A Casa Abandonada no mundo bizarro de Seinfeld, Billy Wilder, Gil Gomes e Grey Gardens

Ao espetacularizar um caso não resolvido, caímos num buraco sem fundo

Edith Bouvier e a filha Little Edie em “Grey Gardens”, de Albert Maysles

Mundo Bizarro. Assim, em um episódio do programa Seinfeld, intitula-se um universo ao contrário. Nesse universo especular, o Super-Homem faz tudo inversamente, fala tchau quando deveria dizer oi. Esse princípio dá origem, no episódio, a situações semelhantes no mundo dos personagens. Ali aparecem os duplos dos amigos tão especiais da personagem Elaine – porém, ao contrário deles, nerds, que leem livros e têm compaixão.

Em “Seinfeld”, a repetição
bizarra dos amigos de Elaine

Ontem assisti ao episódio de Seinfeld na Netflix e ele me remeteu ao caso A Casa Abandonada. Quando apareceu o podcast, não o ouvi, possivelmente não ouvirei. Gosto do que o Chico Felitti escreveu sobre Fofão, um personagem doce, gentil e muito conhecido na região em que eu morava. A apuração de Felitti sobre sua história foi extensa, compassiva, como não existe mais nos jornais. Alô, jornais! E a Folha, sabedora disso, uma das maiores responsáveis pelo estado de pobreza escrita e moral do jornalismo, encampou a ideia para dela se beneficiar.

Mas, bem, o Chico Felitti, no caso do Fofão, novelizava um caso resolvido – Fofão morreu. Enquanto agora optou por uma narrativa em andamento. Isto é, uma personagem com um passado de crime que se deteriora física, quiçá mentalmente, numa casa abandonada em um bairro central e rico de São Paulo.

O dramaturgo Sófocles dizia que a história de alguém só pode ser conhecida com sua morte. Não sabemos de verdade o que aconteceu e acontecerá com a personagem em questão, com o que se passa realmente com ela neste instante. Por que novelizar o caso sem dispor desses elementos?

Kirk Douglas em “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder

Ninguém aqui quer evocar, penso, A Montanha dos Sete Abutres, filme que Billy Wilder fez em 1951. Nele, Kirk Douglas interpreta um jornalista que, ao descobrir a história de um mineiro encalacrado, dá ibope ao seu trabalho de apuração mantendo a vítima presa quando poderia ter ajudado a soltá-la. O jornalismo é moralmente indesculpável. Claro que Chico nada parece ter do personagem de Kirk Douglas, mas o problema, aqui, é que não sabia da história toda para novelizá-la. Um Mundo Bizarro de Gil Gomes que resultou no desfecho de Datena.

O radialista Gil Gomes, ritmo fantástico

Gil Gomes! Cresci ouvindo os programas de rádio dele, muito bons. Diários. Os crimes eram dramatizados como os jornais não saberiam ou poderiam fazer. Com ritmo, repetições, um suspense doido, um sensacionalismo até o limite. O radialista, que também atuou na tevê, morreu em 2018.

Não ouvi o podcast do Felitti, mais uma vez. Penso que o jornalista, com seu talento de escritor, tenha feito uma novelização expandida, muito bem montada, de um caso que tornou quente. Impossível de se ver decidido pela polícia local, por não ser competência da justiça brasileira resolver a questão – nem a polícia, portanto, pode agir. Mas por que agiu? Brasil. Mundo Bizarro de polícia. Mundo Bizarro de democracia, e a polícia, ontem, foi até lá, com Datena para dar um fim ao espetáculo, vitimizando a mulher que vive em condições precárias após ter fugido décadas atrás dos EUA, onde escravizou uma empregada.

Que história! Quanta semelhança com o caso Grey Gardens, em que uma prima de Jacqueline Bouvier Kennedy, nos anos 1970, deteriorava-se nos Hamptons, na casa abandonada em que morava com sua mãe! Mundo Bizarro novamente, porque, ao contrário da moradora da Casa Abandonada, Edith Bouvier e sua filha, Edith “Little Edie” Bouvier, não cometeram crime algum, exceto talvez o de saúde pública, que já havia sido resolvido pela própria Jacqueline quando o filme de Albert Maysles sobre o caso se deu, em 1975.

