Me dê motivo

O corpo pesa. Cadê energia pra reescrever o texto titubeado e, ainda por cima, encontrar um título. Atraso a leitura do calhamaço pra resenha. As pedras rolam devagar. Bocejo. Colocar toda a roupa no varal foi Sísifo. Vou à hidro depois de ontem? Meu entrevistado me encostou na plateia. E eu, nesta vida, sempre tão boazinha pros outros. Inferno. Água morna. A prófi tá séria. Eu diria braba. Não pergunta nada, não conversa, não converso. A aula começa com Alceu Valença: tu vens, eu já escuto teus sinais. Depois Lulu: tudo muda o tempo todo no mundo. Tim: te espero para ver se você vem, não te troco nesta vida por ninguém. Percebo que a música popular do meu passado é só charme pela reconquista. A sedução humilhada em troca daquele quartinho com cama dos fundos. Nunca desistir de quem nos chutou, senão onde iremos dormir? Me dê motivo pra ir embora. Capoeiramos. A aula vai ser só MPB hoje. Talvez eu fique melhor. Na última, o pop Transamérica distraiu meus pensamentos. Prófi queria seus alunos relaxados pra domingo, mas agora se sente puta por ter acreditado nesses perus e bacanaços. Haja sequência subliminar pra importunar os véi. Abdominal vai fazer a barriga de vocês doer amanhã. Vocês estão trocando a mão pelo pé. Eu só faço hidro porque me sinto bem depois. Faltam dez minutos pro alongamento. Cinco. Três. O que será que vem? De olho nos teus sinais. Tu vens. Call me Elvis. We can’t go on together with suspicious minds. Gosto da parte em que, depois de esticar o braço, bato na água com força: toma, minion! Nós a aplaudimos. Ela nos aplaude de volta. Depois que suspiramos, o aviso: esta é a minha última aula pra vocês.

O meu Piauí

O texto a seguir foi publicado em junho de 2009 na coluna virtual que tive na revista de Sr. Democracia. Quando saí da publicação, há seis anos, tiraram do ar tudo o que escrevi para eles – felizmente, digo eu, já que aquilo produzido por mim ali de fato não lhes pertence.

Este texto, por exemplo, decidi escrever enquanto chorava os efeitos de uma enchente no estado que não causava a menor comoção nos meus conhecidos. Eles estavam por demais habituados a debochar do Piauí para sentir qualquer empatia pelos piauienses, razão pela qual decidi responder-lhes com meu protesto. Hoje sabemos que a terra de Mário Faustino e de Torquato Neto orgulha todos nós mais uma vez: ela jogou na cara do verme despresidente um não eleitoral rotundo, de mais de setenta por cento dos votos no estado.

Um protesto, aliás, a seguir uma tradição de protestar… A data de 13 de março de 1823, inscrita na bandeira piauiense, refere-se à Batalha de Jenipapo, ocorrida em Campo Maior. Seis meses depois da proclamação da independência, piauienses, maranhenses e cearenses lutaram às margens do Riacho Jenipapo contra as tropas portuguesas comandadas pelo major João José da Cunha Fidié. O 7 de Setembro ocorreu pra valer, como a gente observa, um semestre depois, e o riacho era outro. As tropas portuguesas usaram armas de fogo e os sertanejos, algo desprovidos delas, tudo o que tinham. Em sua maioria mercenários bem treinados, os portugueses ganharam a batalha, mas perderam a guerra da independência graças às táticas de guerrilha dos sertanejos: após o combate do Jenipapo, num assalto de surpresa ao acampamento militar, eles se apoderaram dos armamentos, da munição, do dinheiro e da bagagem do Major Fidié, e cercaram o caminho para Oeiras, forçando o comandante português a se retirar do Piauí e de sua pretensão sobre o território na América.

A história é minha alegria.

Viva o Piauí!

E quem sabe:

Take me back to Piauí!

Minha mãe nasceu no Piauí, o que, suspeito, tornou-me rara. Conheci o Piauí de perto. Ninguém na maior parte do Brasil parece saber o que o Piauí é. Mas, na minha infância, ele não tinha mistérios. Era apenas indescritível. Um céu com mais estrelas.

Os colunistas de blog da atualidade, os atores, os filósofos do saber, acham interessante dizer que, com essa enchente terrível, responsável por deixar dez mil desabrigados no estado, o País todo fica com a cara do Piauí. Como se ao Piauí equivalesse a máxima miséria brasileira e como se, ao evocar seu nome no título de uma revista cultural, a ironia pelo contraste estivesse perfeita.

