que foi tema do meu doutorado na História da USP.

Eu sou um pouco distante dos modos presentes de fazer as coisas, talvez não tenha a proatividade exigida, como eles dizem, mas sei que isto, mais que um problema, é uma circunstância que um dia chegarei a remover como quem estende as roupas no varal ou prepara a mesa pra comer.

Além do mais, a vida é esse risco todo mesmo, esse perigo que a gente sabe quem detectou, e não há como viver sem resistir.