a música brasileira não morreu

Rodrigo Campos e Maurício Tagliari interpretam “Silêncio em Prata”, coa-autoria deles e minha, em maio de 2019

sim, eu sinto muito falta dos músicos que perdemos.
choro e me angustio por isso.
mas a música brasileira não morreu com eles.
eu aliás raras vezes a vi tão bonita como vejo agora.
as cenas são as do samba, da canção, da improvisação do jazz, até do free jazz, do erudito, do romântico, do funk, do brega, do brega às vezes tecno do Pará, da música para o carnaval, das bandas instrumentais, dos compositores incríveis nos becos (e há tantos onde moro, em São Paulo).
vamos com carinho por eles, lutadores, e com calma e agradecimento para os que perdemos.
sertanojo e música que toca na globo geralmente não são nada, são só dinheiro, a deformação que o dinheiro traz.
ouvidos atentos, isso é tão importante…
não temos tempo de temer a morte, nem vamos fabricá-la!

Kaboom 23 interpreta “Beira-mar” com Danilo Penteado e Guilherme Kafé em dezembro de 2021

por que koo

eu sei que isso não interessa a vocês, pessoas sérias, mas me sinto acolhida no koo por motivo de: os memeiros me seguem e eu os sigo.

sinto que estou ganhando uma família melancólica e desesperançada, por isso mesmo divertida, para quem o humor, bom ou terrível, se não cura, alivia.

e de rede social nada se leva, não é assim?

2 de janeiro de 2021

Minha cabeça que roda e roda enquanto deveria ficar quieta é incapaz de inventar coisas simples e criativas como esta que li há pouco num texto de facebook, isto é, plantar sementes descascadas de limão em canecas para perfumar a casa e a encher de vida.

Sou muito ruim de tarefas domésticas e arrumação, e minhas habilidades manuais talvez se resumam a pendurar a roupa no varal de modo a que não seja preciso passá-la. Vou mal e minimalista na cozinha, sou impossível de crochê e não me arrisco a desenhar, mesmo tendo sido filha de um desenhista exímio, mulher de um e mãe de dois bons, um deles extraordinário.

Minha casa, para quem a conhece, é um retrato de histórias. “Sem decoração”, como fez questão de lembrar uma parente, com a ponta de sinceridade (não devo dizer maldade) habitual.

Livros por todos os cantos, livros que ganhei quando os editava para as publicações gerais, a cada dia menos interessadas neles. Livros que são antigos e que leio com vergonha aos pedaços, quando os leio. Livros em torno da tese que escrevi e só eu li. Tese de muitas pontas, que decidi qualificar de poligonal, e que não me possibilitou entrada no mundo acadêmico, como me lembrou um ex-amigo para justificar que ele não me defendesse quando fui publicamente ignorada por um crítico desinteressado dos livros, com lapsos de memória, mas gente de culto.

Infelizmente demoro demais a ler coisas novas, e até o pdf do livro-sensação ganhei, mas não me capturou logo nas primeiras páginas (alguma mágica que deixei de sentir), então logo me despedi dele, para começar a Felicidade Conjugal de Tolstói, homem cuja vida ou personalidade jamais admirei, mas que escreve como quem conversa as coisas desde seu princípio até sua impossibilidade.

Não sou uma scholar e não leio tudo, mas deixo de fazê-lo com culpa. Com culpa e responsabilidade. Tenho filhos jovens que leem e não raro se sentem solitários porque os amigos não compartilham suas leituras. Espero que, se houver netos para mim, sejam estranhos leitores no seu tempo, divertidos com os livros da grande biblioteca que possivelmente iremos lhes legar.

Tive filhos, tive misérias, mas nunca causadas por eles, com quem aprendi todo dia um novo modo de entender as coisas, estas que no fim das contas são muito parecidas, mas nunca iguais, nascidas da crise que é constante, como observou Edgar Morin, e que combatemos em oásis de felicidade, termo dele também.

Tenho igualmente muito amigos que não leram nada e que mal entendem do que eu estou falando. Mas, quando nos encontramos, rimos. Como perdemos essa possibilidade com a pandemia, de nos enroscarmos com vinho, nos lamentamos via memes, estes que considero uma grande invenção, mas que não têm o mesmo efeito de um comentário-soco em mesa de bar quando nele entra alguém.