Nem quero imaginar o que acontecerá em torno dessa mulher brasileira a partir de agora. As espetacularizações começam com um estrondo e terminam num sopro. Para, Mundo Bizarro, que eu quero descer.

zunir pra ser

devíamos ser como os pernilongos que voam até o andar alto onde moro, todas as noites, faça frio ou sol, e me acordam durante o sono já precário, e bagunçam meu corpo pesado até no espelho, e me fazem perder a hora para a ginástica urgente de manhã, devíamos ser como esses bichos invisíveis, barulhentos, sedentos, lazarentos, contra o putrefato no poder que decretou viver eternamente com os pés fincados sobre o que a muito custo somos, nossos corpos, nossos dias, nossos sonhos.

Acontece assim.
Eu aceito todo mundo no Facebook.
Ou quase todo mundo que me pede “amizade”.
E noto que, por conta da porta escancarada que deixo (desse jeitinho mesmo, pra queimar meu carma, esse que nem sei se existe), ando aceitando sem perceber uns desequilibrados bolsonaristas que querem viver de arte sem largar o Bolsonaro e ainda me procuram para abraçá-los.

Uns doidos, doídos completos, mais do que somos neste lado da margem Pinheiros, zuretas de andar nus com roupa de plástico.

Tenho de desfazer a amizade com eles, mas, como são loucos, sinceramente sinto pena e ainda oferto umas xícaras de chá de boldo, quem sabe o amargo chegue ao doce?

Mas não sinto a mesma pena por senhoras condescendentes que me advertem por eu ter ofendido a religião X ou Z ou porque coloquei um meme muito divertido supondo uma atitude horrível partida de keanu reeves, obviamente estúpida e mentirosa, e por isso mesmo coloquei, mas elas não perdoam, gritando: “estúpida”!
Antes eu fosse estúpida, minha filha, mas o Brasil, de verdade, me tornou entupida. Me entupiu.
Por não fazer qualquer sentido, tudo isso ficou divertido…
E daí vêm me cobrar por ter proferido fake news?
Quando é que ironia virou fé?
Eu não to nem aí pra fake news.
Não sou eu que faço.
Fake news é o que fazem a Globo, a Folha, desde décadas atrás, quando suas peruas levavam suas jornalistas pro calabouço do DOI-CODI.
Só dou bobeira, pegadinha, contradição, sarcasmo, incoerência pra efeito cômico.
E que as pessoas se divirtam!
Virem-se!
Cresçam!
Deve haver um coach por aí que aumente QIs penianos!
Corram!
Me deixem boiar no vácuo de inteligência de vocês, vocês que andam atrás de um candidato melhor que Lula, um revolucionário bombado, ao menos!
Good luck and don’t fuck it up!

Tudo pode dar certo: minha entrevista com Geraldine Chaplin

Em outubro de 2015, aproveitei a rara chance que a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo me dava e, tremendo nas pernas, entrevistei a atriz Geraldine Chaplin, hoje com 78 anos. Me avisaram de um dia para o outro que eu teria dez minutos apenas para conversar com ela no saguão do hotel Renaissance da alameda Santos, em São Paulo. Cheguei lá antes, fui a primeira e abusei da sorte – de dez passei para vinte minutos de conversa, e ela não reclamou. Pessoa rara, raríssima, não recusou responder qualquer questão, riu comigo e me deixou fotografá-la com o celular, imagem que posto aqui. Todos os grandes são simples! Alguns dias depois, tentei entrevistar Wolfgang Becker (de “Adeus, Lenin”), diretor do filme no qual ela atuava, e ele foi tão diferente, um porco comigo, com perdão aos porcos. Quis que eu pagasse a cerveja que tomava no Maksoud Plaza e reclamou de só haver Heineken no bar. Paguei foi nada! Mas o filme com Geraldine era razoável, até muito bom quando ela aparecia nele. Na entrevista a seguir, a atriz atribui sua carreira à sorte. Diz que seu pai jamais quis lhe ensinar atuação, embora ela muito solicitasse. Chaplin, ela conta, demonstrava muito menos bom humor que sua mãe, Oona. Ele não sabia quem era Ingmar Bergman e só se interessava pelos próprios filmes. Cinéfila, Geraldine amou ter conhecido “Limite” e toda a fatalidade a envolver Mário Peixoto, seu diretor.

