O heróico MST na vertigem do cinema

O novo documentário de Adilson Mendes aproxima de nossa compreensão os seres humanos que integram o movimento e que, como consequência, comandam a zeladoria do planeta

As mãos do trabalhador sem-terra Jussimar Luís Dalenagare, presentes no documentário De quanta terra precisa o homem?

Pode-se dizer que um quarto de século se passou entre o brilho que o MST causou a primeira vez nos olhos do cineasta e historiador Adilson Mendes e a feitura do documentário único que é De quanta terra precisa o homem?, de sua autoria, sobre o movimento. Adilson procura o cerne das coisas, das boas e dos problemas, com muita beleza e um ritmo espetacular, a vagar e ecoar como o barulho das águas, sempre presentes nos seus filmes. É dos nossos mais promissores jovens documentaristas, sem fazer caso disto. Considera-se apenas um pesquisador que filma, um cineasta da história, por ela e com ela. Mas a sua é uma história inusitada, uma vez que contém poesia. E talvez seja deste modo poético que um único artista do filme acabe por representar o cinema inteiro.

No ano passado, durante a 45 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor apresentou seu talento ao público pela primeira vez, em “Tempo Ruy”, sobre a obra e o pensamento do grande cineasta que é o homem do Atlântico Ruy Guerra. O filme se faz a partir de um diálogo com suas ideias e termina por ser um editorial sobre a solidão empreendida, acompanhada das memórias. O documentário será mais bem sorvido no futuro, porque hoje andamos a ensaiar nossa cegueira e ainda não o vimos suficientemente…

Agora, o que Adilson Mendes fez e apresenta nesta 46 edição da Mostra é muitíssimo importante, mais uma vez. No momento perturbador em que vivemos, com as tantas ameaças a nossa democracia, o diretor mostra a face e as mãos dos sem-terra que fazem o MST. Geralmente tendemos a vê-lo como um movimento indistinto, de gente importante, por certo, mas sem o rosto que nos impele à empatia. Ou as mãos. Adilson mostra esses homens e mulheres com ênfase na sua racionalidade, mas também nas suas histórias de vida. Quem é sem-terra nunca está só. Sua produção mira a comunidade e, mais que isto, a saúde do planeta. 

De quanta terra precisa o homem? faz o contraponto necessário entre esses heróis brasileiros, que sobrevivem mesmo às duras penas de um governo miliciano, e a entrada, no movimento, do ex-banqueiro Eduardo Moreira, importantíssima voz da esquerda atual. Será ele a empreender o crédito que libertará o trabalho na terra do azedume do poder.

Na abertura do filme, um drone observa o desenho que um trator dos sem-terra faz nas águas, como se o veículo fosse um pincel de aquarela. Mas, antes, é uma epígrafe a conter um trecho de texto do crítico Paulo Emilio Salles Gomes a nos emocionar: 

Na história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já falaram muito. A classe média e o operariado disseram algumas palavras. Os trabalhadores da terra são a grande voz muda da história brasileira.

A seguir, a entrevista com o diretor Adilson Mendes.

A sem-terra Lúcia Marlei Rodrigues, no filme de Adilson Mendes

Fale-me um pouco, por favor, sobre o projeto do filme. Como ele surgiu? Como você conseguiu empreendê-lo? De quanto tempo precisou para fazer o filme, desde a pré-produção?

De quanta terra precisa o homem? é um filme de baixíssimo orçamento, encomendado por Eduardo Moreira. O filme é uma encomenda no sentido clássico e o esforço foi atender a uma demanda individual, mas principalmente a uma demanda social. Fazer uma homenagem ao MST é um desejo antigo. Desde 1998 que acompanho o movimento, quando – estudante de História em Assis – fui até Brasília com eles para protestar contra FHC. A ocasião da homenagem em forma de filme surgiu quando Moreira me convidou para colaborar em seu Instituto Conhecimento Liberta. Durante a pandemia, Moreira e sua equipe criaram uma plataforma de cursos online e me convidaram para realizar algumas atividades: a) ministrar disciplina sobre Cinema e Sociedade, b) organizar uma coleção de ebooks [Coleção Grandes Filmes do Brasi], c) criar um programa de bolsas para produção do audiovisual periférico [O Brasil de Verdade oferece bolsas de cinquenta mil reais para jovens da periferia do Brasil e teve, entre seus bolsistas, o cineasta do Capão Redondo, Lincoln Péricles, que, em 2021, fez um lindo curta-metragem, Mutirão] e, por último, d) realizar esse documentário.

