Conká quer conkatená

sei lá quem é karol conká.
sei lá o que é o bbb.

só sei que o brasil se resume a essa bundagem.

tanto à direita, por motivos óbvios, quanto principalmente à esquerda, o povo rebola a bola torta faz 20 anos só pra bater boca no twitter.

pois bem.

não entendo nada.

mas daí karol conká aparece nos meus stories

para conkatená assim:

“não vou mais brincá
com quem não tem maturidade.
com você não brinco mais
porque tem oscilação de sanidade”.

é rap?!?

a mulher tem a kara do país e o povo reclama disso?

oscilação de sanidade é brasil!

que momento medusa, hahaha.

Autoempreendedora das dores

Preciso de muitas saídas para minha agitação interna constante.

Afora ser quem sou, essa mulher de muitas especulações e triangulações pela história e pelo tempo, passo horas preocupada com problemas objetivos, cujas soluções tanto custam a mim e a minha digestão. Um deles é como resolver meus frilas, já que sou precária como trabalhadora, autoempreendedora de dores, e as frustrações se acumulam conforme os valores baixos que recebo vão chegando.

Meditação seria a primeira coisa a fazer, mas tenho lá meus problemas pra conseguir tocar isso adiante sozinha. E a pandemia meio que me paralisou. Como vetei academia, não vou malhar, razão pela qual engordei demais.

Agora tento andar um pouco, embora o sol esteja excessivo nestes dias e eu evite a noite, período em que por aqui proliferam suicidas angelicais embriagados nos bares.

Então fico assim olhando a janela.

Vou pra rede balançar.

Música toca sempre por aqui.

E faço uma bobagem surpreendente. Pego esses links de museus e vou baixando imagens e livros no meu drive.

Me dá uma alegria de viver que nem te conto.

E calma.

Muita calma.

A mente brilhante e o sonho desfeito

Todas as manhãs, ao acordar, nos primeiros segundos em que os olhos ainda fecham a tela para o espetáculo do mundo, mas a mente cintila e comove, é extraordinário que eu saiba o que desejo e, entre tantas as coisas insinuadas, quem sou e a que vim.

Imersa na neblina do sonho recente que aos poucos se desfaz, como o corpo tragado na areia movediça dos filmes B, procuro sua mão ao meu lado. Ela está lá e eu a aperto com força. Ele também. Ele é a única realidade.

E então tudo o que raciocinei naquela nebulosa sucessão de imagens do passado vai ficando pra trás, com a lembrança apenas de alguns trechos, um tobogã, um amante de juventude, como ele emagreceu, como permanece insensível a mim!

E a manhã tropical se inicia

Minha cabeça que roda e roda enquanto deveria ficar quieta é incapaz de inventar coisas simples e criativas como esta que li há pouco num texto de facebook, isto é, plantar sementes descascadas de limão em canecas para perfumar a casa e a encher de vida.

Sou muito ruim de tarefas domésticas e arrumação, e minhas habilidades manuais talvez se resumam a pendurar a roupa no varal de modo a que não seja preciso passá-la. Vou mal e minimalista na cozinha, sou impossível de crochê e não me arrisco a desenhar, mesmo tendo sido filha de um desenhista exímio, mulher de um e mãe de dois bons, um deles extraordinário. 

Minha casa, para quem a conhece, é um retrato de histórias. “Sem decoração”, como fez questão de lembrar uma parente, com a ponta de sinceridade (não devo dizer maldade) habitual.

Livros por todos os cantos, livros que ganhei quando os editava para as publicações gerais, a cada dia menos interessada neles. Livros que são antigos e que leio com vergonha aos pedaços, quando os leio. Livros em torno da tese que escrevi e só eu li. Tese de muitas pontas, que decidi qualificar de poligonal, e que não me possibilitou entrada no mundo acadêmico, como me lembrou um ex-amigo para justificar que ele não me defendesse quando fui publicamente ignorada por um crítico desinteressado dos livros, com lapsos de memória, mas gente de culto.

Infelizmente demoro demais a ler coisas novas, e até o pdf do livro-sensação ganhei, mas não me capturou logo nas primeiras páginas (alguma mágica que deixei de sentir), então logo me despedi dele, para começar a Felicidade Conjugal de Tolstói, homem cuja vida ou personalidade jamais admirei, mas que escreve como quem conversa as coisas desde seu princípio até sua impossibilidade.