Quem lê assim até pensa que sou do bar, mas sempre bebi mais em casa que fora dela. Meu marido é um pro, que identifica o bom da bebida entre o ruim. Eu também identifico, mas me envergonho por não saber as razões de superioridade ou inferioridade de qualquer coisa líquida, estas que ele descreve à perfeição.

Ele é bem perfeito em tudo, aliás, tem uma memória extraordinária e lê todas as coisas interessantes, muito mais do que eu. E não as dispersa pelo Facebook, como eu, carente da conversa alheia num círculo de amizades que a idade começa a fechar mais e mais. Ele guarda tudo para despejá-lo quase sempre na forma visual, condensada e difícil, da canção.

Por que estou dizendo tudo isto, não sei. Talvez por estar sorvendo estes dias livres, depois de pela primeira vez na vida ter trabalhado no dia 31 de dezembro (verdade, sempre forcei a sorte nos plantões de redação). Sou dispersa e desatenta de um modo geral, distraída pra morte, como dizia o Otto (aliás uma das coisas mais bem ditas da música popular), razão pela qual fotografo a rua com prazer.

Escrevo tudo isto com um dedo só no celular, e na cama, da qual demoro a sair de manhã, lendo ali mesmo, via internet, as notícias da barbaridade cotidiana. Fui jornalista que nunca admirou excessivamente os jornais, e não me lamento por ter perdido a gana, não só a grana, de comprá-los.

Nos últimos dias, os algoritmos têm me trazido as excepcionalidades, a natureza, um pouco menos de desesperança, razão pela qual agradeço.

Sim, é verdade que não vejo dilema em redes sociais, só escolhas, e até boas, muitas delas.

Tudo isto para dizer que tenho o coração tranquilo?

Nunca está.

Mas talvez por esta razão exista um infinito dentro dele, onde cabe você.

Do que ri você?

Filmes no Festival de Cinema Italiano navegam em torno do humorismo de reflexão

Não sei se sabem que fica em cartaz até 4 de dezembro o Festival de Cinema Italiano. Gratuito, no streaming. Muita coisa realmente boa está ali para ser vista desde o sofá. Como se trata de festival italiano, não perca a retrospectiva. Não há só Visconti, o soberbo, com “O inocente”. O riso clássico tem seu espaço aqui.

Encanto, assombro, grotesco, reflexão, eis alguns ingredientes da comédia à italiana. Um cinema sobre perdedores, enganados, pequenos, esquecidos. Cinema direto, emocional, feito de autoderrisão. Meu cinema…

Bem poucos, mas importantes filmes dessa linhagem cômica estão no festival. Dois deles, de Dino Risi, são conhecidos e bem-sucedidos em épocas diferentes: “Pão, amor e…”, com Sofia Loren e Vittorio de Sica, e “Venha dormir lá em casa esta noite”, com Ugo Tognazzi e Ornella Muti (e uma curiosa tradução para o título que em italiano significa “A alcova do bispo”.) Ironista implacável e pleno de musicalidade, Risi se formou médico, mas trocou a carreira pelo cinema por se ver incapaz de curar…

O terceiro dos filmes é o raramente visto “O mal obscuro”, de 1990, com roteiro dos espetaculares Suso Cecchi D’Amico e Tonino Guerra para o livro homônimo de Giuseppe Berto (editora 34). Dirigido por Mario Monicelli, o filme encontra o humorismo na situação extrema vivida por um escritor que sintomatiza seu terror psicológico. O protagonista é vivido pelo Giancarlo Giannini estupendo de sempre. Eis um ator para qualquer papel ou dialeto, com sua extensão física e intensidade expressiva. Que face perfeita para vestir a solidão!

Com filmes assim você conhece um outro tipo de humorismo. Não se trata de piada ou insulto. São roteiros trabalhados sobre gags, situações físicas e emocionais no limite da realidade, muitas vezes nem mesmo engraçados, frequentemente trágicos, dramáticos, temperados pelas trevas, tão habituais nos seres humanos.