Com a camiseta das
Tartarugas Ninja e o crachá
da Mostra, posando para
meu celular: os grandes
são simples

Um mar de tranquilidade cerca Geraldine Chaplin. Aos 71 anos, sem jamais impacientar-se, a atriz enfrenta o burburinho em direção à mesa do saguão do hotel paulistano onde conversará sobre sua vida e seus filmes. A presidente do júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tem os cabelos pintados de preto e sua franja se vê encimada por um par de óculos de sol de cor laranja, que ela usa como uma tiara. Veste calça, tênis e uma camiseta com a estampa do desenho animado Tartarugas Ninjas. Uma estrela em “Kaminsky e eu”, o primeiro filme dirigido por Wolfgang Becker depois de “Adeus, Lênin”, de 2003, ela sorri sempre e fala rápido. “Humor é a única maneira pela qual você pode lidar com a tragédia da vida”, acredita, disposta a enfrentar qualquer pergunta, mesmo as inevitáveis a envolver Charles Chaplin, seu pai.

A filha maior em
“Luzes da Ribalta”, dirigida
por seu pai

Diz-se que o diretor mal viu os filmes em que ela atuou, mas a atriz assegura o contrário. Por exemplo, Chaplin assistiu a “Doutor Jivago”, no qual ela interpreta Tonya, em 1965. Era sua segunda participação em um longa-metragem depois de ter sido escalada, no mesmo ano, para estrear ao lado de Jean-Paul Belmondo em “Par um beau matin d’été”, de Jacques Deray. Ela havia seguido a carreira de bailarina depois de uma breve aparição, aos 8 anos, em “Luzes da Ribalta”, dirigida por seu pai. Mas o balé, que exercera com brilho até mesmo no circo, não lhe dera compensação financeira. “Não podia voltar para casa assim sem nada, não teria como encarar meus pais. E então pensei: ‘Talvez possa me tornar uma atriz.’ Eu tinha um bom sobrenome, não é? Aquele que me abriria portas. E saí atrás de empresário, simples assim.”


Em “Doutor Jivago”, seu segundo

longa: o diretor David Lean
a escalou porque ela
se parecia com uma russa

“Doutor Jivago” surgiu de um acaso. “O diretor David Lean me viu na capa de alguma estúpida revista feminina e, ao saber que eu era uma Chaplin, disse a sua produtora: ‘Ela parece russa, vamos testá-la’.” O longa correu animado, como sua carreira em mais de uma centena de filmes. “Toda a minha vida foi sorte, sorte, sorte”, diz, sem ironia. “Mas o sobrenome Chaplin não tem a magia de antes. Minha filha Oona, uma atriz maravilhosa, bem o sabe.” O fato é que depois de não se entender estupenda em “Doutor Jivago” pediu ao pai as orientações que auxiliariam seus futuros desempenhos. “Oh, você é a melhor coisa do filme”, respondeu-lhe aquele cujo nome, à época, talvez estivesse próximo de significar todo o cinema. “Queria seus conselhos e ele não me dava. Nem ligava para o que eu fazia ou apenas agia como meu pai.” De todo modo, ela desejou ser atriz, apaixonar-se pela profissão. “Mas não é uma carreira fácil, sabe? O estudo dos seres humanos que fazemos. Os deserdados que representamos. Como chegar até eles?”

No filme “Peppermint Frappé”,
do então marido Carlos Saura:
Chaplin amou

Talvez tenha se sentido atriz pela primeira vez ao lado do diretor espanhol Carlos Saura, com quem esteve casada por doze anos, e para quem atuou em clássicos como “Cria Cuervos”, de 1976. Quando partiu para viver com ele sob a ditadura franquista, seu pai arregalou os olhos: “Você enlouqueceu?” E ela sentiu então de perto a diferença entre lutar contra o totalitarismo imersa no regime ou a milhas distante dele. “Todos na Espanha odiávamos o dramaturgo Fernando Arrabal, porque ele atacava a ditadura acomodado em Paris”, recorda-se. “Percebi, naqueles anos com Saura, que os filmes poderiam ser mais, quem sabe mudar o mundo. Hoje é preciso reconhecer que provavelmente os filmes não mudem o mundo. Se assim fosse, vários deles, como os de meu pai, talvez tivessem transformado alguma coisa.”