Observo que muitos males ainda pendem do imaginário dos pensadores locais. Antes o Brasil se parecesse com o Piauí. Dizer Piauí é dizer uma utopia que o País não alcança. São pobres lá, antes e agora, como foram e ainda serão os brasileiros em todos os recantos das cidades ricas. Mas são também ricos no Piauí, como poucos suspeitam. As escolas, a arqueologia, a poesia, um cotidiano de profundas marcas.

Outro dia, em uma festa a que compareci, alguém se aventurou ao curioso raciocínio: “Se não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí, o Piauí não existe. Não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí.” Não sei o porquê da sem-cerimônia com relação ao estado de triste sina. Se não conheço ninguém que tenha vindo do Rio Grande do Sul, por acaso ele teria deixado de existir?

Lembrei-me, ao presenciar o exercício dessa complexidade lógico-linguística, que “lugar nenhum” é o significado para utopia. Thomas Morus utilizou a palavra no título de um livro clássico do século XVI. Era um relato ficcional irônico, provando a impossibilidade da vida perfeita. Com o passar dos anos, Morus preferiu que esquecessem o que escrevera e se dedicou, como padre, a condenar os pensadores viajantes.

O Piauí é utópico. E os ironistas sem linha se servem dessa utopia.

Minhas férias de verão aconteciam em Floriano, no sul do estado. Férias de quase três meses. O verão que eu passava por lá era inverno para os piauienses, porque chovia. Na cidade piauiense, a terceira do estado, ardente apesar de seu estado invernal de dezembro a março, as lavadeiras tiravam a blusa a céu aberto e passavam sabão nos seios sem se importar com quem as observava. O rio Parnaíba onde lavavam quilos de roupa de encomenda era marrom como o barro. O rio afogava os desavisados, eventualmente paulistanos que integravam o Projeto Rondon. Os cavalos, vez por outra, deslizavam mortos pela forte correnteza e eu assistia a sua última viagem. O sol se punha sobre Floriano, e eu o observava da margem oposta, na Barão de Grajaú maranhense.

A avenida mais bonita dessa cidade dava para o cais, onde se atracava um restaurante flutuante. Era uma avenida não como se entende uma grande via de asfalto urbana. A avenida do cais vinha calçada de pedras. A via séria, principal, era a Getúlio Vargas, que seguia contínua até a igreja da praça. De noite, a gente jovem andava por ela em círculos.

Sentados na praça, ficavam os meninos a observar os cabelos novos das moças, tirados da novela da Globo, que passavam no estado com atraso de meses. Em pé, alguns loucos, como o juiz que falava “gudnaite!” em respeitado inglês, faziam-se ouvir por trás do terno azul, do chapéu e da bengala. Havia a jovem negra continuamente grávida, alegadamente louca, de chupeta na boca, de nome Ciça. O vigário corria atrás dos casais improvisados atrás da matriz. As missas do padre Pedro eram gloriosas, porque educavam os fiéis. Irmão que casa com irmã, dizia padre Pedro, tem filho sem cabeça nem pé.

Nos anos 70, não havia esgoto na cidade cujo nome homenageava o terrível marechal republicano. As vacas e as cabras andavam soltas na rua e o sol moía os olhos dos pedestres. Era uma festa quando chovia, porque a água banhava as crianças, que levavam sabão e toalha para a calçada. As casas amplas tinham terreno para galinhas, viveiros de pássaros, goiabeiras e umbuzais. Como não havia encanamento em todas as casas, o banho frio usualmente partia dos baldes retirados de poços. Matava-se a sede com a água de um pote de barro, colhida por meio de concha grande de alumínio.

As comadres se sentavam à noite em cadeiras plásticas coloridas trançadas, diante de suas casas. Conversavam porque a televisão encerrava expediente às nove. Enquanto elas atualizavam histórias dos vizinhos e dos fantasmas, nós, as crianças, andávamos de bicicleta até a igreja e o cais, sem medo de bicho papão. Mas nos escondíamos dos adultos quando ocupávamos a garupa das lambretas.

O Carnaval de rua de Floriano era lindo, remetendo a um século anterior. Havia blocos em que nos encaixávamos, aprontando a roupa igualzinha, pelas mãos de habilíssimas costureiras pobres. Os blocos saíam arrumados e os moleques sem dinheiro investiam contra eles com suas bisnagas cheias de xixi e uma porção de tinta. A apoteose ocorria quando todos os blocos se encontravam na tal avenida do cais, dançando ao som de exímios músicos andarilhos, de manhãzinha. Em casa, esperavam-nos o cuscuz de milho com manteiga ou o caldo de mocotó. As mães e tias dormiam.

