e daí? e daí que você não pode interromper a imensa chegada do sol através de minha janela desde as primeiras horas sonolentas da manhã. e daí? e daí que não conseguirá me impedir de, mesmo cambaleante e sorridente, expulsá-lo de minha vida, apenas temporariamente usurpada e aterrorizada por sua vil presença. e daí? e daí que temos olhos, ouvidos, boca, sexo, nariz. e daí que nossa luz, não irá apagá-la um infeliz.
Meio sem nada. Meio cheia. Meio nonada. Meio êxtase. Meio sonada No meio do sonho. Meio no fim. Meio acolá. Meio sem mim. Meio se vá. Meio, começo, enfim. Meio concedo: Me ensine A chegar.
como vocês estão lidando com tudo isso? decidi ver a segunda temporada de after life e agravei meu sentimento. me senti despedaçada. e daí? daí que, como eu sempre soube, a saída pra tudo isso é antiga. a revolução que não fizemos. todo o amor que ainda temos.
Tento de tudo. Apelo a Era Uma Vez na América: De Niro na casa de ópio. Quem sabe não faz meu sono vir? Nada… Todos dormem por aqui, exceto eu. E fico feliz por eles, meu paraíso. A noite é quente, até abafada, avisam-me os mosquitos. Esses seres gritantemente efeminados que não estão nem aí pras ilusões da gente, grandes ou pequenas.
Ponho a roupa pra lavar, estendo, guardo, lavo a louça, perfumo o banheiro, deito o lixo, faço o café. De cozinha, sou menos, mas ajudo geral. Não nutro essência doméstica, antes nebulosa. Nem pragmática, nem produtiva, muito menos na rica flor de minhas forças organizativas, fotografo a janela. E mergulho um dia após o outro. Ontem foi difícil, hoje também. Com o sol lá fora, contudo, vivo bem. Vivo! Sonho. Leio. Escrevo uns versos para que um dia se transformem em poesia. Em libertação.
Amo Mapplethorpe, o fotógrafo, e sempre saio à procura de suas imagens por este google vagabundo. Acabou minha grana pra livro, as bibliotecas estão fechadas, vou de google ou não vou.
Sonho com algo de Mapplethorpe que eu ainda não conheça. Mais uma flor, quem sabe?
Confesso que ainda não tinha visto imagens de Richard Gere por ele, como esta postada acima.
Não o julgava bom ator quando jovem, mas adorava a versão bem cínica do Acossado rumo ao México de que ele participou, “Breathless” ou “A Força de um Amor”.
Achava a partner dele no filme, uma dessas francesinhas miúdas, muito inferior à Jean Seberg do Godard.
Dizem que foi Gere mesmo, não o diretor Jim McBride, quem a escolheu, entre uma centena de candidatas.
(Que essa história de escolher par romântico em filme deve ser estranha, nem me fale…)
Mas o filme é gostoso de ver. A trilha, uma delícia.
Sempre achei o Gere o máximo de sabido. Kurosawa o entendeu com cara de japonês e o pôs em “Rapsódia em Agosto” para revisitar Nagasaki na pele do descendente americano de uma família. Que grande o Kurosawa, né gente?
Movida por este gere-mundo, fui assistir hoje a um streaming de “Gigolô Americano”, do Paul Schrader, sucesso nos anos 1980. E concluí que o filme mais se parece mesmo é com um screaming, um grito perdido no tempo. Muito ruim de doer, tem aquela fotografia noturna assimilada pela propaganda brasileira dos anos seguintes.
Era um tempo de liberação sexual, pré-Aids, de abertura do cinemão para a estética e a temática pornôs. Mas o filme não tem nada demais, contenham-se… É tudo insinuação mixuruca. E o gigolô está neste mundo para fazer felizes as mulheres ricas de idade! Uma espécie de agente bom de corte sem a comédia voluntária daquele filme com o Adam Sandler.
Até corrigiram o diastema da querida Lauren Hutton, para que ela parecesse perfeita… E assim a gente a constata perdida no meio daquelas piscadelas de neon.
Mas Gere é sempre Gere, mesmo bufando, como acusava Paulo Francis, aquele ressentido. Atualmente o ator continua lindo e solto por aí, budista, auxiliando os africanos rejeitados na Europa.
Renato Salvatori, Luchino Visconti, Claudia Cardinale e Alain Delon no set de “Rocco e seus Irmãos”, que completa 60 anos, com Cardinale e Delon ainda vivos.
Claro que meus olhos de mulher se atraem sempre por Delon, dublado neste filme. Mas, em “Rocco” como em outros, sou mais o grande e belo ator Salvatori.
No começo da fotografia não havia crença para ela. Era um brinquedo, por todos assim entendido. Uma impossibilidade de extensão. Luz cabalística. Embriagado patrono dos vícios, Baudelaire a desconsiderou como arte, por apenas repetir, segundo ele, o verdadeiro, o existente, a perspectiva da realidade.
Sempre que deparo com esse Baudelaire, me encanto com sua inocência. Como se a máquina tivesse o poder de reproduzir toda a maneira de ver. E choro lágrimas de vidro sobre a face cortante. Não há máquina que dê conta de mim. Dos meus olhos em sangue.
Grito pela janela com muito fervor. E não só por ele. Contra ele. Mas também por mim. Contra os outros em mim. Aqueles outros que ardem em meu inferno de todos os dias, e que permanecem quietos aqui dentro, esperando explodir. Contra os bolsonaros dos meus costumes, da minha cidade, do seu comércio, das vilas de apego consumista, dos becos de paixões de papel. Gritei “fora lixo” e ela me respondeu “vai arrumar a casa”. Minha casa nunca será arrumada, lady. Não, pelo menos, por seu desígnio de trevas, não por seu color touch blonde, não por seu curtume. Minha ambição é a deidade do infinito. Minha ambição é meu país. Minha ambição. Eu.