A decisão de fazer De quanta terra precisa o homem? se deu quando Moreira me mostrou uma série de materiais audiovisuais que ele próprio produziu em suas viagens pelos rincões do Brasil, junto a povos indígenas, quilombolas e sem-terras. Mesmo tendo sido feito de forma amadora, o material de Moreira sobre o MST me interessou particularmente. Além disso, ele como personagem me pareceu estimulante para pensar as forças sociais em ação no país neste momento. Sua singularidade de novo rico recentemente convertido a causas sociais me pareceu uma mediação possível para apresentar o MST. Moreira está no centro de uma operação no mercado financeiro em que o movimento social adquiriu títulos de dívida com juros baixos.

A ideia de fazer o documentário surgiu em 2020, pouco antes da pandemia. Para compor o retrato do movimento foi preciso filmar seu lugar de origem, a região Sul do país. As filmagens das plantações de arroz e suas cooperativas estruturam o filme e absorvem o material produzido de forma amadora por Moreira. A pandemia atrasou a produção e o filme foi concluído apenas em setembro deste ano.

Você pergunta a um dos personagens qual filme ele queria ver feito, e seu documentário o contempla. Foi o filme que você quis fazer? Entre o projeto inicial e o resultado, quais caminhos novos você descobriu?

Você tem razão: o objetivo foi contemplar o MST. O personagem em questão é Jussimar Luís Dalenagare, ele foi decisivo para o filme. A maneira como Jussimar e sua companheira Isabel Cristina Dalenagare internalizaram o ideário do MST é de uma profundidade surpreendente, transferindo para a vida as práticas da agroecologia. E a agroecologia é tomada por eles como proposta de renovação da vida social, não apenas como técnicas de plantio. Este para mim é o maior ensinamento desse filme.

Como o documentário procura ouvir e atender à demanda do MST, busca converter uma encomenda individual em uma encomenda coletiva, o diálogo com os membros do movimento foi estruturando o filme ao longo do processo. Desde o início ele foi pensado para se desenvolver conforme o avanço do diálogo com o MST. O diálogo é que estrutura o roteiro, mesmo se Felipe de Moraes e eu, a partir das preciosas indicações de Miguel Stédile, estabelecemos linhas básicas para abarcar os temas centrais do movimento. O que eu não sabia era que o diálogo com o MST transformaria não apenas a forma do filme, mas toda a equipe de De quanta terra precisa o homem?, que sentiu de perto o ethos da coletividade. A propósito, esse filme não seria possível sem a incrível equipe reunida por Juliana Lira, a produtora executiva. A delicada fotografia de Carine Wallauer que busca a luz inquieta do movimento. A música de Dino Vicente, que constrói com uma viola atualizada. Fábio Costa Menezes é o montador também de Tempo Ruy.

A díade indivíduo/coletividade ganhou proporções inesperadas e o filme investiga o contato de um movimento social com um “estranho” ao mercado financeiro e as consequências desse encontro para a guinada pessoal, ética e política. Ou seja, o filme quer ser um elogio do coletivo, e pretende que nosso futuro enquanto sociedade está relacionado com nossa capacidade de reunir, sem preconceito, as forças sociais democráticas em nome de um projeto comum. Ninguém nasce um socialista empedernido ou um capitalista voraz. Ou seja, diante da degradação atual da sociedade brasileira, uma figura como Moreira tem sua relevância.

Você encontra uma belíssima citação de Paulo Emílio Salles Gomes e a usa como epígrafe que expõe seu objetivo no filme, quiçá no seu cinema, que é o de dar voz a quem foi calado pelo poder, neste caso o trabalhador sem-terra. Como a citação lhe veio para esta epígrafe? É o trecho de um livro?

