no mural da faculdade de história

No mural da faculdade de História, vejo isto aqui.

Um pôster sobre um encontro em torno dos 200 anos de Marx.

E um impresso com a foto de Bozó ao lado do boçal futebolista Felipe Melo, sob o título “Educação do governo Bolsonaro”.

Quem pregou o impresso escreveu uma legenda irônica, contestatória aos dez campeonatos reconhecidos ao clube, sugerindo discordância com a decisão da CBF: 5 + 1 = 10.

Mas alguém deixou sua intervenção sobre o número 5, que virou 9. E 9 a 1 somam 10, sob Bolso, sob Boçal e sob a palavra Educação.

Um mural que me espanta, ademais na USP, ademais na História.

Palmeiras no Bolso

A maioria de meus amigos palmeirenses se sente chocada com o show pró-Bolsonaro promovido por seu clube.

Mas infelizmente, creio eu, não é esse o sentimento da maioria de sua torcida.

Tristemente, esta vitória de um time que permitiu arroubos fascistas entre jogadores e torcedores integrará a simbologia deste momento político brasileiro.

Futebol e política andam juntos.

E é da guerra que o futebol tira as estratégias para jogar em campo.

Depois da decretação da embaixada em Jerusalém, então, espero por muitas invenções.

Algo como a morte

Certa vez um editor me pediu para fazer matéria sobre determinado volume de ensaios do Otto Maria Carpeaux.

Fiquei muito feliz com a incumbência.

Até demais.

Pensei: como um assunto bom desses caiu comigo e não com os lobos de sempre?

Não demorei a perceber que se tratava de uma armadilha.

Ao abrir o livro, vi que fora organizado por Olavo de Carvalho.

Isto faz tempo, vinte anos, mas Olavo já era então uma porcaria. Astrólogo que maltratava mulheres e se dizia filósofo. Uma porcaria não por ser reaça, mas por ser Olavo mesmo.

Meu editor havia batido boca com ele pelo jornal em torno de uma pseudoquestão erudita. Meu editor também era reaça, jovem discípulo do Francis, condição que os jornalistas “de cultura” da época almejavam.

(Uma professora da ECA deu de comparar meu estilo ao do Francis, sei lá por quê, e eu, mesmo aluna dela, rejeitei ofendida a comparação. Queria pra mim um vigésimo da iluminação de Lúcia Miguel Pereira! Deixa o Francis pros meninos!)

O editor havia então me dado o livro como tarefa porque não queria se ver com o astrólogo novamente.

O discípulo do Francis, que se achava melhor que o Francis, me disse o seguinte: que eu poderia fazer a matéria sobre o Carpeaux desde que não entrevistasse o organizador do livro.

Estranho, né?

Mas, do meu ponto de vista pessoal, magnífico.

Meu editor quis me colocar no fogo e eu fingi que não percebi. Na época tinha dois bebês em casa, trabalhava e saía correndo pra amamentar e medicar. Escrevia nos intervalos da vida. Não ia perder tempo com essa preocupação.

O que eu não sabia era que observar qualquer coisa sobre Olavo vinha já acompanhado de muitas ofensas virtuais.

Desconhecia sinceramente o eco de suas aberrações pronunciadas e fiz a reportagem.

Escolhi um sobrevivente da época do Carpeaux para que descrevesse o crítico pra mim. Era o poeta Sebastião Uchoa Leite, o melhor tradutor da Alice do Lewis Carroll. Ele havia trabalhado como estagiário numa enciclopédia dirigida pelo crítico, e crescido a seu lado a partir de então. (Não me recordo bem que caminhos me levaram a esta informação que funcionou como descoberta na época.)

Um gênio poético, um ensaísta, um homem das palavras, gente muito boa. Uchoa Leite tornou-se minha fonte amiga.

Mal saiu a matéria, o Olavo começou uma campanha contra mim nos seus espaços e naqueles de seus discípulos. Não reconhecia Uchoa Leite como discípulo. Disse que eu tinha inventado a história! Por ter deixado de ouvi-lo, gracejou, eu deveria ingressar na dupla sertaneja pavam-pavamzinho. Por meu lado, eu certamente esperava um insulto melhor…

(Não foi o único a correr atrás de mim na vida jornalística, claro. Me vi perseguida por umas figuras a quem, como a ele, inicialmente não dava a menor importância, e pensando bem, ainda não dou. Entre outros, por Paulo Coelho, que jurou lançar seus poderes de guerreiro para obstruir minha “luz”; por Pablo Capilé, que não se dirigiu a mim pessoalmente, preferindo em lugar disso ordenar o ataque de suas galés.)

Ser achincalhada por Olavo, aprendi, equivalia a um certo elogio. Não que tivesse me achincalhado, na verdade. Não falei nenhuma bobagem no texto, por sorte, e ele não tinha por onde andar. Mas como ousei não entrevistá-lo para realizar a matéria?

Na redação, todos comentavam os ataques de Olavo a minha pessoa com inveja clara.

E eu tinha de contornar os lobos jornalistas feridos por minha fama!

Muito divertido e tal.

