Sete de Abril, um orgulho

A rua Sete de Abril, antiga rua da Palha, nasceu no século 18 e no seguinte abrigou célebres bordeis.
No 20, viu ser fundado o Museu de Arte de São Paulo em suas bases.
A história, pelo que sei, jamais lhe escapa.
Mas não gosto dela só por isso.
Gosto das linhas.
Da promessa de luz que ela enseja à distância, em seu início e no final, numa praça e em um antigo largo.
Um lugar aonde, criança, eu festejava ter de ir para tirar sangue, porque assim ganhava o direito de comer um pão de queijo de verdade, como não vejo mais, num bar ao lado do laboratório.
Um lugar onde hoje converso com minha costureira linda, onde compro vinho e livros novos mais baratos.
A Sete de Abril é oito, é nove, é dez, centenas de vezes eu mesma.
Me dá um orgulho demasiado ser sua vizinha.

Polícia é justiçamento na ordem pública

Esta é a calçada de um dos restaurantes que a Polícia Militar, sim, a Militar, mandou fechar em dezembro no meu bairro, diante de meu prédio.

A porta é do bar vizinho ao restaurante que nos enlouquecia com samba bom mas aglomeração todo santo dia desde o início da pandemia.

Numa noite de dezembro lucrativo os donos do restaurante musical romperam o acordo de concluir as atividades às 22h, varando pela meia-noite, e provocaram reação dos moradores.

Após a chegada da guarda metropolitana, os donos do bar insistiram em permanecer abertos. Guardas civis podem pouco e, irritados, chamaram os amigos PMs, que vieram em 20 viaturas, bateram em quem conseguiram e prenderam 12.

Esta é a justiça justiceira que nosso povo obliterado ama e para o qual se ajoelha. No caso específico, a regional da Sé poderia ter feito algo sobre esse absurdo de aglomeração há muito tempo, mas não fez. Então à truculência seguiu-se o bem-estar dos moradores.

Estamos em fevereiro e as colunas de cimento de contenção continuam aí, até que o jorro da proprina mude o quadro justiceiro. Por enquanto, as colunas têm servido para o amor furtivo, como a gente gosta de ver.

Me too

Os algoritmos leem meus pensamentos.
Mas que novidade há nisso?
Cerca de um mês atrás publiquei ligeiramente aqui a informação sobre o assédio sofrido na faculdade que quase me impediu de tirar o diploma de jornalismo.
E desde então começo a receber muitas postagens no facebook em torno do Drummond.
Meu poeta preferido da juventude!
E desde então, desde esse tempo longínquo, acresci a minha lista infinita Cecília Meireles, Conceição Evaristo, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Ribeiro Couto, Roberto Piva e sei lá quantos; deus do céu, uma galáxia inteira.
Então, voltando ao que não deveria ter regresso, esse assediador começou sua luta comigo quando mostrei meu projeto de conclusão de curso, um texto em torno de Drummond, de quem ele, o “professor”, se gabava pessoalmente pela alegada amizade (sendo que Drummond era gentil com quem o procurasse), e de quem o acadêmico ridiculamente mostrava a dedicatória num livro sobre um suporte de mesa na sala onde recebia os alunos.
Eu queria investigar um conceito presente na poesia de Drummond que José Guilherme Merquior – sim, o scholar de direita desafeto de Marilena Chauí – intitulava “humour”.
Achava tão importante a distinção entre humor e humour então!
E até outro dia não havia me dado conta de que voltaria ao tema no meu mestrado e no doutorado…
Mas o fato é que o professor achou o texto bom demais para alguém em seus 18 anos e declarou:
“Você escreve bem demais.”
Talvez tenha desconfiado de mim. Talvez simplesmente fosse um macho de seu tempo, incrédulo de que uma mulher soubesse escrever.
Talvez um louco narcisista.
Na terceira reunião que éramos obrigados a ter com ele, reclamou que eu fizesse o gesto rotineiro de levantar a alça do sutiã por cima da camisa.
“Não precisa disso pra passar comigo.”
Simplesmente saí da sala.
E foram mais três anos fugindo desse obcecado para que me liberasse.
Sabem o que é não ter direito à fala nesse mundo, meninas?
Sabem.
Tanto sabem que mudaram tudo!
Obrigadas infinitos.