Acho engraçado você falar em “meu cinema”, quando o que faço é um produto audiovisual que é resultado de minhas pesquisas enquanto historiador do cinema. Alguém que sempre está a investigar a memória audiovisual, a misturar vestígios de arquivos com a memória do presente. Eu não sou um cineasta, eu sou um pesquisador que faz filmes.

Você tem razão mais uma vez, a citação de um texto da fase política de Paulo Emilio na juventude, quando o intelectual se dividia entre a vida cultural e a vida política, orienta sobre as pretensões do filme. A citação foi colhida em um manifesto, escrito em 1945 para a União Democrática Socialista [publicado no livro Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente] e informa que a formação da nação exige que as classes falantes se calem e ouçam a palavra dos trabalhadores do campo. Paulo Emilio Sales Gomes é o grande nome da memória audiovisual brasileira. Graças a ele temos uma cinemateca nacional, seu pensamento influenciou gerações e continua bastante vivo, como se os problemas de nossa “situação colonial” não deixassem de se repor. E Paulo Emilio ronda sempre minhas buscas. A citação foi extraída de um contexto antifascista, em que as diversas forças da sociedade deixavam de lado as diferenças para se unir contra a barbárie…

Gostaria de entender melhor a inserção do personagem renomado, ex-banqueiro branco de classe média que agora, tornado à esquerda, contribui criando crédito ao movimento. Por que ele percorre todo o filme?

Sim, foi Moreira quem encomendou o filme, seu trabalho também passa pela legitimidade proporcionada pelo audiovisual. O que não vejo como mero oportunismo. Sua guinada ética é sincera mesmo se os cacoetes de sua classe continuam presentes. O plano que encerra o filme, inspirado na estética do cinejornal [a clássica pose do patriarca e sua família no alpendre] e na máxima lampedusiana, aponta para a necessidade de mediações que ampliem as relações pessoais. Ou seja, sem Estado não há ação individual ou empenho coletivo que prevaleçam, as coisas mudam mas voltam para o lugar onde sempre estiveram.

Mas para além de sua presença como “dono da bola”, Moreira comparece como representante da ordem citadina, que vem de fora para sondar uma realidade singular e nós, como espectadores, nos identificamos diretamente com ele, com sua dicção, seus trejeitos, sua força econômica. Ele serve ao documentário como um duplo do espectador, estimulando-o a ver o MST sem os filtros do militante engajado e dono de uma narrativa estabelecida pelo movimento social. Moreira serve ao filme como elemento estrangeiro ao movimento social, que permite um olhar mais livre do preconceito cristalizado pelos meios de comunicação. João Paulo Pacífico, outro artífice da operação junto ao mercado financeiro, tem papel semelhante, assim como outras personalidades entrevistadas no filme. Por isso, Moreira acompanha o filme como elemento romanesco que cede espaço a uma temporalidade mais dilatada, histórica, que o antecede e o ultrapassa.

Acho extraordinária a abertura, um trator que se movimenta na água, visto de cima por um drone, como se a repetir o movimento de um pincel de aquarela. À parte ser um importante e aparente paradoxo, o de citar a água quando ao falar do sem-terra, visto ser ele um “zelador da natureza”, como esclarece Stédile em uma de suas falas, o elemento parece ser uma assinatura sua, presente também no início do documentário sobre Ruy Guerra. Por que escolheu a água para abrir este filme?

Pode ser que a água seja uma figura de estilo inconsciente. Tenho estudos sobre Jean Vigo e Leon Hirszman que destacam o elemento essencial. É verdade que a água é um aspecto da poética de Ruy Guerra, no caso as águas do Atlântico Sul. É verdade também que água é um tema caro ao MST, visto que a “zeladoria da natureza” que eles promovem cuida da terra e, necessariamente, da água. Nas cercanias de Porto Alegre estive em um grande açude recuperado pelo movimento que atendia não apenas a suas plantações, mas também a pequenas cidades. Por isso, mais do que uma figura de estilo, o plano de abertura do trator procura evidenciar o quanto o filme busca se aproximar do meio ambiente para evidenciar a grandeza do projeto de preservação, produção e habitação do MST.

