Não brinque com futebol!

Rafael Leão, o gato

Quando um filme é ruim demais, minha cabeça viaja pelos penteados dos atores, geralmente piores ainda. E dou um jeito de me divertir pelo menos com eles.

Uma vez, num filme ruim com o Richard Gere, ri tanto dessa situação peculiar que transpareci meu humor na crítica para a IstoÉ, onde eu trabalhava. E comecei a usar isso como mensagem subliminar, quem sabe um leitor a captasse (nenhum captou): “Quando ela critica penteado, é porque nada no filme prestou.”

Bem, agora estou aqui a ver Portugal e Gana, e é assim: não é que Portugal jogue mal, mas também não é que jogue bem. Marcou um gol de pênalti, mas sei lá se foi pênalti de fato. E virou o jogo porque joga mais, em duas saídas de bola, oportunistas, etc. Gana, que empatou depois do erro do zagueiro português e seguiu com outro gol bonito, não fez quase nada no jogo exceto se defender. Que mania a desses técnicos de recuar a vida, deus meu!

Não é um jogo que me obrigue, portanto, a chegar à raiz dos cabelos, visto que coisas ali trazem a marca do futebol, como a emoção, e me divirto no fim.

Mas eu olho. Não só cabelos. Coxas. Gente alta! Me irrita o Salonpas do João Félix que fica caindo do pescoço. Quem é o mais bonito em campo? Eu fico com o Rafael Leão, o autor do terceiro gol português. Na torcida de Gana as mulheres são maravilhosas e pulam o tempo inteiro, que animação, pena que seja gente rica humilhando os pobres na terra natal!

Mas pensam que é fácil ficar comentando assim na minha casa? Não. Futebol é religião. Não se aconselha ninguém aqui a rir do cabelo de José durante o parto de Jesus.

Pena, me restou amolar vocês!

No palco napolitano, a revolução dos irmãos De Filippo

“Os irmãos De Filippo” permanece em cartaz até dia 4, grátis e on-line, no streaming do Festival de Cinema Italiano.

O filme de Sergio Rubini reconstitui época para que conheçamos a família responsável por encenar uma nova comicidade no teatro napolitano. Seu humorismo à moda de Pirandello antecipou ideias neorrealistas, incorporando o sentimento das ruas.

No filme, a participação, para variar brilhante, do bom e velho Giancarlo Giannini, no papel do cômico Edoardo Scarpetta.

http://festivalcinemaitaliano.com/title-item/i-fratelli-de-filippo-os-irmaos-de-filippo/

a música brasileira não morreu

Rodrigo Campos e Maurício Tagliari interpretam “Silêncio em Prata”, coa-autoria deles e minha, em maio de 2019

sim, eu sinto muito falta dos músicos que perdemos.
choro e me angustio por isso.
mas a música brasileira não morreu com eles.
eu aliás raras vezes a vi tão bonita como vejo agora.
as cenas são as do samba, da canção, da improvisação do jazz, até do free jazz, do erudito, do romântico, do funk, do brega, do brega às vezes tecno do Pará, da música para o carnaval, das bandas instrumentais, dos compositores incríveis nos becos (e há tantos onde moro, em São Paulo).
vamos com carinho por eles, lutadores, e com calma e agradecimento para os que perdemos.
sertanojo e música que toca na globo geralmente não são nada, são só dinheiro, a deformação que o dinheiro traz.
ouvidos atentos, isso é tão importante…
não temos tempo de temer a morte, nem vamos fabricá-la!

Kaboom 23 interpreta “Beira-mar” com Danilo Penteado e Guilherme Kafé em dezembro de 2021

por que koo

eu sei que isso não interessa a vocês, pessoas sérias, mas me sinto acolhida no koo por motivo de: os memeiros me seguem e eu os sigo.

sinto que estou ganhando uma família melancólica e desesperançada, por isso mesmo divertida, para quem o humor, bom ou terrível, se não cura, alivia.

e de rede social nada se leva, não é assim?

2 de janeiro de 2021

Minha cabeça que roda e roda enquanto deveria ficar quieta é incapaz de inventar coisas simples e criativas como esta que li há pouco num texto de facebook, isto é, plantar sementes descascadas de limão em canecas para perfumar a casa e a encher de vida.

Sou muito ruim de tarefas domésticas e arrumação, e minhas habilidades manuais talvez se resumam a pendurar a roupa no varal de modo a que não seja preciso passá-la. Vou mal e minimalista na cozinha, sou impossível de crochê e não me arrisco a desenhar, mesmo tendo sido filha de um desenhista exímio, mulher de um e mãe de dois bons, um deles extraordinário.

Minha casa, para quem a conhece, é um retrato de histórias. “Sem decoração”, como fez questão de lembrar uma parente, com a ponta de sinceridade (não devo dizer maldade) habitual.

