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A cerâmica de Kaji Waurá

Minha cumbuca com a capivara
na ponta, arte do povo Waurá,
do Alto Xingu

A gente vive de tentar colocar alegria sobre o caldo de tristezas sem fim. E o facebook me dá muitas alegrias ainda. Como esta de ser amiga de Roberto Romano Da Silva e acompanhar seus maravilhosos posts.

Ontem por exemplo ele compartilhou conosco o trabalho de Kaji Waurá, mestrando de Educação da Unicamp que se sustenta com a venda das cerâmicas de seu povo do Alto Xingu. E assim fui correndo atrás de saber o que este imenso indígena (grande no tamanho também) tinha pra me vender que eu pudesse comprar. Ele me disse que aproveitasse, porque hoje viria a São Paulo entregar algumas coisas e poderia levar algo até minha porta… E agarrei a chance do modo que pude.

Kaji, ao lado do filho Januário,
mostra a cumbuca feita por sua mãe,
Makalu, e pintada por ele

Chegou agora minha cumbuca com uma capivarinha na tampa, feita pela mãe de Kaji, Makalu Waurá, e pintada por ele! Estou tão alegre que me destrambelhei pra receber a preciosidade, e Kaji percebeu. Segurou a peça junto, sob o olhar divertido do filho Januário, que faz ensino Médio em Campinas e veio entregar com ele.

Comprem dele, se puderem. É mais um desses seres a brilhar diante de nós. Você o procura pelo WhatsApp 19-98814 5594 e ele lhe dá a lista do material disponível.

Para provocar felicidade

Cinema puro

Rouben Mamoulian, diretor dos contrastes, entre o ligeiro e o sombrio, reflete em “O Cântico dos Cânticos”, com Marlene Dietrich, sobre o espaço designado à mulher

Morre-se de amor pelo cinema ao ver um filme de Rouben Mamoulian. Cinema em sua complexidade dramática, visual e sombria.

O diretor de origem armênia nascido no império russo, belo fisicamente, forte artisticamente, irônico e bem-humorado, dá a seus atores o tempero das falas e os gestos realistas num cenário de pompa. Os contrastes constantes e vívidos embelezam o simples e trazem a dificuldade (o não-dito, o que é só sentimento) ao nível do palpável, do chão.

O diretor Mamoulian e
Marlene Dietrich no set de
“O Cântico dos Cânticos”

Qualquer beleza fílmica acaso haveria sido maior do que esta, ainda mais se a tivéssemos presenciado numa sala de cinema daquele tempo, onde os veludos do aconchego se cruzavam com os ratos nos banheiros?

Em “O Cântico dos Cânticos”, de 1933, que a Colecione Clássicos disponibiliza através da caixa “Cinema Pré-Code”, vemos uma amostra desse cinema comercial hollywoodiano ainda livre, pleno de graça e ardor. O cinema como ele foi antes que o Código Hays, em 1934, passasse a controlar (e isto até as quatro décadas seguintes) as produções cinematográficas dos Estados Unidos, dificultando que a vida real – libidinosa, homossexual, política – se visse representada pelo drama.

A menina do interior
terá de se despir para Berlim

Nesse filme de 1933, por exemplo, um condutor de charrete adentra o quadro num pulo e pulamos nós espectadores com ele também, surpresos porque até então somente os cavalos assomavam junto ao portão. Cinema!

A escultura é mostrada desde sua giacomettiana fundação, e nos refestelamos de suspense pela figura que vai surgir. Cinema também!

O campo florido está repleto de grama e Lily Czepanek (Marlene Dietrich) enfia sua cabeça nela, explicando ao amante que dali sai o cheiro da vida. Cinema, sim!

O chão que nos protege

E os diálogos simples e diretos, humorados, dos atores? E os olhos grandes de Dietrich, sua fala doce e suas muitas faces, da menina ingênua no cemitério até chegar à baronesa e à mulher dissoluta? Que percurso para uma atriz, que cinema puro!