Há tanto sobre o Piauí entre aquelas coisas recortadas de minha memória que renderia muitas pequenas colunas. Não me cansaria de falar da sabedoria daquela gente em meio à miséria, cercada da imensa luz da noite. No chão de terra batida das casas, naturalmente, os homens se submetiam aos coronéis. Na Piauí dos anos 70, havia duas classes apenas. Os pobres, que sorriam. E os ricos, cuja fortuna, citando Charles Chaplin, nascera de um crime social. Para sobreviver à pobreza, era preciso agregar-se aos ricos.

A miséria no Brasil pode se equivaler àquela piauiense, mas não é a mesma. Quando se vive na favela paulistana ou fluminense a lua não é mais branca do que aquela.

Dock of the bay

quem é fascista, quem não é?

Espero a hora de minha fisio começar escondida num restaurantezinho árabe da Paulista, quando de repente me dou conta de que já entrei no modo que vai durar um mês: olho os passantes apenas pra identificar sua bolçonalidade.

Motoqueiros, todos, sim porque sim! Porteiros, check. Garçons, só os homens. Mendigos e bêbados, lulistas comigo pra pegar um troco. Donos de bancas de jornais, bolços desde antes de nascer. Consumidoras loiras de roupas no torra-torra, sim, claro. Fruteiros, um mistério. Chingling, nem escondem.

Outra característica interessante minha neste momento é que não tenho ideia do que estou fazendo. Vocês pelo menos gostam de televisão e se distraem com aquilo, pensem na vantagem.

A imprensa diz sem dizer

Entendem? É Bolsonaro quem “vai” nesta manchete. É ele quem age. Quem tem o corpo em porção maior na foto, com semblante entusiasmado, mas sereno. Lula se esforça pra acenar, esmagadinho na composição da imagem, inclinando-se, enquanto Bolsonaro está ereto, luminoso. Não é preciso pensar muito, nem mesmo ler o texto da manchete, para entender como o jornal vê o momento.

Pra cima deles com nossos vermífugos, moçada

Por que as pesquisas eleitorais erram? No caso atual, há pelo menos uma explicação. Os institutos tiram suas conclusões a partir de um mapeamento do país proporcionado pelo censo. Mas, por certo, perdemos o censo! Ele foi tirado de nós, em tempo, para que não soubéssemos quem somos até a eleição.

Véus.

Uma vez que a canalhada escondeu o país onde vivemos (encolhidos e humilhados, por sinal), nós nos desatualizamos sobre nós mesmos. Quem somos? A base de dados desatualizada não ajudou ninguém a compreender o país antes de inquiri-lo nas pesquisas eleitorais.

Todas as informações relevantes, como aquelas sobre nossa saúde, por falar nisso, estão ocultas há tempos. É muito sigilo correndo solto, não somente sobre os crimes e o cartão corporativo da família verminácea – simplesmente nossas vidas têm sido obliteradas, sem que nos demos conta da proporção voraz em que isto ocorre.

Somente essa falta de informação proposital na área da saúde pública, por exemplo, já teria sido motivo para impeachment do governante uns dois anos atrás. Mas nada é feito neste país quando todas as instituições, como a imprensa, estão tomadas pelo desinteresse em mudar. A imprensa, a Procuradoria-geral, o Congresso, a Justiça – todos os que deveriam lutar por nós não querem fazê-lo. O espaço público, queridos, encolheu.

Enquanto isso, outro encolhimento, o cognitivo, prossegue lancinante por meio da existência zapeada dos brasileiros, em especial a dos pobres, mas a dos remediados também. É pelo zap que circulam livremente as notícias alucinatórias, fakeadas, que remodelam o conceito de opressão aos oprimidos, para fazer com que ela lhes pareça natural – até justa! Já viram sem-teto bolsonarista? Pois hoje meu marido deparou com um deles remexendo o lixo…

(Um dos memes mais fantásticos que vi nos últimos tempos é aquele que, sobre a ficção distópica “1984”, de Orwell, coloca estas palavras: “Este livro era pra ser um alerta, não um guia”.)

Aceitamos a cegueira porque vivemos nela. É um golpe carniceiro o que transcorre, como vocês sabem. E sofisticado no último, porque se baseia na anulação de nossa habilidade de reagir. Estamos aqui, pequenos, lutando uns contra os outros nos cabos de guerra da internet, onde não cabem os olhos, os sorrisos, o cheiro, os argumentos, a conversa, além disso impondo o pouco que realmente sabemos e percebemos, censurando a mínima oposição, apenas para que sintamos algum poder sobre o outro. Que tal, em vez disso, conversar cara a cara com ele? Talvez tenhamos esquecido como se faz. Mas seríamos tão mais felizes se o fizéssemos.