Não sou uma scholar e não leio tudo, mas deixo de fazê-lo com culpa. Com culpa e responsabilidade. Tenho filhos jovens que leem e não raro se sentem solitários porque os amigos não compartilham suas leituras. Espero que, se houver netos para mim, sejam estranhos leitores no seu tempo, divertidos com os livros da grande biblioteca que possivelmente iremos lhes legar.

Tive filhos, tive misérias, mas nunca causadas por eles, com quem aprendi todo dia um novo modo de entender as coisas, estas que no fim das contas são muito parecidas, mas nunca iguais, nascidas da crise que é constante, como observou Edgar Morin, e que combatemos em oásis de felicidade, termo dele também.

Tenho igualmente muito amigos que não leram nada e que mal entendem do que eu estou falando. Mas, quando nos encontramos, rimos. Como perdemos essa possibilidade com a pandemia, de nos enroscarmos com vinho, nos lamentamos via memes, estes que considero uma grande invenção, mas que não têm o mesmo efeito de um comentário-soco em mesa de bar quando nele entra alguém.

Quem lê assim até pensa que sou do bar, mas sempre bebi mais em casa que fora dela. Meu marido é um pro, que identifica o bom da bebida entre o ruim. Eu também identifico, mas me envergonho por não saber as razões de superioridade ou inferioridade de qualquer coisa líquida, estas que ele descreve à perfeição.

Ele é bem perfeito em tudo, aliás, tem uma memória extraordinária e lê todas as coisas interessantes, muito mais do que eu. E não as dispersa pelo Facebook, como eu, carente da conversa alheia num círculo de amizades que a idade começa a fechar mais e mais. Ele guarda tudo para despejá-lo quase sempre na forma visual, condensada e difícil, da canção.  

Por que estou dizendo tudo isto, não sei. Talvez por estar sorvendo estes dias livres, depois de pela primeira vez na vida ter trabalhado no dia 31 de dezembro (verdade, sempre forcei a sorte nos plantões de redação). Sou dispersa e desatenta de um modo geral, distraída pra morte, como dizia o Otto (aliás uma das coisas mais bem ditas da música popular), razão pela qual fotografo a rua com prazer.

Escrevo tudo isto com um dedo só no celular, e na cama, da qual demoro a sair de manhã, lendo ali mesmo, via internet, as notícias da barbaridade cotidiana. Fui jornalista que nunca admirou excessivamente os jornais, e não me lamento por ter perdido a gana, não só a grana, de comprá-los.

Nos últimos dias, os algoritmos têm me trazido as excepcionalidades, a natureza, um pouco menos de desesperança, razão pela qual agradeço. 

Sim, é verdade que não vejo dilema em redes sociais, só escolhas, e até boas, muitas delas.

Tudo isto para dizer que tenho o coração tranquilo? 

Nunca está. 

Mas talvez por esta razão exista um infinito dentro dele, onde cabe você.

que sejam doze meses para nós

luz no aconchego

o ano pra mim foi bom, no fim das sofridas contas, e digo isto em tom baixo, enquanto todos descrevem justamente por aqui o seu.

e o confesso assim para que minha descrição passe discreta, no aconchego.

é que escrevo para vocês, sim, mas principalmente para mim, devo dizer, neste que se tornou meu diário pessoal de liberação, notícias e reflexões.

confinada com a família, a pandemia errou meu alvo.

vê se me erra ainda, peste amplificada por mentes doentias!

em casa, nos aproximamos.

lavei banheiros feliz, apesar de as costas doerem sempre.

não limpei as janelas por medo de cair das alturas, e agora as vidraças compõem desenhos aos quais me afeiçoei.

visito-os e constato por meio deles que a grafia da vida se refaz depois de cada tempestade, sempre frequente na minha vida.

perdi um grande amigo e mentor, e artista, e pensador primeiro.

mas não para a peste.

e não o perdi para a história nem para o coração.

quando meu pai morreu, carlos moreira me disse, aliás, que eu, a partir de então, me sentiria mais perto dele.

acertou, carlos querido!

