Acertamos a cor!

A jornalista e a cabeleireira: oportunidade que o zap nos dá

Precisei do salão coreano ontem, para o qual me dirigi um pouco apreensiva. Há mais de um mês posto informações sobre a eleição no stories do WhatsApp, justamente para tentar furar a bolha e atingir pessoas como minha cabeleireira, cerceada por fake news que são  tubarões. O que ela acharia das informações que ponho para circular no zap?

Observo que, sim, ela é presente em cada status meu, embora não comente as postagens. Como minha cabeleireira, o tapeceiro, o dedetizador, a marmiteiro, o perueiro, a mulher que faz bela azeitona, a faxineira, a funcionária da imobiliária, alguns amigos e parentes, todos estão lá, sempre presentes. Mas não os vejo nunca, razão pela qual não preciso sofrer o desgaste do contato.

Agora vai ser diferente. Minha cabeleireira trabalha há décadas nesse salão que frequento há três anos, embora não seja coreana. Sua hidratação é ótima, usa vapor, um método que, tudo indica, a Coreia do Sul de belas mulheres bem tratadas também usa. Saio feliz de lá, quando vou, e gasto relativamente pouco.

Ontem, marquei um horário e só pude aparecer uma hora depois. Ela disse que eu poderia ir, mesmo atrasada, embora ressaltasse um problema de horário: teria de sair às cinco e ponto para a reunião da sua igreja.

Pensei: deus do céu. Mas também pensei: ela não me rejeitou. É uma boa profissional, só interessada no que faz. Mal conversa. Se for evangélica bolsonarista, não vai falar nada para perder a cliente, ninguém é besta assim.

Chego e a porta de vidro está fechada, como tem sido nos últimos tempos, quando famintos e noias se acumulam em todo canto, especialmente na rua José Paulino, para vasculhar o lixo, a tapas, diante dos atacadistas no fim de tarde. Olho para baixo do letreiro adesivado na porta de vidro do salão e vejo-a procurar quem chegou. Me sorri!

Entro no salão e sou a única cliente, com três funcionárias e uma gerente a arrumar as mesas, varrer e limpar materiais. Tento ser simpática: “Que sorte a minha, só eu e vocês!” Digo para a minha cabeleireira que me atrasei em função de um trabalho como jornalista frilancer e ela abre um sorriso ainda maior: “Você é jornalista, então! Só podia!” Eita. “Adorei aquele Tarcísio no poste, perdido em São Paulo, que você colocou…”

Ela é das minhas? Ou o que eu postei funcionou? Ela crê que eu só poderia votar em Lula, sendo jornalista. E eu retruco que há jornalistas bolsonaristas de monte, não se fie! Ao que ela diz: “Na minha família, a maioria é bolsonarista, especialmente quem trabalha em saúde (!). Por isso uso suas postagens, pra provocar eles no grupo de família.”

Hahaha. Sim, ela vota em Lula e hoje fará em sua casa mais uma leitura semanal do evangelho. “Mas sou a única que vota em Lula no salão. Os donos coreanos são bolsonaristas, claro.” Olha em volta: “E elas também!”, apontando para as colegas. Vixe. “Sabe quem está aqui e vai explicar as coisas pra vocês?”, grita para as funcionárias, de repente. “Uma jornalista!”

É claro que eu mereço. No dia em que encontro um horário pra cuidar de mim e relaxar, alguém me põe pra conversar com o gado, cheek to cheek! Contudo… É um instinto. Já entendo que não serei maltratada como fui pelo macho escroto que dirigia o carro do Uber. São mulheres, trabalhadoras, mães. Não é possível.

Então me imagine como um personagem de Jacques Tati. Estou metida num vaporizador que cobre os cabelos e solta fumaça pra todo lado. Três quilos mais gorda, depois da imobilização no pé, sou a própria jubarte no centro do salão, a dialogar com o povo! Estou no centro e elas, sentadas em volta. Me lembro da Dilma cercada pelos milicos de 69. Do Haddad no Roda Viva. Do Lula com Renata e Bonner. Me inspire, se isso for ao menos possível, paim!

A mais faladora é a loira de cabelos amarrados, uniforme preto, vassoura nas mãos, trinta e poucos anos. “Lula, sai fora!” Ela vota em Bolsonaro e “no outro” (gente) porque é de deus. Acha que Lula não é? “Meu pai era metalúrgico e votava no Lula. Dois anos depois que ele assumiu, não votava nele nunca mais. A vida dele piorou.”

