Meu encontro com V. S. Naipaul

Os melhores e breves momentos de um jornalista são vividos em extrema dificuldade. Ou somos habitados pela ousadia ou não saímos de casa. Dói abrir a porta para a guerra no quinto andar. As desculpas não interessam. Tenha ou não sapatos para a neve, o fuzil precisa caber no ombro e é melhor remendar o furo do capacete. Esteja lá, forte e atento. Tenha sorte.

Entrevistar V.S. Naipaul, morto ontem, aos 85 anos, foi uma dessas horas de guerrear. Ele era impossível. Amargo. Pinicava. A “New Yorker” disse que uma jornalista tinha caído aos prantos diante dele. E a Companhia das Letras não queria me incluir entre os entrevistadores deste Prêmio Nobel sobre seu novo livro. Eu trabalhava no pequeno Jornal da Tarde, que credencial era essa? Mas havia uma pessoa querida na assessoria da editora, a Ruth Lanna. E ela me ajudou a entrar.

Não fiz nada demais antes do dia da entrevista, apenas li o livro. Acho bom ler o livro antes de entrevistar. E muito mais eu não poderia fazer, o tempo era curto. Tinha sido tão bom ler. Me transportei até Balzac, que eu percorria muito na época, 1994.

Naipaul estava em São Paulo para a promoção do livro. Fiquei aliviada. Telefone é do outro mundo. E cara a cara tenho menos medo desses enfrentamentos culturais ou do meu inglês imperfeito, eu diria ruim.

Entrei na sala e ele me olhou de cima abaixo. Analisava meus olhos como um diretor de escola ou um dirigente da polícia secreta. Com uma curiosidade a mais. Eu soltei a língua. Não me lembro direito o que perguntei, mas o comparei a Balzac. “Em que página do meu livro você encontrou a comparação?” Abri a página e a li em português. Ele era casado então com uma argentina. Não achou difícil entender. Divertiu-se.

E nos divertimos. “Não sei por que jornalistas acham difícil me entrevistar. É só ler até a página 100.” Perguntei de sua vida em Trinidad. “Lá não há pessoas tão finas e cultas como você e o Luis Schwarcz.” Ri só por dentro, mas ele ali falava sério. “Em São Paulo, a única coisa terrível é o trânsito.” Perguntei por que fora jornalista: “Pelas viagens.” (Dizer isso pra mim, que viajei tão pouco na profissão… Foi a única vez em que me envergonhei diante de alguém mais inteligente do que eu.)

Continuamos a conversar e ele não queria que o papo acabasse. Do nada me convidou pra jantar. Deus meu. Disse que não podia, porque eu ainda precisava escrever o texto. “Vocês têm muito pouco tempo”, admirou-se. Mas não era pelo tempo. Escrevemos o que podemos, mesmo, em prazos impossíveis. Meu medo era que tudo desse errado num jantar. (Contei essa história a uma ex-amiga, e ela concluiu que ele estava interessado em mim. E cometi o erro de relatar isto também durante uma palestra para jornalistas iniciantes. Gente ruim.)

A reportagem saiu e vai neste pdf V. S. Naipaul (1). Não se esqueçam de que escrevi rápido realmente e que o espaço a mim concedido no jornal resultou bem pequeno.

O Luis Schwarcz me contou que no dia seguinte deu a notícia ao escritor: “A melhor matéria foi a da Rosane.”

E a resposta de Naipaul:

“I knew it.”

à espera de um globo repórter

quando eu digo que o historiador tem de entrar nessas tretas e explicar a escravidão pra quem endeusa bolsonaro, não estou brincando, não…

não vou repassar a matéria que o globo fez sobre o assunto depois do roda viva porque é muito ruim.

mas lá naquele texto o jornal “repercute” mal e mal, com historiadores como lilia schwarcz, a consideração de bolsonaro sobre o português “não ter pisado na África” pra traficar, uma vez que o próprio negro africano escravizou o negro africano.

sim, negros africanos escravizaram negros prisioneiros de guerra no continente e os entregaram aos portugueses por meio de escambo.

sim, o português pisou na África pra traficar e transportou os negros prisioneiros ao Brasil em navios negreiros.

sim, a riqueza da nação brasileira foi construída sobre as costas desses negros que trabalharam à força no país, por exemplo, em seus engenhos de cana de açúcar.

a abolição da escravidão foi assinada em 1888 e a proclamação da república, no ano seguinte.

