Satisfatória. Assim muitas vezes German Lorca se refere a cada etapa de sua obra durante o minidocumentário dirigido pelo filho José Henrique e exibido na retrospectiva “German Lorca – Mosaico do Tempo, 70 anos de fotografia”, no Itaú Cultural, em São Paulo.
Um artista que classifica como satisfatório cada passo de seu trabalho deve falar a verdade. Não se vive no mesmo patamar, alto ou baixo, quando se produz algo de valor indefinível como a arte. Satisfaz-se com ela. Ou não se satisfaz. E segue-se adiante. Sem que quase ninguém, exceto talvez o artista, consiga entender por quê. A arte está no futuro que dificilmente nos cabe ver.
“WTC Reflexo”, 1970
Em 96 anos de vida, 70 de fotografia, German Lorca segue sempre. Não só por São Paulo, vejam. São Paulo quase não está em jogo aqui. Sua cidade não é documental. O fotógrafo olha para si.
E está armado da ideia de satisfação. Se ela não existe ainda, eu devo procurá-la. Sorrio enquanto caminho. E devo seguir longevo, lúcido, agitado e feliz, mesmo se a procura é dura. A indefinível pirâmide, somente eu posso ver. E estou chegando lá!
“Vaticano colunas”, 1970
Apenas suas fotografias não sorriem. São sóbrias declarações da difícil permanência humana entre as quatro ou mais linhas do campo da vida em que se deve jogar.
Às vezes, são fotos que aspiram ao encaixe, à iluminação, à elevação, como esta do menino que empina pipas.
“Parque Dom Pedro”, 1949
Às vezes, são espelhos de desdobramentos, de inquietudes de quem se perde na cidade e se fere por seus ângulos, ou busca clareiras.
Às vezes, ele queima por dentro, como quando adota o processo de solarização, aquele em que faz rápida exposição da imagem à luz durante o processamento do filme…
A hora em que o diabo entra!
“Diable au corps”, 1949
Lorca descreve linhas. Vive por elas. Tenta delimitá-las. Elas estão por toda parte, especialmente quando ele faz “arte”.
Sim, porque ele tem esse modo de dizer: quando não trabalho, quando não negocio, sou artista.
E, quando trabalho, tenho felicidade do mesmo modo.
“Moda”, 1960
Mas sempre procuro a linha. Preciso dela. Meu canteiro. Pra trabalhar, pra viver. Fujo dela enquanto a persigo. Gatos e ratinhos.
“Trópicos ou Homem com Guarda-Chuva”, 1951
Esta exposição começa com seus selfies, a provar o que todo mundo a esta altura já sabe, que os selfies, ou autorretratos, existem desde muito antes da internet, desde que o homem começou a fazer parte de um concerto (ou conserto) de ideias, de um ideário do capital. Quando o sistema, antes religioso e perene, disse ao homem “vire-se, você está só”, ele não teve jeito senão parar de olhar um pouco para deus, engolfando-se em si.
Selfies!
O intenso, em Lorca, é que ele faça essa autoprocura muito além dos selfies (que, me perdoe a curadoria, não deveriam começar a exposição, visto que no fim das contas se tratam de ilustrações rasas da personalidade do artista, brincadeiras de esconder).
Sua autoprocura tem, pelo contrário, algo de fé. Ela se expressa não só quando Lorca exibe homens e mulheres religiosos vestidos à maneira medieval, misturados em tarefas tão mundanas como atravessar a rua com uma criança ou pegar a barca enquanto lê um jornal.
“Irmã de caridade”, 1970
Lorca é religioso quando busca um princípio, uma devoção, um centro, quando deixa escapulir pelo Anhangabaú a girafa de um trabalho de publicidade e a coloca em um cercado à vista de todos.
“Ford Jeep Girafa”, 1962
Não é uma imagem fácil de ver.
Todos estão à volta se situam entre o sorrio e o calafrio.
O oba era um sacerdote-rei em Ifé, cidade iorubá no sudoeste da Nigéria, centro da metalurgia do país entre os séculos XI e XIV.
As cabeças de Ifé se destacam não apenas pela sofisticação técnica, mas pelo idealismo alinhado à serenidade das antigas esculturas egípcias e gregas.
Contudo, as culturas do oeste africano tendem a fazer suas imagens em pares. O par desta, representação externa do rei, não seria a rainha, mas um cilindro diminuto e ereto, uma abstração dotada de olhos – a imagem do interior, do homem espiritual.
Fui percorrer Irving Penn cheia de esperança e voltei cabisbaixa.
Admiro seus retratos, mas a experiência da exposição no IMS-SP me cansou um pouco.
O trajeto, retrospectivo de seu centenário de nascimento, parecia apresentar o autor em ângulo idêntico.
Ou seria má decisão curatorial, mesmo, repetir suas imagens…
Tudo mastigado e desvitalizado.
(Seus torsos e cigarros eram estudos, porém quase apresentados como colecionismo. E quem precisa de mais fotógrafos-colecionadores?)
Uma natureza morta bem morta.
E o tão citado retrato da Audrey Hepburn me assustou.