Eu não sei como isso pode mudar. No fundo do coração, nem creio que seja mais possível.

Ontem, ao consultar o Facebook de minha família bolsonarista, deparei com um vídeo do papagaio pelado da Havan, que pelo jeito é o novo filósofo-astrólogo a substituir o fumante que partiu desta, espero, para pior. Naquele vídeo, um dia antes da eleição, ele pede para que seu espectador vá ao quarto dos filhos e netos, cubra-os e beije-os na cama e depois se ponha a pensar numa só coisa: na Venezuela. “Você quer que os seus sofram como sofrem as pessoas naquele país? Então, se não quer, se deseja um futuro aos seus, veja lá o que vai fazer amanhã na urna, hein?”

Foi das coisas mais assustadoras que vi antes de o dia amanhecer. Até o metrô mais próximo, duzentos ou mais metros, não vi ninguém de vermelho feito eu a caminho da votação. Antes, vinham todos na contramão, assustados ou desafiadores, às vezes animados, mas fingindo não me perceber. E isto para mim significou apenas uma coisa: estamos encolhidos, conforme esses monstros pelados nos ensinaram a ser. Não ousamos mudar o passo, porque, bem, sabe-se lá o que nos espera.

Vamos continuar assim, talvez? Eu desejo que não. Mas, de novo, sem qualquer esperança a circundar meu pensamento… Sou boa de ação, contudo, muito otimista pra agir! E talvez por isso espere de todos nós a guerra de trinta dias para mudar este presidente que é a própria maldição, mesmo que estejamos habitados por nossos medos. Por que, caso contrário, que saída teremos?

Só posso lhes propor isso, ademais no abstrato de suas intuições. Vamos desligar os vermes. Vamos meter-lhes os vermífugos invisíveis de nosso conhecimento, sem dó. E voar alto, por sobre seus canhões.

Quebrando a cara, obra-prima de Giorgetti sobre Eder Jofre

Waldemar Zumbano e Eder Jofre em “Quebrando a Cara”, documentário de Ugo Giotgetti, 1986

O grande Eder Jofre morreu hoje, aos 86 anos. E o Brasil lhe fez justiça por meio do documentário que é uma espécie de contrafacção de “Rocco e seus irmãos”, de Visconti, com “Accatone”, de Pasolini, na qual a história do pugilista remete à de sua família periférica. Não percam a chance de ver “Quebrando a cara”, de 1986, uma obra-prima de Ugo Giorgetti desde a primeira maravilhosa sequência. Aqui, a versão integral no YouTube.

Kafka, o oráculo

Às vezes sinto que Kafka vive em mim. Hoje, por exemplo. Enquanto me encontro à espera da eleição para presidente do Brasil, amanhã, abre-se no meu colo esta narrativa de traduzida por Modesto Carone e incluída no primeiro livro do grande escritor, “Contemplação”, de 1912. Com vocês, “Para a Meditação de Grão-Cavaleiros”:

Franz Kafka aos 22 anos, em 1905

Para a Meditação de Grão-Cavaleiros

Nada, pensando bem, pode induzir alguém a querer ser o primeiro numa corrida.

A glória de ser reconhecido como o melhor cavaleiro de um país é um prazer forte demais — no momento em que a orquestra dispara — para que na manhã seguinte seja possível evitar o remorso.

A inveja dos adversários, gente mais astuta, bem mais influente, tem de nos doer na estreita ala através da qual agora cavalgamos depois daquela planície que pouco antes estava vazia à nossa frente, com exceção de alguns cavaleiros arredondados que faziam carga, pequenos, contra a fímbria do horizonte.

Muitos dos nossos amigos correm para retirar o prêmio e só por cima dos ombros é que nos gritam dos guichês distantes o seu hurra!; mas os melhores amigos não apostaram em nosso cavalo, temendo que, em caso de perda, tivessem de ficar zangados conosco; agora porém que o nosso cavalo foi o primeiro e eles não ganharam nada, dão-nos as costas quando passamos e preferem olhar ao longo das tribunas.

Firmes nas selas, os concorrentes atrás de nós procuram avaliar a desgraça que os atingiu e a injustiça que de algum modo lhes foi infligida; assumem um ar bem-disposto como se fosse preciso iniciar uma nova corrida, agora séria, depois desta brincadeira de criança.

Para muitas damas o vencedor parece ridículo, porque ele se enfatua e no entanto não sabe o que fazer com os eternos apertos de mão, continências, mesuras e cumprimentos à distância, enquanto os vencidos mantêm a boca fechada e, absortos, dão palmadas nos pescoços dos seus cavalos, que na maioria relincham.