e agora nós dois nos falamos todos os dias.

me senti bem menos solitária do que nos anos anteriores, porque me dediquei mais aos inboxes da rede, porque estive nelas com alguns de vocês, a quem conheci maravilhosamente e cujo contato telefônico em alguns casos até ganhei, e que sinto gostarem de mim.

trabalhei mais, escrevi sobre cinema e fotografia, paixões primeiras que são igualmente meu objeto de constante pesquisa.

e nem só isso, porque até uma revista de biologia fiz!

a vida é dura e maravilhosa.

quando se tem amores e amigos, duplamente dura e maravilhosa.

vocês são como eu.

são meus!

felizes doze meses que virão.

carlos moreira, meu amor

Covas no centro

É dia de Natal.

E Bruno Covas transforma a região encravada no centro da outrora bela cidade num pesadelo semelhante ao de Morte em Veneza, não o filme de Visconti, mas a novela de Thomas Mann, na qual o odor da peste é constante pelos recantos, pontes, pelo líquido dos canais.

Contudo, prolífico na alquímica distribuição de seus talentos, esse meio homem-meio sepultura transforma o lixo em coisa ainda mais dispersa e obrigatória, como os confetes na folia carnavalesca, deixando que toda espécie de descartados saia irresistivelmente dos sacos pretos pelo cães que são homens e pelos homens que são cães e proporcione à gente sozinha, em meio à tétrica decoração de ursos noeis e balões do pateta no Anhangabaú inconsolável, um isolamento compartilhado dentro da maior miséria até hoje verificada por mim naquele lugar.

O aumento de salário que Covas se deu e a seus secretários deve ter ocorrido justa e especificamente por esta sua imensa capacidade extraliterária de tocar a morte, já tão lendária porque inserida na alcunha familiar, e agora reiterada pelo voto, pelo enganar-se e o querer desfazer-se, que é o que a população parece pedir, desejar, o suicídio antes que seja tarde demais.

A patetada das redes

é bastante certo que não vale a pena comprar roupa nenhuma agora. engordei e nem tenho pra onde ir. dinheiro, muito menos.

mas os anúncios no Instagram me imaginam rodando a clutch na gabriel monteiro da silva.

e me sugerem as roupas de fernanda yamamoto e, agora, de gloria coelho.

estranho que ronaldo fraga não tenha aparecido…

e então de vez em quando surge um anúncio esperto, modelo com cara de gente e garantia de sustentabilidade, materiais novos, reciclados, possíveis.

e eu cedo.

vou até o “link na bio”.

Mas em lugar de preços compatíveis, a promoção imperdível traz a linda camisa cor de goiaba sobre uma modelo negra a 550 reais.

bem acessível, sim.

acessível como os tornados serão rotina no mundo aquecido, como aqueles de Santa Catarina outro dia, né mores?

eu sei que muito dilema deve haver nas redes.

mas, comigo, eles só aprontam patetadas, realmente.

Exercício findo

Minha classe de primeiro ano
primário no colégio segregado: confesso que aprendi

Tenho o cuidado parecido com o do meu pai em guardar as fotos milenares. Esta é de minha classe do primeiro ano primário. Eu era bolsista de colégio alemão, que nos mantinha distantes dos alunos dos cursos pagos. Distantes mesmo, pois estudávamos à tarde, enquanto eles, de manhã, e não estávamos autorizados a frequentar a lanchonete, exceto excepcionalmente, para assim evitar abrir conversas com os ricos.

“Pobre não tem dinheiro pra comprar lanche”, me dizia a mestra azeda e esquelética. Eis por que sei de racismo e luta de classes desde cedo. Acho até que deveria escrever algo maior, um livreto sobre essa experiência, quem sabe um dia.

Éramos todos, os 41 desta foto, amigos e vizinhos na Bela Vista e nas regiões do centro de São Paulo. O Porto Seguro ficava no que é hoje a praça Roosevelt, antes de se mudar para o Morumbi. Não havíamos conseguido vaga no Caetano de Campos, o melhor colégio público de nossa região, na praça da República (hoje justamente transferido ao prédio do antigo Porto Seguro), e por isso penávamos por lá mesmo.

