precisei comprar na padaria de novo e uma hipster adentrou a área da vitrine para olhar os produtos, desrespeitando a distância – muito próxima de mim, portanto.
reclamei de sua atitude e ela partiu pra perto de minha máscara.
lembrei-lhe que não encostasse, que não estava mais falando com ela e virei as costas.
parece que são paulo voltou a ser aquela mesma coisa sem amor de novo.
e eu… eu constatei mais uma vez que sou a rosane de sempre.
um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra infernizar o gado ruim.
Em “O Dia em que Perdi Minha Sombra”, vencedor há dois anos do Leão de Ouro do Futuro no festival de Veneza, a saga das mulheres sírias que não podem desistir
“O dia em que perdi minha sombra”, de Soudade Kaadan, na Mostra Mundo Árabe de Cinema
Este filme cava sepulturas. Este filme e suas mulheres. Elas são o solo onde repousam os guerreiros ao fim de todas as batalhas, até a final. Ao mesmo tempo, numa abordagem que evoca o sonho, representam o país naquela invisível porção que respira.
Soudade Kaadan, diretora síria nascida na França, estudou cinema no Líbano e por este O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA, de 2018, primeiro concorrente da Síria em Veneza, ganhou o Leão de Ouro do Futuro para estreantes. Uma estreia sobre as ruínas que começaram a ameaçar seu país em 2012 e que agora talvez o tenham destruído.
[No dia 3 de setembro, ela é entrevistada online, e você pode assistir ao bate-papo com tradução após sua inscrição no Zoom]
Ação todo o tempo, sob o frio, sob o sol, câmera na mão, a mata de galhos secos sacudidos pelo vento, os carros que emperram… Poderia ser um felino por ali, mas é a jovem interpretada por Sawsan Arshid, uma farmacêutica a lidar com as usuais dificuldades numa zona de guerra (bombardeios, delações, falta de luz, de água e de gás), mãe de um menino de 6 anos, abandonada pelo marido. Ela só precisa de um botijão para cozinhar, mas à procura do valioso produto se mete numa peleja com um casal de irmãos, um deles esvaído da própria sombra.
É uma metáfora poderosa. Todo ser humano em íntimo contato com a morte já morreu um pouco. E, sem que sua imagem se reflita, transforma-se num anjo a proteger quem caminha a seu lado. É como se a jovem tentasse repetir a perplexidade e a força de uma Anna Magnani em ROMA, CIDADE ABERTA, mas se visse imersa num mágico neorrealismo à moda do Vittorio de Sica de MILAGRE EM MILÃO. O futuro é uma construção no país dos fantasmas.
Saí para a rua hoje, depois de seis meses, e mal diferenciei as calçadas das pistas de automóveis. As fotos não saíam. Eu mesma mal andei. É vertiginoso voltar à divisão do tempo. Agora que vem a noite, vivo a amargura dos fins de domingo. Só porque saí pra rua? Só por isso. Nas últimas várias semanas, não tenho emprego, só problemas. E os resolvo trancada em casa, conforme aparecem, num compasso lento que é só meu. Mas hoje rompi o fio. Me meti no fluxo de todos, que continua intenso. Gentes pobres, gentes ricas, todas sob o sol de quase setembro. O que senti foi o tempo dividido segundo a produção maquinária. Mal acreditei desenrolar-se lá longe, no Bacio di Latte, a festa do sorvete que só o fim de semana propicia… Mas eu vinha livre disso! Que se dane o lazer regrado! Constato na pele o que incomoda os genocidas do poder, até mais do que nossa morte, que eles aliás anseiam. Deve irritá-los nossa autonomia diante da corda onde nos enforcam e que denominam eixo.
