Mandioca, doce vingança

Eu queria ser melhor do que sou. Melhor no sentido de ser pior.

Hoje fomos à feira. Eu parava nas bancas, escolhia e pagava. O que íamos comprar, eu e o Maurício havíamos discutido antes, em casa. Tudo certo. Maior alegria e harmonia acompanham nossa ida à feira dominical, muito boa, aliás, na região do centro onde moramos.

Chegamos à banca de mandioca e o olho cresceu. Não havíamos planejado comprar. O Mau me perguntou se eu achava que combinava com a tainha que ainda iríamos pegar. Pergunta desnecessária, ele sabe. Amo mandioca e pra mim ela combina com tudo.

Decidimos então pegar um saco plástico com pedaços dela já descascada, em água, quando o vendedor da banca, um gordinho de cabelo rente, se aproximou pra sugerir:

– Leva dois pacotes por 12 (!). Se vc não usar o segundo saquinho agora, é só tirar ela de lá e colocar no congelador. Vale a pena. Esta mandioca é uma manteiga.

Pensei: tá cara mas tudo tá caro. E alimenta. E vai durar. E é uma manteiga! Compro.

Ele fez menção de estender a máquina do cartão pro Maurício, o “doutor”, pagar. E eu brinquei, já que meu marido gentilmente segurava as sacolas, e eu, não ele, seria a pessoa em condições de manejar o cartão:

– Eu que vou pagar. Eu que sou a doutora aqui rs.

O vendedor fechou a cara rotunda e com seu jeitão miliciano mandou ver:

– Eu sou doutor, ele é doutor, todos somos doutores perante deus, o salvador, ele que está acima de todos nós, ele que nos guarda, o todo-poderoso, valei-me senhor, bom domingo.

Já tinha pagado a bonitinha, então levei. Não era manteiga, não. Mas serviu.

Jamais compro com ele de novo, porém queria ser má o suficiente, a pior do mundo, pra tretar com esse machista evangélico da próxima vez.

– Tem mandioca manteiga de verdade agora, meu velho? – eu diria. – Ou vai me devolver o que paguei a mais por aquela da semana passada, que levou horas pra cozinhar no fogão?

Quem dera esses inomináveis se fodessem muito em outubro. Mas não morro de esperança. São atrevidos, babacas e violentos até o fundo do seu ser, que é um não-ser, com toda a sua comunidade igrejeira de não-existências. Vou ter de ser muito pior do que sou pra lidar com eles.

Mas como?

Hei de descobrir.

John Waters: “Fazer o outro rir é fazê-lo ouvir”

POR TYLER MALONE, do LA Times

O diretor de cinema John Waters, 76, lança nos EUA “Liarmouth – A Feel-Bad Romance”. Embora seja seu primeiro romance, Waters escreveu quase tantos livros quanto filmes – incluindo os best-sellers nos Estados Unidos “Role Models”, “Carsick” e “Mr. Know-it-All”. Ele diz que sempre se considerou um escritor em primeiro lugar – e um ávido leitor também. Colecionador de livros desde os 14 anos, tem mais de 11 mil espalhados por suas casas em Baltimore, Nova York e São Francisco.

O romance de Waters está cheio de personagens selvagens e reviravoltas chocantes – lifting facial de animais de estimação, cultos de trampolins, um falo falante – mas a primeira ideia que lhe ocorreu foi uma mulher que roubava bagagem em aeroportos. “Alto conceito”, ele diz. “Estou acostumado com a indústria cinematográfica, então sempre preciso de um título e uma descrição em uma frase.”

As façanhas de Marsha Sprinkle – ladra de malas, vigarista, mentirosa inveterada – poderia ter sido um filme. Ela e os outros dramatis personae de “Liarmouth” parecem ter acabado de sair de um roteiro de Waters; a narrativa entrelaça as perspectivas em diferentes locais de uma maneira que se assemelha a um corte transversal cinematográfico.

Em entrevista ao “LA Times”, o cineasta explica o significado da dita “moralidade perversa” presente em toda a sua obra, nesta também:

“Existem regras no meu mundo. As pessoas certas vencem: aquelas que acreditam em si mesmas, que exageram o que os outros podem pensar que é errado, que aceitam e não se importam com o que os outros dizem, mas não são críticos ou ciumentos. As outras pessoas imitam-se, são amargas, julgam outras pessoas, tentam agir como ricas – quando os ricos de verdade escondem que são ricos.”