Chaplin, que esteve na Suécia para receber um prêmio,

viu um filme de Bergman, gostou,
mas não tinha ideia de
quem fosse o diretor

Ao contrário do que sugerem relatos de época que informam o apreço de muitos diretores, como Vittorio de Sica, às avaliações positivas do criador de Carlitos sobre suas obras, Chaplin não assistia a muitos filmes. “Só os via quando estava escrevendo os seus, porque tinha de escolher com quem trabalhar. Caso contrário, nada de filmes, exceto os que ele fazia.” Uma vez foi à Suécia receber algum prêmio e, quando voltou, perguntou à esposa: “Vimos esse filme, tão bonito, tão incrível, daquele, como é o nome mesmo?” E Geraldine: “Ingmar Bergman?” Para que Chaplin respondesse: “Acho que é esse mesmo”. Ele não tinha a mínima ideia de quem fosse quem no cinema. Seu marido, Saura, Chaplin conheceu por necessidade, e gostou muito de “Peppermint Frappé”, de 1967, em que ela atuou.

Como uma documentarista
em “Nashville”: a única
orientação do diretor
Robert Altman foi que
ela o seguisse e imitasse

Um pouco à moda do pai, Geraldine buscou a originalidade, e suas interpretações mesclaram graça, profundidade e estranheza. Muitas vezes, um papel inesquecível representado por ela nasceu de uma orientação inesperada. Em “Nashville”, por exemplo, ela surpreendeu ao interpretar uma documentarista que sai atrás dos nomes da cena country estadunidense. “Eu não conhecia o trabalho do diretor quando aceitei o papel. Uma amiga que trabalhava com ele sugeriu meu nome”, conta. “Ao me aceitar para o filme, Robert Altman deu apenas esta indicação: ‘Siga-me e me imite.’ Fiz como ele pediu. Alguns dos filmes de que participei são muito bons, e eu fiquei tão feliz por ter atuado neste. Ninguém imaginou que virasse o que virou. Uma obra-prima, ao contrário de ‘Mash’, do mesmo diretor, que envelheceu.”

Na direção oposta à do pai, Geraldine tem muito a dizer sobre o cinema, novo ou antigo. Sentiu-se maravilhada, por exemplo, ao descobrir “Limite”, realizado por Mário Peixoto em 1931, restaurado e exibido durante a mostra. “Foi um choque completo para mim. Os planos são mágicos nesse filme melancólico, tão poético. E de pensar que, velho, o diretor ainda tentasse explicar essa magia jamais retornada, como se fosse um Arthur Rimbaud retirado da poesia, mas aos 21 anos.” Apesar de tão observadora, nem sempre deu sorte com os filmes de que participou, especialmente os dirigidos pelos novos. Ela destaca um raro caso de felicidade ao aderir a uma obra de estreia. Em 2007, interpretou uma médium em “El Orfanato”, um sucesso de crítica e público na Espanha. O diretor Juan Antonio García Bayona a quis para “A Monster Calls”, com lançamento então previsto para 2016, por sentir que ela lhe dava sorte. Contudo, de início, não tinha o que lhe oferecer. “O papel disponível era o de uma professora chinesa de 25 anos. E então Bayona decidiu que deveríamos esquecer que ela era chinesa e tinha 25 anos.”

Em 1952, entre Chaplin e Oona,
além da irmã Jacqueline: a
engraçada da família era a mãe

A atriz aderiu alegremente a “Kaminsky e eu”. Adorava o filme anterior de Wolfgang Becker, um diretor que lhe garantiu ter feito muito dinheiro no cinema e não ter pressa. “Ele me perguntou se eu aprenderia alemão para atuar, respondi que não. E no filme falo a língua apenas foneticamente. Mas Wolfgang se entusiasmou com a performance a ponto de me pedir para adicionar uma pronúncia francesa a meu alemão. Fiquei incrédula.” Seu personagem neste filme é um entre tantos que interpretou à margem da vida. “Tentei atuar como um computador que deu errado. Tudo estava lá, mas algum botão… Bem, não entendo nada de computadores. Vejo meu marido, o diretor Patricio Castilla, reclamar dizendo que perdeu tudo dentro deles, e eu penso como isso se dá. Então sou como um computador neste papel. Estou lá, mas não estou.”

