Sadao Yamanaka, presente

O sargento Yasujiro Ozu e o soldado Sadao Yamanaka em 1938.

Os dois grandes amigos e cineastas preparam-se aqui para servir o exército japonês na Manchúria. E Yamanaka morrerá pouco tempo depois do dia em que esta foto é feita, em 1938.

Yamanaka partiu aos 28 anos. Havia feito 24 filmes em cinco anos. Apenas três restaram. Um deles, “Humanidade e Balões de Papel”, de 1937, fez tudo antes de tudo – do neorrealismo, da commedia all’italiana.

Eis um artista que se tentou, sem sucesso, apagar.

a náusea

queria sinceramente ter a paciência de assimilar o bbb como se fosse um filme e me viciar em suas situações, à moda do que o Brasil faz.

seria um meio de me comunicar com boa parte de nós, não?

contudo, das poucas vezes que tentei ver o programa, senti vergonha alheia, náusea.

minha existência anônima e quieta, com família ao lado, me parece tão mais estimulante.

sou do movimento, das vidas que percorrem as ruas, das nuvens passando, do barco que chega à ilha, do caminho até o mar.

sem piscina, sem latinhas de cerveja, sem ar domesticado, sem assédio, sem plano-contraplano de cabeças falantes, que nisso tudo, onde está o encanto?

além da pena que eu sinto do orwell por tamanha usurpação.

A Folha não mudou

Ler a Folha é pra dias específicos na minha rotina, em geral quando algo inconsciente em mim quer reafirmar uma decisão tomada há décadas, a de me demitir da empresa.

Aprendi muito lá, contudo. Ali vislumbrei uma realidade profissional antes desconhecida por mim: a de que, uma vez dentro do jornal, seu pensamento não é seu. Você trabalha para uma empresa com pensar próprio sobre como o mundo deva funcionar. Especialmente, sobre seus próprios interesses financeiros. Melhor entender quais são antes de aceitar trabalhar para/por eles. Melhor que coincidam com os seus.

A Folha, contudo, nunca deixou de me pagar em dia, nem jamais tergiversou sobre meus direitos trabalhistas. Vocês podem pensar que isto seja algo de seu estrito dever, e é, mas não imaginam como outros veículos brasileiros, até mesmo ou principalmente os de esquerda, tratam nossa força de trabalho. A adesão à esquerda por parte deles, na maioria das vezes, é só um discurso conveniente. Se as pessoas soubessem como são feitas certas salsichas, não as comeriam mais.

Abaixo-assinados de jornalistas-funcionários deveriam ser livres, não? Não. Um abaixo-assinado contrário a diretrizes do jornal é entendido como força contrária a ele como empreendimento patrimonial. E ponto. Na Folha e em qualquer outro lugar. Parece que este último, circulado assumidamente contra a edição, no diário, de artigos com certo viés ideológico, era para ser interno, e sua publicação pelo jornal vinha sendo “avaliada”. Mas o conteúdo vazou para a concorrência e agora a Folha prepara “seminário interno” para explicar aos seus funcionários… como a Folha funciona.

Imagino o clima na redação. E imagino a cara dos signatários ao participar desses seminários, idênticos jornalistas que não reagiram quando as armações da Folha resultaram em golpe contra Dilma e a democracia – armações que, no fim das contas, ajudaram a eleger este governo de atitudes racistas, mimetizadas por setores da população.

No longínquo ano de 1985, uma menina em seu primeiro trabalho na grande imprensa, também eu assinei um manifesto interno contra as diretrizes da Folha, mal aterrissada lá. Deveria antes ter entendido como funcionavam os jornais burgueses – e deles desistido, talvez. Mas não. Continuei funcionária e o abaixo-assinado me fez respirar mal.

Leio as primeiras páginas da edição da Folha de hoje, 20 de janeiro de 2022, e constato o de sempre. Artigo de ex-ombudsman explica a treta sob a perspectiva do jornal (alegando que os signatários do abaixo-assinado não quiseram fazer comentários) e glorifica-o por treinar os jornalistas negros com aulas específicas.

