Loucura

Eu tive um maior amigo
Que trabalhou ao meu lado
Pra redigir com ponto e vírgula
Nos lugares aclamados
As notícias que raramente cabiam
Na mesura miserável do papel.

Era jovem e não parecia,
Homem, e o sabia,
Figura relutantemente emotiva
Que usava o disfarce
Da esquizofrenia,
Da doença de ser muitos
(Uns contra os outros,
Outros em seu nome),
Para distanciar-se do conluio
Das alegres torpezas
De que são feitas
As redações de jornais.

Meu amigo me encheu
de consolo quando,
grávida, eu lhe disse temer
pela saúde mental do
meu filho que nasceria em
Capricórnio ou Sagitário,
uma vez filho meu,
e portanto da minha família,
estranho ajuntamento
de onde vez ou outra
saía ao mundo
a criatura de nove anos de idade
cujo encanto da fala
se perdia
após um grito na noite.

Meu amigo pausava e sorria
recordando-se dos velhos hospitais
onde fora escondido
com o consentimento dos pais
e de si mesmo,
“porque a ciência é necessária”.

Nascido louco,
tanto e a ponto de não reconhecer
a emoção alheia,
nem a minha,
ele no entanto viu
facilmente as claras fantasias
que Luiz Melodia
soltou num verso.

Meu amigo me disse
olhando-me de lado
desde a cadeira preta
com rodinhas
que ocupava,
diante de um computador
de letras verdes:

– Um louco tem fome e sede.
E pode ser feliz como eu,
que assim me fiz.

E eu inerte.
Os olhos presos.

E daí?

e daí?
e daí que você não pode
interromper a imensa
chegada do sol
através de minha janela
desde as primeiras horas
sonolentas da manhã.
e daí?
e daí que não conseguirá
me impedir de, mesmo
cambaleante e sorridente,
expulsá-lo de minha vida,
apenas temporariamente
usurpada e aterrorizada
por sua vil presença.
e daí?
e daí que temos olhos,
ouvidos, boca, sexo, nariz.
e daí que nossa luz,
não irá apagá-la um infeliz.

Ilusões das gentes

Tento de tudo.
Apelo a Era Uma Vez na América:
De Niro na casa de ópio.
Quem sabe não faz meu sono vir?
Nada…
Todos dormem por aqui, exceto eu.
E fico feliz por eles, meu paraíso.
A noite é quente, até abafada, avisam-me os mosquitos.
Esses seres gritantemente efeminados que não estão nem aí pras ilusões da gente, grandes ou pequenas.

Cotidiano

Ponho a roupa pra lavar,
estendo, guardo, lavo a louça,
perfumo o banheiro,
deito o lixo, faço o café.
De cozinha, sou menos,
mas ajudo geral.
Não nutro essência doméstica,
antes nebulosa.
Nem pragmática, nem produtiva,
muito menos na rica flor
de minhas forças organizativas,
fotografo a janela.
E mergulho um dia após o outro.
Ontem foi difícil,
hoje também.
Com o sol lá fora, contudo,
vivo bem.
Vivo!
Sonho.
Leio.
Escrevo uns versos
para que um dia se
transformem em poesia.
Em libertação.

Breathless

Amo Mapplethorpe, o fotógrafo, e sempre saio à procura de suas imagens por este google vagabundo. Acabou minha grana pra livro, as bibliotecas estão fechadas, vou de google ou não vou.

Sonho com algo de Mapplethorpe que eu ainda não conheça. Mais uma flor, quem sabe?

Confesso que ainda não tinha visto imagens de Richard Gere por ele, como esta postada acima.

Não o julgava bom ator quando jovem, mas adorava a versão bem cínica do Acossado rumo ao México de que ele participou, “Breathless” ou “A Força de um Amor”.

Achava a partner dele no filme, uma dessas francesinhas miúdas, muito inferior à Jean Seberg do Godard.

Dizem que foi Gere mesmo, não o diretor Jim McBride, quem a escolheu, entre uma centena de candidatas.

(Que essa história de escolher par romântico em filme deve ser estranha, nem me fale…)

Mas o filme é gostoso de ver. A trilha, uma delícia.

Sempre achei o Gere o máximo de sabido. Kurosawa o entendeu com cara de japonês e o pôs em “Rapsódia em Agosto” para revisitar Nagasaki na pele do descendente americano de uma família. Que grande o Kurosawa, né gente?

Movida por este gere-mundo, fui assistir hoje a um streaming de “Gigolô Americano”, do Paul Schrader, sucesso nos anos 1980. E concluí que o filme mais se parece mesmo é com um screaming, um grito perdido no tempo. Muito ruim de doer, tem aquela fotografia noturna assimilada pela propaganda brasileira dos anos seguintes.

Era um tempo de liberação sexual, pré-Aids, de abertura do cinemão para a estética e a temática pornôs. Mas o filme não tem nada demais, contenham-se… É tudo insinuação mixuruca. E o gigolô está neste mundo para fazer felizes as mulheres ricas de idade! Uma espécie de agente bom de corte sem a comédia voluntária daquele filme com o Adam Sandler.

Até corrigiram o diastema da querida Lauren Hutton, para que ela parecesse perfeita… E assim a gente a constata perdida no meio daquelas piscadelas de neon.

Mas Gere é sempre Gere, mesmo bufando, como acusava Paulo Francis, aquele ressentido. Atualmente o ator continua lindo e solto por aí, budista, auxiliando os africanos rejeitados na Europa.

Por que pedir mais de alguém?