Mas ninguém consegue imaginar isto hoje, estou certa.

Olavo, ele próprio, interessado em organizar os ensaios de um Carpeaux!

A vertigem da queda transformou-o em algo diferente, não?

Algo como a morte.

Post it anyway

Madrugada adentro.

E eu muito ligada na leitura que Hedy Lamarr fez daquele poema.

Você tentou o melhor pra ele, mas ele quer o pior pra si mesmo:

“Queira o bem dele, anyway.”

Você tem o melhor currículo possível”:

“Continue a melhorá-lo, anyway.”

Você postou a melhor foto que conseguiu fazer, mas acharam seu esforço superado:

“Post it anyway.”

quase kafka

acordei de um pesadelo.

minha antiga insana patroa morava comigo.

e eu não conseguia tirá-la de casa.

(lá onde eu vivia com uma porção de gente.)

somente eu sabia quem era aquela mulher de fato.

minha família a tratava bem porque não atestara seus malfeitos.

meus mínimos gestos, vestuário, cabelo, bijus, tudo se tornava objeto de seu sarcasmo quando estávamos sós.

“mas ela só está brincando. ela é de esquerda, ela é do bem”, argumentavam os próximos, se eu reclamasse.

a certa altura eu abria a porta da casa.

ventava.

e na calçada a mulher ria feito gralha diante do witzel, a quem, submissa, solicitava o revólver.

eu sabia que vivia uma ditadura.

mas minha família não tinha como saber.

Sombras nos homens

República Dominicana. 1991

Não sei o que mais amo em Harry Gruyaert.

Eu não diria a distância ensolarada entre o homem e a paisagem…

Porque há trabalhos dele em que os personagens estão próximos, mas escondidos sob o sol.

Sempre o sol quando se deita!

Gruyaert é um pensamento extensivo.

O que mais procuro nele são os homens nas sombras.

Sua desistência.

Tóquio, Japão, 1996.

Uma psicologia

Certa feita entrevistei Marisa Orth.

No final dos anos 1990, a atriz começava a ser interessante aos globais.

Ficamos a conversar quase três horas no camarim.

A Marília Pêra enciumada.

Sua pupila em cena despertava atenção além do palco!

Mas, enfim, acho que pratiquei com a Marisa algo aproximado ao que ela estudara na PUC.

Uma psicologia.

Bem, eu não sei entrevistar ninguém.

Converso. Ouço. Analiso. Me atrevo.

E no geral dá certo.

(Não deu com o Vargas Llosa, grande escritor, grande pulha, mas tudo bem.)

Creio que a Marisa falou demais e que eu publiquei de menos.

E que esse equilíbrio é duro pra quem escreve.

Pouco espaço pra expressar tantas ideias conversadas…

Mas não só!

Há que considerar: são blefes ou ideias originais o que proferem diante de nós?

E por que destacaríamos o blefe, não as verdadeiras ideias, comumente más candidatas ao interesse público?

(Jornalismo dos anos 1990, friends. Não riam. Havia lugar pra exercer essas ponderações. Pasmem, com um editor que em tempos atuais virou uma das máximas expressões da direita política…)

Enfim, o que eu queria contar é que gostei muito da Marisa.

Pessoa da minha idade, divertida, reflexiva, essencialmente maluca como eu.

Porém me decepcionei…

Achei que o ego dela não iria tão longe, vê se pode!

(Sei lá, o meu nunca foi).

Perguntei-lhe a certa altura, segura de que três horas depois já a conhecia:

– Querida, como você aguenta trabalhar com o Miguel Falabella?

E ela não pensou muito.

– Entendo o que você quer dizer.

Eba!

– Mas sabe o quê? Viajo com ele pelo Brasil e sei como ele é famoso! Muito! Você nem imagina! Todo mundo conhece o cara!

Ai, meu deus.

dorme, boi!

sem sono,

deparo com Anitta numa série netflix.

olha sóóó!

quem sabe agora eu compreenda a mulher por trás do mito?

nesse reality show pra gringo boi dormir?

será que enxergo humanidade na artista?

será que entendo o que ela passou?

choro e sorrio com ela?

vou tentar!

eu adoro descobrir!

mas…

tá…

periferia…

veio do nada…

fez inglês…

deu um carro pro pai, dois relógios…

sério?

puxa.

adora milho cozido

(eu também!)

canta em três línguas!

e?

celular live celular!

que cacete!

que chatice!

que coisa seu namoro marcado por… vômito?!

que coisa esses produtores com caras oportunistas!

que mundo!

já entendi!

anitta faz acontecer!

ela no fim foi quem dirigiu “vai malandra”!

ela é quem pensa!

gênio!

pessoa autêntica!

oito plásticas!

nossa!

tudo o que ela imagina é revolução!

mas tem depressão!

tem festa!

pegadinha!

que profissional!

canta!

que chatice!

que cacete.

me lembra o Sebastião salgado no filme do wim wenders insinuando que veio do nada, fotografou como deus e virou deus, agora recriando a floresta…

acho que nem Wim Wenders faria Anitta pior!

tenho de dormir!