O escultor Richard Waldow
(Brian Aherne) e sua modelo
Lily Czepanek (Marlene Dietrich)

A trama é dos Novecentos. Um escultor pobre, Richard Waldow
(Brian Aherne), busca a obra de arte perfeita, até porque um barão já pagou por ela. A jovem órfã Lily carrega sua Bíblia para Berlim porque está atrás do amor. Os dois se encontrarão, e rapidamente, porque Mamoulian sabe com quem fala, leitores de folhetim arrastados ao cinema no domingo. É de romance que todos precisam.

Diante do espelho, ou será da cruz?

Então que não se perca tempo demais com isso: está claro que Dietrich se transformará na principal obra do escultor. Mas não só dele, visto que todos quererão moldá-la à sua semelhança no filme. Claro que o amor virá em um ponto luminoso e será chamuscado, talvez perdido pela jovem, que logo envelhecerá suas expectativas.

De início ela vai trabalhar na livraria da tia (e até o folhear dos volumes, nesse ambiente, insinua uma outra intenção) porque seu pai, com quem morava no campo, morreu. De cara, a velha a faz ver que tudo na bela sobrinha está inapropriado à cidade. Ela chega encapada por camadas de saias e anáguas na inversa proporção do que Berlim exige – a “nudez” de seus habitantes, ou seu pragmatismo, submissão, entrega absoluta. (Não será por acaso que no ano em que se faz o filme Hitler sobe ao poder na Alemanha.)

Numa sequência herdeira da época silenciosa, Dietrich tira a primeira saia, depois mais outra e outras, até deitar na cama para dormir. É um trabalho preciso na sua feitura cômica e igualmente sinalizador de uma proposição: o novo cinema deve se desfazer de suas camadas de apetrechos inúteis, de empolação. (Do que mais se fala nas entrelinhas de “O Cântico dos Cânticos”, aliás, é do cinema em si.)

Como posse do barão
Von Merzbach (Lionel Atwill)

Dietrich vai assim tirando as anáguas até o osso do seu corpo – ao contrário do que fará o escultor depois, ao “vesti-la” com a carne de sua argila, por vezes moldando-a como quem a aperta para o amor. Muito erotismo silencioso e insinuado será feito essencialmente a partir daí, da troca de olhares que resultará em sorrisos entremeados pelo desafio.

O caminho da dissolução,
o mesmo onde a mulher poderá encontrar a liberdade

Principalmente, a essência deste filme que tão bem repercute sua era cinematográfica está na localização do espaço delimitado onde será possível obter a liberdade feminina. E que espaço sombrio, esse! Impor-se a ele, em resumo, é fazer um caminho indignado porém sorridente, “queer”, em que a mulher incorporará a dissolução para dela se servir, como quem veste um colar.

Josias, o sr. Frialdades

Não vou postar aqui a fala plena de raivinha e de mãozinhas explicativas de Josias de Souza ao espumar contra a liberação de Lula. Ele já tem audiência demais, justamente por ser triste.

Fico aqui pensando na suja diversidade desses estilos jornalísticos. Cadê o verniz, turma?

Tão difícil saber quem é pior, se Vera Magalhães (que voz!) ou Merval (que dono de puteiro!). Me confundo tanto, não sei a quem premiar.

Josias, querendo mostrar serviço às Frialdades, sofre de emplumação, ademais com um anel bojudo no indicador, que volteia para pontuar suas frases num crescendo de estupidez até a conclusão.

O que me divertiu mesmo foi um comentário no Twitter sobre a tal fala: “O Josias é o Olavo de Carvalho da Folha.”

Hahaha.

Se bem que não seja, não.

Se há algo que Olavo não faz é girar em círculos pra pronunciar a palavra anal que mais ama. Josias está a dizê-la sem a dizer, cera, enceradeira, muito fazer nada em campo pra um Zinho só.

Almofadinha! Isto sim é o que ele é!