Seleni de Fátima de Lima e Heleni Terezinha de Lima, filha e mãe a integrar o Movimento Sem-Terra

Um objetivo importante do filme, conforme diz João Pedro Stédile a certa altura, parece ser o de constituir uma fonte de informação para o “povão”, que jamais terá a oportunidade de conhecer o movimento por dentro, pelo que ele realmente é, através dos meios de comunicação de massa brasileiros, tão comprometidos com o capital financeiro. Me parece que foi um objetivo cumprido belamente na feitura do filme. O que está pensado como distribuição para este documentário, para que ele seja conhecido amplamente?

Sim, o filme busca uma forma simples, uma forma humilde capaz de narrar o MST. O filme tem a consciência de que é apenas uma entre outras homenagens cinematográficas possíveis ao movimento. Como disse, a estrutura do filme foi se consolidando ao longo do processo de filmagem, em diálogo com os membros do MST. O filme quer estar a serviço do MST, quer ser um produto comunicativo, mesmo se para isso evita o sensacionalismo.

Como uma encomenda, a produção pertence ao Instituto Conhecimento Liberta que decidirá sobre as formas de distribuição, em conjunto com a Lira Filmes, a companhia responsável pela produção executiva do filme.

O historiador Adilson Mendes, que dirigiu De quanta terra precisa o homem?

Você já tem outros projetos fílmicos engatilhados depois deste? Imagino que continue com sua carreira como professor? Como pretende equilibrar essas atividades?

Tenho muitos projetos que pretendo realizar, que estão ligados a resultados de minhas pesquisas enquanto historiador. Documentários e filmes de ficção. Mas está muito difícil produzir qualquer coisa no Brasil. O campo do audiovisual foi desmantelado nos últimos anos e quem persiste em produzir precisa ter uma couraça bem forte. Como dizia Kulechov em seu manual de direção: “Requisito número um para a direção cinematográfica: saúde.” No caso brasileiro, onde a saúde sempre é pouca e as saúvas, muitas, é preciso muita sorte para se encontrar a parceria adequada.

Neste momento preparo um filme sobre a formação da favela de Heliópolis. Um documentário feito com moradores históricos e jovens habitantes da maior favela de São Paulo. O filme é feito coletivamente, de maneira totalmente independente e com total parceria com jovens universitários moradores de Heliópolis.

Como equilibrar a feitura de filmes com o trabalho de pesquisa e docência? Eis uma questão para a qual não tenho resposta. Apenas busco a complementaridade e não ficar na mediania de um e de outro.

Exibições do filme durante a 46 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo:

SESSÃO 1

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1       

28/10/22 – 21h15

SESSÃO 2

CINE MARQUISE Sala 2     

 31/10/22 – 16h45

DE QUANTA TERRA PRECISA O HOMEM?

Brasil

2022   cor   74 min.   

Documentário  

direção Adilson Mendes

Roteiro Adilson Mendes, Felipe de Moraes 

fotografia Carine Wallauer

montagem Fábio Costa Menezes

design de produção Magda Figueiredo

música Dino Vicente

produção Juliana Lira

produzido por Lira Filmes

Ubertales – Boy-monstro

Estou mais do que avisada da inutilidade de arguir com gado. Minha desculpa é que não entendi de início tratar-se de um. O uber era vip, para que meu pé não sofresse. O motorista parou ao lado de um buraco, então lhe pedi que avançasse um pouco, para eu poder entrar. Dentro do carro, expliquei por que havia lhe feito o pedido. Não podia arriscar meu tornozelo, que sofrera rotura completa do ligamento em função da má conservação da calçada. Emendei, erro de início, que a administração pública não cuidava da cidade. E ele disse que, com Tarcísio, tudo poderia ser diferente.

Mocinho magro de boné, que não errava em demasia o português. Resolvi então argumentar em favor de Haddad. “Não sou aqui da capital e me disseram que ele foi péssimo na prefeitura”. Como assim, péssimo, em que sentido? “Me disseram”. Vai votar em Bolsonaro? “Vou. Ele não tem culpa pela situação”. Você está feliz com a alta da gasolina? “Com Lula era 2,90”. Não era. “Eu pago 5 hoje, tá bom”. Você sabe que diminuiu e vai aumentar por causa da eleição. “Não. Bolsonaro pegou a crise mundial.” Lula também, mas a gasolina era nossa naquele tempo e não é agora. “Bolsonaro faz o que pode”. Sim, faz tudo o que pode para se favorecer e à quadrilha a que pertence, secretamente. “A Dilma inventou o sigilo de cem anos”. Meu deus.