É um cinismo, claro, mas aqui a equação é simples. Se continuamos a ler o jornal e não o confrontamos em suas posições, nós, leitores, o fortalecemos. As pressões não devem ser apenas internas – têm de partir da sociedade como um todo. É a sociedade quem deve ensinar a Folha a mudar. É ela quem deve estar atenta a tudo, ao modo como o jornal edita as coisas, desde as imagens. Por exemplo, a foto de um Lula irado e ameaçador, publicada hoje na seção de política, diz tudo sobre o texto que virá e sobre o Brasil que o jornal quer.

Continuo lendo a Folha? Às vezes. Como disse no início, eu a espio até inconscientemente, para reiterar as razões que me fizeram abandoná-la. Mas não assino o jornal nem o compro na banca, além de criticá-lo quando julgo necessário. Sou uma desempregada em crise financeira, que ainda dorme sobre um travesseiro quente.

A inteligência teimosa de Nara Leão

“O Canto Livre de Nara Leão”, série documental em cinco episódios pela globoplay, traz de volta o doce sabor das revoluções da intérprete na música popular

Nara Leão em 1964, quando
gravou seu primeiro disco

O dia de ver o documentário seriado de Renato Terra sobre Nara Leão chegou aqui graças à oferta de uma amiga querida, assinante da Globoplay, e eu não poderia me sentir mais satisfeita com o presente.

Nara, que mulher para mim. Não pela voz, exatamente, mas que grande personalidade havia dentro dela para caminhar à vontade naquele universo imperativo dos homens, fingindo, ainda por cima, não fazer nada demais.

Quantas vezes ouviu que desafinava, que era desanimada e “mixuruca”? Muitas. Todas. Mas nos momentos em que ouvia isso parecia dirigida pela impetuosidade, uma espécie de teimosia da inteligência, esta que a tornava a um tempo graciosa (os joelhos de Nara, como brincava o Otelo Zeloni do programa humorístico “Família Trapo”) e plena de generosidade, a mulher de família bem de vida que sabia reunir, destacar, dividir e compartilhar seu talento. Mulher do desafio que nos últimos anos parecia esquecida, como acontece usualmente com figuras cruciais da arte brasileira.

Então, sim, eis o documentário “O Canto Livre de Nara Leão”, que tantos amaram. E entendo por quê. Ele a traz de volta aos nossos corações. Ouvi-la falar, em depoimentos no mais das vezes desconhecidos, como aquele ao Museu da Imagem e do Som, para Sérgio Cabral e Roberto Menescal, é uma aula de posicionamento. Uma figura pra lá de gentil mas também assertiva, a ponto de dizer a um jornal simpático aos militares de 1964 que o exército não servia pra nada, e com isso ganhar uma crônica de Drummond em seu apoio, além do abraço dos amigos em seu apartamento – o que felizmente bastou, além do apoio do pai advogado, para que não se visse presa por conta da declaração.

No célebre apartamento de
Copacabana, com Tom Jobim e
Ronaldo Bôscoli ao lado

Mulher complicada, como ela diz ao MIS, para que Menescal a apoie. E maravilhosamente única, desinteressada do profissionalismo e do sucesso.

O documentário contribui para iluminar essa Nara desconhecida. Sabemos por meio dele que a artista nem mesmo imaginou que se tornaria cantora – gostava mesmo era de cinema e achava que iria trabalhar nesse meio, no qual começou como montadora, ao lado do futuro marido, Cacá Diegues, com quem teria os filhos Isabel e Francisco. E quando, adolescente, destacou-se por manejar voz e violão no seu apartamento, começou a entender que seu papel no mundo da arte não seria só o de cantar, antes o de mexer no panorama musical a ponto de desvelá-lo e redirecioná-lo. Uma ambição maior que todas, certo? E que Elis Regina, a rival que não lhe atribuía talento vocal, também experimentou.