(E pare de me lembrar disso a cada segundo, facebook).

Conká quer conkatená

sei lá quem é karol conká.
sei lá o que é o bbb.

só sei que o brasil se resume a essa bundagem.

tanto à direita, por motivos óbvios, quanto principalmente à esquerda, o povo rebola a bola torta faz 20 anos só pra bater boca no twitter.

pois bem.

não entendo nada.

mas daí karol conká aparece nos meus stories

para conkatená assim:

“não vou mais brincá
com quem não tem maturidade.
com você não brinco mais
porque tem oscilação de sanidade”.

é rap?!?

a mulher tem a kara do país e o povo reclama disso?

oscilação de sanidade é brasil!

que momento medusa, hahaha.

Autoempreendedora das dores

Preciso de muitas saídas para minha agitação interna constante.

Afora ser quem sou, essa mulher de muitas especulações e triangulações pela história e pelo tempo, passo horas preocupada com problemas objetivos, cujas soluções tanto custam a mim e a minha digestão. Um deles é como resolver meus frilas, já que sou precária como trabalhadora, autoempreendedora de dores, e as frustrações se acumulam conforme os valores baixos que recebo vão chegando.

Meditação seria a primeira coisa a fazer, mas tenho lá meus problemas pra conseguir tocar isso adiante sozinha. E a pandemia meio que me paralisou. Como vetei academia, não vou malhar, razão pela qual engordei demais.

Agora tento andar um pouco, embora o sol esteja excessivo nestes dias e eu evite a noite, período em que por aqui proliferam suicidas angelicais embriagados nos bares.

Então fico assim olhando a janela.

Vou pra rede balançar.

Música toca sempre por aqui.

E faço uma bobagem surpreendente. Pego esses links de museus e vou baixando imagens e livros no meu drive.

Me dá uma alegria de viver que nem te conto.

E calma.

Muita calma.

A mente brilhante e o sonho desfeito

Todas as manhãs, ao acordar, nos primeiros segundos em que os olhos ainda fecham a tela para o espetáculo do mundo, mas a mente cintila e comove, é extraordinário que eu saiba o que desejo e, entre tantas as coisas insinuadas, quem sou e a que vim.

Imersa na neblina do sonho recente que aos poucos se desfaz, como o corpo tragado na areia movediça dos filmes B, procuro sua mão ao meu lado. Ela está lá e eu a aperto com força. Ele também. Ele é a única realidade.

E então tudo o que raciocinei naquela nebulosa sucessão de imagens do passado vai ficando pra trás, com a lembrança apenas de alguns trechos, um tobogã, um amante de juventude, como ele emagreceu, como permanece insensível a mim!

E a manhã tropical se inicia

Minha cabeça que roda e roda enquanto deveria ficar quieta é incapaz de inventar coisas simples e criativas como esta que li há pouco num texto de facebook, isto é, plantar sementes descascadas de limão em canecas para perfumar a casa e a encher de vida.

Sou muito ruim de tarefas domésticas e arrumação, e minhas habilidades manuais talvez se resumam a pendurar a roupa no varal de modo a que não seja preciso passá-la. Vou mal e minimalista na cozinha, sou impossível de crochê e não me arrisco a desenhar, mesmo tendo sido filha de um desenhista exímio, mulher de um e mãe de dois bons, um deles extraordinário. 

Minha casa, para quem a conhece, é um retrato de histórias. “Sem decoração”, como fez questão de lembrar uma parente, com a ponta de sinceridade (não devo dizer maldade) habitual.