“Fantasmas em Roma”, clássico de Antonio Pietrangeli, ronda o YouTube em versão original
As assombrações se divertem, capitaneadas por Mastroianni
“Fantasmas em Roma” é um filme divertido, crítico e bonito de Antonio Pietrangeli (como, de resto, todos os que ele fez), além disso bem-sucedido nos cinemas paulistanos à época de seu lançamento, em 1961, quando todo o bom cinema merecia um circuito comercial na cidade. Redescubro-o no YouTube em sua versão original sem legendas (“Fantasmi a Roma”), com música de Nino Rota.
O diretor Antonio Pietrangeli
Pietrangeli começou como roteirista e auxiliar de direção de Luchino Visconti em “Ossessione”, versão italiana de 1943 para o clássico noir de James M. Cain. Este romano escreveu para muitos outros máximos diretores de seu país, como Pietro Germi (Gioventù Perduta, 1948) ou Roberto Rossellini (Dov’è lá Libertà, de 1954, com Totò). E foi crítico dos bons.
Morreu de maneira trágica, como tragicômica era a maioria de suas histórias, à moda da mais famosa, “Io la conoscevo bene”, de 1965, na qual Stefania Sandrelli vive uma jovem impedida de realização social pelo preconceito que então rondava a mulher. Pietrangeli morreu afogado quatro anos depois de realizar este clássico, enquanto filmava a sequência final de “História de um Adultério”. Aos 49 anos, caiu de um penhasco onde se colocara para orientar seus atores.
Duas almas contra um especulador
Este “Fantasmas em Roma”, excelente representante da aguda commedia all’italiana, escrito por ele, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ennio Flaiano e Sergio Amidei, heróis do roteiro cômico em duas gerações, é atípico de uma carreira dedicada a compreender a complexidade feminina. Mas, sempre um ácido crítico do consumismo especulador, Pietrangeli mostra aqui a farsa embutida na tentativa de derrubar a história (personalizada por um velho casarão) para nela construir um supermercado.
E o papagaio do príncipe não recitava Lampedusa…
No palazzo em que se passa a trama, mora um príncipe decadente (o grande ator e dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo), que fala sem sucesso com seu papagaio morto, incapaz de declamar Lampedusa, como haviam lhe prometido. Don Annibale di Roviano vive entre os fantasmas de sua família, embora não possa vê-los, nem saber que eles o protegem. Os Roviani são a ruína (“rovina” em italiano) que persiste com seu respaldo. O fato de ser um príncipe que não trabalha ainda lhe dá uma posição em sociedade.
Marcello Mastroianni interpreta Reginaldo di Roviano, o fantasma de uma espécie de Casanova, e mais dois outros papéis – o de um de seus tortos descendentes e o de um terceiro debiloide que ele não suspeitava pertencer a sua linhagem. Vittorio Gassman é o fantasma irascível de Caparra, pintor rival de Caravaggio, chamado pelos outros na batalha contra os novos ocupantes.
Vittorio Gassman é o pintor diante de uma Sandra Milo que se suicidou por amor
À parte a vistosa aparição de Valentina Cortese, vivente enlouquecida pela traição do marido, a esmolar nos restaurantes sob o apelido de Rainha, uma doce Sandra Milo representa o fantasma de jovem que se suicidou de paixão. Um menino (Claudio Catania), irmão mais velho de Don Annibale, morto criança, ronda rindo os espaços do casarão, da escola (onde ajuda uma protegida) e da rua, para onde Sandra Milo vai todas as noites atirar-se novamente ao rio. Enquanto isto, o Frei Bartolomeu (Tino Buazzelli), morto pela boca, que ardia por um polpettone, ainda fareja o melhor prato de comida entre os vivos.
Com eles ninguém pode
Estas assombrações são molecas, felizes, vestem as roupas prateadas das estrelas invisíveis, riem-se, enfurecem-se, erram os costumes. (Mastroianni se interessa por uma cantora que descobre ser um cantor…) Mas que ninguém ouse ocupar o retiro dos fantasmas. Se depender dos Rovianni, não vai ser desta vez que a história será destruída por uns maços de dinheiro da velha corrupção.
Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês. Ele não falava mal de livro ruim. Isto porque sentia o peso da responsabilidade. E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente? A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim. O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros. Bonito, não? Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom. E o pensamento do meu amigo retornou. Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido? Então minha responsabilidade cresceria. Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim. Mas tinha um problema (a meu ver). Embora ainda evocasse lindamente o cinema! Este que no presente dá a impressão de se perder… Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura. Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura. Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir. A se refazer. Espero que minha crítica tenha dito isto. Hoje e no futuro, se algum futuro houver… Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão! Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.
Thandie Newton em “Assédio”, de Bernardo Bertolucci, no Belas Artes à la Carte
Mais uma de minhas resenhas para a página Histórias de Cinema. Em “Assédio”, de 1988, a cultura europeia de Bernardo Bertolucci ganha mais uma batalha
É cinema. Do primeiro ao vigésimo minuto, ninguém fala. Estamos na África armada. Pelas paredes, o desenho da luta política. Um homem canta na rua, como se gritasse um saber. Na escola, o professor sorri ao evocar a diferença, descrita em gestos, entre um líder e um chefe. No mais, é um cerco. A mulher do professor sofre a perseguição nas linhas e entrelinhas de seu corpo. Seu povoado não tem chance, exceto a de submeter-se.
Cinema. Dizer sem dialogar. Gestualizar o infortúnio. Tornar o movimento incessante. Depois da África, Roma. A mulher do professor (Thandie Newton) estuda medicina enquanto trabalha como doméstica para um pianista (David Thewlis). Ele a persegue porque diz amá-la. De resto, não sabemos mais do professor africano. O personagem é uma evocação, preso enquanto a mulher ora triunfa, ora se atormenta em terra distante. O título no original inglês está correto, pois se trata de cerco para captura, transcorrida por meio de duelos musicais. Ela rejeita o patrão porque não entende sua música. Mas um dia irá vivenciá-la.
Cinema, por certo. Mas é um bom filme? Aqui, duas culturas abraçam um coração feminino. E o que salta à vista é o esforço heróico do homem branco para adentrá-lo. Bertolucci gosta de heróis. Trabalhou com Pasolini e idealizou um cinemão neorrealista exacerbado, a ponto de conduzir o estupro num filme, de modo a se beneficiar dessa intensidade. Em ASSÉDIO, a cultura europeia ganha uma importante batalha. Você consegue aceitar esta premissa? Então se trata de um bom filme e cinema dos bons.
ASSÉDIO Diretor: Bernardo Bertolucci Itália/Inglaterra, 1998, 93 min
Esta noite sonhei que Umberto Eco vinha dar entrevista a uns jornalistas num saguão. Por acaso eu entrava no lugar e o Eco me acenava, como se me reconhecesse. Eu decidia ficar ali, mesmo sem ter sido convidada. E logo lhe dizia que admirava seu bom humor. Ele começava a rir sem parar, sacudindo-se, feliz pelo que considerava meu acerto – o de notar seu bom humor. Seu corpo era um corpanzil vestido com um terno branco de ombreiras, parecendo quadrado. Estava tudo beleza, mas eu tinha muito a fazer e precisava ir embora. Dizia-lhe tchau à distância. Antes de passar pela porta, me alertavam que eu deveria recolher uns presentes para minha família pobre. Eu recolhia e isto não tinha fim. Eco então me dizia: “Deixa dessa história! Vem dançar comigo!” Sorria, sacolejava. E eu apesar disso sabia dançar junto dele, embora em minha vida verdadeira jamais soubesse. Ficava surpresa comigo mesma. Alegre. Acabava a música, eu saía do lugar da entrevista, mas ao adentrar a rua logo percebia que esquecera a máscara. E que ninguém ao meu redor usava nenhuma. Pegava minha malha e punha em volta do rosto, como improviso. Todos os outros pela calçada não davam a mínima. Quando acordei, era como se ainda ouvisse a música do sonho, indefinida.