Um dos maiores pecados no mundo de Waters é se levar muito a sério. Com os defensores do “politicamente correto”, ele expressa principalmente solidariedade, mas a “justiça própria” é a única coisa com a qual não concorda. “Usávamos humor para lutar quando eu era jovem.”

E acrescenta: “Nós nos revoltamos pela liberdade de expressão!” Ele ainda a mantém como um princípio absoluto, mesmo quando isso o coloca na mira de seus compatriotas mais à esquerda. Ele parece legitimamente preocupado com o fato de os estadunidenses ficarem cada vez mais isolados, cada vez mais falando apenas com pessoas com quem já concordam.

É por isso que ele lê jornais conservadores: recentemente foi ao programa de Greg Gutfeld na Fox News e se tornou amigo – entre todas as pessoas no mundo – de Andrew Breitbart, o falecido provocador de direita.

Breitbart, após uma gravação de “Real Time With Bill Maher”, disse a Waters: “Sou igual a você; aprendemos tudo com Abbie Hoffman. Estamos apenas em lados diferentes. É tudo showbiz.” Waters gosta de entrar no que chama de “território inimigo” porque acha importante “fazer o outro rir, que é a maneira de fazer o outro ouvir”.

Peço sua opinião sobre o julgamento de difamação envolvendo Johnny Depp e Amber Heard. Ele o compara a um filme de Douglas Sirk. Tudo o que ele dirá diretamente é: “Só conheço Johnny de quando ele estava com Winona Ryder, Kate Moss e Vanessa Paradis. Todos esses casamentos terminaram, e as três ex-mulheres dizem coisas boas sobre ele agora. Eu nunca vi ele ser horrível com uma mulher.”

Que tal trabalhar com Woody Allen? “Foi ótimo. E não devolvi o dinheiro. Eu gastei.” Ele trabalharia com o cineasta novamente? “Não sei, mas paguei para ver os dois últimos filmes dele.” Waters não acredita em “cancelar” pessoas porque “a maioria dos artistas seria cancelada”. Ele acrescenta: “Eu perdoei gente que cometeu assassinato, então não estou julgando ninguém”. Waters fala sério: ele é amigo da ex-integrante da “família” de Manson Leslie Van Houten e lamenta aquela que considera a prisão “ilegal” da protagonista de “Cry-Baby” Amy Locane por dirigir embriagada e causar uma morte.

Waters sente-se bem até o momento com o governo Biden, embora Obama seja seu favorito. “Mesmo que Michelle Obama tenha me vencido no Grammy de melhor álbum narrativo. Todo aquele lobby que ela fez!” Ele se sente um “patriótico low profile”. E confessa: “Acho que os Estados Unidos são os melhores do mundo. Só não fico dizendo isso por aí. Em que outros lugares eu poderia ter tido essa carreira? Em muitos, certamente não.”

Adeus, Perrin

Soube que Jacques Perrin morreu dia 21, aos 80 anos. Amava-o nos filmes de Valerio Zurlini. Que triste e maravilhoso é “Cronaca Familiare” (Dois Destinos), de 1962.

Mastroianni vive ali o irmão maior, inconformado, voluntarioso, que tenta ensinar algo da sua força ao caçula, frágil e contido até a morte.

Me parece haver também no filme a alusão a um amor entre homens, impossibilitado pela educação social. A direção de atores é estupenda, como em qualquer filme de Zurlini. E como estão perfeitos aqui!