Deveria ter saído do carro ali, mas ainda estava na 23 de Maio, longe de casa, impossível chamar uber na via expressa.

“O PT deixou o país sem reservas”. Não, o Bolsonaro é quem as destrói para se perpetuar no poder. “Não senhora, Lula deixou o país deficitário”. Onde leu isso? “Foi dito no debate e o Bonner concordou”. Precisa ler mais, cara! Olha o salário mínimo congelado, agora à mercê do reajuste desvinculado da inflação. (Resposta zero). Bolsonaro só governa para o empresário sonegador e para a milícia que precisa de armas. “Eu sou a favor das armas e não entendo como alguém vota em um condenado em todas as instâncias”. Os processos contra Lula foram anulados por falta de provas. “Como assim, falta de provas?” (gargalhando).

Você é mais um filho da puta que defende a tortura. Dá licença. Saí do carro batendo a porta, estava mais perto de minha residência, mas ainda assim tive de andar a São João inteira no calor. Andar me aliviou. E minha queixa ao Uber ficou bonitinha. Me agradou saber que para a informação sobre o salário mínimo ele não usou argumentos do zap. Temos de bater nisso. E ainda bem que não sou homem de muque, ou teria enchido o boy-monstro de porrada.

Pode, Folha?!

a cara de pau da folha com esse editorial.

que escrotaria, meu brasil.

vão cobrar Bolsonaro, vão.

nunca, jamais esqueço de que na entrevista para ser admitida na redação me perguntaram se eu era filiada ao PT.

tão absurdo quanto o teste de gravidez que me obrigaram a fazer antes de entrar em outro jornal, que por sinal ouvia nossas ligações telefônicas pra saber se eram pessoais.

jornalismo, meu deus.

Polarization news

Quando passeio pela avenida Ipiranga…

É domingo, vou à feira no centro e já estendo o peito para colarem todo tipo de adesivo pró-Lula, até porque, na feira, o Verme não entra. Às vezes acho que nem panfletagem os vermináceos fazem mais. Os rios do orçamento secreto devem desaguar diretamente nas fakes do zap.

Bom. Vamos fazer pastéis em casa e na feira não tem catupiry. Me mando pro super dos chineses, mais barato no geral, em busca do ingrediente. Porém é domingo e os chineses não estão lá. Pergunto pro marrento branco gordo, funcionário de bermuda e boné, se têm catupiry. Me olha. Afasta os olhos. E me diz não, de lado. É o tipo físico do miliciano, mas se trabalha, miliciano não deve ser, só um fã estupidificado, mais um.

Me resta o supermercado do bairro também frequentado pela besta do Augusto Nunes, jornalista que, zumbi véi, sempre adentra o espaço sem olhar pros lados. Fazer o quê? No Carrefour, também aberto, não entro nunca mais, então só tenho essa opção. E penso: sempre que vou a esse mercado do bairro (e nem é sempre, visto o preço alto das coisas por lá) me tratam bem. Caem dois adesivos do peito pelo caminho, resta um, quase no ombro. Aperto pra ele ficar coladinho. Vamos ver como reagem.

Entro e encontro o catupiry, assim como o palmito, o aliche em conserva e o fundo de alcachofra. Fecho os olhos e decido levar tudo no meu cartão de crédito. Vou até a caixa e ela me olha por trás da máscara, a franja progressiva preta, solta, caindo sobre olhos. Penso: lá vem. Ela aponta meu ombro. “Esse sim!”, faz com um sinal de positivo. Ao nosso redor, ninguém. “Só não posso dizer isso aqui, mas é nele que vou votar”. Eu fico tão feliz e desconcertada a ponto de lhe dizer: “Isso aí, companheira!”

E são estas as notícias de polarização do dia.