Livros por todos os cantos, livros que ganhei quando os editava para as publicações gerais, a cada dia menos interessadas neles. Livros que são antigos e que leio com vergonha aos pedaços, quando os leio. Livros em torno da tese que escrevi e só eu li. Tese de muitas pontas, que decidi qualificar de poligonal, e que não me possibilitou entrada no mundo acadêmico, como me lembrou um ex-amigo para justificar que ele não me defendesse quando fui publicamente ignorada por um crítico desinteressado dos livros, com lapsos de memória, mas gente de culto.

Infelizmente demoro demais a ler coisas novas, e até o pdf do livro-sensação ganhei, mas não me capturou logo nas primeiras páginas (alguma mágica que deixei de sentir), então logo me despedi dele, para começar a Felicidade Conjugal de Tolstói, homem cuja vida ou personalidade jamais admirei, mas que escreve como quem conversa as coisas desde seu princípio até sua impossibilidade.

Não sou uma scholar e não leio tudo, mas deixo de fazê-lo com culpa. Com culpa e responsabilidade. Tenho filhos jovens que leem e não raro se sentem solitários porque os amigos não compartilham suas leituras. Espero que, se houver netos para mim, sejam estranhos leitores no seu tempo, divertidos com os livros da grande biblioteca que possivelmente iremos lhes legar.

Tive filhos, tive misérias, mas nunca causadas por eles, com quem aprendi todo dia um novo modo de entender as coisas, estas que no fim das contas são muito parecidas, mas nunca iguais, nascidas da crise que é constante, como observou Edgar Morin, e que combatemos em oásis de felicidade, termo dele também.

Tenho igualmente muito amigos que não leram nada e que mal entendem do que eu estou falando. Mas, quando nos encontramos, rimos. Como perdemos essa possibilidade com a pandemia, de nos enroscarmos com vinho, nos lamentamos via memes, estes que considero uma grande invenção, mas que não têm o mesmo efeito de um comentário-soco em mesa de bar quando nele entra alguém.

Quem lê assim até pensa que sou do bar, mas sempre bebi mais em casa que fora dela. Meu marido é um pro, que identifica o bom da bebida entre o ruim. Eu também identifico, mas me envergonho por não saber as razões de superioridade ou inferioridade de qualquer coisa líquida, estas que ele descreve à perfeição.

Ele é bem perfeito em tudo, aliás, tem uma memória extraordinária e lê todas as coisas interessantes, muito mais do que eu. E não as dispersa pelo Facebook, como eu, carente da conversa alheia num círculo de amizades que a idade começa a fechar mais e mais. Ele guarda tudo para despejá-lo quase sempre na forma visual, condensada e difícil, da canção.

Por que estou dizendo tudo isto, não sei. Talvez por estar sorvendo estes dias livres, depois de pela primeira vez na vida ter trabalhado no dia 31 de dezembro (verdade, sempre forcei a sorte nos plantões de redação). Sou dispersa e desatenta de um modo geral, distraída pra morte, como dizia o Otto (aliás uma das coisas mais bem ditas da música popular), razão pela qual fotografo a rua com prazer.

Escrevo tudo isto com um dedo só no celular, e na cama, da qual demoro a sair de manhã, lendo ali mesmo, via internet, as notícias da barbaridade cotidiana. Fui jornalista que nunca admirou excessivamente os jornais, e não me lamento por ter perdido a gana, não só a grana, de comprá-los.

Nos últimos dias, os algoritmos têm me trazido as excepcionalidades, a natureza, um pouco menos de desesperança, razão pela qual agradeço.

Sim, é verdade que não vejo dilema em redes sociais, só escolhas, e até boas, muitas delas.

Tudo isto para dizer que tenho o coração tranquilo?

Nunca está.

Mas talvez por esta razão exista um infinito dentro dele, onde cabe você.

Do que ri você?

Filmes no Festival de Cinema Italiano navegam em torno do humorismo de reflexão

Não sei se sabem que fica em cartaz até 4 de dezembro o Festival de Cinema Italiano. Gratuito, no streaming. Muita coisa realmente boa está ali para ser vista desde o sofá. Como se trata de festival italiano, não perca a retrospectiva. Não há só Visconti, o soberbo, com “O inocente”. O riso clássico tem seu espaço aqui.