Obrigada, Perrin. 💚

O brilho da noite escura, com Lygia

Hoje, 19 de abril de 2022, Lygia Fagundes Telles completaria 99 anos. Ou seriam 102? Ela detestava que a vissem mais velha do que dizia ser. Compreendo isto, como compreendo muitas outras coisas, embora às vezes fosse difícil entender Lygia, ela mesma. Especialmente quando, sendo mulher, olhasse as mulheres com tamanha desconfiança – menos Hilda, claro, menos Clarice, menos Cecília, menos Lúcia, sua neta, menos a bisneta Mariana. Nesta reportagem está a descrição do encontro que tive com a escritora quando ela completava seus alegados 90 anos, em 2013. Eu me atrapalhei um pouco. E senti sua tristeza, sua revolta, a ponto de perder meu celular, não imagino como. Mas aqui ela fala coisas muito interessantes sobre a vida, seu amor a Cecília, seu apreço por Lobato, a falta do filho, o bilhete que alguém lhe deixou quando ela saiu intempestiva de uma palestra na qual ninguém parecia ouvi-la, a certeza de que se esqueceriam dela. Lygia foi para mim um espelho de amor, caso o amor pudesse espelhar-se.

Sobre a foto de Marcos Mendez, tirada para esta reportagem de 2013, aplica-se o bilhete que um admirador deixou para Lygia: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos”

Lygia Fagundes Telles é uma só, e não há como compará-la com alguma coisa na literatura do Brasil. A Helga de seu conto homônimo, por exemplo, parece-se com ela, “uma manhã de bicicleta nas estradas impecáveis”, embora não se saiba como a manhã terminará, nem se a bicicleta restará inteira. Ao contrário de Helga, contudo, cuja perna mecânica significou capital roubado pelo noivo em núpcias, a particularidade de Lygia está no que jamais se desprende dela, nem na hora do amor. Ela vive como quem pressente. Seu assunto é a crueldade, ampliada pela escrita simples. Mas pode ser cruel quem sorri?

O sorriso de Lygia se oferece ao desconhecido, ao contrário do que lhe aconselhava a amiga Clarice Lispector. A autora de “Ciranda de Pedra” desafiou-a em todos os momentos nos quais estampou essa confiança nas fotos. Que sua face jamais parecesse turva. Ela era, pelo contrário, efusiva de exercer o ofício escolhido. Os lábios vermelhos, os anéis dourados, os brincos de prata, os lenços azuis. E foi sempre a mesma, impecável para o dia, enquanto ali, naquela noite escura onde se desenhava sua literatura, fazia crescer um turbilhão de desencontros, submissões e empreendimentos falidos. Era uma mulher do Brasil e ainda é.

Enquanto menina

Antes, uma menina. Completa 90 anos neste dia 19, mas o faz sem festa e com irritação camuflada. Aceita falar com toda a imprensa porque é preciso. Ela se vê viva nos jornais. “Se você achar Machado de Assis na lista de mais vendidos, eu lhe dou um doce. O povo analfabeto não sabe ler, só pensa em futebol, e o futebol está mal das pernas, hein?”, diz. Ela me pede que faça chegar ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, a solicitação que anteriormente fizera à presidenta Dilma Rousseff, creches e escolas para salvar o Brasil.

“Um país se faz com homens e livros, dizia Monteiro Lobato, mas onde estão os livros brasileiros? Só há estrangeiros entre os mais vendidos. ‘Dom Casmurro’ nunca apareceu numa lista. Nem os românticos, Álvares de Azevedo, Fagundes Varella, Castro Alves. Que esperança eu posso ter? Por que eu vou sobreviver? Não vou sobreviver nada. Enquanto estou viva, ainda lembram de mim, depois adeus.”

Por isso, talvez, não seja o caso de lhe pedir que acolha a celebração neste momento, embora ela tenha uma resposta pronta para rejeitar os parabéns. Tudo foi culpa da mãe. Desejosa de acender a vela de seus oito anos, ela encomendou bolo, biscoitos e balas para a filha caçula, mas ninguém apareceu. Lygia se esqueceu de entregar os convites. As festas de aniversário seriam terríveis dali por diante, mas ela aprenderia a pular a decepção. Como o pai lhe ensinou nas desastrosas idas ao cassino, a gente perde hoje, mas ganha amanhã.