Digo-lhe que tb fiquei desempregada nos primeiros anos do governo Lula, mas que não o culpei por isso. “Sou mulher da Bíblia e não aceito.” O que não aceita? “Certas coisas. Ideologia de gênero não!” Mas isso não existe, sabe? Kit gay é fake news. “Mas sou contra essas coisas na escola. Homossexualismo. Aborto.” 

Você diz, falar sobre isso? Mas é preciso falar. Ensinar o que é aparelho reprodutor. Eu estudei durante a ditadura e lá com meus 12 anos aprendi onde ficavam os ovários, o útero, o pênis. Quantos anos tem seu filho?

“Dezesseis”.

Então ele já pode saber sobre isso, não?

“Ele sim. Mas banheiro unissex não!”

Não existe banheiro unissex em escola. Como existiria?

“Na escola do meu filho querem implantar.”

Quem quer implantar?

“A escola”.

Então é só dizer que não quer, certo? O Lula não pode decidir isso. Como não pode obrigar alguém a ser homossexual ou a abortar.

“Ele disse que vai dar dinheiro pras pessoas. Quero é ver.”

Ele não disse que vai dar dinheiro. Ele não é o Silvio Santos! “Ele disse que, com emprego, você vai poder comprar as coisas”, pronuncia-se minha cabeleireira, sentada numa poltrona. Bravo! Mas a loira insiste. “Não se deve dar. Tem de dar a vara de pescar, não o peixe. As mulheres tinham seis, sete filhos só pra ganhar o bolsa família!” 

Mas querida, ter seis, sete filhos pra ganhar essa miséria? Como assim? Não é pedir pouco para a vida? “Tá cheio de gente que faz isso!” Mas, veja, com o bolsa-família tem de haver uma contrapartida, que é a criança estudar, isso é um grande benefício. “Aí que elas gostam! Deixam o filho na escola, ele come lá e tudo, ela não faz nada o dia inteiro!” Mas vc concorda que as crianças têm de ter merenda na escola, não? “Claro. Nos últimos anos elas têm sim, até almoço”. Na escola pública de seu filho oferecem almoço? “Sim, melhorou muito isso depois que o PT saiu”. É uma escola estadual? “É!” Interessante. Não sei de nenhum caso parecido. De todo modo, não é o Bolsonaro quem dá dinheiro para as escolas estaduais, vc sabe disso, não? É o governador, o Doria, foi o Alckmin, o PSDB.

Silêncio. “Dar dinheiro, dar cerveja! É isso que o brasileiro quer. Não trabalhar e ter tudo. Aí que ele vai folgar.” Você acha o brasileiro folgado? Acho que ele trabalha tanto! “É verdade, mas tem uns que Deus me livre.” Sim, mas isso tem em todo lugar, concorda?

Meus sais. Boca seca. Quero valorizá-la, quero valorizar o que ela construiu, ou ela não vai me ouvir. “Você me parece inteligente e informada. Tenho certeza de que não quer ser tratada com desrespeito, como a Damares trata. (Nessa hora estava tão empenhada que nem percebi o que eu falava.) A Damares inventa uma situação para deixar as mães apavoradas, silenciadas, contrárias à escola. Como inventar o que ela inventou, sobre as crianças na ilha de Marajó?

“Você acha que a Damares inventou aquilo? Aquilo acontece!” Ela inventou aquilo. Para assustar o público da igreja. Pra fazer campanha. O Ministério Público pediu as provas e ela não deu, disse que tinha ouvido das pessoas. “E as pessoas não podem estar falando certo? A gente ouve cada coisa!” Sim, a gente ouve. Mas a gente não é ministra dos Direitos da Família. Quando a gente é ministro, se ouve uma denúncia dessas, tem de investigar, mandar prender os responsáveis e acudir as vítimas. Ou ela mentiu sobre a violência pra fazer campanha pro Bolsonaro ou o fato existiu e ela não tomou providência! De toda forma, ela cometeu um crime.

“A verdade é que eu não sinto no Lula, sabe, um projeto claro pra economia.” Não sente? Olha, ele diz duas coisas importantes, ao menos. Uma é que rico tem de pagar imposto. E rico não sou eu, nem você, nem os donos deste salão. Rico é quem tem mina, terra. Então, essas pessoas não podem pagar menos, proporcionalmente, do que a gente paga. Salário não é renda. E outra coisa que o Lula diz é que o pobre precisa entrar no orçamento, isto é: tem de ter saúde, tem de ter escola pro filho, comida na mesa e emprego. Com políticas públicas pra isso, com dinheiro público. O Estado existe pra isso.