Encanto, assombro, grotesco, reflexão, eis alguns ingredientes da comédia à italiana. Um cinema sobre perdedores, enganados, pequenos, esquecidos. Cinema direto, emocional, feito de autoderrisão. Meu cinema…

Bem poucos, mas importantes filmes dessa linhagem cômica estão no festival. Dois deles, de Dino Risi, são conhecidos e bem-sucedidos em épocas diferentes: “Pão, amor e…”, com Sofia Loren e Vittorio de Sica, e “Venha dormir lá em casa esta noite”, com Ugo Tognazzi e Ornella Muti (e uma curiosa tradução para o título que em italiano significa “A alcova do bispo”.) Ironista implacável e pleno de musicalidade, Risi se formou médico, mas trocou a carreira pelo cinema por se ver incapaz de curar…

O terceiro dos filmes é o raramente visto “O mal obscuro”, de 1990, com roteiro dos espetaculares Suso Cecchi D’Amico e Tonino Guerra para o livro homônimo de Giuseppe Berto (editora 34). Dirigido por Mario Monicelli, o filme encontra o humorismo na situação extrema vivida por um escritor que sintomatiza seu terror psicológico. O protagonista é vivido pelo Giancarlo Giannini estupendo de sempre. Eis um ator para qualquer papel ou dialeto, com sua extensão física e intensidade expressiva. Que face perfeita para vestir a solidão!

Com filmes assim você conhece um outro tipo de humorismo. Não se trata de piada ou insulto. São roteiros trabalhados sobre gags, situações físicas e emocionais no limite da realidade, muitas vezes nem mesmo engraçados, frequentemente trágicos, dramáticos, temperados pelas trevas, tão habituais nos seres humanos.

Ontem assisti a “Comedians” (veja a sequência de frames), um filme feito pelo napolitano Gabriele Salvatores, em 2021, a partir de uma peça inglesa de Trevor Griffiths. Salvatores ajuda a explicar esse humor a que me refiro, descendente da tese de Luigi Pirandello segundo a qual o verdadeiro riso nasce da reflexão. O filme é um exercício teatral que mostra comediantes horas antes de uma seleção a ser aplicada pelo personagem de Christian de Sica, filho do diretor Vittorio e estrela da televisão italiana. “Comedians” faz perguntas. Que humor importa? O que busca espelhar a expectativa do espectador ou aquele que pretende despertar o potencial de transformação adormecido nele?

VENHA DORMIR LÁ EM CASA ESTA NOITE (La Stanza del Vescovo)

PÃO, AMOR E… (Pane, Amore e…)

MAL OBSCURO (Il Male Oscuro)

Soube da morte de Gal pela manhã, fiquei muda, tinha de trabalhar, trabalhei, nem comi, vim pro no consultório médico e só agora, justamente agora, no corredor de espera da clínica, meio da tarde, janela estreita aberta ao sol brilhante, bonito, que parece gritar sua voz, as lágrimas decidem aparecer.

MANÉ É MANÉ

Ainda bem que alguns amigos do meu face, como a Anita Galvão, me ajudam nessas horas. Hoje de manhã, rachei o bico ao saber de uma nova fake news da bravata dos doido, que ela nos contou por lá, gargalhando. E depois do café com facebook, fui à feira.

Perguntei ao vendedor se ele pagava menos taxa quando eu levava os limões no débito, em lugar do crédito.

O sujeito, que antes conclamava com mau humor as freguesas a gastarem com ele seu suado dinheiro, fechou a cara ainda mais.

– É tudo a mesma porcaria. E agora, ainda mais, vão começar a cobrar pelo Pix em 1 de janeiro.

– Fake news, meu amor!

– Ah, é? E o que faziam os banqueiros ao lado do cara?

Pensei. Não vou ficar braba. Nem vou jogar os limões aqui. Vou pagar pra me divertir.

– Verdade, né? E o Paulo Freire, que vai virar ministro da Educação?

– Então? – respondeu, sem que eu conseguisse identificar a cor da cara azeda numa escala pantone. E emendei:

– Vai virar nem sei como, porque o Freire morreu tem uns 30 anos, amigo!

– Quero é ver!

– Aí que está, não vai ver!

E continuou me respondendo, meio sem braços, feito o cavaleiro negro do Monty Python. Jamais volto nessa barraca, porque o problema com essa limonada de cérebros é a gente não se divertir direito com ela, já que, como sabemos, não dispõe de cognição pra entender piada.

E seguimos com Bezerra da Silva, malandro é malandro, mané é mané!

Deixem meu sorriso

Ah pronto.

Você não pode rir do que acontece de ruim.

E seria bom não chorar.

Seria melhor não acreditar, nem rezar, nem pular.

Estar contrito, vigilante, inabalável.

A seriedade confiável, a alegria sem juízo.

Seria bom não brilhar a carne, deixá-la intocável, segura de seu caroço, sua semente.

E assim não viver, nem sentir, apenas vigiar e punir.

Eu aconselharia aos moralistas progressistas da rede social também o riso, pois ele carrega consigo o deslocamento, a contradição, o paradoxo, a capacidade de raciocínio num segundo, a agilidade do sonho e do poema.

Aconselharia.

Porque não vou obrigar ninguém, obviamente, a nada.

E vou continuar no meu caminho.