Um mar de sangue em uma ilha de sal

Ganhei da amada Lulina no meu aniversário. Demorei pra engrenar, embora seja tão direto e simples. Descrever o aborto, comparar o exame da gravidez com o da aids, essa secura, essa distância, irrelevância, tudo isso que nos torna humanos, esse exercício existencial pra nos fortalecer, é difícil, mas feito sem assumido desejo de perfeição, sem rancor. Tão bonita essa ilusão, tão francesa. Annie Ernaux acaba de ganhar o Nobel de Literatura, porque a autoficção nasceu pra vencer. Neste livro, a cada golpe corresponde uma tranquilidade. Um mar de sangue em que há uma ilha de sal. A tradução de Isadora de Araújo funcionou pra mim como um dez.

então pronto.
eu me admito triste.
desde domingo não sou a mesma.
dor de cabeça, de corpo.
energia zero, sem dormir e lutando pra cumprir o mínimo.
mas isto não importa.
dá pra fazer tudo igualzinho com ou sem dor.
não que resolva muito, mas continuo denunciando fake news nas redes sociais.
discutindo com uberistas e porteiros se for o caso.
enchendo os amigos com as informações que tenho e trocando o que tenho pelo que me dão.
f-se.
não vou parar de viver só porque essa meia dúzia troncha de vizinhos resolveu que eu não sirvo.
essa meia dúzia é que não me serve, ela que não aguentaria um minuto de discussão com a gente.
vão achando que canhões matam ideias, vão!
nunca dei bola pra classe média paulistana, não ia ser agora.
espero que acordem, mas se não acordarem, que pena.
até a xtébtis sabe diferenciar um pato de um laranja!
e se a minha pessoa querida, minha conhecida, que perdeu seu filho pro Brasil já voltou a lutar, como eu ficaria quieta?
é tudo difícil como sempre foi.
e a gente sabe mais que ninguém que está lutando por nossas vidas, por nossa comida, nossa saúde, nossa escola, nosso impossível!
ainda temos tempo, sim.

Me dê motivo

O corpo pesa. Cadê energia pra reescrever o texto titubeado e, ainda por cima, encontrar um título. Atraso a leitura do calhamaço pra resenha. As pedras rolam devagar. Bocejo. Colocar toda a roupa no varal foi Sísifo. Vou à hidro depois de ontem? Meu entrevistado me encostou na plateia. E eu, nesta vida, sempre tão boazinha pros outros. Inferno. Água morna. A prófi tá séria. Eu diria braba. Não pergunta nada, não conversa, não converso. A aula começa com Alceu Valença: tu vens, eu já escuto teus sinais. Depois Lulu: tudo muda o tempo todo no mundo. Tim: te espero para ver se você vem, não te troco nesta vida por ninguém. Percebo que a música popular do meu passado é só charme pela reconquista. A sedução humilhada em troca daquele quartinho com cama dos fundos. Nunca desistir de quem nos chutou, senão onde iremos dormir? Me dê motivo pra ir embora. Capoeiramos. A aula vai ser só MPB hoje. Talvez eu fique melhor. Na última, o pop Transamérica distraiu meus pensamentos. Prófi queria seus alunos relaxados pra domingo, mas agora se sente puta por ter acreditado nesses perus e bacanaços. Haja sequência subliminar pra importunar os véi. Abdominal vai fazer a barriga de vocês doer amanhã. Vocês estão trocando a mão pelo pé. Eu só faço hidro porque me sinto bem depois. Faltam dez minutos pro alongamento. Cinco. Três. O que será que vem? De olho nos teus sinais. Tu vens. Call me Elvis. We can’t go on together with suspicious minds. Gosto da parte em que, depois de esticar o braço, bato na água com força: toma, minion! Nós a aplaudimos. Ela nos aplaude de volta. Depois que suspiramos, o aviso: esta é a minha última aula pra vocês.

O meu Piauí

O texto a seguir foi publicado em junho de 2009 na coluna virtual que tive na revista de Sr. Democracia. Quando saí da publicação, há seis anos, tiraram do ar tudo o que escrevi para eles – felizmente, digo eu, já que aquilo produzido por mim ali de fato não lhes pertence.

