Um amor em cada porto

O filme “Martin Eden” transpõe para a Itália heroicamente desiludida a obra de Jack London sobre o engajamento das palavras

Luca Marinelli é Martin Eden, entre ferozes utopias

Metade deste Martin Eden (2019) é só o Jack London que amo e seus Estados Unidos da América, aqueles onde o escritor viveu, entre 1876 e 1916. A outra metade é a Itália idealizada, amada igualmente, onde este filme foi escrito a partir do livro homônimo e em parte autobiográfico de London, máxima ficção sobre a honra perdida do jornalismo, minha profissão e meu descontentamento.

Então é muito o que peço a este filme desde seu início, que faça jus ao que espero, na verdade anseio, aquilo por que luto e pelo que vivi por tantos anos, desde a adolescência tardia embebida pelos textos mágicos do escritor, alguns deles que também ousei traduzir (no volume 11 da coleção Para Gostar de Ler, 5 reais na Estante Virtual).

Jack London, no reino dos fortes

Martin Eden, por favor, não é apenas a história amorosa e aventureira de um marinheiro alçado ao fervor das palavras, estas que já sentia suas mesmo antes de deparar com o insólito universo liberal dos letrados. É antes um filme-estudo sobre a promissora ascensão socialista, que logo cederia lugar à Primeira Guerra, fagulha a acelerar a mais nova, infame e persistente ameaça à igualdade, o fascismo.

Jack London acolhia as ideias de Spencer, bem explicitadas neste filme, e traduzidas pelo escritor numa espécie de socialismo utópico que deveria ser conduzido por indivíduos fortes como ele próprio. Este indivíduo político que London lutou pra ser durante seus intensos 40 anos de vida e uma literatura tomada pela paixão que contamina, rasga e exaspera os sonhos, acabou um dia, adivinhe, a se diluir na autoimagem condescendente estadunidense, aquela segundo a qual a todos em sociedade se dá a oportunidade de tornar-se o que bem projetar. De pensador temperamental em prol da justiça social, Jack London, melhor dizendo, sua aura pública, foi então aos poucos associada a uma imaginária essência voluntariosa e benéfica do capital competidor.

Em que pese o fascismo

Minha alegria diante deste filme nasceu primeiramente disto, de ele não se deixar cooptar por nenhum capitalismo. Não reconstrói Martin Eden para o bom palato estadunidense. O homem foi e será para sempre muito difícil de engolir, nos diz. Bruto, verdadeiro. Antiliberal. Para dar conta de seu protagonista, o diretor e roteirista do filme (junto a Maurizio Braucci), Pietro Marcello, chamou o forte ator Luca Marinelli, de longo nariz e olhos azuis. Ele é Martin porque é o Éden também. Um ator para fortalezas e nuances.

Com Elena (Jessica Cressy), sonho azul
Com Margherita (Denise Sardisco), um vermelho furor

Ele briga, ama, peleja na siderurgia, envia mais e mais originais às redações, sempre rejeitados, quer bem à irmã como London também quis, para só depois de muita humilhação e acolhimento proletário se tornar um profissional sem qualquer escusa, sem jamais aceitar o posto no escritório que lhe apontava sua noiva rica, ilustrada e delicada para palavrões.

A imensidão que engendra a revolução

O filme perturba os tempos. A indefinição de onde nos encontramos, dentro dele, é uma de suas porções adoráveis. Quando proletário, Martin Eden é também o mundo dos pobres italianos desde as greves piemontesas até aquele dos anos 1970 em que a televisão se infiltra aos poucos como adorno principal unificador. Quando se mete entre os ricos, o filme penetra facilmente no século 19 onde esta história começa, com seus salões vastos e sua preciosa decoração imperial. Você nunca perceberá exatamente em que ano estará, exceto quando descobrir que é este o jogo do filme, desenraizá-lo até que atinja a realidade dolorosamente imutável de nossos próprios tempos de desilusões.

Nápoles para marinheiros

Ambientado em Nápoles, que espertamente substitui a fria Oakland do livro, Martin Eden fala principalmente sobre a fúria heróica que acometeu o italiano no pós-Segunda Guerra. Um heroísmo fatalmente sucedido pela vilania pequeno-burguesa (bem pequena) do boom econômico, segundo a forma cinematográfica paciente com que Mario Monicelli a descreveu. É isto mesmo o que parece. Por vezes o belo ator Marinelli adentra o terreno abraçado por Alberto Sordi na dura commedia all’italiana… Estará ele a reviver o jornalismo idealista e o ardor militante fulminados pela paixão impassível de Uma Vida Difícil, de Dino Risi? Toda a parte final do filme é um grito do grotesco que acomete os bem-sucedidos, todo o épico do horror cômico em que os sonhos findam…

O mar que marca

E isto tudo com tamanha textura nas imagens, uma granulação a evocar os impressionistas, o azul sobressaído, os homens a se movimentar na multidão!