O chato é que nem assim consigo decidir a quem dar o troféu.

Istas

Acho muito curioso perceber uma coisa sobre o nosso ativismo digital fuleiro de todos os dias.

O que as pessoas chamam de ativismo em nós é apenas a tentativa que empreendemos de restabelecer as palavras corretas para as situações vividas.

Vocês se lembram quando cinco anos atrás a gente chamava o golpe de golpe e eles (seus amigos, colegas de trabalho, chefes, família) se riam de nós?

Ativismo é apenas saber ler e escrever munidos do impulso, ou a mania, de tentar fazer o próximo acordar para a necessidade de leitura e de escrita.

Começar de algum modo

Estava aqui a percorrer a lista dos comensais da morte e alguns nomes parceiros do genocida apareceram, como o dono da Riachuelo ou do Bradesco ou o CEO (muita pompa pra grande porcaria) do SBT. Mas o diretor do Ceagesp, pqp? Como boicotar o Ceagesp?

Sendo otimista na ação, a gente enxerga um modo. Fincar os pés nos orgânicos dos sem-terra por meio de suas lojas, ou nas lojas que trabalham diretamente com fornecedores confiáveis, tipo o Instituto Feira Livre, aqui no centro de São Paulo. Ou plantar em casa.

Sei que é difícil, haja mão pra coisa, mas percebi aqui na nossa minihorta de apartamento que os alecrins, sálvias, manjericão, cominho, hortelã e até moranguinhos são bem possíveis de crescer e render, tão melhores quando frescos.

E não tem outro jeito, sabe? É preciso dar uma força pra sustentabilidade e até – sendo claros – para a sobrevivência humana neste pobre planeta. Plantando alguma coisa em casa já diminuímos a mania de transportar alimentos por muitos quilômetros – isto que acresce à produção os gastos absurdos com o transporte que, além do mais, usa combustível fóssil.

É só um começo, mas temos mesmo de começar, certo?

Preces de resistência

Fui aluna de Alfredo Bosi na Universidade de São Paulo durante a graduação em Letras. E, em maio de 2010, por ocasião do lançamento de seu livro “Ideologia e Contraideologia”, pela Companhia das Letras, fiz a primeira de duas entrevistas com ele. Republico então esta conversa inaugural como minha homenagem ao grande intelectual, morto hoje por Covid-19.

Alfredo Bosi por Masao Goto Filho em 2010, na casa da Granja Viana: rejeição aos ideólogos que apresentavam como interesse geral a necessidade de pequenos grupos e o entendimento de que o populismo havia sido um mal necessário para o Brasil

POR ROSANE PAVAM

A ampla casa da Granja Viana, em Cotia, onde mora o professor emérito da Universidade de São Paulo Alfredo Bosi, assistiu a momentos cruciais da história brasileira. No final dos anos 70, por exemplo, o terraço da casa abrigou reuniões fraternas com padres de esquerda, sindicalistas e intelectuais que resultariam na criação do Partido dos Trabalhadores. Desde algum tempo, portanto, o autor de Ideologia e Contraideologia (Companhia das Letras, 448 págs., R$ 58) dedica-se, como o partido em seu início, a contestar o status quo.

A nova obra de Alfredo Bosi surge no cenário das publicações brasileiras como um dos mais importantes estudos sobre o combate à dominância ideológica. Para realizá-lo, o historiador descreve seis séculos de história do pensamento a partir da Renascença. Analisa, entre outras, as obras de Francis Bacon, Montesquieu, Condorcet, Hegel, Simone Weil, Antonio Gramsci, Celso Furtado, Joaquim Nabuco e Machado de Assis. Bosi os vê como opositores às ideias que construíram a escravidão, a pobreza, a incultura, o estalinismo, a estupidez. Com elegância e síntese, Bosi demonstra nas entrelinhas do livro os mecanismos de sua própria resistência intelectual.