Por não saber cantar, nunca enfrentou uma carreira na Broadway, como fizera seu irmão Sydney, embora tenha atuado ao lado de Anne Bancroft na bem-sucedida peça “The little foxes”, de Lilian Hellmann, dirigida por Mike Nichols. “O teatro é diferente demais, exige outra técnica. Cinema é o que sei fazer.” Uma arte naturalmente equilibrada entre o riso e a melancolia, como ela a entende. “Sempre vi o humor correr pelo sangue da família, mas jamais fui ensinada a desenvolvê-lo. Muito mais que meu pai, minha mãe nos divertia com seu senso de humor extraordinário. E somente Oona conseguiria rir das situações mais trágicas, como os funerais.”


Com o pai, que jamais quis
lhe ensinar a atuar

Um original inédito de Lygia

Lygia Fagundes Telles escreveu a meu pedido este texto em torno de um dos Dez Mandamentos, “Não cobiçarás”, incluído em uma publicação especial do Caderno de Sábado, suplemento literário do antigo “Jornal da Tarde”, em 1994, e não mais publicado. Ao digitar a ficção, produzida originalmente em máquina de escrever sobre duas folhas de papel sulfite, com correções manuais a caneta, mantive a grafia e a pontuação originais da escritora

A rubrica de Lygia, ao final do manuscrito

OS MANDAMENTOS

NÃO COBIÇARÁS

Lygia Fagundes Telles

As duas folhas de papel sulfite em que foi produzido o texto “Não cobiçarás”, para o Caderno de Sábado

Ele tinha apenas seis anos quando propositalmente deixou sua bola no quintal do vizinho e levou a bola do amigo. Assim que chegou em casa, escondeu-se debaixo da cama e ficou olhando deliciado a bola do outro que era mais descorada e menor, disso estava certo. Mas foi com renovado prazer que correu para brincar com ela.

Era quase um adolescente quando ao sair da escola, viu o pai estacionar o jipe para apanhá-lo. Parou e ficou a uma certa distância observando o pai todo amassado naquele jipe amassado fazer aquela manobra até ficar atrás do Jaguar do pai do seu colega. Apertou os olhos turvos. Apertou a boca pálida. Esperou que o colega entrasse no Jaguar (último tipo) e só então aproximou-se do jipe empoeirado, verdolengo. Tudo bem, filho? o pai perguntou. Fez que sim com a cabeça e apertou com força os maxilares e teve vontade de gritar, Não venha me buscar nunca mais nunca mais! Ficou em silêncio, mordiscando o lábio até sentir gosto de sangue na boca. Relaxou a posição tensa quando viu o Jaguar lá na frente desaparecer na esquina. Quis pedir licença para fumar. Ficou quieto. O pai iria fazer parte daquele discurso proibitivo e o melhor ainda era fumar sem permissão, o verdadeiro prazer no ilícito. No escuro.

A vocação (tão nítida!) o impelia para a medicina. Não atendeu ao chamado porque viu o primo que fez sucesso na arquitetura, dinheiro, glória. Melhor estudar arquitetura que estava na moda e oferecia tantas possibilidades, o primo tinha um escritório pomposo. E convites para viagens. Seu casamento foi um casamento de amor? Na festa em que comemoravam os quinze anos de casados (três filhos, projetos importantes, tanta ansiedade!) sentiu de repente um agudo prazer de estar dançando com a cunhada, era excitante demais o contacto quase cerimonioso com aquela que no dia seguinte estaria nua e inteira ao lado, inteira, ô! gozo pleno. Insubstituível. E o curioso é que essa cunhada não era nem mais bonita nem mais jovem do que sua mulher e no entanto com que intensidade o atraía. Eu te amo! quis gritar enquanto cortesmente perguntava se ela não queria mais um copo de vinho. Quer dizer que amor é transgressão?