Finalmente do céu que ficou turvo começa a chover.

Tenho fome de quê? Ou por que amo a fotografia de rua

Fiz esta foto hoje de manhã por trás da vidraça de um café na praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, onde moro.

Eu contemplava a estátua de Dante Alighieri à distância quando o sem-teto se aproximou do lixo, para vasculhá-lo, em sua fome.

Coloquei-o no enquadramento apenas porque fazia sentido a presença desse personagem forte, a expressar a miséria brasileira, diante da representação do escritor que nos relatou a perambulação da alma humana pelas profundezas, pela culpa.

Mas só depois de fotografar e de publicar a imagem no Instagram, sob a legenda “Dante vê”, fui capaz de entender (sempre em parte) o que fotografei.

Ao rever a foto horas depois de tirá-la, enxerguei nessas espadas de são jorge em primeiro plano as chamas do inferno.

Alguém olha desde o inferno para este ser!

Quem?

Talvez todos saibamos. Talvez todos tenhamos contribuído para que nosso semelhante chegasse a esse lugar.

O mais interessante para mim, contudo, não é exatamente essa constatação.

A foto me diz mais.

Ela fala de mim, igualmente, sob outra perspectiva.

Fala de minha procura, feita à luz do dia, diante do mundo e da minha consciência.

Eu estou do lado de lá, como num sonho.

Sou eu o miserável que procura saciar a fome, à semelhança elegante do meu personagem sem-teto.

Mas que fome é a minha?

O que procuro entre os vestígios deixados por outros seres humanos?

E que inferno me localiza, me observa?

É incomparável o que a gente encontra depois de olhar o que fotografamos.

As escolhas de composição e enquadramento, fazemos por instinto, num instante.

Mas esse instinto que formata a imagem, na verdade, nasce antes, de um acúmulo.

De uma meditação contínua sobre o que somos, da confusão imagética e de conhecimentos que assimilamos pela vida.

Amo a fotografia de rua porque ela me permite acessar esse inconsciente, com aparente racionalidade, num segundo.

Ela me faz pensar.

Me faz ser.

Tenho fome de quê?

Onde vai se esconder da enorme euforia?

Eu não ia à aula de hidroginástica do Sesc havia algum tempo, quase três meses desde que me estabafei na calçada de casa, rompi totalmente um ligamento e só não precisei operar por um triz.

Voltei ao movimento sexta passada e constatei que nosso piscinão continua cheio. Uns trinta alunos pelo menos. Vi que tiraram o professor brincalhão de quem eu gostava. E puseram no lugar uma professora séria, disposta a que os velhinhos de todas as idades fortaleçam braços, abdômen e pernas com trilha sonora do passado, sem conversinha nos intervalos.

É chato, mas, quer saber? É bom também. Decidi ficar cantando baixinho, sozinha, enquanto sigo cuidadosa com os pés. Sei a maioria das letras. Hoje teve Wando, RPM, Sidney Magal, Rita Lee, Caetano, QI de Abelha, etc. No passado eu talvez reclamasse. Mas hoje isso é coisa demais. Amei de paixão ouvir o cringe todo que recheia nossa saudosa música popular.

No fundo da piscina ficam os mais altos e os que sabem nadar. Em uma classe com 30 pessoas, somos quase meia dúzia naquela região: eu, o senhor preto de mais de 80, a preta linda de uns 48 e duas senhoras de 80 muito altas, loiras e que me dão calafrios, pois imagino suas altamente hipotéticas simpatias nazistas. (Eu não consigo calar minhas fantasias, elas andam sozinhas.)

Bem, mas hoje, no alongamento, durante os cinco minutos finais de aula, a professora pôs “Apesar de você” pra rodar. Foi tão libertador. Uma das alemãs saiu. Eu chamei a professora no canto pra aplaudir a escolha. E ela: “Fiz de propósito! Vamos nos livrar domingo, com a bênção de deus!”

Ninguém mais comentou. Nem cantou, feito a boboca eu. Até que, no caminho pro chuveiro, me procurou a segunda alemã pra dizer: “Gosto tanto desta professora!” E eu, cautelosa: “Sim, ela é séria!” Para seu protesto: “Mais que isso, ela anima a gente!” Ecoei alívio: “Ô se anima!”

Que bom que enfrentei a manhã fria e escorregadia para curtir este momento delicioso de nossas vidas.

O único senão foi que, parafraseando Borges, não tiro mais da cabeça este mapa da Hungria:

“Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia.
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar.”