Dois de meus colegas nesta foto morreram aos 20 e poucos anos, com Aids, no alvorecer brasileiro da epidemia. O restante não sei se vive ou já morreu. Uma das garotas nesta foto concorreu e chegou às finais de um concurso do Chacrinha para eleger a menina mais bonita do Brasil – um concurso no qual, anos mais tarde, a apresentadora Angélica chegou em segundo lugar.

Um menino entre esses, que eu saiba, gostava de mim e eu não dava conta de corresponder a seus sentimentos. Os nerds, os atrapalhados, os tímidos, as almas simples, tenho o orgulho de havê-los atraído a vida toda. Eu fui sempre das mais altas da classe, precisava subir no banco para a foto anual e às vezes isto significava ficar atrás só com os meninos, para meu ser envergonhado, e ainda assim sorrir pro fotógrafo.

Sempre fui desse jeito, sorridente, comprida e desajeitada. Detestava meu pescoço longo, meu cabelo fino. Eu realmente não me apreciava muito. Aqui, alguns dentes permanentes não haviam ainda nascido, e eu já não curtia ser banguela. Não gostei de me ver nesta fotografia até outro dia. Mas que bobagem! Vejam que classe mais linda.

Olho para esta foto e noto que o menino tido por mais belo, até paquerado pelo professor de inglês da quinta série, não era o mais belo. Bonito mesmo era aquele sardento com cabelo cor de fogo que não parava de enrolar a pálpebra para se fazer de monstro e me assustar. Contudo, pelo contrário, ele sempre me matava de rir. Eu lhe ajudava nas lições e ensinava o que podia, sempre ousada para passar cola nas provas.

A amiga ao meu lado também me fazia gargalhar, e eu a ela, uma mulher que hoje virou promotora, mas na época sonhava em ser secretária. Eu só imaginava para mim um futuro onírico. Queria ser noviça voadora, como na série com Sally Field, ou professora, como minha querida dona Monica nesta foto, a única do primário que amei. Mas acabei no jornalismo por desejar ser correspondente de guerra, como me ensinou o Manual do Peninha. O tempo me afastou pouco a pouco, eu diria melancolicamente, de meu sonho.

Três meninas na classe eram zoadas por ser gordinhas, e eu passava meus recreios com elas. Uma envergonhada demais, as outras duas, sempre felizes.

Uma amiga era a filha bastarda de um alemão com a empregada negra. Seus meio-irmãos estudavam de manhã, no colégio pago. Vítima sentida da segregação, ela era sempre brava, e me ensinou um certo orgulho em a gente ser o que é.

Uma outra era filha de austríacos que trabalhavam como zeladores do Instituto Goethe, na rua Augusta, onde hoje está o Espaço Itaú de Cinema. No que atualmente é a sala 4 funcionava o almoxarifado do instituto. Ali, eu e a menina perfeitamente falante do alemão nos servíamos de tintas e papéis de todas as cores para fazer nossos trabalhos. Eu adorava ter de ir até lá para desenhar livremente, pintar e colar. Até hoje penso se ser dona de papelaria seria uma ideia assim tão má.

Indígenas, pretos, italianos, portugueses, éramos brasileiros, principalmente, felizes como as crianças podem ser quando a vida, mesmo imersa na pobreza ou na guerra, lhes permite.

E hoje já não me recordo com intensidade das dores que sentíamos.

Mais que bala de revórver

Samba dos bons.

“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.

E ironia das melhores.

A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.

Antes Lira que Fagner

Ailton Lira, um craque pra olhos admirados

Fagner cantando (mal) o hino na posse do Fux nem é uma morte horrível.

É mais como se o lobisomem sem dentes tivesse voltado para nos dar pena.

Tenho de confessar que gostava de Fagner na minha juventude, especialmente de sua interpretação para “Mucuripe” de Belchior e de sua apropriação descarada de um poema de Cecília Meireles (a família da poeta é um entrave à divulgação de sua obra magnífica).

Principalmente, fiquei feliz ao vê-lo num jogo do Santos contra o Ferrinho (Ferroviário do Ceará) a que compareci, e que saiu empatado em 1 a 1 em Fortaleza nem sei bem por quê.

Um show de Ailton Lira pros meus olhos admirados!

Fagner foi-se faz tempo, mas por onde andará o Lira, gente?