Ontem assisti a “Comedians” (veja a sequência de frames), um filme feito pelo napolitano Gabriele Salvatores, em 2021, a partir de uma peça inglesa de Trevor Griffiths. Salvatores ajuda a explicar esse humor a que me refiro, descendente da tese de Luigi Pirandello segundo a qual o verdadeiro riso nasce da reflexão. O filme é um exercício teatral que mostra comediantes horas antes de uma seleção a ser aplicada pelo personagem de Christian de Sica, filho do diretor Vittorio e estrela da televisão italiana. “Comedians” faz perguntas. Que humor importa? O que busca espelhar a expectativa do espectador ou aquele que pretende despertar o potencial de transformação adormecido nele?

VENHA DORMIR LÁ EM CASA ESTA NOITE (La Stanza del Vescovo)

PÃO, AMOR E… (Pane, Amore e…)

MAL OBSCURO (Il Male Oscuro)

Soube da morte de Gal pela manhã, fiquei muda, tinha de trabalhar, trabalhei, nem comi, vim pro no consultório médico e só agora, justamente agora, no corredor de espera da clínica, meio da tarde, janela estreita aberta ao sol brilhante, bonito, que parece gritar sua voz, as lágrimas decidem aparecer.

MANÉ É MANÉ

Ainda bem que alguns amigos do meu face, como a Anita Galvão, me ajudam nessas horas. Hoje de manhã, rachei o bico ao saber de uma nova fake news da bravata dos doido, que ela nos contou por lá, gargalhando. E depois do café com facebook, fui à feira.

Perguntei ao vendedor se ele pagava menos taxa quando eu levava os limões no débito, em lugar do crédito.

O sujeito, que antes conclamava com mau humor as freguesas a gastarem com ele seu suado dinheiro, fechou a cara ainda mais.

– É tudo a mesma porcaria. E agora, ainda mais, vão começar a cobrar pelo Pix em 1 de janeiro.

– Fake news, meu amor!

– Ah, é? E o que faziam os banqueiros ao lado do cara?

Pensei. Não vou ficar braba. Nem vou jogar os limões aqui. Vou pagar pra me divertir.

– Verdade, né? E o Paulo Freire, que vai virar ministro da Educação?

– Então? – respondeu, sem que eu conseguisse identificar a cor da cara azeda numa escala pantone. E emendei:

– Vai virar nem sei como, porque o Freire morreu tem uns 30 anos, amigo!

– Quero é ver!

– Aí que está, não vai ver!

E continuou me respondendo, meio sem braços, feito o cavaleiro negro do Monty Python. Jamais volto nessa barraca, porque o problema com essa limonada de cérebros é a gente não se divertir direito com ela, já que, como sabemos, não dispõe de cognição pra entender piada.

E seguimos com Bezerra da Silva, malandro é malandro, mané é mané!

Deixem meu sorriso

Ah pronto.

Você não pode rir do que acontece de ruim.

E seria bom não chorar.

Seria melhor não acreditar, nem rezar, nem pular.

Estar contrito, vigilante, inabalável.

A seriedade confiável, a alegria sem juízo.

Seria bom não brilhar a carne, deixá-la intocável, segura de seu caroço, sua semente.

E assim não viver, nem sentir, apenas vigiar e punir.

Eu aconselharia aos moralistas progressistas da rede social também o riso, pois ele carrega consigo o deslocamento, a contradição, o paradoxo, a capacidade de raciocínio num segundo, a agilidade do sonho e do poema.

Aconselharia.

Porque não vou obrigar ninguém, obviamente, a nada.

E vou continuar no meu caminho.

Acertamos a cor!

A jornalista e a cabeleireira: oportunidade que o zap nos dá

Precisei do salão coreano ontem, para o qual me dirigi um pouco apreensiva. Há mais de um mês posto informações sobre a eleição no stories do WhatsApp, justamente para tentar furar a bolha e atingir pessoas como minha cabeleireira, cerceada por fake news que são  tubarões. O que ela acharia das informações que ponho para circular no zap?