Na doença (tão longa!) irritou-se quando lembrou que o irmão (aquele) tivera uma doença mais simpática, existe doença simpática? Pois ele tivera essa doença. Estranhou também a solidão, mas onde estavam todos? É verdade que a mulher há muito já tinha ido embora e os filhos, bem, aqueles filhos um tanto rejeitados estavam sempre distantes, sabiam que não eram os filhos sonhados, aqueles. Sabiam que o pai não vira neles os modelos ideais e foram se afastando aos poucos. Sim, não pudera esconder desses filhos que os quizera diferentes, assim como os outros, os primos tão festejados. Tão perfeitos. Mas por quê a vida melhor era sempre a do outro? ele pensou. E concluiu sem remorso, Eu não me amei. E se não consegui me amar é claro que não podia mesmo amar o meu próximo, esse próximo que teve uma porção maior do que a minha. Um quinhão melhor do que o meu. Abriu ao acaso a Bíblia e leu: Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertence. Não tenho boi mas tenho cavalo, disse à enfermeira quando ela chegou para aplicar-lhe a injeção. Uma criação de cavalos de raça, acrescentou e a enfermeira sorriu e cochichou com a outra, Ele está delirando. Antes que a enfermeira saisse, comentou ainda que não tinha a criação sonhada porque essa era a do haras do vizinho onde estavam os mais belos cavalos de corrida do mundo, se vivesse mais conseguiria esses cavalos. A enfermeira concordou, Sem dúvida, sem dúvida. Quando abriu a porta do quarto para sair, ele estranhou, que barulho era aquele ali no corredor do hospital? Ela hesitou um pouco. Mas achou melhor contar, o doente do apartamento vizinho tinha acabado de morrer e a família, os amigos… Ele apertou os olhos e apesar da névoa ainda tinham esses olhos a mesma expressão daquela manhã em que o menininho levou a bola do amigo. A expressão ávida com que enlaçou mais tarde a mulher do irmão, Vamos dançar? E depois e depois. Teve um breve gesto para reter a enfermeira, Quer dizer que esse vizinho morreu e a família, os amigos, estavam todos por perto? Perguntou e percorreu com o olhar o brancor vazio do próprio quarto. Quis ainda saber, qual tinha sido a doença desse vizinho? Ouviu a resposta, um problema cardíaco, a morte fôra rápida enquanto dormia. Ele ficou pensativo e disse a última frase da noite. A última da vida, Quisera eu ter uma morte assim feliz.

O envelope com o timbre da Academia Paulista de Letras onde o texto de Lygia foi incluído, entregue a mim pelo funcionário do jornal Armando, que foi pegá-lo a meu pedido

A odisseia paulistana de Vlavianos

O imenso escultor grego Nicolas Vlavianos, radicado em São Paulo há seis décadas, morreu hoje nesta cidade que considerava sua, aos 93 anos, de insuficiência respiratória. Quando chegou aos 80, ele me concedeu esta entrevista, em maio de 2009, na qual descreveu sua revolução pelo aço, mas não só. Conversar com este artista foi um grande privilégio meu. Aprendi como poucas vezes no jornalismo, antes ou depois, o sentido da arte em um tempo que inviabiliza o esforço físico e no qual a escultura não cabe mais.

Em foto de Patrícia Stavis, o escultor Vlavianos segura uma miniatura, ele que foi o artista da grande escala

POR ROSANE PAVAM

Sob seus olhos há pequenas bolsas e os cabelos brancos estão gentilmente rebeldes, mas o escultor grego Nicolas Vlavianos ainda pensa como sorri, de um jeito jovial, aberto às utopias. Ele habita São Paulo há quase cinco décadas, os pais e a esposa morreram aqui e os filhos Myrine e Gabriel prosseguem o caminho que ele abriu na arte. A cidade é seu lugar e sua revolução.

Homenageado pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte em abril, Vlavianos tem 80 anos, 40 deles como professor e coordenador cultural da Faculdade Armando Álvares Penteado, a Faap. Mas nada disso talvez conte tanto para ele quanto esta metrópole, toda por sua desde que o artista foi selecionado à VI Bienal Internacional de Arte. “São Paulo me deu a oportunidade de não sentir falta de alguma coisa”, raciocina Vlavianos, inclinado a terminar sua narrativa com frases excelentes, um homem educado que se senta em seu escritório na Faap em meio a pequenas esculturas nas prateleiras, uma mesa com papéis, folhetos e livros de arte e um computador.

Menino em Atenas

Vlavianos contava 32 anos naquele 1961, não era casado, não tinha filhos, não terminara o curso de Direito e seus pais, Charilaos e Evangelia, continuavam tabeliães em Atenas, de onde ele saíra cinco anos antes para habitar Paris. Por sua natureza de escultor, jamais pulou de lugar em lugar, sempre fixado à forja dos ateliês. Não era surpreendente, portanto, que de toda a Grécia só conhecesse a capital, até deixá-la, em 1956, aos 28 anos. Na cidade francesa, suas exposições adquiriram fama para além do estúdio que alugara em Montparnasse. Ele era uma nova realidade nas mostras do Museu Rodin, um artista finalmente moderno, contra tudo o que seu país lhe proporcionara.