Este texto, por exemplo, decidi escrever enquanto chorava os efeitos de uma enchente no estado que não causava a menor comoção nos meus conhecidos. Eles estavam por demais habituados a debochar do Piauí para sentir qualquer empatia pelos piauienses, razão pela qual decidi responder-lhes com meu protesto. Hoje sabemos que a terra de Mário Faustino e de Torquato Neto orgulha todos nós mais uma vez: ela jogou na cara do verme despresidente um não eleitoral rotundo, de mais de setenta por cento dos votos no estado.

Um protesto, aliás, a seguir uma tradição de protestar… A data de 13 de março de 1823, inscrita na bandeira piauiense, refere-se à Batalha de Jenipapo, ocorrida em Campo Maior. Seis meses depois da proclamação da independência, piauienses, maranhenses e cearenses lutaram às margens do Riacho Jenipapo contra as tropas portuguesas comandadas pelo major João José da Cunha Fidié. O 7 de Setembro ocorreu pra valer, como a gente observa, um semestre depois, e o riacho era outro. As tropas portuguesas usaram armas de fogo e os sertanejos, algo desprovidos delas, tudo o que tinham. Em sua maioria mercenários bem treinados, os portugueses ganharam a batalha, mas perderam a guerra da independência graças às táticas de guerrilha dos sertanejos: após o combate do Jenipapo, num assalto de surpresa ao acampamento militar, eles se apoderaram dos armamentos, da munição, do dinheiro e da bagagem do Major Fidié, e cercaram o caminho para Oeiras, forçando o comandante português a se retirar do Piauí e de sua pretensão sobre o território na América.

A história é minha alegria.

Viva o Piauí!

E quem sabe:

Take me back to Piauí!

Minha mãe nasceu no Piauí, o que, suspeito, tornou-me rara. Conheci o Piauí de perto. Ninguém na maior parte do Brasil parece saber o que o Piauí é. Mas, na minha infância, ele não tinha mistérios. Era apenas indescritível. Um céu com mais estrelas.

Os colunistas de blog da atualidade, os atores, os filósofos do saber, acham interessante dizer que, com essa enchente terrível, responsável por deixar dez mil desabrigados no estado, o País todo fica com a cara do Piauí. Como se ao Piauí equivalesse a máxima miséria brasileira e como se, ao evocar seu nome no título de uma revista cultural, a ironia pelo contraste estivesse perfeita.

Observo que muitos males ainda pendem do imaginário dos pensadores locais. Antes o Brasil se parecesse com o Piauí. Dizer Piauí é dizer uma utopia que o País não alcança. São pobres lá, antes e agora, como foram e ainda serão os brasileiros em todos os recantos das cidades ricas. Mas são também ricos no Piauí, como poucos suspeitam. As escolas, a arqueologia, a poesia, um cotidiano de profundas marcas.

Outro dia, em uma festa a que compareci, alguém se aventurou ao curioso raciocínio: “Se não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí, o Piauí não existe. Não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí.” Não sei o porquê da sem-cerimônia com relação ao estado de triste sina. Se não conheço ninguém que tenha vindo do Rio Grande do Sul, por acaso ele teria deixado de existir?

Lembrei-me, ao presenciar o exercício dessa complexidade lógico-linguística, que “lugar nenhum” é o significado para utopia. Thomas Morus utilizou a palavra no título de um livro clássico do século XVI. Era um relato ficcional irônico, provando a impossibilidade da vida perfeita. Com o passar dos anos, Morus preferiu que esquecessem o que escrevera e se dedicou, como padre, a condenar os pensadores viajantes.

O Piauí é utópico. E os ironistas sem linha se servem dessa utopia.

Minhas férias de verão aconteciam em Floriano, no sul do estado. Férias de quase três meses. O verão que eu passava por lá era inverno para os piauienses, porque chovia. Na cidade piauiense, a terceira do estado, ardente apesar de seu estado invernal de dezembro a março, as lavadeiras tiravam a blusa a céu aberto e passavam sabão nos seios sem se importar com quem as observava. O rio Parnaíba onde lavavam quilos de roupa de encomenda era marrom como o barro. O rio afogava os desavisados, eventualmente paulistanos que integravam o Projeto Rondon. Os cavalos, vez por outra, deslizavam mortos pela forte correnteza e eu assistia a sua última viagem. O sol se punha sobre Floriano, e eu o observava da margem oposta, na Barão de Grajaú maranhense.