É paciente e metódica a fala deste paulistano de 73 anos que, durante entrevista de duas horas, por vezes fecha os olhos na direção do interlocutor, como se meditasse ou orasse junto a ele, à procura dos termos exatos que definiriam um pensamento. Quando a frase certa lhe surge entre os retratos familiares distribuídos pelas paredes da sala, especialmente os de sua mulher, a renomada pesquisadora Eclea, seus olhos se abrem e ele sorri.

Que estudos motivaram este livro? Como ele lhe surgiu?

O tema da ideologia e da contraideologia já aparece de outras maneiras na minha História Concisa da Literatura Brasileira, de 1970. Durante a ditadura, eu estava motivado pela ideia de que a nossa tinha sido uma cultura oprimida desde a colonização. Ao longo de 400 anos de história, eu encontraria exemplos de narrativas resistentes ao lado daquelas conformistas. Não foi difícil achar, às vezes em um mesmo texto, ambas as posições. Ao estudar os anos 30, época de ouro do romance brasileiro, verifiquei graus de tensão diferentes entre o autor e seu universo. Nos momentos de acomodação, vi algo que denominei tensão mínima. No outro extremo, havia narrativas conflituosas, de tensão máxima, como as de Graciliano Ramos. Percebi, concomitantemente, momentos de conformismo, de reprodução da ideologia dominante, e de resposta negativa, de interrogação. A monumental História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux me ensinou a ver assim. Por sua formação dialética na Alemanha pré-nazista, Carpeaux tinha sensibilidade para as diferenças internas dos períodos.

Um segundo momento de gênese da minha pesquisa foi aquele em que escrevi O Ser e o Tempo da Poesia, em meados dos anos 70. Ainda havia ditadura. Consagro o capítulo “Poesia e Resistência” às formas de resistência que a poesia, sobretudo a lírica, desenvolveu. Quando os ensaios marxistas voltaram à baila, a partir dos anos 80, favoreceram a eclosão dos trabalhos sobre ideologia, contraideologia e utopia na literatura. Meu livro se situa nessa trajetória e tem motivações na realidade nacional. 

Que distinção o sr. faz entre ideologia e contraideologia?

Ambas se articulam como um conjunto de ideias e valores. A diferença é que a ideologia generaliza interesses particulares e os dá como se fossem universais. Por exemplo, a ideologia da competitividade corresponde à luta econômica que a burguesia trava nos meios do poder financeiro e industrial. Mas os ideólogos do capitalista procuram demonstrar que a competição é uma necessidade universal, até fundada na biologia, em Darwin. Para convencer os seus destinatários retoricamente, já que se trata de uma arte de persuadir, os ideólogos criam um discurso justificador universal para esconder seus interesses. Os editoriais dos grandes jornais e das revistas de grandíssimas tiragens são peças ideológicas perfeitas. No caso da contraidelogia, a intenção é o bem comum. O escritor contraideológico, que combate a ideologia da competitividade, por exemplo, procura demonstrar que ao lado do que seria o instinto competitivo existe uma tendência solidária. O discurso contraideológico visa ao bem comum, não particulariza interesses.

O título de seu livro exclui a designação utopia. Esta é uma palavra condenada?

A origem do termo, significando o não-lugar, remete a um ideal extremo, que seria o oposto do lugar onde estamos. É uma forma extremada de contraideologia. Mas a contraideologia, tal como a concebo, pode ter aspectos reformistas. O economista Celso Furtado tinha propostas reformistas sólidas. Defendia a reforma agrária, a intervenção do Estado na economia. Ele estudava as coisas da maneira como estavam e procurava remover as causas a médio prazo. Falava em repartição de rendas, em imposto progressivo, algo que se realizou nos países escandinavos. O pensamento reformista é também o do historiador e político Joaquim Nabuco, que mesmo dentro do liberalismo percebe a insuficiência daquele modelo e luta contra a escravidão. Seu liberalismo já propunha leis de reforma agrária no século XIX. Nabuco pensava ser possível a união pelas leis sociais. Essas leis vieram ao Brasil somente depois da Revolução de 30, com Lindolfo Collor, um grande homem sem qualquer relação com seu desastrado neto. Como ministro do Trabalho, percebeu ser preciso outorgar leis trabalhistas como as europeias. Essas leis foram contrastadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, que não queria a implantação do salário mínimo em 1934. A contraideologia crítica, que muitas vezes nos parece pouca coisa, requer luta.