Com o produtor Aloysio de Oliveira
(no alto), Carlinhos Lyra e
Vinícius de Moraes

Neste documentário em cinco partes, Nara diz, com objetiva e usual sinceridade, que nos seus tempos de bossa nova não conhecia o povo brasileiro. E ao descobri-lo em sua porção de miséria e fome, por meio de Carlinhos Lyra, que lhe apresentara o morro de Nelson Cavaquinho e Cartola, começou a se deslocar do grupo. A bem da verdade, afastou-se dele de uma vez quando Ronaldo Bôscoli, a quem começara a namorar no apartamento dos pais, Jairo e Altina (célebre lugar diante do mar de Copacabana onde o movimento da juventude carioca começou), traiu-a com a cantora Maysa.

“Opinião”, em 1964, acompanhada
por Zé Kéti e João do Vale

Bossa nova, espere sua vez! Zé Kéti e João do Vale se tornariam então tudo o que havia de melhor e com eles ela arrebentaria no show-teatro “Opinião” – este do qual desistiu também, depois de dois meses, por não ter estofo físico e se sentir nauseada justamente por seu sucesso. Foi ela quem sugeriu a substituta Maria Bethânia, que à época estudava recuperação para passar em matemática na escola.

Com Chico Buarque nos anos 1970, amigo de vida e de bom humor

Os melhores depoimentos sobre Nara, os mais deliciosos e esclarecedores, por anedóticos e bem-humorados, são mesmo, neste filme, os de artistas como Bethânia, que lhe aponta incentivadora e namoradeira, e Chico Buarque, que lhe fornece um perfil muito especial, em que o bom humor não coincide com o gosto pela piada e com a distração. Mulher séria que sabia sorrir, crava Chico, a quem acompanharia em sua fase posterior à do “Opinião”, com “A Banda”, ela ganharia a algo indesejada fama pop dos festivais.

Na capa do disco “Tropicália”, ela aparece num retrato exibido por Caetano Veloso

Depois de Chico, foi a vez da Tropicália; depois da Tropicália, os nordestinos feito Fagner; depois dos nordestinos, os gaúchos como Kleiton, secreto namorado; depois dos gaúchos, Erasmo e Roberto Carlos; e até morrer precocemente de um tumor cerebral, aos 47 anos, a companhia bossa-novista do violão de Menescal, sucesso no Japão. Com Nara por perto, qualquer novo movimento musical se redobrava em brilho, como se ela lhes desse chancela artística, quebrando padrões e preconceitos precedentes.

Nara e Menescal no Japão, anos 1980

Porém, o documentário em si tem muitos problemas. Com tanto BBB na produção – um Brêtas, um Boni, dois Bial, o Pedro ele-próprio, que se casou com Isabel, e seu filho José, neto de Nara – seria de esperar mais? Infelizmente, sim.

A série, no fim das contas, desfila a aristocracia musical do Rio e dá pouco espaço para além dela – mas Nara era nacional, com o gosto pelo povo em toda parte. No documentário, por exemplo, nem mesmo o bordão do Zeloni na “Família Trapo”, programa ao qual ela compareceu, é mencionado.

Em lugar disso, exibem-se fileiras de videoclipes do “Fantástico” de gosto duvidoso – em um deles, Nara canta a necessidade de viver “uma vida sem frescura”, na canção “Além do Horizonte”, de Roberto e Erasmo, espichada num iate… E haja Leda Nagle a entrevistá-la, com a explícita intenção de dirigir suas respostas.

Com Otelo Zeloni, joelhos à mostra, informação que a série não traz

Além disso tudo, nos surgem sonegados seu rosto de infância, muito sobre seu violão, suas preferências de instrumento e noções de estilo, o nome do violonista no primeiro disco, de 1964 (Geraldo Vespar), o fato de Elis ter-se casado com Bôscoli (o que explicaria melhor a rivalidade entre elas), mesmo o seu local de nascimento (Vitória, Espírito Santo), as datas em que nasceu (1942) e morreu (1989), a profissão do pai, mais sobre sua relação com Johnny Alf ao piano, onde se esconde Alaíde Costa em sua história, etc., enquanto frases e fatos inteiros são repetidos e salpicados pelos episódios, como se não tivéssemos tido condições de absorvê-los desde a primeira vez. A função “supervisão artística” é assinada por Pedro Bial.