Em seu apartamento paulistano naquele bairro dos Jardins onde mora há três décadas, depois da muito lamentada morte do crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes, seu segundo marido, Lygia mostra que ainda está de pé. Quebrou o fêmur há quatro anos, anda de bengala, mas de pé permanece. Recebe a reportagem em sua mesa onde há livros, papéis e uma bandeja cortês na qual repousam uma garrafa de água e castanhas de caju sem sal. A mesa é grande, de madeira escura antiga, colocada na sala a certa distância da estante onde há livros e tantas fotografias. Nelas estão o pai, a mãe pianista, o avô que era coronel da guarda do Império, o filho, seu amor. Tudo se desfila e se embaralha nas estantes, como a memória apenas aberta com determinada chave. Lygia se senta na cadeira de encosto firme.

Com Paulo Emílio diante do túmulo de Karl Marx em Londres, 1970, em foto tirada por Vladimir Herzog

“Eu tenho uma vontade de permanência, acho que será isso. A vontade de não desaparecer”, diz ela do outro lado da mesa. Ela é quase uma diretora de ensino enquanto discorre sobre o valor que dá à eternidade. Paulo Emilio era ateu e comunista, como ela explica ao imitá-lo, o punho cerrado em braço estendido. E há outras provas de seu materialismo, como a fotografia que o amigo Vladimir Herzog fez do casal pouco antes de morrer, diante do túmulo de Karl Marx, em Londres. Contudo, ela que tanto protestou contra duas ditaduras, do Estado Novo e dos anos 1960, não responde se um dia acreditou no materialismo do alemão (Lygia passa por cima de muitas perguntas). 

Na infância gostava de padres, mas hoje prefere acreditar na transmigração da alma. Uma crença que mais parece literária, retirada daquele poeta que escreveu ter sido em vidas passadas um mancebo, uma donzela, um pássaro azul da floresta e um peixe mudo do mar. Ela jura gostar de orações, mas não se liga a igrejas. E faz o sinal da cruz como a se livrar do diabo, aquele com o qual deparou num voo para China. O demoníaco era um homem grande e descabelado que apagava o cachimbo com o polegar.

Com o primeiro marido
e o filho Goffredo

“Voilà. Prefiro que fiquem com minha obra e esqueçam meu aniversário”, ela diz, às vezes hesitante ao proferir a palavra “obra”, substituindo-a por “trabalho”, a mão percussiva sobre a mesa como a marcar uma inflexão para tantas histórias. Diante dela está o santuário. Um belo desenho de Darcy Penteado na parede, a representar seu filho Goffredo, criança de cachos, ao lado de seu ursinho de pelúcia. Abaixo da moldura, fica o urso ele mesmo, sentado de camiseta sobre uma pequena poltrona do outro lado da mesa onde se encontra Lygia.

Goffredo morreu em 2006, aos 52 anos, era o documentarista de sua vida e de outras, alguém cuja presença permanece intocada para ela nessa espécie de altar. A bisneta de Lygia, a pequena Mariana, ama o urso de Goffredo, como lembra sua neta. Lúcia é cotidiana e firme ao lado da avó. E há sua secretária de três anos, Regina, a auxiliá-la no trabalho atual de burilar histórias antigas de Lygia, como “O Tesouro”. “Meu filho era meu companheiro e eu procuro compensar essa dor com humor.”

Com Cecília Meireles,
no tempo de faculdade

Malgrado a angústia sofrida agora, Lygia nunca deixou de olhar para o passado. A experiência é um farol voltado para trás, dizia Pedro Nava, e com muito orgulho ela mostra à reportagem uma foto em que aparece, estudante de Direito no largo São Francisco, ao lado de Cecília Meireles. “Uma poeta maravilhosa, cujos versos me deram o título do livro A Noite Escura e Mais Eu.” Lygia convidou-a a fazer uma conferência no centro acadêmico nos anos 1940. “Eu era tão pobre que a gente não tinha carro, andava de bonde. Fui atrasada até Cecília, com um raminho de violetas na mão. Ela já estava na Estação da Luz, veio dormindo no trem de prata, ao lado do marido, o doutor Heitor Grilo. Pedi perdão e ela me perguntou em que hotel iriam ficar. Mas eu não tinha pensado em hotel nenhum! O doutor, que era rico, arrumou um lugar.”