Onde estariam as mentes contraideológicas reformistas na atualidade brasileira?

Aqui seria preciso fazer uma análise minuciosa das iniciativas do governo nos últimos oito anos, até antes, para verificar se esta cunha contraideológica está não apenas na universidade, se ela penetrou na mentalidade de alas políticas. Conhecemos as interessantes iniciativas do governo Lula como o Bolsa Família. Agora, o Estado contempla o doador do trabalho, aquece a economia pela via do consumidor popular. Esta é uma ideia reformista, crítica da posição contrária, que contempla o empresário, o banqueiro. Não sou economista, mas vejo como as coisas estão acontecendo. E espero que continuem acontecendo.

O sr. vê uma ação contraideológica do pensador Antonio Gramsci em relação ao partido que ele ajudou a fundar, o PCI italiano?

Gramsci entra em meu livro na sua aproximação com a socialista francesa Simone Weil. Ela defendia que o operário tivesse cultura para reivindicar não só melhor salário, mas outro estilo de vida e participação política. Ela era informada sobre o comunismo russo de 1933, por isso acreditava que o país não faria uma revolução do operariado, mas às custas dele. Gramsci não a conheceu, embora já dissesse que todo homem era um intelectual. Mostro, no livro, as semelhanças de seu projeto com o de Weil. Ela seria mais radical, quase utópica, ao passo que ele tinha os pés no chão. Fez a universidade popular de Turim e dava aulas para operários.

Gramcsi era um herético marxista?

Ele ia além do marxismo. Achava que a militância, o proselitismo político, não deveria se dissociar da formação cultural operária. Outra ideia dele era que a educação não fosse muito especializada em seu início. Receava que, atuando como especialista na fábrica muito cedo, o jovem não tivesse a chance de dialogar com outras pessoas em termos de cultura. A ideia de uma formação anterior à especialização técnica é uma conquista de Gramsci. Ele contrariava a ideia capitalista de que a divisão do trabalho deveria ser feita de forma absoluta.

O sr. vê o Partido Comunista Italiano e o Partido dos Trabalhadores heréticos no seu início?

No caso do PCI, havia a crença de que a Revolução Russa, de 1917, seria o modelo da revolução operária. Os primeiros anos do partido, fundado em 1921, foram ortodoxos. Somente quando o stalinismo se intensificou, nos anos 30, percebeu-se que o caminho escolhido na Rússia tinha sido o da ditadura do partido. A formação do PT, que eu segui de perto, foi muito estimulante no final dos anos 70. Eu estava ligado à Pastoral Operária, próxima da esquerda católica. Trabalhei em Osasco inspirado no padre francês Domingos Barbé, que morava em uma pequena comunidade proletária na qual eu dava aulas de história. No terraço de minha casa, em 1979 e 1980, vinham aqui o padre e uma série de operários para discutir o que seria um partido de trabalhadores. De um lado havia a pastoral, de outro, os sindicatos do ABC paulista. E uma terceira força era a de intelectuais, muitos da USP.

A esquerda católica, os sindicatos e os intelectuais criaram o partido. Nos anos 80, apareceu a Central Única dos Trabalhadores, um racha nos sindicatos contra o peleguismo. Essa divisão me desagradou. Sempre gostei do Leonel Brizola, o populismo foi um mal necessário para o Brasil. O PT nasceu, então, de pessoas simples que trabalhavam em creches e paróquias, que faziam “mosquitinhos”, tiras de papel espalhadas pelas fábricas. Até hoje, aquelas senhoras que distribuíam os panfletos me dizem: “Nós fundamos o partido, professor! Nós jogamos os mosquitinhos!” E, agora, o partido está longe delas. 