“Mas o Bolsonaro não pode fazer tudo.” Pode sim. Deve. A gente paga imposto pra ele administrar. Se eu estou em situação vulnerável, se não posso trabalhar por acidente, ou porque uma pandemia chegou, ele não tem de ajudar? “Tem. Mas ajudou, deu 600 reais, não deu?” Não foi ele que deu. Você sabe, ele é o presidente, o executivo, que executa o que o Congresso mandar. O Congresso, os deputados e senadores, sabe? Quem faz as leis? Bolsonaro não pode decidir sozinho. Neste caso, nem 200 reais queria dar! Foi obrigado pelo Congresso. Ele e o Guedes não gostam de povo. Governam pra empresário. Empresário sonegador, tipo o Velho da Havan. Mas não pode ser assim. O empresário tem de pagar imposto conforme ganha. 

“Eu acho que não importa quem estiver lá. Vai dar sempre errado.” Como assim? Faz muita diferença quem esteja lá. As diferenças que lhe contei. Por que vai dar errado? “Porque… ai, olha, eu sou da Bíblia.” Sim, isso eu entendi. Mas o que diz a Bíblia? “Diz que vai vir o Apocalipse, e que tudo vai desaparecer.” Ah, mas isso demora, não? E enquanto isso a gente não pode ser feliz, tomar uma cerveja e comer um churrasco?

Continua a varrer, “a senhora não me convence”, as outras abaixam a cabeça, minha cabeleireira ri. Termina o serviço e diz, levantando minhas mechas: “Olha que cabelo você tem! Parece uma permanente, cheio. E as mulheres coreanas aqui pagam pra ter o cabelo que vc já tem.” Gente. Nunca ouvi um elogio dela antes. No final me abraçou, sorriu e disse que agora acertamos a cor.

Acertamos a cor!

eu rio sim

não sei usar revólveres nem fuzis.

e sou oprimida pelo estado de coisas.

como vou me defender?

se não puder usar o humor como arma, ou como correção para um estado de coisas, à moda do que ensinou aristóteles, do que raciocinou bergson ou do que escreveu pirandello, o que restará de mim?

vou rir, sim, enquanto posso.

vou desmontar risonhamente o cinismo deles, os que me oprimem.

não particularizo minha crítica em micheque, porque nem mesmo isto ela merece de mim.

mas talvez devesse.

desmontando Maria Antonieta (“comam brioches”) nos panfletos satíricos, os oprimidos franceses contribuíram para a revolução.

contudo, não espero revolução nenhuma por aqui.

nem mesmo uma correção.

meu riso é só liberador.

é meu alívio.

por que rio?

porque é sublime.

rio do caos deles.

um dos meus jeitos de enfrentar as coisas.

rio enquanto espero o impossível.

Barreto, Bishop e o comunismo de arregalar os olhos

Não percam o perfil do Felipe Fortuna no facebook, pois ele está a nos atualizar deliciosamente sobre as porcarias ditas e escritas pela Bishop sobre o Brasil.

Até parece brincadeira. É de desmontar qualquer afeto.

Agora entendo por que, numa ocasião, o Bruno Barreto me disse que seu filme sobre Elizabeth e Lota, “Flores Raras”, era o melhor que já tinha feito.

O Barreto é tão reaça que no meio de um jantar, quando eu lhe contei que minha tese girava em torno da commedia all’italiana, arregalou os olhos. “Mas você não fala sobre o Monicelli, né? Era um comunista, o Fellini me contou!”

E eu: “E daí, velho?!”

O álbum de fotos de Brecht contra o fascismo

 

Oito meses antes de morrer, o dramaturgo editou na Alemanha Oriental imagens da guerra anteriormente publicadas por revistas como a “Life”, acrescidas por seus poemas-legendas

 

Brecht Hitler
“Esta coisa dominou o mundo uma vez.
Seus conquistados o superaram.
Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;
o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”

A faixa estendida neste 24 de abril de 2019 na praça Loreto, exato local de Milão onde o corpo de Benito Mussolini se viu exposto de cabeça para baixo, há 74 anos, renova os alertas à ameaça fascista. Na faixa, leem-se a frase “Honra a Benito Mussolini” e a assinatura “Irr”, abreviação de “Irriducibili”, nome da principal torcida organizada do time de futebol Lazio.