Na faculdade de Direito, Lygia conta, era possível improvisar sobre uma canção em voga durante a Segunda Guerra: Quando se sente bater no peito heróica pancada, deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer. A partir da canção, suas colegas (eram seis na heróica classe de Lygia) chegavam a paródias como esta: O menino que eu namoro e que me quer muito bem tem um sorriso que encanta, quinhentos contos também. A escritora ainda se lembra, com uma gargalhada, do versinho que Cecília lhes deu sobre a surrada melodia: Passarinho ambicioso, nas nuvens fez seu ninho, quando as nuvens forem chuva, pobre de ti, passarinho. “Aproveite esta história, é muito importante, inédita”, ela me aconselha.

Um Monteiro Lobato deslocado no
seu aniversário de 23 anos

É como se a cada grande personagem da literatura lhe correspondesse uma história peculiar. Monteiro Lobato, por exemplo, a quem visitara na prisão, esteve em sua indesejada festa de 23 anos. O olhar do escritor na foto em que está registrada a ocasião não esconde o assombro. Ele passava pela rua no momento em que a mãe de Lygia ia atrás do vermute e não viu jeito senão aparecer para agradecer-lhe a visita. Não é fácil enfrentar o desconhecido, como Lobato fez. A escritora experimentaria coisa parecida numa ocasião na faculdade de Direito. Ela se cansou da audiência que não parecia ouvi-la e se retirou dali rispidamente. Antes de chegar à porta, “um rapaz descabelado” lhe entregou um bilhete e saiu sem mais ser visto. Lygia ainda guarda o manuscrito: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos.”

Ela tem a memória plena de versos e os recita com as mãos para o alto. E ainda se lembra da inscrição em latim naquele relógio de Paris: “Guarde somente as horas felizes.” É assim, alegre, que ela se recorda de grandes amigos como Clarice Lispector. Lygia não responde se a contraria que coloquem as duas num pódio de rivalidades literárias. “Clarice era ótima”, começa, rindo. “Não tinha amigas. Me dizia, com sua língua presa: ‘Não gosto de amiga mulher. São lésbicas. Eu não sou lésbica, eu gosto é de homem!’ E gostou de mim porque eu não era…” Lygia igualmente prefere o convívio masculino. “O homem é mais coração aberto. A mulher, mais perigosa. Serpente. Está na Bíblia. Ela vai deslizando pela grama, na sombra”, diz, representando com a mão direita um rastejar sinuoso. Quando Lygia fala, é como se escrevesse um conto. E se lhe fosse permitido reencarnar, ela fugiria como do diabo da ideia de voltar menina.

Ecos, os que não são

Um terapeuta me disse certa vez, antes que eu fizesse uma fala pública: “Cuidado com os ecos”. E eu: ecos de quê? Ele: “Ecos, como na mitologia grega.” Lembrou-me da ninfa Eco, que teve a voz retirada por Hera, mulher de Zeus, inconformada que ela acobertasse as infidelidades de seu marido. Eco não falaria mais. Ficaria então conhecida como “aquela que não sabe falar em primeiro lugar, que não pode calar-se quando se fala com ela, que repete apenas os últimos sons da voz que lhe chega”.

Para o terapeuta, há muitos ecos a se aproveitar do que você diz numa palestra, atrapalhando seu desenvolvimento. Fiquei atenta a isso e pude falar tranquilamente. Rara dica de um terapeuta que aproveitei! E ele tem razão. Isto acontece não só em palestra, mas em muitas situações em nossas vidas, no Facebook também.

Certeza que vocês sabem como funciona: a gente posta uma coisa na rede e lá vêm os comentários a se aproveitar de nossa fala para dobrá-la, desfigurando-a e desviando a atenção da postagem inicial.

Eu decidi assim. Não ligo pra eco em rede social. Não ligo pra rede social. Os anulados que me aguentem. Se estou nas redes é pra me divertir, aprender e dividir o que sei.

E boa semana pra gente!

Adeus, Catherine Spaak

Catherine Spaak, um rosto
para o cinema

Catherine Spaak morreu. Tinha 77 anos. Atriz, cantora, dançarina e apresentadora da TV italiana, nascida francesa, foi musa de muitos diretores. Dino Risi, que a dirigiu em “Il Sorpasso”, o oitavo filme de que participou, deu-lhe fama.