E o querido de Hitler era Mickey Mouse

Em entrevista realizada na década de 1970, a cineasta Leni Riefenstahl conta que o ditador nazista usava dublês, amava Hollywood e ganhou de Goebbels, no Natal, animações com o personagem da Disney

“Mickey e Hitler”, litografia
em papel do austro-irlandês
Gottfried Helnwein



O jornalista Maximillien Lafayette entrevistou a cineasta e fotógrafa alemã Helene Berta Amalie, conhecida artisticamente por Leni Riefenstahl (1902-2003), em 1972, em Munique. E publicou sua entrevista, sete anos depois, no livro “Últimas palavras de Leni Riefenstahl sobre Hitler, Goebbels, Nazistas e os Judeus”, reeditado em 2014 pela Times Square Press. Durante a entrevista para Lafayette, a diretora que colaborou com Hitler por meio da direção de filmes, entre eles “Olympia” (sobre a Olimpíada de 1936) e “O Triunfo da Vontade” (sobre o congresso do partido nazista,
em 1935), declarou desconhecer os campos de concentração enquanto atuou para o ditador. E ainda sustentou nada ter contra os judeus, que teriam sido trabalhadores, ao lado dela, na realização de seus filmes.

Hitler com Leni Riefenstahl durante as filmagens de “O Triunfo da Vontade”


Nesta entrevista, cujos trechos republico aqui, a cineasta elege “A Luz Azul” (“Das Blaue Licht”, 1932) e “O inferno branco de Piz Palu” (Die weiße Hölle vom Piz Palü”, 1929), que dirigiu com G. W. Pabst, seus melhores filmes. E embora o autor do livro em questão garanta ter obtido dela a palavra final sobre sua colaboração com os nazistas, a diretora voltaria ao assunto outras vezes, especialmente em entrevistas para a televisão, jamais renegando a própria obra cinematográfica, mas dizendo ter ignorado as atrocidades contra os judeus. Ela alegava filmar para os nazistas como um meio de posteriormente fazer os próprios filmes. E lembrava que se negou a filmar os combates, ao contrário de outros diretores, por horror à violência nos campos de batalha.

Seus dois filmes prediletos como cineasta foram “A Luz Azul” (acima, 1932) e “O inferno branco de Piz Palu”, que codirigiu com G. W. Pabst (1929)


Leni, que dizia nunca ter sido filiada ao partido nazista e que na juventude desejava ter seguido a carreira de dançarina, começou como atriz no cinema depois de sofrer uma contusão. Os filmes que protagonizou e que encantaram Hitler utilizaram-se da dança e de suas qualidades como esportista, especialmente no alpinismo. Era impetuosa, na vida e na arte.

A musa etérea e a esportista nas
montanhas geladas, entidades
vividas como atriz

Para realizar suas películas como diretora, exigia máquinas e lentes especialmente concebidas para ela, além de uma grande equipe de técnicos excepcionais.


Ela sabia que Hitler a admirava como mulher, mas com o ministro da Propaganda, Josef Goebbels, que ela intitulava “clown intelectual”, suas relações pessoais eram difíceis. Leni o acusava de assediar as mulheres, especialmente as do cinema, apesar de casado com Magda. E dizia jamais ter tido qualquer relação íntima com ele, assim como com Hitler. E talvez por isso Goebbels não a tenha deixado em paz…


Entre as coisas que Leni Riefenstahl afirmou durante a entrevista, algumas o jornalista considerou especialmente “delirantes”:

1.”Hitler tinha muito respeito pelas mulheres. Ele as achava mais criativas que os homens em um nível artístico. Admirava Zarah Leander [atriz e cantora sueca que fez sucesso na Alemanha entre 1936 e 1943], a quem chamava Divina Zarah, o que deixava Josef Goebbels com um pouco de ciúme… Tinha um carinho especial por Magda, a esposa de Goebbels, que considerava a “mais perfeita mulher alemã”; por Eva Braun, com certeza; pela aviadora alemã Hanna Reitsch; pela princesa austríaca Stephanie
Marie von Hohenlohe (ela era judia), a quem deu presentes e um castelo;
e por mim, até certo ponto.”

2. “Josef Goebbels não era um ‘ariano puro’; ele era meio judeu.”

3. “O próprio Hitler tinha algo de judeu em seu sangue. E criou uma nova árvore genealógica apenas para esconder aquele segredo que o perseguira por toda a sua vida. Seu sobrinho, William Patrick Hitler, sabia disso e o chantageava constantemente.”

4.”Hitler e Eva não morreram no bunker em Berlim; eles escaparam com Martin Bormann, dois dias antes de os russos entrarem no bunker. Eu sei disso com certeza. Não sei todos os detalhes, ninguém sabe.”