 

O último 20 de abril marcou também o aniversário de Adolf Hitler, nascido há 130 anos. E talvez, com seus atos, os torcedores fascistas do time mantivessem implícita uma vibrante comemoração às ideias do ditador, duvidoso “irmão” do Duce.

 

De qualquer maneira, na praça Loreto, neste 24 de abril que antecede em um dia a comemoração da libertação da Itália na Segunda Guerra, os fascistas usaram a saudação romana, simbólica do regime de Mussolini, para manifestar sua torcida pelo time, que hoje joga contra o Milão pelas semifinais da Copa da Itália.

 

O dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) cansou-se de alertar sobre o perigo fascista, que atos como esse apenas demonstram ser permanente. Ele deixou sua Alemanha em 1933, ano em que o chanceler Hitler foi eleito, rumo à Dinamarca, à Suécia e depois à Califórnia, por conta da perseguição a suas ideias marxistas e a seu teatro libertador (e nos Estados Unidos se viu caçado pelos macartistas; mais tarde narro a vocês aqui no blog um episódio que ilustra a perseguição).

 

Brecht era também um apaixonado pela fotografia. Desde os anos 1920 compilava em grandes cadernos de esboço as imagens publicadas por revistas como a Life sobre a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, e vencendo a censura, o dramaturgo fez publicar em 1955, por meio de uma editora satírica da Alemanha Oriental, a Eulenspiegel, uma coletânea de 85 dessas imagens, intitulada “Krigsfiebel” (bíblia ou guia da guerra). As fotos exibidas pelo volume, editado em dezembro de 1955, oito meses antes de sua morte por ataque cardíaco, mostravam líderes nazistas e aliados, a destruição urbana causada pela guerra, os civis desolados e os inimigos mortos.

 

Contudo, ele acreditava que as imagens, embora potentes, não exprimiam sozinhas realidades complexas. Eis por que decidira acompanhá-las de “fotogramas”, como as intitulava, com uma densa, às vezes irônica, legenda em quatro versos. Como fazia em suas peças, coordenava então imagens e palavras de modo a provocar o leitor a pensar criticamente e a questionar seu conhecimento limitado sobre o fascismo e o capitalismo.

 

Quando as vendas do livro decaíram, Brecht o ofereceu a bibliotecas e outras instituições, sob a alegação de que a “louca supressão de todos os fatos e julgamentos sobre os anos de Hitler e a guerra” deveria ter um fim. Ele planejava acompanhar o livro de um outro volume, “Friedensfibel” (guia ou bíblia da paz), mas tal obra ficou inacabada.

 

A foto que publicamos aqui, retirada de seu livro-álbum e de autor ignorado, mostra Hitler em um pronunciamento de 1934. Na edição estadunidense, cujo título é “War Primer”, e que ganhou republicação em 2017, lê-se a legenda com o nome do ditador alemão e sua data de nascimento: “Hitler: 20 de abril de 1889”. Embaixo da foto, segue um fotograma em quatro versos, cuja tradução aproximada é esta, retirada do livro “Literature and Photography”, organizado por Jane M. Rabb e publicado em 1995 pela University of New Mexico Press:

 

“Esta coisa dominou o mundo uma vez.

Seus conquistados o superaram.

Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;

o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”

A arte não moraliza

Um passeio pela Pinacoteca de São Paulo contraria a pretensão de que as exposições devam ou possam suportar os limites fascistas-doria-estrumianos de breve moral

Somos todos moralistas. A moral é uma tentação que praticamos. Mortal.

Cada moral é contraposta a outra no decorrer do tempo. Eis por que o moralismo diz respeito a nós, seres humanos, não à arte.

Quando vejo a violenta Barbie à toa que é o atual prefeito de São Paulo discorrer sobre os limites do aceitável dentro do fazer artístico, a implicar nele, portanto, uma moral (ou seja, uma duração no tempo), sei que ele está apenas interessado em exercer a política, esta prática imanente, rentável e ligeira. Doria não transcende, não é artista.