os brasileiros brancos donos de terra e enriquecidos pelo trabalho negro seguiram a partir daí, enquanto os negros foram deixados à própria sorte, muitas vezes forçados a viver com seus antigos donos em troca de local onde dormir e comida que comer.

o Brasil deve ou não uma compensação a esses descendentes de escravizados que têm de correr atrás de um grande prejuízo histórico e até hoje sofrem com o tratamento injusto e racista nos ambientes sociais?

esta é a discussão, a oportunidade de discutir.

quero é ver se fazem um Globo Repórter desenhando tudo isto tintim por tintim pro brasileiro bolsonarista.

façam!

nos comentários ao texto do Globo no site aparece a turma de sempre, negros inclusive, a dizer que não foram os brasileiros a escravizar, mas os africanos e portugueses, e que não temos dívida nenhuma como nação a pagar com os negros, uma vez que simplesmente, no entender deles, nós brasileiros não a contraímos.

o bolsonaro é um fdp calculista e torpemente assessorado pra dizer uma barbaridade dessas e continuar subindo nas pesquisas.

dívida histórica

não vi o roda viva, mas acompanhei pelas redes sociais os momentos extraordinários.

e eles me disseram algo mais sobre o candidato à presidência bolsonaro.

concluí que ele sabe muito bem do que fala e principalmente para quem fala.

mente com meios-fatos, meias-verdades, num processo meticuloso de obscurecimento histórico.

deve ter mesmo assessores que o ajudam a sofisticar suas mentiras… suas janaínas?

o seu é um jeito especial de falar ao mesmo tempo com o pobre de direita, a classe média desinformada e a burguesia cruel.

ele simplifica para enganar horizontalmente a todos, como fizeram os fascistas.

um exemplo de distorção clássica (e aposto que ouvirei isso na padaria como verdade) é essa em torno do comércio de escravos.

ele diz que os negros se escravizavam de propósito e que os portugueses não precisavam pisar na África para traficar.

sim, na África havia negros que traficavam outros negros, seus prisioneiros de guerra, aos europeus.

isto, contudo, não significava que os portugueses prescindissem de transportá-los ao brasil.

o transporte, aliás, era feito em condições terríveis, por meio de navios negreiros, ou tumbeiros (designação advinda de tumba).

os navios negreiros tinham, sim, bandeira portuguesa. e nomes terríveis, fornecidos por seus donos, como “amável donzela”, “caridade” ou “brinquedo dos meninos”.

os portugueses obtinham negros na África por meio de escambo com os traficantes locais.

muitas vezes, os próprios europeus (como os ingleses) eram acusados de incitar guerras entre africanos com o objetivo de negociar cativos.

isto tudo anula as alegações de bolsonaro de que os negros se escravizassem sozinhos e que os portugueses pudessem prescindir de colocar os pés na África.

os negros foram, isso sim, grandes vítimas de uma armação internacional para manter o enriquecimento das potências da época.

e seus descendentes precisam ser compensados, uma vez que não acumularam bens e terras na medida das famílias brancas que escravizaram seus pais.

sabemos, ou imaginamos saber, que bolsonaro não tenha escravos, como alegou no roda viva. (e que sua família jamais os tenha tido.) nem ele nem sua família, como sabemos ou imaginamos saber, cometeram, portanto, esse pecado original.

mas eles herdaram um mundo, e têm de conviver com outros herdeiros, pois a terra é de desfrute comum.

quem deve aos negros descendentes não é uma família em particular, mas o estado brasileiro.

e quem é o estado brasileiro?

é a entidade jurídica que representa nossa sociedade.

construímos a partir do suor negro nossas riquezas, nossa nação.

se somos nós os que trabalhamos para nosso estado existir, um pedaço de cada um de nós deve contribuir para saldar uma dívida histórica.

ou não poderemos nos intitular a nação que bolsonaro deseja presidir.

da polytika

Penso solto, já que não sou cientista política.

E só uma coisa me consola.

Esta coisa é ver “bossal-nato”, assim designado pelo velho que protesta na Liberdade, como um puppet, uma marionete esquálida.

A gente pode rasgar marionetes e construir outras, não necessariamente iguais, ainda mais se são esquálidas, e colocá-las onde quiser.

E substituí-las à vontade por outras mais robustas na mesma função, que é a de responder com um eterno “sim” a interesses imperiais.