Livros por todos os cantos, livros que ganhei quando os editava para as publicações gerais, a cada dia menos interessada neles. Livros que são antigos e que leio com vergonha aos pedaços, quando os leio. Livros em torno da tese que escrevi e só eu li. Tese de muitas pontas, que decidi qualificar de poligonal, e que não me possibilitou entrada no mundo acadêmico, como me lembrou um ex-amigo para justificar que ele não me defendesse quando fui publicamente ignorada por um crítico desinteressado dos livros, com lapsos de memória, mas gente de culto.

Infelizmente demoro demais a ler coisas novas, e até o pdf do livro-sensação ganhei, mas não me capturou logo nas primeiras páginas (alguma mágica que deixei de sentir), então logo me despedi dele, para começar a Felicidade Conjugal de Tolstói, homem cuja vida ou personalidade jamais admirei, mas que escreve como quem conversa as coisas desde seu princípio até sua impossibilidade.

Não sou uma scholar e não leio tudo, mas deixo de fazê-lo com culpa. Com culpa e responsabilidade. Tenho filhos jovens que leem e não raro se sentem solitários porque os amigos não compartilham suas leituras. Espero que, se houver netos para mim, sejam estranhos leitores no seu tempo, divertidos com os livros da grande biblioteca que possivelmente iremos lhes legar.

Tive filhos, tive misérias, mas nunca causadas por eles, com quem aprendi todo dia um novo modo de entender as coisas, estas que no fim das contas são muito parecidas, mas nunca iguais, nascidas da crise que é constante, como observou Edgar Morin, e que combatemos em oásis de felicidade, termo dele também.

Tenho igualmente muito amigos que não leram nada e que mal entendem do que eu estou falando. Mas, quando nos encontramos, rimos. Como perdemos essa possibilidade com a pandemia, de nos enroscarmos com vinho, nos lamentamos via memes, estes que considero uma grande invenção, mas que não têm o mesmo efeito de um comentário-soco em mesa de bar quando nele entra alguém.

Quem lê assim até pensa que sou do bar, mas sempre bebi mais em casa que fora dela. Meu marido é um pro, que identifica o bom da bebida entre o ruim. Eu também identifico, mas me envergonho por não saber as razões de superioridade ou inferioridade de qualquer coisa líquida, estas que ele descreve à perfeição.

Ele é bem perfeito em tudo, aliás, tem uma memória extraordinária e lê todas as coisas interessantes, muito mais do que eu. E não as dispersa pelo Facebook, como eu, carente da conversa alheia num círculo de amizades que a idade começa a fechar mais e mais. Ele guarda tudo para despejá-lo quase sempre na forma visual, condensada e difícil, da canção.  

Por que estou dizendo tudo isto, não sei. Talvez por estar sorvendo estes dias livres, depois de pela primeira vez na vida ter trabalhado no dia 31 de dezembro (verdade, sempre forcei a sorte nos plantões de redação). Sou dispersa e desatenta de um modo geral, distraída pra morte, como dizia o Otto (aliás uma das coisas mais bem ditas da música popular), razão pela qual fotografo a rua com prazer.

Escrevo tudo isto com um dedo só no celular, e na cama, da qual demoro a sair de manhã, lendo ali mesmo, via internet, as notícias da barbaridade cotidiana. Fui jornalista que nunca admirou excessivamente os jornais, e não me lamento por ter perdido a gana, não só a grana, de comprá-los.

Nos últimos dias, os algoritmos têm me trazido as excepcionalidades, a natureza, um pouco menos de desesperança, razão pela qual agradeço. 

Sim, é verdade que não vejo dilema em redes sociais, só escolhas, e até boas, muitas delas.

Tudo isto para dizer que tenho o coração tranquilo? 

Nunca está. 

Mas talvez por esta razão exista um infinito dentro dele, onde cabe você.

que sejam doze meses para nós

luz no aconchego

o ano pra mim foi bom, no fim das sofridas contas, e digo isto em tom baixo, enquanto todos descrevem justamente por aqui o seu.

e o confesso assim para que minha descrição passe discreta, no aconchego.