Por que esse distanciamento ocorreu?

O PT foi fundado como um partido democrático de esquerda, sem estrutura partidária clássica. Quando chegou ao poder, não pôde mais adotar o esquema dos pequenos grupos, já que concorria com outros partidos. Não quero dar uma mensagem pessimista neste momento eleitoral, mas o partido perdeu as características de aglutinação de forças sociais de esquerda. Ele se transformou num partido que eu diria ser de centro-esquerda, afastado da constelação que o criou. Hoje, o que importa é que aquelas mesmas forças que o constituíram estejam vivas e participantes. Estamos numa democracia representativa, não participativa. A força que fazem esses movimentos para bater à porta dos partidos mostra que eles, os movimentos, não são um partido.

O sr. pode nos dar um exemplo de posições ideológicas e contraideológicas que tenha observado recentemente?

Posso citar aquelas em torno da luta ambiental. Quando a expansão capitalista se tornou ameaçadora para a natureza, surgiu a contraideologia que propunha limites à expansão industrial. Celso Furtado, nos anos 70, hesitou em aderir o ambientalismo. Como economista do desenvolvimento, teve dúvidas a ideia de um crescimento com limites. Convenceu-se ao ver a violência contra a natureza aumentar. O ambientalismo, que se assemelhava a uma contraideologia extremada para ele, passou a ser visto como uma contraideologia racional. E ele aderiu à ideia do desenvolvimento sustentável. Hoje, fico preocupado ao ver, por parte da oposição ao atual governo e dentro dele, esses defensores do desenvolvimento econômico puro e duro colocarem em descrédito a luta ambientalista.

O sr. dedica o último capítulo de seu livro a Machado de Assis. O ceticismo do escritor é um pensamento contraideológico moderno?

Machado apresentou críticas agudas à rotina existencial escravista do século XIX. Mas de 1880 até 1908, ano em que morreu, a análise dos seus textos me dá a ver que detectou um limite para seu liberalismo democrático. Viu os homens como egoístas fundamentais atrás de sua conservação, de seu interesse, de suas paixões. Na maturidade, ele trabalhou de maneira jocosa, irônica, essa crítica à sociedade. O moderno em Machado pode ser observado em ambos os fios. Ele é moderno ao exercer o liberalismo democrático. E é moderno também em verificar os limites da ciência, das filosofias progressistas.

Por que usamos indistintamente os termos moderno e contemporâneo para designar certas tendências do pensamento?

“Contemporâneo” tem uma denotação cronológica, não diz nada do ponto de vista teórico, ao passo que o termo “moderno” se enriqueceu sobretudo depois da Revolução Francesa, com conteúdos ligados à emancipação das ideias feudais e dogmáticas. O moderno tem pelo menos duas conotações, de crítica ao passado e de libertação. Nós continuamos usando as duas palavras porque suas conotações nos interessam de perto.

Como o sr. vê a literatura moderna ou contemporânea?

Gosto de Ferreira Gullar. Reconheço em seus poemas uma força crítica em relação aos males do presente e uma análise profunda do sentimento do homem comum. Ele verbaliza sua angústia. Mas, veja, estou falando do poeta, não do cronista, nem de suas ideias políticas.

E há alguma ficção internacional contemporânea que lhe interesse?

A de Julio Cortázar. Ele tem uma força dramática que não há em Jorge Luis Borges, um contemplador irônico do mundo, um homem de grande erudição. Mas o drama, que me interessa de perto, o conflito entre os personagens, Cortázar mostra de maneira experimental, como um grande escritor contemporâneo, eu diria.