Está certo que o final é belo, algo inspirado pelos deuses, e a gente dá muito valor ao que tem. Contudo, Nara Leão, como ela mesma queria, é assunto sério, sempre à espera de um novo exercício fílmico-historiográfico por meio do qual se possa ampliar.

Nara, reflexões à espera

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO

Dir.: Renato Terra

Série em 5 episódios

2022

https://globoplay.globo.com/o-canto-livre-de-nara-leao/t/fcfQvBWKVY/

penso, logo desmorono

uma coisa é você entrar numa polêmica furada porque foi obrigado, porque o editor do jornal lhe mandou entrar e você é um idiota que não sabe dizer não e ainda por cima não tem como pagar o aluguel no fim do mês.

outra coisa é você entrar em polêmica furada sem ser funcionário, pra divulgar sem a mínima fundamentação seu próprio trabalho, apenas porque não tem como pagar o aluguel no fim do mês e muita gente sem preparo, ao contrário de você, tem.

sim, é um post cifrado porque não sou obrigada.

e toda essa destruição do pensamento causada por quem poderia incentivá-lo me deixa triste de um jeito desconcertante.

Leila feliz, Leila Diniz

Documentário iniciado nos anos 1980 e agora concluído pela amiga Ana Maria Magalhães mostra as muitas revoluções operadas pela atriz brasileira, de quem neste ano se recorda o cinquentenário de morte

Um sorriso para estabelecer a verdade

Leila Diniz ou Liberdade?

Eram indistintas na minha juventude.

E assim, desde criança, acostumei-me a essa atriz desafiadora pela alegria, a assimilar a aura de uma Josephine Baker nas capas da revista “O Cruzeiro”. Leila impediu indiretamente que a diva Madonna do mercado e da moda funcionasse para muitas como eu de maneira libertária, uma vez que já fôramos apresentadas à moeda da brasileira, composta de doação.

A imagem de Leila livre surgia avassaladora para nós. Estimulante, mas intimidante. Eu nunca usufruiria de tanta autonomia quanto ela conforme fosse crescendo. Sair de casa aos 15? Não consegui. Dizer o que bem entendesse? Nunca diretamente. Transar, só adulta. Largar a escola pra escrever poemas? Nem sonhei.

Eu era muito nova quando a atriz surgiu para o público. Minha família não assistia às novelas em que ela aparecia. Seus filmes não se permitiam para crianças como eu. Soube mais de sua vida como todos souberam, na minha idade, ao entendê-la morta injustamente aos 27 anos dentro de um avião, mãe da bebê Janaína.

Abre as asas sobre nós

Principalmente, lá pelos 18 anos, li a célebre entrevista em que Leila duelava com a homenzarrada do “Pasquim”. Que valentia natural! Assim eu queria tratar os homens. Com verdade, coragem. E sorriso, como não.

Leila, aquela que, segundo Nelson Sargento, entregou a liberdade para nós, as mulheres brasileiras que com ela puderam sambar…

“Já que ninguém me tira pra dançar” é o documentário amoroso da amiga Ana Maria Magalhães que o Itaú Cultural Play exibe dias 15 e 16 de janeiro, sábado e domingo próximos, sobre a história de Leila. Não vá perder, embora o título possa eventualmente lhe soar esquisito. Mulher nenhuma precisa de que alguém lhe tire pra dançar, certo? Mas naqueles tempos era código de conduta. Só dançávamos se um homem nos “tirasse” para isso. Só vivíamos por nós mesmas se os pais nos permitissem. E Leila fez tudo ao contrário.

Com a amiga Ana Maria Magalhães

O filme que ora vem nos lembrar de seu cinquentenário de morte começou a ser feito nos anos 1980, com depoimentos extraídos de artistas e jornalistas a ter convivido com ela, Nelson Pereira dos Santos, Tarso de Castro ou Claudio Marzo, amigas atrizes como Maria Gladys e Betty Faria, e as intérpretes Lídia Brondi, Louise Cardoso e Lígia Diniz a encenar situações de sua vida. É quase miraculoso que este documentário saia agora, revitalizado pelas interpretações do tempo.