Que filme surpreendentemente atual com que gastar suas horas tristes.

MARTIN EDEN
Diretor: Pietro Marcello
Itália, 2019, 129 min

sem amor outra vez

então.

precisei comprar na padaria de novo e uma hipster adentrou a área da vitrine para olhar os produtos, desrespeitando a distância – muito próxima de mim, portanto.

reclamei de sua atitude e ela partiu pra perto de minha máscara.

lembrei-lhe que não encostasse, que não estava mais falando com ela e virei as costas.

parece que são paulo voltou a ser aquela mesma coisa sem amor de novo.

e eu… eu constatei mais uma vez que sou a rosane de sempre.

um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra infernizar o gado ruim.

No país dos fantasmas

Em “O Dia em que Perdi Minha Sombra”, vencedor há dois anos do Leão de Ouro do Futuro no festival de Veneza, a saga das mulheres sírias que não podem desistir

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“O dia em que perdi minha sombra”, de Soudade Kaadan, na Mostra Mundo Árabe de Cinema

Este filme cava sepulturas. Este filme e suas mulheres. Elas são o solo onde repousam os guerreiros ao fim de todas as batalhas, até a final. Ao mesmo tempo, numa abordagem que evoca o sonho, representam o país naquela invisível porção que respira.
Soudade Kaadan, diretora síria nascida na França, estudou cinema no Líbano e por este O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA, de 2018, primeiro concorrente da Síria em Veneza, ganhou o Leão de Ouro do Futuro para estreantes. Uma estreia sobre as ruínas que começaram a ameaçar seu país em 2012 e que agora talvez o tenham destruído.
[No dia 3 de setembro, ela é entrevistada online, e você pode assistir ao bate-papo com tradução após sua inscrição no Zoom]
Ação todo o tempo, sob o frio, sob o sol, câmera na mão, a mata de galhos secos sacudidos pelo vento, os carros que emperram… Poderia ser um felino por ali, mas é a jovem interpretada por Sawsan Arshid, uma farmacêutica a lidar com as usuais dificuldades numa zona de guerra (bombardeios, delações, falta de luz, de água e de gás), mãe de um menino de 6 anos, abandonada pelo marido. Ela só precisa de um botijão para cozinhar, mas à procura do valioso produto se mete numa peleja com um casal de irmãos, um deles esvaído da própria sombra.
É uma metáfora poderosa. Todo ser humano em íntimo contato com a morte já morreu um pouco. E, sem que sua imagem se reflita, transforma-se num anjo a proteger quem caminha a seu lado. É como se a jovem tentasse repetir a perplexidade e a força de uma Anna Magnani em ROMA, CIDADE ABERTA, mas se visse imersa num mágico neorrealismo à moda do Vittorio de Sica de MILAGRE EM MILÃO. O futuro é uma construção no país dos fantasmas.
O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA
Diretora: Soudade Kaadan
Síria/França/ Líbano/ Qatar, 2018, 90 min
Onde: bit.ly/3gL0vtc [até 6/9]

tempos hodiernos

Saí para a rua hoje, depois de seis meses, e mal diferenciei as calçadas das pistas de automóveis.
As fotos não saíam.
Eu mesma mal andei.
É vertiginoso voltar à divisão do tempo.
Agora que vem a noite, vivo a amargura dos fins de domingo.
Só porque saí pra rua?
Só por isso.
Nas últimas várias semanas, não tenho emprego, só problemas.
E os resolvo trancada em casa, conforme aparecem, num compasso lento que é só meu.
Mas hoje rompi o fio.
Me meti no fluxo de todos, que continua intenso.
Gentes pobres, gentes ricas, todas sob o sol de quase setembro.
O que senti foi o tempo dividido segundo a produção maquinária.
Mal acreditei desenrolar-se lá longe, no Bacio di Latte, a festa do sorvete que só o fim de semana propicia…
Mas eu vinha livre disso!
Que se dane o lazer regrado!
Constato na pele o que incomoda os genocidas do poder, até mais do que nossa morte, que eles aliás anseiam.
Deve irritá-los nossa autonomia diante da corda onde nos enforcam e que denominam eixo.

John Huston, por que o senhor faz filmes?