É preciso não exercer a tentação de associar a imagem de Vlavianos à de todos os grandes escultores gregos dos quais aprendemos histórias. Vlavianos não é Fídias, não constrói imagens de adoração que parecem uma coisa quando vistas de perto e outras diferentes se observadas do sopé da montanha. Vlavianos não é um clássico, assim entendido o artista como um homem da Antiguidade. Ele nunca persegue a velha escola. Ontem como hoje, olha para o depois.

Paris aconteceu em sua vida porque os gregos deixaram de ser como seu conterrâneo Fídias, do qual não restaram obras, apenas relatos. Desde meados do século XIX, os gregos eram alemães da Bavária no campo da arte, e Atenas não pertencia politicamente a si mesma. A escultura neo-helênica, surgida nos últimos dois séculos, fora influenciada pelo neoclassicismo alemão. Os gregos, então, obedeciam curiosamente a quem reinterpretava sua luz antiga. “Não existia arte moderna em meu país”, diz.

O artista e sua lida, na cidade que lhe possibilitou a revolução pelo aço inoxidável e lhe deu um ambiente artístico atento, ameno, solícito

O Brasil do artista grego não tinha passado e seu futuro parecia certo aos estrangeiros. Como todos os que correram para cá naqueles anos, Vlavianos não enxergava limites nas terras brasileiras. A língua portuguesa não lhe parecia difícil, ele que falava francês, e além disso o jovem a sofisticava de tempos em tempos com a leitura da coluna do Vão Gogo, na verdade Millôr Fernandes, na revista O Cruzeiro. O clima era quente e os homens e mulheres, amenos. Todos, neste particular, eram um pouco gregos também.

Bastava conversar com uma profissional especializada como Felícia Leirner, a ele apresentada por um amigo grego comum, para que todo o mundo da arte se abrisse a Vlavianos. Havia críticos na São Paulo de então para notar sua existência e convocá-lo à contribuição no panorama das artes. Walter Zanini o percebera como escultor e se tornara seu amigo pessoal. Mário Pedrosa e Geraldo Ferraz acompanhavam entusiasmados a solidez do artista. A partir de pessoas como essas, a amizade com Cacilda Becker lhe surgiria como um novo degrau. A atriz de Pirassununga aproximara-se do escultor com uma proposta teatral.

Em 1963, Vlavianos já alugara um ateliê, em razão da encomenda feita por um funcionário da Bolsa, Fernando Leite de Barros, que desejava ter um cavalo de bronze em tamanho natural, parecido com aquele fincado no Edifício Itália. Para fazer a escultura por boa quantia, Vlavianos não viu outra opção a não ser alugar um estúdio, encontrado à rua Espártaco, para diversão do escultor. O gladiador de origem trácia liderara a maior revolta de escravos da Roma Antiga e entrara no imaginário popular alguns anos antes por meio da interpretação de Kirk Douglas no filme Spartacus, de Stanley Kubrick. Enquanto Vlavianos fazia o cavalo no estúdio da Lapa, Cacilda lhe pedia armas para a montagem de César e Cleópatra, uma peça de Bernard Shaw que se revelaria um fracasso de público em 1964. Vlavianos compôs escudos, capacetes e espadas para os personagens ensurdecerem em cena os poucos espectadores.

Por essa época, as esculturas do artista começaram a mudar. Em sua sólida base terrena, sem jamais aspirar à leveza de quem voa pelo céu ou o procura, as obras ganharam flexibilidade, pregos, furos, humor. E aço. São Paulo deu-lhe o que, para Carlos Drummond de Andrade, havia de sobra nas calçadas da mineira Itabira, e também nas almas. “Em Paris, eu usava bronze e alumínio”, conta. “Mas São Paulo me deu o aço inoxidável.” E não somente ele. “Aqui achei eletrodos para soldar, lixas para lixar, todo o maquinário destinado a esculpir.”

Esta foi uma revolução para Vlavianos e para a arte do Ocidente, embora poucos se dessem conta do enorme fato. Até os anos 1960, não havia quem se atrevesse a esculpir integralmente em aço em todo o mundo. O material e o equipamento para manejá-lo, fartos na capital paulista, impulsionaram essa revolução.