O céu é o processo

Não tenho religião e me impacienta o Natal, que contudo comemoro, porque é mais uma chance de estar à mesa com os bem-quereres. A Páscoa também acho difícil de suportar, visto que me traz de volta as sangrentas sessões da tarde da infância em que Victor Mature aparecia flagelado desde os olhos fundos.

Me parece muito católico celebrar esse sofrimento, sangue, expiação, até que se possa obter algo que não sabemos bem lá no céu. Prefiro tudo pelo agora, condição que conheço, tempo que mastigo. Porém gosto da metáfora de renascer das chagas, quem não? O catolicismo sempre soube calcular nossas necessidades, até segundo a época do ano.

Então, uma renascença, merecemos todos. Renascimento não é simples, é um processo. Eu tenho o meu, vocês o de vocês, e nos ajudamos nos intervalos por onde a vida corre. O céu é o processo, que saibamos processar!

juro

Sinto um pouco de vergonha alheia quando alguém que não me conhece, nem sabe a minha idade e menos ainda o que presenciei, vi ou li, me aplica um ensinamento que não vai rolar sobre coisas (as raras) que, azar desse alguém, sei de cor.

Se gosto desse alguém, é fácil, finjo que não notei a imposição. Se não gosto, hoje ignoro. Mas quando era jovem e insensata, metia o pau logo nessa gente sem dó, pra depois chorar a incompreensão sozinha, no meu canto, dias inteiros.

É melhor guardar o choro pra outras coisas, gente. Juro que é.

Filé adocicado

Conheci o Reinaldo. Convivi com ele no final dos anos 1980, um sujeito muito culto e inteligente. E é verdade que admirava desde então a sagacidade de Lula, talvez por reconhecer de onde ela vinha, da ausência de visibilidade social. Reinaldo nasceu sabendo que era maior que este mundo, como Lula, claro, também.

Principalmente, Reinaldo foi sempre submisso ao poder, a tudo o que emanasse dele. Apaixonado pelo patrão do Diário do Grande ABC, que o descobriu, entregou-se ao Frias posteriormente. E viveu essa pataquada de ser de direita esses anos todos porque era moda, desde o Paulo Francis, apresentar-se conservador. Isto agradava aos patrões. Reinaldo sempre foi chaveiro de quem tem o poder.

Qualquer um admiraria a qualidade direitista num jornalista disposto a fazer carreira. Seja conservador, seja herói. Daniel Piza, Mario Sabino, trabalhei pra todos e segurei a onda de
todos. Piza sempre foi acochambrado, um menino do deslumbre, que comprava roupa na Daslu. Mas Mário era do PT e escrevia pra sua revista. Todos, exceto o Mário, me viraram a cara ou traíram, razão pela qual me inquieto com sua porção vendida atual.

Mas voltando a ele, o Reinaldo. O Reinaldo que conheci não permitiria uma crítica sequer a Marilena Chauí. Naquele tempo, a complexidade da filósofa tinha algo de mitológica, emanava um poder ao qual quem é invisível se entrega facilmente. Mas isto, como tudo, passou.

Pois bem, Lula.

Reinaldo está enamorado de Lula, por que não? Até hoje fez tudo para chamar sua atenção. Quer amalgamar-se a ele, como fez com o Frias e talvez agora, sei lá, faça com o Johnny Saad. Ele interrompe Lula o tempo todo na tentativa de equivaler suas experiências de vida. Eu fiz isso, você aquilo. Eu, eu. Você me ouvia na prisão, Lula?

Não, Reinaldo, você não governou o Brasil. Não, ele não poderia prestar tanta atenção assim em você, tenho vontade de dizer. Não, Reinaldo, filé mignon não quer dizer macio, mas pequeno – porque se eu não lhe explicasse isso lá em 1990, ele iria querer entrar na porrada verbal com o dono do restaurante, por considerar seu medalhão insignificante no prato.

É muito inteligente, repito. É engraçado. Mas uma inteligência perdida. Eu não saberia explicar direito como acontece uma coisa dessas.