Com Domingos Oliveira e Paulo José em “Todas as mulheres do mundo”

Domingos de Oliveira, que com Leila e Paulo José encenou a ficção biográfica “Todas as mulheres do mundo” (1966), afirma nem saber que a conheceu aos 23 anos quando ela contava apenas 15. Enche a boca para dizer que ela era sua mulher, enquanto Maria Gladys dedura a infelicidade de Leila ao saber de seus namoros concomitantes. Leila era de um só enquanto com ele estivesse, garantem todos. Amou muito, como disse ao “Pasquim”, e planejava amar muito mais.

Com Paulo José, uma parceria que não pulou das telas para a cama

Os depoentes todos transbordam admirados por ela, alguém que ainda parece existir por sua invenção, como um arquétipo de bondade do qual é impossível fugir. Um melancólico Cláudio Marzo lembra ter aprendido tudo com ela, que por sua vez tanto ajudou Betty Faria na tevê – a mesma Betty que se casaria com Marzo e se enciumaria da amiga no início.

Muitos entrevistados daquelas madrugadas da zona sul utópica soam estranhos, como o suposto primeiro namorado de Leila, o psicanalista Luiz Eduardo Prado, que se destacou entre os boys de bairro por seu comportamento de leitor de Vinicius de Moraes e que, de forma enviezada, a salvou da “curra” dos amigos. “Curra” usada aqui, presume-se, como o interesse sexual de um grupo.

Trata-se de um filme muito pessoal, que cresce conforme surgem as imagens de uma época finda.

Verde e rosa para a Mangueira

Leila era a vedete por excelência, segundo Tarso de Castro e todos aqueles que a acompanharam no teatro de revista. Ela que, depois de grávida e com o leite a derramar dos seios, ainda o oferecia ao público do espetáculo, de modo a compor o tipo vedete-mãe…

Uma atriz que representava em tudo o Brasil do carnaval, da dança, do circo, do palavrão. E só amava de verdade o cinema, como lembra Nelson Pereira dos Santos (com quem fez “Fome de Amor” em 1968), porque ali, ao contrário da televisão, poderia compor seu próprio personagem, sem a caretice conservadora reinante, fazendo o filme a sua semelhança.

Com Irene Stefânia e Nelson Pereira dos Santos no set de “Fome de amor”

Paulo José tem uma das falas mais bonitas do filme, a lembrar o comprometimento de Leila com o fazer cinematográfico, a química entre os dois que, das telas, não pulou para a cama, justamente para engrandecer seu fazer efusivo nas telas.

É extraordinário, por fim, que este filme exiba-nos uma Leila combalida pela pressão da ditadura após sua entrevista ao “Pasquim”, na qual celebremente soltou muitos palavrões. Os militares a queriam presa, mas ela se safou tanto por sua própria alegria (ao chegar para depor na Polícia Federal, elogiou a vista que os torturadores tinham a partir da janela) quanto pelo empenho dos amigos a negociar com os biltres por sua liberdade.

A precoce uberização do mundo, causada pelas trevas ditatoriais,
levou-a vender roupas

O assédio dos militares foi tanto que a certa altura ela largou o trabalho de atriz para vender roupa. A dor, assim como o que hoje conhecemos por uberização do mundo, são inevitáveis quando as trevas se aproximam de nós.

Leila apagou-se fisicamente e não é possível aceitar isto de modo algum, como diz Domingos de Oliveira. Mas há algo dela que o tempo torna eterno em nós, conforme descreve Martinho da Vila em “Leila Diniz”:

Ai que saudade da beleza democrática

Ai que saudades do sorriso progressista

Ai que saudade de ouvir certas verdades

Que a burguesia sempre pensa mas não diz (…)

Ela era a estátua nacional da liberdade

Ditando a lei do ventre livre do país

Aquelas noites eram feias, eram trágicas

Mas sua luz anunciava a diretriz

Comportamentos mais abertos, transparentes

Pra nossa gente ser mais gente, mais feliz

Hoje a saudade escreve os versos deste samba

Que é um dos sambas mais sentidos que já fiz

Esta saudade tem um nome e um sobrenome

Esta saudade é uma mulher, Leila Diniz

Nome e sobrenome da saudade

SERVIÇO

Já que ninguém me tira para dançar (Brasil, 2021, 91 mins)