Aos 17 anos, em “Il Sorpasso”,
depois de sete filmes

Tinha 17 anos quando deu à luz a filha Sabrina. Por não se sentir à vontade na casa da família do pai da criança, ator que conhecera num set e com quem passaria a viver, fugiu com a menina. Foi presa e a justiça tirou-lhe o direito de ver a filha. Nunca mais a viu. Mas continuou a trabalhar e a viver no cinema dessa Itália machista, no meio musical e na tevê.

A elegância que a acompanhou

Casou-se quatro vezes e seu último marido era 18 anos mais novo. Tinha vivacidade, um rosto feito para o cinema, entrega e elegância.

Em 2020, poucos dias após o isolamento imposto pela pandemia, ela foi atingida por uma hemorragia cerebral e não se recuperou.

Viva Catherine Spaak!

Em “Il Sorpasso”, de Dino Risi,
que lhe deu fama

Express yourself

Sem dormir, porque o povo comemora o carnaval com banda lá fora, aparece a consciência do mundo pra me atormentar. A imundície. A canalhice desse verme que não pretende se levantar da cadeira por resultado eleitoral nenhum. Penso em quem votou nele e continuará a votar. Vejo a luta cotidiana de um padre que a PM bandida parece simplesmente querer exterminar. Esses trastes fálicos das forças brochadas a rir abertamente de nós.

Que país. Que falta de país.

Tento pensar em outras coisas. Pensar que sou mulher e que muito me alegra sê-lo, mesmo na idade em que estou. Me lembro de uma discussão no programa da Oprah (sim, eu assistia ao programa), há milhares de anos, e que não esqueci. Lá estava Cybill Shepherd, a linda atriz, a lamentar que, mal completados seus 50 anos, tenha se recusado a olhar o próprio rosto no espelho. Não se deve fazer isso, ela dizia à Oprah. A depressão vai acabar com você. Porque tudo em sua aparência não será o mesmo, mas vc ainda terá uma vida pra viver.

Claro que esse problema atinge mais essas mulheres tão belas do que nós. Me deu pena da Cybill. Do que o cinema fez com ela. Nem de longe o dude Jeff Bridges, seu parceiro em “A última sessão de cinema”, enfrentou a mesma situação.

Me divertiu mesmo, no sofá da Oprah, o conselho de uma autora motivacional convidada a se postar ao lado de Cybill: “Depois de certa idade, é preciso projetar em você mesma uma grande confiança. Você tem de se sentir uma Sofia Loren, ou não conseguirá viver.”

Eu acho que, ao projetar Sofia em mim, acabei expressando o Christophe Lambert. Será que tem problema aí? Espero que não.

Crescidinhos

No meio do caminho, tinha um gato…

Sei que nem todo mundo vai se interessar.

Mas eu, talvez por ter tido filhos, talvez por saber da luta que é fazê-los enfrentar as dificuldades todas de viver, estou amando “Crescidinhos”.

Crianças muito pequenas são levadas a cumprir tarefas sozinhas, pelas ruas de um Japão gentil e seguro…

Rio e choro mais ainda.

Feliz por ter algo pra ver nessa Netflix inescapável e no geral tão ruim.

https://www.netflix.com/br/title/81506279?s=i&trkid=13747225&vlang=pt&clip=81582861

A elegância é uma ideia

Ele estava próximo de uma academia de ginástica e o rosto era inchado, vermelho. Embriagado crônico, fácil perceber, mas acreditei não se tratar de um sem-teto, pois os tênis pareciam bons, até lustrosos. Então ele apenas bebia com os amigos, quase na sarjeta.

Eu passei colorida, bata e calça, os cabelos brancos soltos, carregando sacolas de supermercado. Ele decidiu dizer:

– Ficou muito elegante, senhora, mesmo!

Sorri por baixo da máscara, continuei andando. Mas ele me seguiu e parou na minha frente:

– Desculpe ter falado assim, mas a senhora está elegante mesmo, olha, vou dizer!

– Eita que eu acredito no seu julgamento, hein?

– Senhora, eu não julgo ninguém!

– Ah, que bom. Mas se sou elegante, vc é mais. Gostei das tattoos, da pulseira de couro larga. E essa bermuda cargo com a regata Suicidal Tendencies, tudo preto, ficou massa.