Um tal de torcer o retratado e submetê-lo a um esquema!
Audrey Hepburn, 1951
Mas pelo menos a Audrey riu dele, um sorriso com estranhos lábios de palhaço.
Gostei muito de algumas imagens, contudo, especialmente as placas e sombras que ele perseguia no começo.
Em 1941
Adorei ver seus personagens já esquecidos pelo contemporâneo, como T.S. Eliot, Balthus, Carson McCullers ou Spencer Tracy.
Carson McCullers, 1950T. S. Eliot, 1950Balthus, 1948Spencer Tracy, 1948
Interessantemente obsessivas suas geometrias em V!
No mais, penso que Penn, ele mesmo, se cansava de fazer tudo tão igual e ia ao laboratório se divertir, turvando as imagens com novas camadas de química, como mostra uma sequência interessante exibida lá.
Saí do IMS querendo esfumaçar eu mesma todas as imagens do artista.
Flamejar?
O público de hoje era majoritariamente da moda.
Parecia desconhecer que tudo aquilo teve um antecedente com grande frescor, como a obra de Martin Munkacsi, suas modelos no ar, ou de August Sander e seus retratos de açougueiros, de homens em suas profissões (que Penn refaz de maneira caricatural, um procedimento constante, aliás).
Quase interrompi uma conversa de apreciadores que viam pioneirismo na exposição inteira, mas disse a mim mesma: “Menina, quieta, como assim?”
Tudo parecia carecer de movimento.
E eu me sentia meio claustrofóbica.
Mudou o Natal ou mudei eu?
Vou de German Lorca logo mais e espero viver a alegria de sempre.
Não percam o Carlos Moreira na galeria Utópica, hein?
Fazia décadas que a gente não via o Osmar no Rei das Batidas, à porta da USP. Fomos ao bar no fim de semana passado e ele não se lembrou de nós. Mas como esqueceríamos seus poemas e ele mesmo? Pois Osmar, a quem hoje as crianças chamam tio, poetizou pra nós. 💜
Sim, as mulheres são ainda vítimas dentro do mercado de trabalho brasileiro e sua situação não pode ser resolvida assim “livremente”, como Bolsonaro quer.
Fomos demitidas em 2016, uma grande jornalista e eu, de uma revista dita de esquerda, para que três homens jornalistas, golpistas pertencentes àquele espectro dito esquerdista, fossem colocados em nosso lugar.
É claro que hoje sou mais feliz do que era antes desse minúsculo golpe… Mas não ignoro o golpe em si, nem o machismo que nos atinge, partido de todo lugar.
Nesta foto sem data e sem autor, tirada em sua segunda residência paulistana, na Casa Verde, a pintora mineira Maria Auxiliadora posa com duas das telas muito coloridas que produziu para o sucesso mundial.
Sua família era toda de artistas, os 17 irmãos. A mãe, que lhe ensinou bordado, tinha muitos sonhos para os filhos, razão pela qual se mudou com eles para a efervescente capital do Estado onde nasceu, seguida pelo marido, que arrumou trabalho numa olaria do bairro do Limão.
Maria Auxiliadora conta que a mãe não lhe deixava brincar. Tinha de bordar. Aprendeu com ela todos os pontos e a combinar as cores. E desenhou muito, especialmente à noite, para espantar os espíritos. A família era católica, mas Maria Auxiliadora frequentou terreiros e sonhava aderir ao candomblé, de onde tiraria a inspiração futura para pintar os orixás.
Seu Xangô na série dos orixás
Aos 12 anos, a menina largou a escola porque precisava ganhar pro sustento da família. Ela e suas irmãs partiram para o trabalho doméstico em condições ruins, aparentadas por vezes às da escravidão. Sua avó, que fora escravizada, havia fugido de Minas para Sorocaba; com o braço imobilizado por um acidente, doara a filha, mãe de Maria Auxiliadora, a uma família.
Oxum, de 1972
Até os 33 anos de idade, Maria Auxiliadora pintou nos intervalos em que atuou como doméstica, função mais rentável que a de bordadeira para confecções na rua José Paulino. Suas pinturas começaram a aparecer. Raquel Trindade, filha de Solano, visitou um dia a casa da família de artistas e convenceu-a a se mudar para Embu das Artes.
Ali Maria Auxiliadora venceu salões e de lá passou a expor na praça da República, onde Mário Schenberg comprou suas telas. O sucesso apareceu em 1968, quando ela fez sua primeira exposição, seguida de outras no Brasil e Europa.
Pintava febrilmente, sem se dar conta de que tinha sucesso. Às vezes, de tanto pintar, imergia nos quadros, conversando com as figuras que representava. Fazia as próprias roupas e ornamentos.
Iansã, inspiração no candomblé
Um dia foi parar no Hospital das Clínicas por conta de intoxicação causada pelas tintas e o médico descobriu um câncer de mama. Ela acreditava que o tumor nascera de uma cotovelada recebida no seio certa ocasião. Retirou o tumor, mas a operação não impediu que morresse pouco tempo depois, ainda ativa, aos 39 anos, em 1974.
Ela queria ser enterrada de noiva, figura que representou em um de seus quadros.