é que escrevo para vocês, sim, mas principalmente para mim, devo dizer, neste que se tornou meu diário pessoal de liberação, notícias e reflexões.

confinada com a família, a pandemia errou meu alvo.

vê se me erra ainda, peste amplificada por mentes doentias!

em casa, nos aproximamos.

lavei banheiros feliz, apesar de as costas doerem sempre.

não limpei as janelas por medo de cair das alturas, e agora as vidraças compõem desenhos aos quais me afeiçoei.

visito-os e constato por meio deles que a grafia da vida se refaz depois de cada tempestade, sempre frequente na minha vida.

perdi um grande amigo e mentor, e artista, e pensador primeiro.

mas não para a peste.

e não o perdi para a história nem para o coração.

quando meu pai morreu, carlos moreira me disse, aliás, que eu, a partir de então, me sentiria mais perto dele.

acertou, carlos querido!

e agora nós dois nos falamos todos os dias.

me senti bem menos solitária do que nos anos anteriores, porque me dediquei mais aos inboxes da rede, porque estive nelas com alguns de vocês, a quem conheci maravilhosamente e cujo contato telefônico em alguns casos até ganhei, e que sinto gostarem de mim.

trabalhei mais, escrevi sobre cinema e fotografia, paixões primeiras que são igualmente meu objeto de constante pesquisa.

e nem só isso, porque até uma revista de biologia fiz!

a vida é dura e maravilhosa.

quando se tem amores e amigos, duplamente dura e maravilhosa.

vocês são como eu.

são meus!

felizes doze meses que virão.

carlos moreira, meu amor

Covas no centro

É dia de Natal.

E Bruno Covas transforma a região encravada no centro da outrora bela cidade num pesadelo semelhante ao de Morte em Veneza, não o filme de Visconti, mas a novela de Thomas Mann, na qual o odor da peste é constante pelos recantos, pontes, pelo líquido dos canais.

Contudo, prolífico na alquímica distribuição de seus talentos, esse meio homem-meio sepultura transforma o lixo em coisa ainda mais dispersa e obrigatória, como os confetes na folia carnavalesca, deixando que toda espécie de descartados saia irresistivelmente dos sacos pretos pelo cães que são homens e pelos homens que são cães e proporcione à gente sozinha, em meio à tétrica decoração de ursos noeis e balões do pateta no Anhangabaú inconsolável, um isolamento compartilhado dentro da maior miséria até hoje verificada por mim naquele lugar.

O aumento de salário que Covas se deu e a seus secretários deve ter ocorrido justa e especificamente por esta sua imensa capacidade extraliterária de tocar a morte, já tão lendária porque inserida na alcunha familiar, e agora reiterada pelo voto, pelo enganar-se e o querer desfazer-se, que é o que a população parece pedir, desejar, o suicídio antes que seja tarde demais.

A patetada das redes

é bastante certo que não vale a pena comprar roupa nenhuma agora. engordei e nem tenho pra onde ir. dinheiro, muito menos.

mas os anúncios no Instagram me imaginam rodando a clutch na gabriel monteiro da silva.

e me sugerem as roupas de fernanda yamamoto e, agora, de gloria coelho.

estranho que ronaldo fraga não tenha aparecido…

e então de vez em quando surge um anúncio esperto, modelo com cara de gente e garantia de sustentabilidade, materiais novos, reciclados, possíveis.

e eu cedo.

vou até o “link na bio”.

Mas em lugar de preços compatíveis, a promoção imperdível traz a linda camisa cor de goiaba sobre uma modelo negra a 550 reais.

bem acessível, sim.

acessível como os tornados serão rotina no mundo aquecido, como aqueles de Santa Catarina outro dia, né mores?

eu sei que muito dilema deve haver nas redes.

mas, comigo, eles só aprontam patetadas, realmente.