– Eu não sou elegante, sou um perdido! Mas a sua elegância está demais. Sabe Highlander? Highlander, eu juro.

Não entendi bem. Talvez eu precise mesmo pintar o cabelo e cortar. Mas o fato de alguém ter me percebido na rua me deixou surpreendentemente alegre. Me despedi.

– Meu querido, obrigada, fique bem, ganhei o dia!

A culpa interditada: Lygia vê Capitu

Lygia Fagundes Telles
em foto de Olga Vlahou

Nesta reportagem publicada em 21 de agosto de 2008, Lygia Fagundes Telles fala sobre o roteiro feito em parceria com Paulo Emilio Salles Gomes, relançado em livro, que muda o foco narrativo de “Dom Casmurro”

Os diretores de cinema apareciam de mochila nas costas para visitar Lygia Fagundes Telles e Paulo Emilio Salles Gomes naquele ano de 1967. Ela era, como é ainda, uma das grandes escritoras do Brasil, e ele desfrutava o título de maior crítico de cinema em terras nacionais. A Vila Mariana onde moravam, dizia Paulo Emilio, fora um charco originalmente, e por esta razão ele apelidara seu apartamento paulistano de Sapos. Um dia, o diretor Paulo César Saraceni chegou ali munido não só de mochila, mas de um olhar oblíquo e dissimulado. Com ele, Saraceni os convenceria a transformar em roteiro de cinema o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.  

 

“Este Capitu nos deu uma tarefa difícil”, disse Paulo Emilio a Lygia, quando Saraceni, em quem ele vira aquele olhar da protagonista do livro, deixou Sapos para trás. O casal não começou imediatamente a trabalhar na adaptação do romance de 1900 no qual Bentinho, apelidado dom Casmurro, desconfia que sua amada o trai com o amigo Escobar. Seria preciso convencer Lygia de certas coisas antes, ela que era formada na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e fazia julgamentos a partir de evidências.

 

Quando leu o livro de Machado de Assis pela primeira vez, ainda universitária, Lygia se convencera de que o protagonista era um homem “inseguro e invejoso”, desmerecedor de confiança, ainda mais porque não outra voz, além da sua, falava no romance. Na segunda leitura, contudo, ela mudaria o pensamento por completo. Sim, Capitu seria a amante de Escobar. Ele era um homem muito mais atraente do que Bentinho, para começar. E havia alguns “indícios jurídicos” muito fortes a serem considerados pela escritora para que ela estabelecesse a culpa deste Leviatã.

 

Em uma cena do livro, Bentinho se cansa do espetáculo de teatro a que assiste, volta para casa e lá está Escobar com Capitu. Não havia motel para encontros naquele tempo, então é claro eles faziam ali o que não poderiam fazer em outro lugar. Depois, havia outra coisa. O menino Ezequiel, embora exímio imitador de todos, remedava perfeitamente Escobar, o que fora notado por ninguém menos que a própria Capitu. O velório de Escobar, por fim, sepultara qualquer chance de redenção à mãe de Ezequiel. Dona Sancha, a viúva, chorara tanto na ocasião quanto a traidora. As lágrimas de Capitu formaram mais um daqueles mares de ressaca, capazes de arrastar um observador, dois ou três, para dentro de si.

 

Estas certezas todas, apresentadas com eloqüência de advogada já na rua Sabará onde os dois passaram a morar, deixaram incrédulo o marido da escritora. Paulo Emilio era um grande professor, mas, se entrasse nesta discussão à maneira de Lygia, não convenceria a talentosa mulher de seu ponto de vista. O negócio era agir como padre: “Você precisa se limpar, você não pode julgar Capitu”, disse ele a Lygia, certo de que as provas que ela acumulara se mostrariam inúteis. O que ele pregou à esposa no momento seguinte a convenceu em definitivo: “Se o triângulo amoroso existe ou não, isto não interessa a você. Tem de haver a dúvida, ou haverá traição a Machado de Assis.”

 

O escritor narrara para intrigar, e teria esclarecido a trama ao final, fosse esse o seu desejo de ficcionista. O que ele parecia almejar, contudo, era que ficássemos discutindo aqui por longo tempo sobre um enigma maravilhosamente urdido e sem solução. Tão essencial é este livro que Lygia, por exemplo, tem-no como o primeiro de Machado, seguido de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. É uma tendência que de certa forma a Universidade de São Paulo segue: Dom Casmurro como a melhor fabulação, Memórias, como a experimentação maior.