Observo que, sim, ela é presente em cada status meu, embora não comente as postagens. Como minha cabeleireira, o tapeceiro, o dedetizador, a marmiteiro, o perueiro, a mulher que faz bela azeitona, a faxineira, a funcionária da imobiliária, alguns amigos e parentes, todos estão lá, sempre presentes. Mas não os vejo nunca, razão pela qual não preciso sofrer o desgaste do contato.

Agora vai ser diferente. Minha cabeleireira trabalha há décadas nesse salão que frequento há três anos, embora não seja coreana. Sua hidratação é ótima, usa vapor, um método que, tudo indica, a Coreia do Sul de belas mulheres bem tratadas também usa. Saio feliz de lá, quando vou, e gasto relativamente pouco.

Ontem, marquei um horário e só pude aparecer uma hora depois. Ela disse que eu poderia ir, mesmo atrasada, embora ressaltasse um problema de horário: teria de sair às cinco e ponto para a reunião da sua igreja.

Pensei: deus do céu. Mas também pensei: ela não me rejeitou. É uma boa profissional, só interessada no que faz. Mal conversa. Se for evangélica bolsonarista, não vai falar nada para perder a cliente, ninguém é besta assim.

Chego e a porta de vidro está fechada, como tem sido nos últimos tempos, quando famintos e noias se acumulam em todo canto, especialmente na rua José Paulino, para vasculhar o lixo, a tapas, diante dos atacadistas no fim de tarde. Olho para baixo do letreiro adesivado na porta de vidro do salão e vejo-a procurar quem chegou. Me sorri!

Entro no salão e sou a única cliente, com três funcionárias e uma gerente a arrumar as mesas, varrer e limpar materiais. Tento ser simpática: “Que sorte a minha, só eu e vocês!” Digo para a minha cabeleireira que me atrasei em função de um trabalho como jornalista frilancer e ela abre um sorriso ainda maior: “Você é jornalista, então! Só podia!” Eita. “Adorei aquele Tarcísio no poste, perdido em São Paulo, que você colocou…”

Ela é das minhas? Ou o que eu postei funcionou? Ela crê que eu só poderia votar em Lula, sendo jornalista. E eu retruco que há jornalistas bolsonaristas de monte, não se fie! Ao que ela diz: “Na minha família, a maioria é bolsonarista, especialmente quem trabalha em saúde (!). Por isso uso suas postagens, pra provocar eles no grupo de família.”

Hahaha. Sim, ela vota em Lula e hoje fará em sua casa mais uma leitura semanal do evangelho. “Mas sou a única que vota em Lula no salão. Os donos coreanos são bolsonaristas, claro.” Olha em volta: “E elas também!”, apontando para as colegas. Vixe. “Sabe quem está aqui e vai explicar as coisas pra vocês?”, grita para as funcionárias, de repente. “Uma jornalista!”

É claro que eu mereço. No dia em que encontro um horário pra cuidar de mim e relaxar, alguém me põe pra conversar com o gado, cheek to cheek! Contudo… É um instinto. Já entendo que não serei maltratada como fui pelo macho escroto que dirigia o carro do Uber. São mulheres, trabalhadoras, mães. Não é possível.

Então me imagine como um personagem de Jacques Tati. Estou metida num vaporizador que cobre os cabelos e solta fumaça pra todo lado. Três quilos mais gorda, depois da imobilização no pé, sou a própria jubarte no centro do salão, a dialogar com o povo! Estou no centro e elas, sentadas em volta. Me lembro da Dilma cercada pelos milicos de 69. Do Haddad no Roda Viva. Do Lula com Renata e Bonner. Me inspire, se isso for ao menos possível, paim!

A mais faladora é a loira de cabelos amarrados, uniforme preto, vassoura nas mãos, trinta e poucos anos. “Lula, sai fora!” Ela vota em Bolsonaro e “no outro” (gente) porque é de deus. Acha que Lula não é? “Meu pai era metalúrgico e votava no Lula. Dois anos depois que ele assumiu, não votava nele nunca mais. A vida dele piorou.”