Se não fosse esse abilolado, seria outro qualquer a galvanizar a preferência eleitoral tanto da burguesia amedrontada quanto da periferia desvalida de nosso país.

Se não fosse bossal, seria huck, seria doria, tantas outras possibilidades seriam para a ideia de “presidente do brazyl”.

A outra coisa não é consolo.

(Até porque estamos mesmo fodidos).

Alckmin, meirelles, temer, todo o psdb e todo o pmdb, toda a folha e toda a veja, toda a globo e toda a época, toda a exame e o insper, todo o olavo ou o reinaldo, todo o gilmar e o stf jamais teriam dado o golpe se fosse para entregar o poder de mãos beijadas a mais um corrupto descompromissado de seu clube.

(E não há tanta diferença assim entre boçal e a barbie doria. Um quer metralhar a favela, outro bombardeou a cracolândia; um quer destruir o ministério da cultura, outro quis censurar o mam; o método atrai.)

Ou o boçal, que é nato, portanto maleável, reza pela cartilha deles, ou vão expulsá-lo da competição, como fizeram com o presidente operário.

Trocarão as marionetes.

E será novamente aplicada a manipulação simples.

Que tal um projeto de parlamentarismo votado na última hora, em que o primeiro-ministro é eleito ou destituído pelo congresso manipulado?

O gilmar apressadinho já deu a dica.

Aliás, todas elas.

David Drew Zingg para poucos

Em 1994, entrevistei o fotógrafo David Drew Zingg para as páginas vermelhas da revista IstoÉ. (leia o pdf David Drew Zingg (1).)

À época, não somente um dos grandes fotógrafos a atuar no Brasil, ele se tornava colunista de um grande jornal, depois de haver contribuído para ajustar a fotografia do diário “Notícias Populares”, de que gostava bem mais.

Drew Zingg, então integrante da banda Joelho de Porco, era o velho anarquista preferido por todos nós. Não sei se por todos nós da redação, na verdade. Provavelmente não por eles… Mas por mim, certamente. E por meus poucos-grandes-geniais-amigos de combate.

Contudo, quando o entrevistei em uma tarde de verão daquele ano tão distante, ele não se parecia de modo algum com um anarquista.

Conversava comigo apenas nos intervalos de uma longa sessão de entrevistas a candidatos a uma vaga na revista que dirigia. Seus papéis e recortes iam empilhados em ordem sobre a mesa limpa. Quem esperaria por isso? Talvez os fortes. E talvez eu fosse forte, sem saber.

Cheio de interdições, ranzinza, ele me recebia na sua pequena sala de trabalho a cada quinze minutos e interrompia a nossa conversa sempre que um novo candidato ao emprego aparecia.

Eu estava por lá mesmo. E decidira furar seu bloqueio de maneira simples. Rindo sem parar do que ele me dizia. Queria fazer florescer a comédia que ainda acreditava habitar nele. Me tornei seu público.

Com o tempo, a entrevista se tornou hilária e franca. E ele ainda me deu a dica de uma câmera fotográfica portátil, a Olympus Stylus, então sua preferida, que me acompanharia por muitos anos.

Publicada a entrevista, Zingg ligou ao então secretário de Redação da IstoÉ, Hélio Campos Mello, para agradecer a matéria e a louca jornalista que haviam enviado para lhe entrevistar. Em seguida, ligou pra mim.

Fui atender na mesa do chefe, trêmula.

“David, você entendeu o título que eu dei à entrevista, não?” – perguntei, sorridente.

E ele, para meu alívio:

“Claro que entendi, Rosane. Very smart…”

(E ainda me lembro de ter minha gargalhada retribuída.)

Silêncio em prata

Há algum tempo, vinda de uma releitura do Moby Dick de Herman Melville, escrevi um verso no face de que o Maurício muito gostou. E ele então, para minha alegria sem tamanho, começou a transformá-lo em samba delicioso, uma de suas marcas como compositor.

Fez uma segunda parte da letra e precisava do desfecho. Ao reunir suas músicas de vida inteira para aquele que brevemente será seu maravilhoso primeiro disco solo, perguntou ao Rodrigo Campos se ele se interessaria em compor uma parceria. Mostrou-lhe algumas ideias inacabadas e o Rodrigo gostou justamente desta que começava com o verso “Transformar o silêncio em prata, em luar”, que eu havia escrito como um desabafo expressivo.

O Rodrigo se pôs então a terminar a canção. E “Silêncio em prata” nasceu.