 

Se não poderia culpar Capitu em seu roteiro, Lygia enfocaria o sofrimento terrível de Bentinho. Que outra coisa faz este personagem dentro do livro, a não ser penar? O roteiro seria, neste ponto, sobre o sentimento de ser traído, não sobre a traição. E seus autores fariam mais uma coisa interessantíssima, ousadíssima, para falar na língua de superlativos do agregado José Dias: anulariam o foco narrador. No roteiro, não é Bentinho quem conta a história. É um terceiro que urde a trama, iniciada na lua de mel de Capitu e contada livremente pelo tempo de vida dos personagens.

Nascido desta escolha, o livro que originou filme homônimo de Saraceni em 1968 resulta suave, mas intrigante. E é capaz de impacientar quem aguarda respostas claras ou anseia sempre pelo ponto de vista roubado. Goffredo Telles Neto, o filho de Lygia, morava com ela e Paulo Emilio naquele ano de produção crucial, e tomou as folhas datilografadas por Lygia para saber o que tanto elas tramavam. O Jovem, como o apelidara Paulo Emilio, leu e ficou sem entender aonde a escritora queria chegar. “Mamãe, dá sua opinião de uma vez! Ela traiu ou não?”, ele a inquiriu. E a autora foi sincera com o filho: “Eu não sei, eu não sei!” 

 

Lygia tem 85 anos. Para ela, ainda hoje, a traição é  “a dor maior”. Os tiros que de vez em quando os ciumentos desferem sobre as namoradas, segundo ela tem notícia a partir da leitura “destas revistas”, ainda prosseguem acontecendo. Seu ponto de vista, portanto, parece validar-se todos os dias. A traição incomoda. É eterna, enquanto o homem é breve. Paulo Emilio morreu em 1977  e o único filho de Lygia, Goffredinho, há dois anos. Lygia entende de que o sofrimento trata.

Ela dá entrevista no apartamento que habita há um bom tempo nos Jardins paulistanos, em cuja entrada há palmeiras imperiais. As palmeiras são bonitas e resistem à poluição, aos carros que buzinam, à gente que passa, vinda da rua Oscar Freire chique. Lygia não arreda pé dali, apenas para eventos aos quais os amigos insistem em convidar. O livro “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão”, de Andrew Salomon, ainda repousa em um canto de sua sala, mas parece não se relacionar à pessoa que dá a entrevista.

 

A escritora é pessoalmente assistida pela neta, a professora de português Lúcia Telles. Aos 29 anos, Lúcia trabalha sobre cartas de Paulo Emilio para um mestrado. E ajuda Lygia em tudo, até quando uma palavra lhe falta. A certa altura da conversa com a CartaCapital, sugere à avó que catequisar é  o vocábulo certo para designar quem deseja transmitir a mensagem cristã. Com a neta ao lado, Lygia está bem. Ela liga a televisão minúscula onde a avó assiste a Ciranda de Pedra, uma novela que a diverte, sem qualquer relação com seu romance de 1954, segundo Lygia sabe muito bem. Ela também sorri, e fala como atriz, ao invocar seu muito querido Machado de Assis e a própria literatura. Queria tanto que seu Capitu fosse filmado de novo!

 

Está indignada, por ora, que a imitem e ainda cometam a ousadia de lhe mandar os originais com as imitações para ler. Rubem Fonseca lhe contou que isto também vem acontecendo com ele. A literatura de Lygia é inconfundível, forçoso notar que não a imitariam direito. Ela tem um conto que o filho não teve tempo de filmar, Potyra, sobre um vampiro que deseja morrer no Brasil. Quem sabe, entre os contos e o romance novos que prepara, não caiba uma roteirização desta peça ficcional, em companhia da neta constante? 

 

Esta escritora se diverte, apesar de tudo. Eleva a voz como uma atriz e pontua com graça as frases perfeitas. Está lúcida e grande, e seu olhar ainda encara o interlocutor como quem o arrasta.