Leni Riefenstahl explicita a admiração de Hitler por Hollywood, especialmente por filmes com Mickey Mouse, feitos pela Disney. Goebbels, que tratava de incrementar a formação cultural de Hitler, deu-lhe até mesmo animações com o personagem em um Natal… E, entre outras coisas, Leni diz aqui estar certa de que Hitler, a quem de início admirava, pelo que “muito havia feito pela Alemanha”, tinha um ou mais sósias, e que não morreu no bunker, como a História registra.


A seguir, trechos da entrevista.


Maximillien Lafayette: Hitler usava o serviço de sósias?

Leni Riefenstahl: Claro que sim.


ML: Como você soube disso?


LR: Como eu soube disso? Claro que eu soube. Goebbels… Nossa, Goebbels de novo! Sendo uma cineasta conhecida na Alemanha e a diretora favorita de Hitler, e porque trabalhei com Goebbels em dois ou três documentários e alguns filmes, além de conhecer muito sobre maquiagem, o ministro da Propaganda me perguntou sobre as melhores formas ou “técnicas” para disfarçar uma pessoa ou fazê-la parecer outra. E começou a me fazer mais perguntas. Se eu gostava de filmes de Hollywood, se eu gostava de Clark Gable, por exemplo, de outras atrizes… Perguntas como estas.

Hitler era fã de cinema e amava Hollywood. Goebbels criou uma grande cinemateca para ele, porque sabia exatamente de que tipo de filmes gostava e não gostava. Hitler adorava desenhos animados, amava Mickey Mouse. Goebbels deu-lhe uma dúzia de filmes do Mickey como presente de Natal. E criou um departamento especial sobre filmes americanos considerados pró-judeus ou antijudaicos. Pediu-me para ajudá-lo a selecionar alguns desses filmes e eu recusei. Disse a ele que era cineasta, não historiadora do cinema. Então ele me perguntou se eu iria para os Estados Unidos e me encontraria com diretores de cinema em Hollywood para descobrir que tipo de filme eles estavam fazendo sobre Hitler e a Alemanha. E eu disse não. Finalmente, Georg Gyssling (cônsul da Alemanha em Los Angeles) foi escolhido para fazer isso. Gyssling escolheria filmes de Hollywood e os enviaria a Goebbels.

Com o cônsul Georg Gyssling,
que selecionou filmes de

Hollywood para Goebbels assistir

Você sabe, Goebbels era o responsável pelo cinema alemão durante o Terceiro Reich e ele conhecia muitas atrizes. Não se interessava por atores homens… e uma pergunta levará a outra.


Ele também me questionou sobre o que havia de especial no rosto de Hitler. Eu gostava de seus bigodes? De suas expressões faciais? Adolf Hitler exagerava dramaticamente ao fazer seus discursos? Finalmente me perguntou se com minhas técnicas cinematográficas eu poderia duplicar seu rosto. Se usasse maquiagem de cinema ou de teatro em alguém eu poderia fazê-lo se parecer com Hitler? Fiquei muito surpresa ao ouvir esse tipo de pergunta. Como assim, se eu poderia fazer uma pessoa se parecer com Adolf Hitler? Candidamente, perguntei-lhe se planejava produzir um documentário especial sobre Adolf Hitler ou uma peça de teatro em que uma pessoa devesse se parecer com Adolf Hitler. E ele disse que sim. E eu acreditei nele.


Então Goebbles me perguntou se entre os extras que usei em meus filmes haveria uma pessoa que pudesse atuar muito bem como Hitler e se parecer com ele… até certo ponto. Eu disse que não. Então me perguntou se eu conhecia alguma atriz que se parecesse com Eva Braun. E eu disse que não. Mas sem pensar ou ter qualquer suspeita sobre o que ele me dizia, pensei que o rosto de Eva Braun não seria difícil de duplicar. “Com um maquiador de cinema ou teatro profissional poderia fazer uma atriz se parecer com Eva Braun.” Ele sorriu e disse: “Excelente”. Perguntei quem estava escrevendo o roteiro do filme ou da peça, e Goebbles respondeu: “Eu! Eu quero surpreender o Führer. Vai ser uma boa surpresa. Não diga a ninguém. Isso é um segredo. Você promete?” E eu respondi: “É claro.” Antes de sair, perguntei se poderia ler o roteiro, caso ele estivesse considerando que eu fosse a diretora do filme. E ele respondeu: “Você terá notícias. Mas, lembre-se, é um segredo. Não estrague a surpresa.”