Nem nos meus sonhos de prodígio imaginei que um dia o Maurício se inspiraria em um verso meu, comporia uma melodia a partir dele e o Rodrigo concluiria a canção.

Quando soube da maneira pela qual o Rodrigo finalizou meu sopro de início, senti o coração apertado e a cabeça clara. Devo ter arregalado os olhos também. Ele me adivinhava, como o Maurício fez.

É isto, amigos, escrever uma canção?

Eu nada sei sobre uma arte que tentei praticar apenas na juventude, quando o Rogério de Campos decidiu loucamente tocar uma letra amadora que fiz em seus shows da banda Crime, com um solo de guitarra impressionante do Magui.

E embora jamais tenha sido uma artífice nos anos seguintes, creio haver desenvolvido a mínima capacidade de reconhecer um grande artista ao ouvir um.

(Preciso escrever umas palavras frágeis sobre o Rodrigo, porque talvez não consiga outras melhores. Ele capturou meu instante sem que, pessoa a pessoa, tivéssemos trocado bem poucas frases. E com isso atingiu o irreconhecível, embora cotidiano, em mim. Bem sei que fez isso por muitas pessoas mais. Vejo poucos artistas tão imensos quanto ele na música popular. Sua poesia e a expressão concisa, a um tempo histórica e premonitória, suas imagens que são a terra e a alma, fazem renascer a canção brasileira numa continuidade a meu ver surpreendente a Caymmi, aquele que entende o mar metafísico, como Melville também o viu.)

Ontem tive uma enorme surpresa, em uma das mais belas noites de minha vida, quando o Maurício decidiu tocar “Silêncio em prata” pela primeira vez ao vivo, com a parceria luxuosa da Ariane, da Vitória, do Dee Macaco e do Samuca, no palco do Bona, em Pinheiros.

Novamente, o coração apertado, a cabeça clara, os olhos grandes…

Obrigada, meus queridos Maurício e Rodrigo, pela oportunidade que jamais imaginei ter.

Obrigada, Dee, Ariane, Victória, Samuca, pela grandeza em seu coração.

(Não revi esta filmagemhttps://www.facebook.com/rosane.pavam/videos/1815753731874984/ que fiz nem sei como, me perdoem se estiver ruim.)

Virna Lisi não é drag

não posso evitar.

vivo quase sempre no século XX.

lá onde estão meus amados objetos de estudo e minha infância durante a qual sonhei realizar o que meu pai não pôde.

um tempo de grande literatura e de cinema também.

amo o século XX a ponto de estranhar quando alguém afirma com toda a sinceridade jamais ter ouvido falar de virna lisi, que, apesar do nome,

não era drag queen.

antes, como a gente dizia em nossa pródiga pequenez dimensional, ali estava uma atriz-mulher de arrasar-quarteirão.

um elogio à comédia

Vou contar a vocês o que ando gostando de ver.

Ando gostando de ver um certo tipo de comédia de insulto.

Tipo aquela que a Michelle Fox fez no jantar para os correspondentes na Casa Branca.

Ou aquela que Bianca Del Rio promove docemente no mundo das drag racers.

Insultar quem e o que merece ser insultado, sem medo dos afetos perdidos, com um humor corajoso e gentilmente ofensivo…

Só mulheres nessa, né? Ou quem escolha representar uma mulher…

Quem dera eu fosse a Michelle ou a Bianca para desancar as cândidas crenças no que um comentarista da Globo diz, puxando o saco de um outro comentarista poderoso, em busca de manter o próprio emprego de comentarista.

Kim Jong-Un contra Bozo, uma campanha peculiar

Sargento reformado prega o voto em Kim Jong-Un contra Bolsonaro presidenteSnapseed (7)

Fernando Nogueira de Araújo nasceu em 19 de maio de 1943 em Caicó, Rio Grande do Norte. E atualmente, aos 75 anos de vida, das onze horas às quatro, como diz, e até as eleições presidenciais (ou enquanto não chover ou sua saúde não ruir), estará sentado nos bancos da rua Galvão Bueno, no bairro paulistano da Liberdade, para promover o que considera sua missão. Araújo quer descarar a farsa que significaria eleger Jair Bolsonaro presidente do país.

Seu modo de fazer o alerta é singular. De guarda-chuva aberto para se proteger do sol, ele veste a camiseta que produziu, na qual pede a eleição de Kim Jong-Un para presidente do Brasil. “Eleições 2018. Kim Jong-Un para presidente do Brazil. (Para o bem do nosso abençoado país, não vote em candidato Bossal-Nato)” são os dizeres ao redor da imagem impressa do líder norte-coreano.