Digo-lhe que tb fiquei desempregada nos primeiros anos do governo Lula, mas que não o culpei por isso. “Sou mulher da Bíblia e não aceito.” O que não aceita? “Certas coisas. Ideologia de gênero não!” Mas isso não existe, sabe? Kit gay é fake news. “Mas sou contra essas coisas na escola. Homossexualismo. Aborto.” 

Você diz, falar sobre isso? Mas é preciso falar. Ensinar o que é aparelho reprodutor. Eu estudei durante a ditadura e lá com meus 12 anos aprendi onde ficavam os ovários, o útero, o pênis. Quantos anos tem seu filho?

“Dezesseis”.

Então ele já pode saber sobre isso, não?

“Ele sim. Mas banheiro unissex não!”

Não existe banheiro unissex em escola. Como existiria?

“Na escola do meu filho querem implantar.”

Quem quer implantar?

“A escola”.

Então é só dizer que não quer, certo? O Lula não pode decidir isso. Como não pode obrigar alguém a ser homossexual ou a abortar.

“Ele disse que vai dar dinheiro pras pessoas. Quero é ver.”

Ele não disse que vai dar dinheiro. Ele não é o Silvio Santos! “Ele disse que, com emprego, você vai poder comprar as coisas”, pronuncia-se minha cabeleireira, sentada numa poltrona. Bravo! Mas a loira insiste. “Não se deve dar. Tem de dar a vara de pescar, não o peixe. As mulheres tinham seis, sete filhos só pra ganhar o bolsa família!” 

Mas querida, ter seis, sete filhos pra ganhar essa miséria? Como assim? Não é pedir pouco para a vida? “Tá cheio de gente que faz isso!” Mas, veja, com o bolsa-família tem de haver uma contrapartida, que é a criança estudar, isso é um grande benefício. “Aí que elas gostam! Deixam o filho na escola, ele come lá e tudo, ela não faz nada o dia inteiro!” Mas vc concorda que as crianças têm de ter merenda na escola, não? “Claro. Nos últimos anos elas têm sim, até almoço”. Na escola pública de seu filho oferecem almoço? “Sim, melhorou muito isso depois que o PT saiu”. É uma escola estadual? “É!” Interessante. Não sei de nenhum caso parecido. De todo modo, não é o Bolsonaro quem dá dinheiro para as escolas estaduais, vc sabe disso, não? É o governador, o Doria, foi o Alckmin, o PSDB.

Silêncio. “Dar dinheiro, dar cerveja! É isso que o brasileiro quer. Não trabalhar e ter tudo. Aí que ele vai folgar.” Você acha o brasileiro folgado? Acho que ele trabalha tanto! “É verdade, mas tem uns que Deus me livre.” Sim, mas isso tem em todo lugar, concorda?

Meus sais. Boca seca. Quero valorizá-la, quero valorizar o que ela construiu, ou ela não vai me ouvir. “Você me parece inteligente e informada. Tenho certeza de que não quer ser tratada com desrespeito, como a Damares trata. (Nessa hora estava tão empenhada que nem percebi o que eu falava.) A Damares inventa uma situação para deixar as mães apavoradas, silenciadas, contrárias à escola. Como inventar o que ela inventou, sobre as crianças na ilha de Marajó?

“Você acha que a Damares inventou aquilo? Aquilo acontece!” Ela inventou aquilo. Para assustar o público da igreja. Pra fazer campanha. O Ministério Público pediu as provas e ela não deu, disse que tinha ouvido das pessoas. “E as pessoas não podem estar falando certo? A gente ouve cada coisa!” Sim, a gente ouve. Mas a gente não é ministra dos Direitos da Família. Quando a gente é ministro, se ouve uma denúncia dessas, tem de investigar, mandar prender os responsáveis e acudir as vítimas. Ou ela mentiu sobre a violência pra fazer campanha pro Bolsonaro ou o fato existiu e ela não tomou providência! De toda forma, ela cometeu um crime.

“A verdade é que eu não sinto no Lula, sabe, um projeto claro pra economia.” Não sente? Olha, ele diz duas coisas importantes, ao menos. Uma é que rico tem de pagar imposto. E rico não sou eu, nem você, nem os donos deste salão. Rico é quem tem mina, terra. Então, essas pessoas não podem pagar menos, proporcionalmente, do que a gente paga. Salário não é renda. E outra coisa que o Lula diz é que o pobre precisa entrar no orçamento, isto é: tem de ter saúde, tem de ter escola pro filho, comida na mesa e emprego. Com políticas públicas pra isso, com dinheiro público. O Estado existe pra isso.