De Ana Maria Magalhães

Coprodução Metrópolis e apoio Itaú Cultural

Dias 15 e 16 de janeiro (sábado e domingo), das 19h às 23h

Na Itaú Cultural Play: www.itauculturalplay.com.br

O que aconteceu com as irmãs Curi

Minhas tias-avós Maria e Vitória eram tão desiguais que talvez tenha sido exatamente isso a mantê-las inseparáveis

Maria e Vitória, as irmãs Curi

Minhas tias-avós maternas da familia Curi, Maria e Vitória, tinham a vaidade compulsória da juventude. Nasceram no Maranhão, filhas de migrantes árabes, fãs ardorosas de bijuterias e tecidos, ou “cortes”.

Tia Maria era uma espécie de vulcão. Lá pelos 20 anos, nos anos 1920 desta foto, de tanto amar Hollywood, e desagradada dos próprios dentes em relação ao das estrelas, convenceu o dentista da família a arrancar todos eles. Em seu lugar, eternizou-se em sua boca uma dentadura reta e alva, trocada de tempos em tempos. “Fiquei linda!” – me contava sempre, como quem declamasse no palco grego.

Nunca se casou, mas até os 80 anos imaginou que isto aconteceria a ela inevitavelmente. Lembro-me de vê-la, aos 60, num vestido de tule verde à saída da missa de domingo no Tatuapé – e ela a me explicar que o vestido era para Jesus primeiramente, mas, em segundo lugar, para o homem indefinido que apareceria, se apaixonaria por ela e a levaria ao altar.

Nós a visitávamos aos domingos naquele bairro paulistano, para onde íamos de ônibus elétrico desde o centro, numa viagem demoradíssima. Lá Maria morava com as duas irmãs e os três irmãos, todos solteiros.

Dois dos homens eram feirantes. O mais velho deles, Fuad, muito próximo de nós, crianças, nos enchia de balas de mel vencidas, é verdade, mas dadas com tanto carinho que nem ligávamos pro sabor. O outro, Alfredo, vendia meias de náilon e, enquanto eu cresci, não parou de presenteá-las nos meus aniversários. O terceiro irmão, Dudu, era incapacitado desde os 9, quando, conta-se, ouviu um grito na noite e nunca mais falou.

No sobrado do Tatuapé, os seis irmãos dormiam em quartos separados – os três homens em um, as três mulheres, em outro. Quase não entrávamos no quarto dos homens, mas no das mulheres eu me sentia numa festa eterna, ao ouvir, durante as sestas, as histórias das irmãs sobre a família.

Maria ia além. Não só falava sobre o passado (e foi ela a me contar que, quando nasci, minha mãe inconformada salpicou um “que feia essa minha filha!”, para me encher de uma tristeza divertida desde sempre), como nos repassava as conversas que tivera com Jesus nas noites anteriores, até mesmo quando já nos tornáramos adultos. Tínhamos de ouvir e seguir o que o filho de deus nos mandara fazer… só que não, né?

Depois de Vitória e Maria, havia Helena, a mais nova, orgulho dos irmãos. Ela não apenas sobrevivera às doenças que mataram na infância sua irmã imediata Hilda e o gozador Luís (este que, no álbum de fotografia, surgia com uma cabeleira encaracolada até a cintura, tipo Luís XIV, em função da promessa materna por sua saúde, algo que infelizmente não impediu a morte da criança aos 7). Helena também tivera a sorte não dispensada ao caçula João, loiro de cabelos cacheados, atropelado aos 6 anos por um dos primeiros carros de São Luís, cidade para onde um casal de amigos de seus pais o levara a passeio. (“Como o senhor pega o meu filho vivo e o traz morto?”, disse minha bisavó ao compadre infeliz).