A avenida mais bonita dessa cidade dava para o cais, onde se atracava um restaurante flutuante. Era uma avenida não como se entende uma grande via de asfalto urbana. A avenida do cais vinha calçada de pedras. A via séria, principal, era a Getúlio Vargas, que seguia contínua até a igreja da praça. De noite, a gente jovem andava por ela em círculos.

Sentados na praça, ficavam os meninos a observar os cabelos novos das moças, tirados da novela da Globo, que passavam no estado com atraso de meses. Em pé, alguns loucos, como o juiz que falava “gudnaite!” em respeitado inglês, faziam-se ouvir por trás do terno azul, do chapéu e da bengala. Havia a jovem negra continuamente grávida, alegadamente louca, de chupeta na boca, de nome Ciça. O vigário corria atrás dos casais improvisados atrás da matriz. As missas do padre Pedro eram gloriosas, porque educavam os fiéis. Irmão que casa com irmã, dizia padre Pedro, tem filho sem cabeça nem pé.

Nos anos 70, não havia esgoto na cidade cujo nome homenageava o terrível marechal republicano. As vacas e as cabras andavam soltas na rua e o sol moía os olhos dos pedestres. Era uma festa quando chovia, porque a água banhava as crianças, que levavam sabão e toalha para a calçada. As casas amplas tinham terreno para galinhas, viveiros de pássaros, goiabeiras e umbuzais. Como não havia encanamento em todas as casas, o banho frio usualmente partia dos baldes retirados de poços. Matava-se a sede com a água de um pote de barro, colhida por meio de concha grande de alumínio.

As comadres se sentavam à noite em cadeiras plásticas coloridas trançadas, diante de suas casas. Conversavam porque a televisão encerrava expediente às nove. Enquanto elas atualizavam histórias dos vizinhos e dos fantasmas, nós, as crianças, andávamos de bicicleta até a igreja e o cais, sem medo de bicho papão. Mas nos escondíamos dos adultos quando ocupávamos a garupa das lambretas.

O Carnaval de rua de Floriano era lindo, remetendo a um século anterior. Havia blocos em que nos encaixávamos, aprontando a roupa igualzinha, pelas mãos de habilíssimas costureiras pobres. Os blocos saíam arrumados e os moleques sem dinheiro investiam contra eles com suas bisnagas cheias de xixi e uma porção de tinta. A apoteose ocorria quando todos os blocos se encontravam na tal avenida do cais, dançando ao som de exímios músicos andarilhos, de manhãzinha. Em casa, esperavam-nos o cuscuz de milho com manteiga ou o caldo de mocotó. As mães e tias dormiam.

Há tanto sobre o Piauí entre aquelas coisas recortadas de minha memória que renderia muitas pequenas colunas. Não me cansaria de falar da sabedoria daquela gente em meio à miséria, cercada da imensa luz da noite. No chão de terra batida das casas, naturalmente, os homens se submetiam aos coronéis. Na Piauí dos anos 70, havia duas classes apenas. Os pobres, que sorriam. E os ricos, cuja fortuna, citando Charles Chaplin, nascera de um crime social. Para sobreviver à pobreza, era preciso agregar-se aos ricos.

A miséria no Brasil pode se equivaler àquela piauiense, mas não é a mesma. Quando se vive na favela paulistana ou fluminense a lua não é mais branca do que aquela.

Dock of the bay

quem é fascista, quem não é?

Espero a hora de minha fisio começar escondida num restaurantezinho árabe da Paulista, quando de repente me dou conta de que já entrei no modo que vai durar um mês: olho os passantes apenas pra identificar sua bolçonalidade.

Motoqueiros, todos, sim porque sim! Porteiros, check. Garçons, só os homens. Mendigos e bêbados, lulistas comigo pra pegar um troco. Donos de bancas de jornais, bolços desde antes de nascer. Consumidoras loiras de roupas no torra-torra, sim, claro. Fruteiros, um mistério. Chingling, nem escondem.

Outra característica interessante minha neste momento é que não tenho ideia do que estou fazendo. Vocês pelo menos gostam de televisão e se distraem com aquilo, pensem na vantagem.