“Sempre falamos mal de São Paulo, e eu também. Mas considere isso. A cidade tem de tudo.”

Aqui também houve centros para estudar a arte. O grego foi convidado a dar aulas na Faap em 1969, depois de recusar o convite do amigo Zanini para ensinar na Escola de Comunicações e Artes da USP, pobre em ateliês e recursos. Na Faap também dava aulas sua mulher, a artista Teresa Nazar. Ele via com bons olhos o trabalho estável, que ainda lhe rendia mais espaço para planejar as esculturas. Contudo, não tinha qualquer didática a oferecer à garotada. “Ainda não tenho. O que eu sei fazer, até hoje, é trazer os alunos para produzir as coisas. Nunca falo ‘o seu projeto é uma merda’. Eu digo: ‘Dá para melhorar’.” Ele não se recorda de um nome extraordinário saído de suas aulas de escultura, mas reconhece ter tido bons alunos pintores.

Isso porque a pintura, no seu particular modo de ver, é um estágio para um crescimento tridimensional. A arte começaria pela poesia. Dela seria possível chegar ao desenho e, posteriormente, à tela com cores. E, desse estágio, existiria a chance de alcançar a escultura, primeiramente feita com materiais maleáveis, como a madeira e a pedra-sabão de Minas Gerais, depois com os blocos rígidos.

A questão importante, para ele, é que hoje em dia não há nem mesmo uma possibilidade real para quem deseja alcançar o estágio de um escultor. “A escultura não é para nossa época”, sentencia. “Ela requer um grande esforço físico, mas nós perdemos essa capacidade de nos esforçar fisicamente.” O computador daria soluções mais rápidas e desacostumaria o artista com a lida. “É um instrumento que estreita o pensamento. Não é o computador que entra na sua maneira de pensar, é você que entra na maneira de pensar do computador.”

Para Vlavianos, que experimenta, contudo, parcerias para esboçar projetos nesse formato, tal meio técnico inibe até mesmo a avaliação de um problema, quando ele surge. E é só compreendendo o problema corretamente que se pode solucioná-lo. A solução, na escultura, acontece quando usamos a cabeça e as mãos, não quando clicamos o mouse, defende.

O computador também responderia a uma necessidade que a época tem por reagir de forma menos agressiva às coi- sas. “Quando o sapo é jogado na água quente, pula de imediato. Mas não percebe a ameaça se é cozido em fogo brando. Quem percebe o aquecimento global, a menos que tudo aqueça demais?”

Vlavianos compara esse estado de coisas na arte ao jornalismo, que incluiu gastronomia no cardápio, quando antes só admitia, e em casos específicos, a publicação de receitas de pratos. “O que vou fazer? Brigar por isso? Para brigar, seria necessário uma razão que o tempo não me dá.”

O espírito do tempo pede a acomodação, não a polêmica, o debate de ideias, afirma Vlavianos, como quem se resigna. Uma vez que a crítica acabou, o que é artístico se torna também negociável. A arte encarece com a necessidade atual de patrocínios, transporte, seguro, fotografia. Há a figura especialmente intrigante do curador. Ele é o homem do conceito, mas e se o conceito estiver errado? “Um conceito errado, por exemplo, é o de arte brasileira. Se colocamos estrangeiros para fazer arte brasileira, o que isso significa? Não existe arte brasileira. Existem os artistas do Brasil. Existem o carnaval e as mulatas.”

Vlavianos não tem conselhos a dar ao artista novo. Exceto, talvez, aquele de trabalhar de forma incessante, sem esperar enriquecer. “Se você quer dinheiro, abra um bar. Os bancos são os caminhos mais fáceis para isso. Para fazer arte, ou seja, expressar uma pequena parte do que pensa, você não pode exigir descanso. Se eu fico parado, tenho ideias muito boas de vez em quando. E daí? Daí, nada.”

O artista nunca soube o exato significado de seu nome de família. Talvez, em grego, algo “vlaviano” equivalha a algo “fiel”. O qualificativo faria sentido para ele, já que, neste mundo, a coisa que suporte mais dificilmente seja a perda de “quase todos os amigos”. Restaram-lhe as utopias. Ele ainda espera, como um sonho, correr um rio e conhecer a França inteira.