Vitória, eu e Helena diante do prédio em que morávamos, no Bixiga, em foto tirada por meu pai

Além de passar a perna na morte como por milagre, Helena representava grande orgulho familiar porque, tornada funcionária pública, praticamente sustentaria os outros cinco irmãos até que se aposentassem. Do nada ela apareceu um dia no sobrado com um piano para receber aulas – e eu, que não o tinha em casa, aproveitava os domingos na casa das tias (raramente dizíamos que aquela casa era dos “tios”) para repassar as lições da semana.

Vitória, à direita na primeira foto, era a minha querida, aquela me presenteava com um mussaká só dela, toda vez. Na sua infância, houve abundância familiar, visto que ela fora a segunda entre doze ou treze irmãos e os pais ainda tinham podido esbanjar com sua formação. Deram-lhe um piano para estudar, mas música não parecia ser coisa em que Vitória se aplicasse. Ela gostava mesmo era de ler romances, e para fazê-lo escondia-se atrás do instrumento à noite com uma lamparina, algo que seus pais não aprovavam nem um pouco, castigando-a por seu mau comportamento quando percebiam a ousadia.

Vitória foi crescendo e acumulando pretendentes de que não gostava em absoluto. Enrolava-os todos, negando seus pedidos de casamento, até que nenhum mais aparecesse e ela se visse, sem qualquer problema, como a irmã que cuidaria dos pais e irmãos pela vida toda, visto que minha avó, a primogênita, saíra de casa para se casar ainda adolescente.

Meus irmãos e eu na casa das tias (Maria e Vitória no canto à esquerda), diante do piano de Helena
e do Jesus de Maria

Essa dama brilhante, que nem ligava para sua beleza juvenil – ao contrário de minha tia Maria, que se imaginava bonita sem o ser -, foi minha luz na infância inteira. Muito inteligente, segura, perspicaz, bem-humorada, Vitória suportou as esquisitices de Maria, seus sonhos com Jesus, seu pudim que sempre solava, o tabaco mascado em grande quantidade e um louvor sem fim às garrafas de cerveja, até que Helena morresse algo precocemente. Todos sabiam que Vitória não aguentaria Maria sozinha por muito tempo. Eu ia visitá-la quando soube de sua morte, ocorrida menos de um mês depois que a caçula se foi.

Tia Maria foi a última dos irmãos a partir. Salvou-a, acredito, essa falta de noção em alto nível que a tirava da miséria cotidiana aqui embaixo. Até o fim, tia Maria viveu o céu que lhe coube. E a proximidade com o filho do dono – este ser que sobrecarregava com pedidos e de quem arrancava confidências – deu-lhe, bem antes que à maioria dos seres humanos, a sensação do paraíso.

paulista em linha reta

medo de minha terceira dose de vacina não dar o ar de sua graça infinita.

hoje fui até o posto para tentar me adiantar em uns dias, mas não me deixaram ser injetada.

depois de uma fila daquelas em plena chuva sob a armação do mendes da rocha na praça do patriarca, as pessoas eram vacinadas úmidas.

e os desenhinhos das coroas do corona fazendo a festa sem ter fim? onde estás, leary? d-d-drin?

muitos sonhos serão arrepiantes até sábado.

quantos filmes de Totò terei de rever?

de quantas alegrias instantâneas e enfileiradas precisarei pra assanhar meu sistema imunológico até lá?

a cidade está creepy, mas ninguém dá bola pro medo. me impressionou a quantidade de casais, especialmente de homens, sem máscaras.

blindaram os boys?

todos os paulistas são super-heróis?

A filha perdida é a filha encontrada

Baseada em Elena Ferrante, a diretora Maggie Gyllenhaal narra um aspecto ocultado da maternidade

Olivia Colman e a Chuck com
quem acerta as contas

Lembro do meu espanto ao ler, grávida do primeiro filho, o texto de um jornal inglês no qual certa mãe narrava a felicidade de deixar o bebê de três meses em casa, rumo a um encontro distante com as amigas. Eu tinha 30 anos já, mas nada entendia. Como estar longe de sua criança desprotegida poderia ter causado algum bem-estar a essa mulher?