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John Huston no set de Moby Dick, por Norman Parkinson

Da série Maravilhas no YouTube.
O diretor John Huston é perguntado aqui sobre por que faz filmes.
Bem, ele diz, faz filmes porque é fascinado pelo meio em si.
Para ele, o cinema descreve melhor o processo do pensamento do que os livros.
E olha que Huston foi um excepcional leitor.
Ele diz também que não procura passar qualquer mensagem em seus filmes (não, segundo saiba, conscientemente).
John Huston dirige filmes que de alguma forma lhe interessem, esperando que haja, no público, alguém como ele, ou que ele seja igual a seu público.

Ninguém derruba a história

“Fantasmas em Roma”, clássico de Antonio Pietrangeli, ronda o YouTube em versão original

As assombrações se divertem, capitaneadas por Mastroianni

“Fantasmas em Roma” é um filme divertido, crítico e bonito de Antonio Pietrangeli (como, de resto, todos os que ele fez), além disso bem-sucedido nos cinemas paulistanos à época de seu lançamento, em 1961, quando todo o bom cinema merecia um circuito comercial na cidade. Redescubro-o no YouTube em sua versão original sem legendas (“Fantasmi a Roma”), com música de Nino Rota.

O diretor Antonio Pietrangeli

Pietrangeli começou como roteirista e auxiliar de direção de Luchino Visconti em “Ossessione”, versão italiana de 1943 para o clássico noir de James M. Cain. Este romano escreveu para muitos outros máximos diretores de seu país, como Pietro Germi (Gioventù Perduta, 1948) ou Roberto Rossellini (Dov’è lá Libertà, de 1954, com Totò). E foi crítico dos bons.

Morreu de maneira trágica, como tragicômica era a maioria de suas histórias, à moda da mais famosa, “Io la conoscevo bene”, de 1965, na qual Stefania Sandrelli vive uma jovem impedida de realização social pelo preconceito que então rondava a mulher. Pietrangeli morreu afogado quatro anos depois de realizar este clássico, enquanto filmava a sequência final de “História de um Adultério”. Aos 49 anos, caiu de um penhasco onde se colocara para orientar seus atores.

Duas almas contra um especulador

Este “Fantasmas em Roma”, excelente representante da aguda commedia all’italiana, escrito por ele, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ennio Flaiano e Sergio Amidei, heróis do roteiro cômico em duas gerações, é atípico de uma carreira dedicada a compreender a complexidade feminina. Mas, sempre um ácido crítico do consumismo especulador, Pietrangeli mostra aqui a farsa embutida na tentativa de derrubar a história (personalizada por um velho casarão) para nela construir um supermercado.

E o papagaio do príncipe não recitava Lampedusa…

No palazzo em que se passa a trama, mora um príncipe decadente (o grande ator e dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo), que fala sem sucesso com seu papagaio morto, incapaz de declamar Lampedusa, como haviam lhe prometido. Don Annibale di Roviano vive entre os fantasmas de sua família, embora não possa vê-los, nem saber que eles o protegem. Os Roviani são a ruína (“rovina” em italiano) que persiste com seu respaldo. O fato de ser um príncipe que não trabalha ainda lhe dá uma posição em sociedade.

Marcello Mastroianni interpreta Reginaldo di Roviano, o fantasma de uma espécie de Casanova, e mais dois outros papéis – o de um de seus tortos descendentes e o de um terceiro debiloide que ele não suspeitava pertencer a sua linhagem. Vittorio Gassman é o fantasma irascível de Caparra, pintor rival de Caravaggio, chamado pelos outros na batalha contra os novos ocupantes.

Vittorio Gassman é o pintor
diante de uma Sandra Milo que se
suicidou por amor

À parte a vistosa aparição de Valentina Cortese, vivente enlouquecida pela traição do marido, a esmolar nos restaurantes sob o apelido de Rainha, uma doce Sandra Milo representa o fantasma de jovem que se suicidou de paixão. Um menino (Claudio Catania), irmão mais velho de Don Annibale, morto criança, ronda rindo os espaços do casarão, da escola (onde ajuda uma protegida) e da rua, para onde Sandra Milo vai todas as noites atirar-se novamente ao rio. Enquanto isto, o Frei Bartolomeu (Tino Buazzelli), morto pela boca, que ardia por um polpettone, ainda fareja o melhor prato de comida entre os vivos.

Com eles ninguém pode

Estas assombrações são molecas, felizes, vestem as roupas prateadas das estrelas invisíveis, riem-se, enfurecem-se, erram os costumes. (Mastroianni se interessa por uma cantora que descobre ser um cantor…) Mas que ninguém ouse ocupar o retiro dos fantasmas. Se depender dos Rovianni, não vai ser desta vez que a história será destruída por uns maços de dinheiro da velha corrupção.