Pouca gente, contudo, lê a proposição descrita na camiseta até o fim. Araújo conta que um sem-teto se ofereceu para atuar pela causa, fazendo propaganda eleitoral em troca de pagamento. Houve quem tivesse acreditado que aquilo proposto na camiseta pudesse ser uma boa solução para o país.

A ironia é peculiar. Se Jair Bolsonaro, o Bossal-Nato, pode ser candidato a presidente, por que não Jong-Un, que falsificou um passaporte brasileiro para viajar pela Europa? O endereço de residência do brasileiro Jong-Un, segundo seu passaporte, seria ali mesmo naquele bairro onde Araújo protesta, à rua Conselheiro Furtado, 324, apartamento 404.
Estive com o senhor Araújo em maio de 2018, num desses dias de sol. E me aproximei dele gargalhando, muito curiosa sobre as camisetas à venda por trinta reais. (Para quem considera alto o valor, ele oferece uma do Batman, por vinte, mas ninguém quer comprar). Quando sorri para ele, sentiu-se gratificado, como se eu houvesse captado algo de sua ironia, de seu manifesto.

Sobre o banco no qual está sentado, Araújo coloca ainda exemplares do livro “Minha Vida de Prefeita”, de Marta Suplicy, política a quem ele muito considera, por ter criado “aquelas escolas públicas com piscina”, os CEUs, e o xerox da reportagem da revista “Veja” que informa sobre a “brasilidade” do norte-coreano. Para ele, Marta e Luiza Erundina foram as melhores prefeitas de São Paulo. Aliás, ele acha mesmo que o mundo é das mulheres. Perdeu uma filha e foi duro demais. Se ele tivesse nascido mulher, assegura, teria sido lésbica para amar outra mulher.

Se ninguém perguntar nada a este performer, ele tampouco explicará o que propõe. Aparentemente, Bolsonaro é mesmo seu principal alvo. Araújo não se conforma que o parlamentar tenha afirmado em entrevista para a “Folha de S. Paulo” que bombardearia as favelas do Rio para acabar com o tráfico. Violência gera violência, como Araújo acredita. O povo não sabe história, acredita que o tal candidato possa atuar em seu favor e ele se entristece. (Veja o vídeo aqui.)

A tristeza possivelmente nasça do fato de ele pertencer à própria história e a ter testemunhado, desejoso de comunicá-la. Uma vez, ao ler sobre a fundação de Natal, capital do Rio Grande do Norte, especulou sobre seu próprio parentesco com o oleiro Severino Sergio de Araújo, que construiu o Forte dos Três Reis Magos. Bateu então à porta do intelectual e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), que pediu à mulher para tirar da estante um livro sobre a história da cidade. Cascudo assegurou-lhe então que ele pertenceria à décima-primeira geração descendente de Severino, que em 1608 atuou no forte e, pelos anos, em mais onze edificações. Julgando que não haveria progresso em sua atividade, Severino partiu para vender gado no interior.

Ele que conheceu Lamarca e não gostou

Nosso Araújo do presente nunca fabricou tijolos, como o antepassado. Completou o Ensino Médio, à época o Científico, e entrou no exército, onde, diz, conheceu o capitão Lamarca. Conta que brigaram e que Araújo se viu punido por ele. Quando Lamarca foi assassinado, julgaram que o capitão havia feito a punição apenas para protegê-lo, para que ninguém percebesse uma identificação entre os dois. Araújo desiludiu-se com isso, pois nem mesmo acreditava nos métodos de Lamarca. “Ele era um terrorista de esquerda, como Bolsonaro é de direita”.

Há 55 anos, Araújo tornou-se um terceiro-sargento reformado. Quando soube que eu era jornalista (mas não famosa, não da Globo, como lhe expliquei), narrou-me outra entre suas histórias peculiares. Ele está convicto de que Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, nasceu não em Ohio, como se sabe, mas em Porto União, na brasileira Santa Catarina. A família teria ligações com o nazismo e aqui refugiou-se, como supostamente contaram os habitantes locais à repórter Gloria Maria há 45 anos. Araújo entristeceu-se que ela tenha feito a apuração e jamais colocado no ar, ela ou sua emissora. “Glória só no nome não basta.”