Pinacoteca Saudade Almeida Junior .jpg
Saudade, óleo sobre tela de Almeida Júnior, 1899

Fui à Pinacoteca de São Paulo na última semana, porque não poderia, naquele momento, pertencer a outro lugar. Lá sorvo, de tempos em tempos, minha peculiar Monalisa que é a tela Saudade, de Almeida Júnior (1850-1899). Eu a visito pessoalmente porque somente quando me coloco próxima da pintura visualizo as águas a escorrer como ágatas pelo rosto do personagem que, à janela, sente a ausência de algo ou alguém.  A jovem terá saudade do homem a quem pertence o chapéu pendurado à esquerda? Ou apenas lamentará não mais vivenciar uma situação, um animal, uma criança?

A lágrima não tem moral. Apenas sabemos que a mulher em Saudade sente um vazio emotivo, convulsivo como pedra decorativa incomum, deixado por quem passou. Saudade é do coração, cordial e violenta como o Brasil.

Na Pinacoteca, quando paro em Torso de Menina, de Eliseu Visconti (1866-1944), ainda vivencio o impacto. A tela nos movimenta. Uma entre várias experimentações do pintor (ligado ao art nouveau e ao pontilhismo) na qual esboça um nu de matriz impressionista. O personagem retratado em 1895, três anos após uma bolsa de estudos lhe ser concedida em Paris, é uma menina incomodada diante de quem a vê. Ela tem os cabelos curtos e escuros, o corpo retorcido. Encena uma pose com a mão direita na cintura, embora sentada e encostada na parede, como quem se vê obrigada a posar (sem olhar) para alguém.

Torso de menina, óleo sobre tela de Eliseu Visconti, 1895

Asseguram Kethlen Kohl e Rosângela Miranda Cherem no artigo A tela e a carne em Eliseu Visconti:

” as sobrancelhas levantadas est muito perto da testa e o olhar sem alegria sugere uma mistura de espanto desd a boca bochecha ainda s menina mas longe parecer esbo um sorriso. essa com vestido abaixo cintura embora seu pequeno corpo indique que os seios crescer. provavelmente filha escravos serve como objeto curioso ao pintor encontra se transformando em outro virando mulher. diria prefeito deste esc tempo assimila arte exemplar museu p ou crian negra obrigada expor n constituiria assunto para controv>

Di Duas figuras femininas com paisagem ao fundo grafite e nanquim sobre papel 1928.jpg
Duas figuras femininas com paisagem ao fundo, grafite e nanquim sobre papel, 1928

A retrospectiva No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos, que se dá na mesma Pinacoteca, traz muitas das imagens do pintor a evocar os prostíbulos. Duas figuras femininas com paisagem ao fundo, nanquim e grafite sobre papel, de 1928, é menos prostituição do que encontro, uma natural confidência de amizade entre mulheres. Di as coloca nuas quase por acaso. O toque que não praticam entre si sugere a ocorrência de um momento posterior, prestes a se dar com efusão, e também delicadeza.

Isto pode no museu, prefeito? Onde está o limite do que se deve suportar? Onde, o tempo?

A fazedora de anjos, óleos sobre tela de Pedro Weingärtner, 1908

Talvez a mais violenta representação durante aquela visita à Pinacoteca tenha estado no tríptico A fazedora de anjos, óleos sobre tela que Pedro Weingärtner (1853-1929) apresentou em 1908. Pintor, gravador, litógrafo, desenhista e professor, filho de imigrantes alemães, Weingärtner trabalhou inicialmente como caixeiro-viajante e depois como litógrafo. Em 1879, viajou por conta própria para Hamburgo, na Alemanha, e estudou no Liceu de Artes e Ofícios. Depois, seguiu para Paris. A pintura era seu lugar para evocar a modernidade, ainda que controlada pela figura clássica das sombras.

O tríptico A fazedora de anjos não foi explicado por ele. No primeiro quadro, uma jovem visita o que parece constituir um baile, exposta ao prazer. No segundo, divaga com um bebê ao colo, observada por uma mulher cujo olhar duramente a condena, como se a si própria coubesse cuidar da criança gerada pela jovem. No terceiro quadro, uma velha, talvez a protagonista dos quadros anteriores, amargura um pesadelo.Fazedora de anjos é quem ignora seus filhos? Quem os entrega a alguém? Quem os aborta espiritualmente, dando-se às divagações do prazer?

Todas as narrativas sugeridas por estas representações pictóricas só poderão interessar àqueles que somos, donos da imaginação. O papel da arte é evocar, não moralizar. Ela nos liberta a pensar, a supor e a compor recriações sem os limites que o tempo nos impõe.

“>