Meus olhos para Salvatori

Renato Salvatori, Luchino Visconti, Claudia Cardinale e Alain Delon no set de “Rocco e seus Irmãos”, que completa 60 anos, com Cardinale e Delon ainda vivos.

Claro que meus olhos de mulher se atraem sempre por Delon, dublado neste filme. Mas, em “Rocco” como em outros, sou mais o grande e belo ator Salvatori.

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Erro em perspectiva

No começo da fotografia não havia crença para ela.
Era um brinquedo, por todos assim entendido.
Uma impossibilidade de extensão.
Luz cabalística.
Embriagado patrono dos vícios, Baudelaire a desconsiderou como arte, por apenas repetir, segundo ele, o verdadeiro, o existente, a perspectiva da realidade.


Sempre que deparo com esse Baudelaire, me encanto com sua inocência.
Como se a máquina tivesse o poder de reproduzir toda a maneira de ver.
E choro lágrimas de vidro sobre a face cortante.
Não há máquina que dê conta de mim.
Dos meus olhos em sangue.

Deidade do infinito

Grito pela janela com muito fervor.
E não só por ele.
Contra ele.
Mas também por mim.
Contra os outros em mim.
Aqueles outros que ardem em meu inferno de todos os dias, e que permanecem quietos aqui dentro, esperando explodir.
Contra os bolsonaros dos meus costumes, da minha cidade, do seu comércio, das vilas de apego consumista, dos becos de paixões de papel.
Gritei “fora lixo” e ela me respondeu “vai arrumar a casa”.
Minha casa nunca será arrumada, lady.
Não, pelo menos, por seu desígnio de trevas, não por seu color touch blonde, não por seu curtume.
Minha ambição é a deidade do infinito.
Minha ambição é meu país.
Minha ambição.
Eu.

Amávamos tanto

Creio que muitos de meus amigos conhecem “Nós que nos amávamos tanto”, belo filme de Ettore Scola lançado em 1974.

Terno, reflexivo, risonho, às vezes lindamente grotesco, com a interpretação magistral de Aldo Fabrizi, e também tão triste…

Commedia all’italiana de meu coração.

Talvez nele vocês reconheçam os amigos que abandonaram seus sonhos de igualdade e se tornaram os espectros que vemos achatar a terra ainda hoje…

Que roteiro maravilhoso, quase uma HQ nascida dos experts em humor do jornalzinho onde Fellini também trabalhou!

Esta versão é integral com legendas em espanhol.

Revejam, vejam. 💜

https://m.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=hAASo0C80Uo

I love Lily

Não sei o que me faz amar Lily Tomlin tanto assim.
Desde Nashville, de Nine to Five a All of Me…
Que estrela!
Mal chega uma temporada de “Grace and Frankie” e eu a devoro inteira por causa dela…
Em primeiro lugar, uma comediante que sorri!
E que parece feliz.
Que sabe o seu lugar.
E que jamais desistiu de lutar com elegância por ele.
Que se recusou a sair do armário numa capa pra Time.
E que acabou capa da Time do mesmo jeito anos depois, em 1977, celebrada como “Rainha da Comédia”.
Uma comediante, mulher comediante, é sempre uma heroína.
Vocês sabem que Lily é o nome da mãe dela?
Que seu verdadeiro nome é Mary Jean, quase uma Norma Jean?
Que ela estudou medicina, como Graham Chapman, o Brian de Monty Python?
Que sua esposa se chama Jane? Que são uma dupla de trabalho também? Que ela cria e escreve papeis pra Lily?
E que sua preferência como atriz é atuar diante da plateia, improvisando e trocando energias com ela?
Pois então.
Sinto falta de chamar os amigos pra falar sobre Lily Tomlin.
Não que eu tenha muitos, mas…
Pelo menos tentaria reuni-los, não fosse a tristeza atual.
Mas Lily não é triste.
Não vou ser.
💜