Ser mãe não é para sissies. Barra pesada para imaturas como eu era. Nascido meu primeiro filho, passei a admirar cada mulher que conseguira criar os seus e a entender as que partiram para horas livres como plenas de sensatez. Nos passeios de carro, o que eu via pela janela e me emocionava às lágrimas eram igualmente as mães sorridentes com seus garotos crescidos, de seis anos até! A felicidade era possível com eles.


Precisei ouvir outras mães. Como superaram as noites sem dormir, os apelos incessantes, os filhos somados à vida, enfim? Tudo o que me disseram foi precioso. Mais que isso, aprendi a respeitar todas elas, de todos os lugares sociais, a mais humilde, a mais encucada, a mais livre – até mesmo aquela que não quis seus filhos.


Uma amiga me disse a frase que repito a todas as mulheres depois do parto: o que você vive agora é uma eternidade que passa rápido. Esse processo exaustivo, o Vietnã de noites sem dormir e de não mais poder ser o que se é vai doer, mas vai passar. Talvez até precise doer, por se tratar de um exercício. O músculo invisível do coração deve ganhar tônus, crescer. Se não doer agora, você não amará tanto depois.


Meus filhos foram criados com esse encantamento. Eu percebi que perdera, com seu nascimento, algo parecido com minha independência. Eu não estava só no mundo, não me veria livre do inferno dos outros. Isto mesmo: até ter meus filhos, eu não sabia que viver resultava do que era mútuo.

Maggie Gyllenhaal, a diretora


É claro que fiz toda esta introdução para que vocês percebam o interesse que me levou ao filme-de-que-se-fala neste início do ano. Está na Netflix e é dirigido por aquela que também sabe ser boa atriz, Maggie Gyllenhaal, de 44 anos, baseado em livro homônimo de Elena Ferrante.


Antes preciso dizer que o fenômeno literário Ferrante não me pegou. Li, isto sim, Inês Pedrosa, e achei bela a sua prosa, a sua alma portuguesa. Ferrante é outra história, se entendi. De todo modo, não sou de literatura que me ajude. Boa escritora, pra mim, é Katherine Mansfield: suas histórias não têm fim, nem começo, nem moral.


Já este filme é uma moralização às avessas. Muito educativo. Sim, é isso. Nem sempre os filhos são nossa realização. Nem sempre os amamos no mesmo compasso social exigido. Somos mais necessárias conforme cresçamos para aprender com eles. Amar não tem manual e caminha no seu tempo.


Em “A filha perdida”, o que se vê é a filha encontrada. A maternidade com ressignificação.

Jessie Buckley e a
maternidade ressignificada


Maravilhosas atrizes dão conta de viver duas fases de vida da protagonista Leda, a jovem Jessie Buckley e a madura Olivia Colman. Jessie intensa, olhando para a vida como quem precisa entendê-la de perto. Olivia, como quem ri à distância de toda a fúria significando nada. Morro pelo sorriso cínico-amoroso dessa atriz tão inglesa, tão rainha…


E tem a boneca. A boneca da filha da família intrusiva, família do mal (à qual pertence a mãe vivida por Dakota Johnson) que Leda resolve confrontar. A pequena Chuck da qual ela se apodera até limpá-la da podridão da água suja, do verme. A boneca catártica que fala à culpa, ao inconsciente, a boneca que é Leda ela mesma, enquanto filha e mãe.

Com Dakota Johnson, um jeito de encenar o mal


Tudo é dirigido com a competência estadunidense de armar uma cama psicológica para assim desfazer as armadilhas culturais de seus espectadores. Saímos do filme convencidos do melhor.


Para meu gosto, contudo, faltam nesse caldo duas coisas. Uma camada cinematográfica que faça o filme durar para além do drama. E uma compreensão da maternagem para além do cinismo.


É convincente dentro do filme (e abrevia as explicações) uma inglesa como Leda dizer tantas vezes que por ser má agiu assado ou assim. Mas maldade não tem nada a ver com isso, tem? Nem o fato de seu marido não ter sido presente. Mesmo com maridos-pais amorosos ao lado, uma mulher pode viver intensamente esse drama, até porque, no fim das contas, ele é mesmo só seu.