“Mas o Bolsonaro não pode fazer tudo.” Pode sim. Deve. A gente paga imposto pra ele administrar. Se eu estou em situação vulnerável, se não posso trabalhar por acidente, ou porque uma pandemia chegou, ele não tem de ajudar? “Tem. Mas ajudou, deu 600 reais, não deu?” Não foi ele que deu. Você sabe, ele é o presidente, o executivo, que executa o que o Congresso mandar. O Congresso, os deputados e senadores, sabe? Quem faz as leis? Bolsonaro não pode decidir sozinho. Neste caso, nem 200 reais queria dar! Foi obrigado pelo Congresso. Ele e o Guedes não gostam de povo. Governam pra empresário. Empresário sonegador, tipo o Velho da Havan. Mas não pode ser assim. O empresário tem de pagar imposto conforme ganha. 

“Eu acho que não importa quem estiver lá. Vai dar sempre errado.” Como assim? Faz muita diferença quem esteja lá. As diferenças que lhe contei. Por que vai dar errado? “Porque… ai, olha, eu sou da Bíblia.” Sim, isso eu entendi. Mas o que diz a Bíblia? “Diz que vai vir o Apocalipse, e que tudo vai desaparecer.” Ah, mas isso demora, não? E enquanto isso a gente não pode ser feliz, tomar uma cerveja e comer um churrasco?

Continua a varrer, “a senhora não me convence”, as outras abaixam a cabeça, minha cabeleireira ri. Termina o serviço e diz, levantando minhas mechas: “Olha que cabelo você tem! Parece uma permanente, cheio. E as mulheres coreanas aqui pagam pra ter o cabelo que vc já tem.” Gente. Nunca ouvi um elogio dela antes. No final me abraçou, sorriu e disse que agora acertamos a cor.

Acertamos a cor!

HINO AO JUIZ

Arte de Rodtchenko para a capa
do livro “Maiakóvski Sorri,
Maiakóvski Ri”, de 1923

Pelo Mar Vermelho vão, contra a maré,
Na galera a gemer os galés, um por um.
Com um rugido abafam o relincho dos ferros:
Clamam pela pátria perdida – o Peru.

Por um Peru-Paraíso clamam os peruanos,
Onde havia mulheres, pássaros, danças,
E, sobre guirlandas de flores de laranja,
Baobás – até onde a vista alcança.

Bananas, ananás! Peitos felizes.
Vinho nas vasilhas seladas…
Mas eis que de repente como praga
No Peru imperam os juízes!

Encerraram num círculo de incisos
Os pássaros, as mulheres e o riso.
Boiões de lata, os olhos dos juízes
São faíscas num monte de lixo.

Sob o olhar de um juiz, duro como um jejum,
Caiu, por acaso, um pavão laranja-azul:
Na mesma hora virou cor de carvão
A espaventosa cauda do pavão.

No Peru voavam pelas campinas
Livres os pequeninos colibris;
Os juízes apreenderam-lhes as penas
E aos pobres colibris coibiram.

Já não há mais vulcões em parte alguma,
A todo monte ordenam que se cale.
Há uma tabuleta em cada vale:
“Só vale para quem não fuma.”

Nem os meus versos escapam à censura:
São interditos, sob pena de tortura.
Classificaram-nos como bebida
Espirituosa: “venda proibida”.

O equador estremece sob o som dos ferros.
Sem pássaros, sem homens, o Peru está a zero.
Somente, acocorados com rancor sob os livros,
Ali jazem, deprimidos, os juízes.

Pobres peruanos sem esperança,
Levados sem razão à galera, um por um.
Os juízes cassam os pássaros, a dança,
A mim e a vocês e ao Peru.

VLADÍMIR MAIAKÓVSKI, 1915

em “Maiakóvski Poemas”, ed. Perspectiva, 2017.

Tradução de Augusto de Campos