Elegia

Dali do alto da avenida São Luís saem os gritos e assovios
que torcerão para sempre bem nítidos contra o coronavírus
e contra o espelho, espelho-meu partido, de salomônicas cnns.
Jaz ali findo, como hades de boteco, aquele a quem chamam presidente,
cataplasma de infeliz clamor, rígido aspecto, o lixo escoado pelos dentes.
Dali do alto da avenida São Luís ouço a morte nas carreatas
dos profanadores de meu país, ilesos, lisos, solventes nas águas livres,
a sorrir para quem dorme nos bancos gélidos, lá onde caem as folhas
e atrás dos quais se põe, declamador quase bíblico,
o Dante Alighieri no central park da praça Dom José Gaspar.
Lutar, amigos, lutar, mas meus olhos estão tristes
e meus ouvidos não suportam mais.
Para completar, zombam desta intimidade de sonho
os abusadores da tibieza do meu corpo, prestes a me obrigar às lágrimas.
Tempo haverá, tempo-tempo-tempo, para que meu rosto, velho bonito que
não se dá a ver, responda ao terror com o sorriso do princípio.
Dali do alto da avenida São Luís, contudo, ainda ouço quando o mendigo infeliz
Lembra à amada, que não se diz mais sua, o muito que tiveram e o que ele lhe deu.
E isto tudo a ecoar feito nada.
Bem sei que muito falta para que, de gritos e assovios, o mundo acabe em estampido,
mas sinto que até lá, desgarrada, sorverei o sangue estreito em uma colher de chá.

Por Drucker

Mort Drucker, que morreu agora, era o responsável pelas paródias de filmes da Mad. Lá na minha adolescência, líamos a revista, mas nem sempre tínhamos dinheiro para os filmes. Então nós os conhecíamos primeiro pelas paródias do Drucker. Era um humor de mau humor. Ele apontava as incongruências de roteiro, as hipocrisias dos diálogos, a farsa em si dos blockbusters, com um desenho realista. E ansiávamos por uma nova versão de filme, todo mês.

Enfim, artista, vá em paz.

Randau, como não se pode mais ser

É uma pena que ele se tenha ido, considero eu, tão cedo. Um jornalista como não se vê mais, nem parece mais possível ser. Um rigor como pesquisador, um sabedor com forte comprometimento político.

Era sério demais enquanto escrevia. A redação em volta nem parecia existir. Repórter especial, tinha uma mesa só sua, em que as pastas de recortes se empilhavam feito no filme “Brazil” do Terry Gilliam. Sempre sabia o que escrever e como escrever. Ninguém o pautava, nem seria preciso.

A célebre mesa era perto da minha no JT. Então eu tinha esse prazer diário de vê-lo chegar, com sua camisa branca aberta pra fora da calça surrada, e vir brincar com o Renato Pompeu, o outro gênio, o redator que trabalhava ao meu lado e que havia sido seu companheiro em tantas jornadas pelo jornalismo brasileiro.

Na minha lembrança era um homem simples e grande.

Vá em paz.

Dance!

Nesta casa onde há músicos tão bons, sou o patinho feio da canção.

Mesmo assim, me ponho a cantar toda manhã “O Amor”, a grande versão de Caetano para o poema de Maiakovski. É um compromisso que assumo, uma reanimação para as noites em que os sonhos têm sido estranhos, vingativos contra mim.

Tenho até mesmo cometido gravações no celular ao balançar na rede, à tarde e à noite, certa de que isto não melhorará minha voz, que é um falar. E tenho dançado com ela, ainda que muito mal.

Mas não importa.

Este é mais um jeito de seguir a sugestão que me faz a estrela Sandra Miyazawa: dance! Cuidar do corpo assim será um carinho a praticar comigo mesma neste isolamento.

Vi a Sandra algumas vezes, nunca suspensa no ar, como só ela, tão linda, sabe fazer por nós, pela justiça e a igualdade entre os homens.

E não sei se ela já me viu pessoalmente.

Mas fico muito feliz com a inspiração que ela me dá, a mim e a tantas mulheres como eu.

Meu beijo especial do dia, querida.

Vou voar e cantar também. 💜

Selfiar o que há de bom

a quarentena me volta ao autorretrato.
selfie, como vcs chamam.
e normalmente usam o termo pra depreciar os outros, aqueles que moram no inferno.
(até porque alguns autorretratos são aquilo mesmo que se desgasta, coisas iguais, hipócritas, iludidas.)
adoro selfiar o que há de bom.
talvez só eu mesma conheça os poucos ângulos onde exista algo que se aproveite em mim.
acho que todo mundo é assim.
um dos grandes fotógrafos da minha vida, lee friedlander, fez um revolucionário e lindo livro com seus autorretratos, impressos até mesmo como sombra em quem passava.
entendo-os como uma forma de autoconhecimento.
até eventualmente os mais íntimos, que a gente prudentemente esconde na nuvem, pra não decepcionar o próximo.