Ele nunca mais me ligou. E eu me esqueci totalmente de tudo isso, até que fui presa e interrogada pelos americanos por horas horríveis e intermináveis sobre se Hitler usava um sósia ou não. E de repente algo passou pela minha cabeça. Algo me atingiu. E eu sabia o que era. Em segundos, lembrei-me de todas aquelas perguntas de Goebbels. O interrogador militar me perguntou: “Adolf Hitler usou um sósia?” Eles repetiram a mesma pergunta duas ou três vezes. Mas eu estava em outro lugar. Foi um pesadelo. Perguntas após perguntas após perguntas, sem parar! Acho que desmaiei.


ML: E agora, depois de todos esses anos, e o que você ouviu e leu sobre o duplo ou os duplos de Hitler, você mudou de ideia?


LR: Sim. Agora tenho certeza. Adolf Hitler usou um sósia.


ML: Leni, por favor, olhe essas duas fotos. Diga-me, esse homem é
Adolf Hitler ou seu sósia?


LR: Este NÃO é Adolf Hitler!! (Leni depois de olhar as fotografias por menos de cinco segundos).


Um sósia de Hitler, segundo
Leni, morto em 1945

ML: Um dublê então?


LR: Sim! Definitivamente um dublê. Oh meu deus, ele se parece exatamente com ele. Mas posso dizer. Não é Adolf Hitler.

ML: Como você sabe?


LR: Primeiro, as orelhas. Essas não são as orelhas de Adolf Hitler. Em segundo lugar, o sorriso, este não é o sorriso de Hitler. O lábio superior… Não, não. Este não é Adolf Hitler. Uma réplica muito boa, um dublê muito convincente! Tirei mais de 3 mil fotos de Adolf Hitler de todos os ângulos. Conheço muito bem a cara dele. Espere um minuto, eu vi essa foto em um noticiário, me lembro agora… É realmente incrível.


ML: E esta fotografia, Leni? Esse homem é Adolf Hitler?


LR: Não! Um duplo! Eu conheço cada centímetro dessa face. Eu o treinei para meu filme “O Triunfo da Vontade”. Eu o dirigi, criei e filmei cenas especiais para se encaixar nas expressões dramáticas de seu rosto. E posso lhe dizer que o homem nesta fotografia não é Adolf Hitler. Este homem é um dublê de Hitler.


ML: Você está me dizendo que na época em que trabalhou ao lado dele nunca soube que tinha um sósia ou suspeitou de alguma coisa sobre isso?

LR: Eu não sabia. Mas suspeitei de algo. Não acho que alguém soubesse naquela época, exceto, é claro, Goebbels, Muller (General Muller), Bormann e o artista da maquiagem.
Este homem (apontando para a foto) ainda está vivo?


ML: Ele foi baleado na cabeça. Assassinado.


LR: Quem atirou na cabeça dele?


ML: Não sabemos. Sem testemunhas. Mas muitos estão apontando o dedo para Martin Bormann.

LR: Eu conheço cada centímetro do rosto de Hitler. E posso dizer que o homem nesta fotografia não é ele. Este homem é um sósia. Você está escrevendo um livro sobre o Terceiro Reich?


ML: Não, não estou trabalhando em um livro. Mas talvez eu possa fazê-lo um dia desses, daqui a alguns anos.


LR: Tenha cuidado. Nunca se atreva a dizer nada de positivo sobre Adolf Hitler. Sem mais comentários.


ML: Por que deveria dizer algo bom sobre Adolf Hitler? Alguns dos meus parentes foram mortos pela SS!!


LR: E se você decidir escrever um livro e publicá-lo em breve, quero ler tudo o que você escreveu sobre mim antes de imprimir o livro. Entendeu? Quero ler e aprovar cada palavra que você escreveu, por favor. Diga a verdade. Não exagere. Não dramatize as coisas. E não me cite mal e não diga mentiras. Não sou Max Schmelling [boxeador alemão que ganhou o campeonato mundial de pesos-pesados em 1930 e 1932], mas vou dar um soco na sua cara o mais forte que puder (sorrindo).


ML: Hitler cometeu muitos erros. Na sua opinião, quais foram os maiores?


LR: Hitler cometeu quatro erros grandes, muito grandes.
O primeiro e maior, como todos sabem, foi o Holocausto Judeu. Poucos tinham conhecimento sobre o assassinato em massa de judeus. Certamente eu não sabia nada sobre essas atrocidades. Hitler nunca me falou sobre os judeus. O segundo grande erro foi sua teimosia. Ele nunca deu ouvidos a seus generais, era um líder civil imponente, mas um péssimo estrategista militar. O terceiro grande erro, claro, foi quando ele declarou guerra à América. E o quarto grande, quando atacou a Rússia.